Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

André Comte-Sponville · Capítulo 68 de 111

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

 

se como somos puros, às vezes, no prazer. Ninguém é inocente nem culpado absolutamente: é o que tira a razão dos “depreciadores do corpo” como dizia Nietzsche, tanto quanto de seus adoradores demasiado ciosos ou satisfeitos. A pureza não é uma essência. A pureza não é um atributo, que teríamos ou não. A pureza não é absoluta, a pureza não é pura: a pureza é uma certa maneira de não ver o mal onde, de fato, ele não se encontra. O impuro vê o mal em toda parte, e tem prazer nele. O puro não vê o mal em parte alguma ou, antes, apenas onde ele se encontra, onde o sofre: no egoísmo, na crueza, na maldade… É impuro tudo o que se faz de má vontade, ou com vontade má. É por isso que somos impuros, quase sempre, e é por isso que a pureza é uma virtude: o eu só é puro quando está purificado de si. O ego suja tudo aquilo em que toca: “Exercer poder sobre”, escreve Simone Weil, “possuir, é macular.” Ao contrário, “amar puramente é aceitar a distância”, em outras palavras, a não-posse, a ausência de poder e de controle, a aceitação alegre e desinteressada. “Você será amado”, dizia Pavese a si mesmo em seu Diário , “no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.” Era querer ser amado puramente, em outras palavras, ser amado.

Há o amor que toma, é o impuro. Há o amor que dá ou que contempla, é a pureza.

Amar, amar de verdade, amar puramente não é tomar: amar é olhar, é aceitar, é dar e perder, é regozijar-nos com o que não podemos possuir, é regozijar-nos com o que nos falta (ou que faltaria se quiséssemos possuí-lo), com o que nos faz infinitamente pobres, e é o único bem, e é a única riqueza. Pobreza absoluta da mãe, à beira da cama do filho: ela não possui nada, pois ele é tudo e ela não o possui. “Meu tesouro”, ela murmura… e sente-se mais desprovida do que nunca. Pobreza do amante, pobreza do santo: puseram todo o seu bem no que não se pode possuir, no que não se pode consumir, fizeram-se reino e deserto para um deus ausente. Eles amam em pura perda, como se diz, e é o próprio amor, ou o único amor puro. Quem só amaria na esperança de um ganho, de um lucro, de uma vantagem? O egoísmo ainda é amor, decerto, mas é um amor impuro, e “a fonte de todo mal”, dizia Kant: ninguém faz o mal pelo mal, mas apenas por seu prazer, que é um bem. O que corrompe “a pureza dos móbeis”, como dizia também Kant, não é o corpo, nem sabe-se lá que vontade maligna (que quereria o mal pelo mal), mas “o caro eu”, com o qual não cessamos de nos chocar… Não, claro, que não tenhamos o direito de amar a nós mesmos: como poderíamos então (supondo-se que isso fosse possível) amar o próximo como a si mesmo ? O eu não é odiável, ou só o é por egoísmo. O mal não está em amar a si,

 

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André Comte -Sponville

 

mas em amar somente a si, está em ser indiferente ao sofrimento do outro, a seu desejo, à sua liberdade, está em mostrar-se disposto a fazer mal ao outro para se fazer bem, em humilhá-lo para agradar a si, em querer desfrutá-lo em vez de amá-lo, em desfrutar em vez de se regozijar, portanto, ou em só se regozijar com seu próprio gozo e, também nesse caso, só amar a si… É a pureza primeira, e a única talvez. Não excesso de amor, mas falta de amor. Não é por acaso, nem apenas por pudicícia, que a sexualidade foi considerada o lugar privilegiado dessa impureza. Nela reina o que os escolásticos chamavam de amor de concupiscência (amar o outro para seu bem), que eles opunham ao amor de benevolência ou de amizade (amar o outro para o bem dele). Amar o outro como um objeto, pois, querer possuí-lo, consumi-lo, desfrutá-lo, como se gosta de uma carne ou de um vinho, em outras palavras, amar apenas para si: é Eros, o amor que toma ou que devora, e Eros é um deus egoísta. Ou amar o outro, verdadeiramente, como um sujeito, como uma pessoa, respeitá-lo, defendê-lo, ainda que contra o desejo que se tem dele: é Philia ou Ágape, o amor que dá e que protege, o amor de amizade, o amor de benevolência, o amor de caridade, se quisermos, o puro amor – aí estamos – e a única pureza, e o único deus.

O que é o puro amor? Fénelon disse-o claramente: é o amor desinteressado, como o que temos por nossos amigos, ou deveríamos ter (Fénelon percebe que muitas amizades “nada mais são que um amor-próprio sutilmente disfarçado”, mas também que nem por isso deixamos de ter “essa idéia da amizade pura” e que só ela pode nos satisfazer: quem aceitaria ser amado, ou amar, apenas por interesse?), o amor “sem nenhuma esperança”, como ele também diz, o amor libertado de nós mesmos (“de sorte que nos esqueçamos de nós e que nos tenhamos por nada, para sermos todo dele”), em suma, o que são Bernardo chamava “um amor sem mácula nem mesclado de procura pessoal”: é o próprio amor e a pureza dos corações puros.

É o momento de lembrar que a pureza não se manifesta apenas no registro sexual. Um artista, um militante, um cientista também podem ser puros, cada um em seu domínio. Ora, nesses três domínios, e quaisquer que sejam suas diferenças, o puro é aquele que dá prova de desinteresse, aquele que se dá por inteiro a uma causa, sem buscar nem o dinheiro nem a glória, aquele “que se esquece de si e que se tem por nada”, como dizia Fénelon, e isso confirma que a pureza, em todos esses casos, é o contrário do interesse, do egoísmo, da cobiça, de toda a sordidez do eu. Note-se de passagem que não se pode amar puramente o dinheiro, e isso já diz muito sobre o dinheiro, e sobre a pureza. Nada do que se pode possuir é puro. A pureza é pobreza, despojamento, abandono. Ela começa

 

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