Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

André Comte-Sponville · Capítulo 38 de 111

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

 

para os outros o que deseja para si mesmo”. É aí que a utilidade do agente encontra a de outrem e que o desejo se faz generoso: trata-se de combater o ódio, a cólera, o desprezo ou a inveja – que não passam de tristezas e de causas de tristezas – pelo amor, quando ele existe, ou pela generosidade, quando ele não existe. Pode ser que aqui (tratando-se da distinção entre o amor e a generosidade) eu force um pouco o texto, que é equívoco. Mas não seu espírito, que é claro: “o ódio deve ser vencido pelo amor”, a tristeza pela alegria, e é função da generosidade – como desejo, como virtude – tender a isso ou esforçar-se para isso. A generosidade é desejo de amor, desejo de alegria e de partilha, e a própria alegria, pois o generoso se regozija com esse desejo e ama pelo menos nele esse amor do amor. Lembramo-nos da forte definição de Spinoza: “O amor é uma alegria que acompanha a idéia de uma causa externa.” Amar o amor, por conseguinte, é regozijar-se com a idéia de que o amor existe, ou existirá; mas é também esforçar-se por fazê-lo advir, e é a própria generosidade: ser generoso, diria eu, é esforçar-se por amar e agir em conseqüência disso. A generosidade se opõe assim ao ódio (e ao desprezo, e à inveja, e à cólera, sem dúvida também à indiferença…), assim como a coragem se opõe ao medo, ou, em geral, assim como a firmeza de alma se opõe à impotência e a liberdade à escravidão. Ainda não é a salvação, pois isso não nos dá nem a beatitude, nem a eternidade; mas essas virtudes nem por isso deixam de ser para nós “as primeiras dentre as coisas”. Estão ligadas ao que Spinoza chama “uma conduta reta da vida”, “regras de vida”, “preceitos da razão”, ou, simplesmente, “moralidade”. Porque não é verdade que se deva viver além do bem e do mal, pois não é possível. Nem, contudo, que a moral dos tristes ou dos censores possa nos convir. O que intervém aqui é uma moral da generosidade, que conduz a uma ética do amor. “Agir bem e manter-se alegre”, dizia Spinoza; o amor é a finalidade, a generosidade é o caminho.

A generosidade, dizia Hume, se fosse absoluta e universal, nos dispensaria da justiça; e vimos que isso, de fato, podia se conceber. É claro, por outro lado, que a justiça, mesmo consumada, não poderia nos dispensar da generosidade, por isso esta última é socialmente menos necessária, e humanamente, parece-me, mais preciosa.

Para que essas comparações, perguntarão, já que somos tão pouco capazes de uma e da outra? É que esse pouco, apesar de tudo, não é nada, ele nos sensibiliza quanto à sua pouquidão e às vezes nos dá desejo de aumentá-la… Qual virtude não é antes de tudo, mesmo pequenamente, um desejo de virtude?

 

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André Comte -Sponville

 

Quanto a saber se a generosidade resulta de um sentimento natural e primeiro, como queria Hume, ou de um processo de elaboração do desejo e do amor a si (especialmente pela imitação dos afetos e a sublimação das pulsões), como puderam pensar Spinoza ou Freud, cabe aos antropólogos decidir, e isso, moralmente, não importa muito. É enganar-se sobre as virtudes fundar seu valor em sua origem, assim como querer, em nome dessa origem, invalidá-las. Que elas vêm todas da animalidade, logo do mais baixo (pelo menos do que assim nos parece; é claro que a matéria e o vazio, de que tudo vem, inclusive a animalidade, não tem nem alto nem baixo em lugar nenhum), disso estou pessoalmente persuadido. Mas isso também significa que elas nos elevam, e é por isso que o contrário de toda virtude, sem dúvida, é uma forma de baixeza.

A generosidade nos eleva em direção aos outros , poderíamos dizer, e em direção a nós mesmos enquanto libertos de nosso pequeno eu. Aquele que não fosse nem um pouco generoso, a língua nos adverte que seria baixo, covarde, mesquinho, vil, avaro, cupido, egoísta, sórdido… E todos nós o somos, no entanto nem sempre ou completamente: a generosidade é o que nos separa dessa baixeza ou, às vezes, nos liberta dela.

Notemos, para concluir, que a generosidade, como todas as virtudes, é plural, tanto em seu conteúdo como nos nomes que lhe prestamos ou que servem para designá-la. Somada à coragem, pode ser heroísmo. Somada à justiça, faz-se eqüidade. Somada à compaixão, torna-se benevolência. Somada à misericórdia, vira indulgência. Mas seu mais belo nome é seu segredo, que todos conhecem: somada à doçura, ela se chama bondade.

 

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