Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
sem as ter aprendido? Há um círculo vicioso aqui, do qual só podemos sair pelo a priori ou pela polidez. Mas o a priori não está a nosso alcance, a polidez sim. “É praticando as ações justas que nos tornamos justos”, continuava Aristóteles, “praticando as ações moderadas que nos tornamos moderados e praticando as ações corajosas que nos tornamos corajosos.” Mas como agir justamente sem ser justo? Com moderação sem ser moderado? Com coragem sem ser corajoso? E como, então, vir a sê-lo? Pelo hábito, parece responder Aristóteles, mas a resposta é evidentemente insuficiente: o hábito supõe a existência antecedente daquilo a que nos habituamos e, portanto, não poderia explicá-lo. Kant nos esclarece melhor, ao explicar esses primeiros simulacros da virtude pela disciplina, isto é, por uma coerção externa: o que a criança, por falta de instinto, não pode fazer por si mesma, “é preciso que outros façam por ela”, e é assim que “uma geração educa outra”. Sem dúvida. Ora, o que é essa disciplina na família, senão, antes de tudo, o respeito dos usos e das boas maneiras? Disciplina normativa mais do que coerciva, que visa menos à ordem do que a certa sociabilidade amável – disciplina não de polícia, mas de polidez. É por ela que, imitando as maneiras da virtude, talvez tenhamos uma oportunidade de virmos a ser virtuosos. “A polidez”, observava La Bruyère, “nem sempre inspira a bondade, a eqüidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro.” Por isso ela é insuficiente no adulto e necessária na criança. É apenas um começo, mas o é. Dizer “por favor” ou “desculpe” é simular respeito; dizer “obrigado” é simular reconhecimento. É aí que começam o respeito e o reconhecimento. Como a natureza imita a arte, assim a moral imita a polidez, que a imita. “É inútil falar de dever com as crianças”, reconhecia Kant, e evidentemente tinha razão. Mas quem renunciaria, por isso, a lhes ensinar a polidez? E que teríamos aprendido, sem ela, sobre nossos deveres? Se podemos nos tornar morais – e temos de nos tornar, para que a moral, e mesmo a imoralidade, sejam simplesmente possíveis -, não é por virtude mas por educação, não pelo bem mas pela forma, não por moral mas por polidez – por respeito, não dos valores, mas dos usos! A moral é, em primeiro lugar, um artifício, depois um artefato. É imitando a virtude que nos tornamos virtuosos: “Pelo fato de os homens representarem esses papéis”, escreve Kant, “as virtudes, das quais por muito tempo eles só tomam a aparência concertada, despertam pouco a pouco e incorporam-se a seu modos.” A polidez é anterior à moral, e a permite. “Ostentação”, diz Kant, mas moralizadora. Trata-se, primeiro, de assumir “os modos do bem”, não, claro, para contentar-se com eles, mas para alcançar, por meio deles, o que eles imitam – a virtude – e que só advém imitando-os. “A aparência do bem nos outros”, escreve ainda Kant, “não
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André Comte -Sponville
é desprovida de valor para nós: desse jogo de dissimulações, que suscita o respeito sem talvez merecê-lo, pode nascer a seriedade”, sem a qual a moral não poderia se transmitir nem se constituir em cada um. “As disposições morais provêm de atos que lhes são semelhantes”, dizia Aristóteles. A polidez é essa aparência de virtude, de que as virtudes provêm.
Portanto, a polidez salva a moral do círculo vicioso (sem a polidez, seria necessário ser virtuoso para poder tornar-se virtuoso) criando as condições necessárias para seu surgimento e, mesmo, em parte, para seu pleno desenvolvimento. Entre um homem perfeitamente polido e um homem simplesmente benevolente, respeitador, modesto..., as diferenças, em muitas ocasiões, são ínfimas: acabamos nos parecendo com o que imitamos, e a polidez leva pouco a pouco – ou pode levar – à moral. Todos os pais sabem disso, e é o que chamam educar seus filhos. Sei muito bem que a polidez não é tudo, nem o essencial. No entanto, o fato é que ser bem-educado, na linguagem corrente, é antes de tudo ser polido, o que já diz muito sobre a polidez. Repreender os filhos mil vezes (o que estou dizendo, mil vezes!: muito mais...) para que digam “por favor”, “obrigado”, “desculpe” é coisa que nenhum de nós faria – salvo algum maníaco ou esnobe -, se se tratasse apenas de polidez. Mas o respeito se aprende assim, com esse treinamento. A palavra é desagradável, sei bem, mas quem poderia dispensar a coisa? O amor não basta para educar os filhos, nem mesmo para torná-los amáveis e amantes. A polidez também não basta, é por isso que um e outra são necessários. Toda a educação familiar situa-se aí, parece-me, entre a menor das virtudes, que ainda não é moral, e a maior, que já não é. Resta o aprendizado da língua. Mas, se a polidez é a arte dos signos, como queria Alain, aprender a falar decorre dela. É sempre uso e respeito do uso, que só é bom se respeitado. “ O bom uso” poderia ser o título de um manual da arte de bem viver, e é o de uma gramática (a de Grevisse), famosa e bela. Fazer o que se faz, dizer o que se diz... É revelador que se fale em ambos os casos de correção, que nada mais é que uma polidez mínima e como que obrigatória. A virtude ou o estilo só virão mais tarde.
Portanto, a polidez não é uma virtude, mas como que o simulacro que a imita (nos adultos) ou que a prepara (nas crianças). Assim, ela muda com a idade, se não de natureza, pelo menos de alcance. Essencial durante a infância, inessencial na idade adulta. O que há de pior do que uma criança mal-educada, senão um adulto ruim? Ora, não somos mais crianças. Sabemos amar, julgar, querer... Capazes de virtude, pois capazes de amor, que a polidez não poderia substituir. Um grosseirão generoso sempre será melhor do que um egoísta polido; um
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