Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo. A
agapé é um princípio criador de valor.
Que relação tem isso conosco, perguntar-se-á, com nossas vidas, nossos amores, se Deus não existe? Pelo menos uma relação de diferença e, com isso, de esclarecimento. Quando Denis de Rougemont, baseando-se entretanto em Nygren, quer opor o casamento cristão, que seria uma figura de agapé, à paixão dos amantes, que seriam prisioneiros de Eros, simplesmente esquece que a pessoa não se casa com qualquer um, que o amor que se tem por seu marido ou sua mulher não é gratuito nem desinteressado, e por exemplo (mas é muito mais que um exemplo: uma pedra de toque) que ninguém recomendou casar-se com os inimigos… A oposição dual entre erôs e agapé é demasiado simples, demasiado esquemática, para funcionar verdadeiramente ou para explicar nossos amores efetivos: porque nossos amores humanos (especialmente no casal, cristão ou não) devem pelo menos tanto a erôs quanto a philia, e muito mais a philia, sem dúvida, que a agapé. Daí essa tripartição que sugiro, que é esquemática, necessariamente, mas que me parece dar melhor conta de nossos sentimentos reais, de sua evolução, e a passagem contínua de um tipo de amor a outro. Pois Nygren também está errado sem dúvida, por realizar, entre erôs e agapé, um corte tão radical, tão definitivo, a ponto de não se poder mais passar de um a outro, nem buscar entre os dois alguma síntese ou transição. Santo Agostinho, são Bernardo ou santo Tomás foram mais matizados, mais realistas, mais humanos, pois souberam mostrar como se passa do amor a si ao amor ao outro, depois do amor interessado ao outro a seu amor desinteressado, da concupiscência à benevolência depois à caridade, em suma, de erôs a philia, às vezes, pelo menos um pouco, pelo menos como horizonte, de philia a agapé. A caridade não é, absolutamente, sem relação com a falta (poderíamos dizer que ela é a falta, em nós, do bem, e o próprio bem enquanto nos atrai), nem sem relação com a amizade (ela é como que uma amizade universal e desinteressada, que seria libertada da preferência sempre egoísta, em todo caso sempre egóica, que temos por este ou aquele). Mais próxima portanto, nem é preciso dizer, de philia que de erôs. O amor em nós que tem falta de Deus, diria são Francisco de Sales, por não ser mais que um amor interessado, ainda não é caridade (pois, dizia são Paulo, a caridade “não procura o seu interesse”): é apenas cobiça, é apenas esperança! A caridade só começa verdadeiramente com o amor de amizade que temos por Deus: ela é essa própria amizade, enquanto ilumina toda a nossa vida e recai sobre nossos próximos. A passagem decisiva é bem assinalada por santo Tomás. A caridade é um amor de benevolência (uma amizade) que se estende além da amizade propriamente dita, que ultrapassa seus limites, a determinação afetiva ou
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André Comte -Sponville
patológica (no sentido de Kant), a espontaneidade apenas reativa ou preferencial. Por que processo? Por uma espécie de transferência, como diríamos hoje em dia, ou de transitividade, ou de generalização do amor: “A amizade que temos por um amigo pode ser tão grande a ponto de, por causa dele, amarmos os que a ele são ligados, ainda que nos ofendam ou nos odeiem. É dessa maneira que nossa amizade de caridade estende-se inclusive a nossos inimigos: nós os amamos de caridade em referência a Deus, para o qual é principalmente dedicada nossa amizade de caridade.” Mas o que resta dela, se Deus não existe?
Talvez uma certa idéia de humanidade, em que todos os homens estão ligados – é o que os gregos chamavam de philanthropia, que definem como “uma propensão natural a amar os homens, uma maneira de ser que leva à beneficência e à benevolência para com eles”. Então a caridade nada mais seria, então, que uma ampla amizade, como se via talvez em Epicuro, enfraquecida decerto, em sua intensidade, mas também aumentada, quanto a seu alcance, enriquecida, quanto a seus objetos, como que aberta ao universal, como que fazendo “a volta do mundo habitado”, como uma luz de alegria ou de doçura difundida sobre todo homem, conhecido ou desconhecido, próximo ou distante, em nome de uma humanidade comum, de uma vida comum, de uma fragilidade comum. Como não amar, ao menos um pouco, quem se parece conosco, quem vive como nós, quem vai morrer como nós? Todos irmãos diante da vida, mesmo que opostos, mesmo que inimigos, todos irmãos diante da morte: a caridade seria como que uma fraternidade de mortais, e decerto isso não é pouco.
Resta também, talvez, uma certa idéia do amor, na medida em que não está submetido ao valor do que ama, já que o gera, já que é sua fonte. “Amor espontâneo”, dizia Nygren, “amor sem motivo, amor criador…” É o próprio amor. Não é porque uma coisa é boa que a desejamos, explica Spinoza, é porque a desejamos que a julgamos boa. Potência do desejo, que faz tesouros e jóias, como dirá Nietzsche, de todas as coisas avaliadas. Isso vale igualmente e sobretudo para o amor. Não é porque uma coisa é amável que a amamos; é porque a amamos que é amável. Assim, os pais amam seu filho antes de conhecê-lo, antes de ser amados por ele, e o que quer que ele seja, o que quer que se torne. Isso excede erôs , excede philia, pelo menos tais como os vivemos ou os pensamos geralmente (como submetidos ao valor prévio de seu objeto e determinados por esse valor). O amor é primeiro, não quanto ao ser (pois então seria Deus), mas quanto ao valor: o que vale é o que amamos. É a esse título, sem dúvida, que ele é o valor supremo: o alfa e o ômega de viver, dizia eu, a origem e o fim de nossas avaliações. Mas então o amor também vale, se o amamos, e tanto mais quanto
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