Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
que toma ao amor que dá, da concupiscência à benevolência, da falta à alegria, da violência à doçura – de erôs a philia .
Há uma ascensão aqui, como a do Banquete, que é ascensão do amor, e pelo amor. Porque o amor carnal é primeiro, claro, e foi o que são Bernardo de Clairvaux viu: “Como a natureza é frágil demais e fraca demais, a necessidade manda-a a pôr-se primeiro a serviço de si mesma. É o amor carnal; o homem começa por amar a si mesmo pelo simples amor a si, tal como diz são Paulo: A parte animal veio primeiro, depois a parte espiritual. Não é um mandamento, mas um fato inerente à natureza.” De onde será necessário se elevar, segundo são Bernardo, ao segundo grau do amor (amar a Deus pelo amor a si), depois ao terceiro (amar a Deus por ele mesmo), enfim ao quarto (só se amar por Deus)… Esse caminho já não é o nosso. No entanto, ele diz uma coisa importante: que o corpo é o ponto de partida obrigatório, que o espírito se eleva ou se inventa. Esse caminho é um caminho de amor, e o próprio amor como caminho. Primeiro só amamos a nós mesmos, ou por nós mesmos (quando amamos o que nos faz falta). Sobrevive um recém-nascido em cada um de nós, buscando um peito que cobiça, que gostaria de conservar para sempre… Mas não podemos. Mas não devemos. A proibição do incesto, pelo interdito que ela coloca, obriga a amar de outro modo, a amar aquilo mesmo que não podemos possuir, tomar, consumir, aquilo mesmo que não podemos desfrutar; nasce outro amor nessa submissão (a princípio imposta) do desejo à lei, que é o próprio amor. Porque o desejo é primeiro, repitamos, a pulsão é primeira, porque vivemos primeiro na falta: erôs é primeiro. No próprio princípio, como diria Freud, só há isso: um corpo vivo e ávido. Mas, num mundo humano, esse pequeno mamífero constata que alguma coisa o precede, o acolhe, o protege, que um peito está presente para seu desejo, para seu prazer, e muito mais que um peito, muito mais que um prazer. O quê? O amor: aquele que cobiça (que mãe não desejou um filho para o próprio bem dela?), mas também aquele que dá (que mãe não põe o bem de seu filho acima do próprio bem dela?). Erôs , portanto, mas também philia, inextricavelmente misturados, abraçados, confundidos, mas diferentes: pois esta nasce daquele, pois a benevolência nasce da concupiscência, pois o amor nasce do desejo, do qual não passa da sublimação alegre e plena. Esse amor não é uma paixão, observa santo Tomás, seguindo Aristóteles, mas uma virtude: querer o bem de outrem é o próprio bem.
Observe-se a mãe e o recém-nascido. Que avidez no bebê! Que generosidade na mãe! Nele tudo é desejo, pulsão, animalidade. Nela, mal se vêem tais coisas, a tal ponto estão transfiguradas pelo amor, pela doçura, pela benevolência… Isso
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André Comte -Sponville
começa nos animais, parece-me, em todo caso nos mamíferos, mas a humanidade foi muito mais longe nessa direção do que qualquer outra espécie conhecida. A humanidade se inventa aí, inventando o amor, ou antes reinventando-o. O filho toma, a mãe dá. Nele o prazer; nela a alegria. Eros é primeiro, dizia eu; de fato, uma vez que toda mãe foi uma filha. O amor nos precede, no entanto, quase sempre (pois todo filho é de uma mãe) e nos ensina a amar.
A humanidade se inventa aí, o espírito se inventa aí, e é o único Deus, e é um Deus de amor. Alain, como bom ateu que era, e porque era, soube dizê-lo como convinha:
Diante do filho, não há dúvida. É preciso amar o espírito sem nada esperar
do espírito. Existe certamente uma caridade do espírito para consigo
mesmo: é pensar. Mas veja-se a imagem; veja-se a mãe.
Veja-se de novo o filho. Essa fraqueza é Deus. Essa fraqueza que necessita
de todos é Deus. Esse ser que cessaria de existir sem nossos cuidados é
Deus. Assim é o espírito, com respeito ao qual a verdade ainda é um ídolo.
É que a verdade viu-se desonrada pela potência; César arregimenta-a e
paga-a bem. O filho não paga; ele pede e pede mais. É a severa regra do
espírito: o espírito não paga e ninguém pode servir a dois patrões. Mas
como dizer suficientemente que há um verdadeiro de verdade, que a
experiência nunca pode desmentir? Essa mãe, quanto menos provas tiver,
mais se aplicará a amar, a ajudar, a servir. Esse verdadeiro do homem, que
ela carrega nos braços, não será talvez nada que exista no mundo. No
entanto ela tem razão, e terá ainda razão quando todo o filho não lhe der
razão.
Sim. Mas isso o filho não sabe e só vai aprender aprendendo a amar.
Agapé
Isso é tudo? Seria bom se fosse, se pudesse ser – se o desejo e a alegria bastassem ao amor, se o amor se bastasse a si mesmo! Mas não é: porque só sabemos amar a nós mesmos ou a nossos próximos, porque nossos desejos são egoístas, quase sempre, enfim porque nos vemos confrontados não apenas com nossos próximos, que amamos, mas com o próximo, que não amamos.
A amizade não é um dever, uma vez que o amor não se comanda; mas é uma virtude, pois o amor é uma excelência. Que pensaríamos daquele que não amasse ninguém? Inversamente, nota Aristóteles, “elogiamos os que amam seus amigos”, o que confirma que a amizade não é apenas “uma coisa necessária, mas também
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