Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas
Capítulo C
O falso guia, porque determina
Dar-lhe porto, mas não qual elle pede,
Posto em Rio Marinho lh'o imagina
N'um pégo que em altura os mais excede. Aqui o engano e a morte lhe maquina,
Para que tal beber com pressa véde;
E para o porto verem logo os chama
Onde lhe arma perderem vida e fama.
C.
Já para lá inclina a leda frota
E em chegando ao rio da cilada,
Um descalça o sapato, o outro a bota,
Para ir buscar a morte não cuidada.
Chega um bebado n'isto, que remota
Lhe parece esta gente e enganada,
E com duras palavras reprehendia
D'entrarem em tal pégo a ousadia.
CI.
Mas o malvado guia conhecendo
Ser manifesto o engano, n'um instante,
Se vae por uns outeiros acolhendo,
Corrido de não ir a sua ávante.
Os outros que ficavam 'stão tremendo,
Cuidando qu'inda o engano era diante;