Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse
apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua presença
secreta aqui embaixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução
em diferentes línguas da grande Revelação. As religiões que representam a
divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo
são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras.
Aí reencontramos a paixão, mas num sentido bem diferente: já não é a paixão de Eros ou dos namorados, é a de Cristo e dos mártires. Aí reencontramos o amor louco, mas num sentido totalmente diferente: já não é mais a loucura dos amantes, é a loucura da Cruz.
Esse amor, explica Simone Weil, é o contrário da violência, em outras palavras, da força que se exerce como a potência que governa. E cita Tucídides: “Sempre, por uma necessidade natural, todo ser exerce todo o poder de que dispõe.” É a lei do conatus , é a lei da potência, é a lei do mundo, é a lei da vida. “Os filhos são como a água”, fazia-me ver um amigo: “eles ocupam sempre todo o espaço disponível.” Mas Deus não: senão, só haveria Deus, e não haveria mundo. Mas os pais não: acontece, nem sempre (afinal, eles também têm de proteger seu espaço de sobrevivência!), mas às vezes acontece, e com maior freqüência do que se crê, eles se retirarem, recuarem, não ocuparem todo o espaço disponível, justamente, não exercerem todo o poder de que dispõem. Por quê? Por amor: para deixar mais lugar, mais poder, mais liberdade a seus filhos, e tanto mais quanto mais fracos são os filhos, quanto mais desprovidos, mais frágeis, para não os impedir de existir, para não os esmagar com sua presença, sua potência, seu amor… Aliás, isso não é reservado apenas aos pais. Quem não tem cuidado com um recém-nascido? Quem não restringe, diante dele, sua própria força? Quem não se impede a violência? Quem não limita seu poder? A fraqueza comanda, e é isso que significa a caridade. “Acontece”, escreve Simone Weil, “embora seja extremamente raro, por pura generosidade, um homem se abster de mandar onde tem poder para fazê-lo. O que é possível para o homem é possível para Deus.” Por pura generosidade? Digamos antes por puro amor, de que a generosidade decorre. Mas que amor? Eros ? Não: já que a Deus não falta nada, nem aos pais os filhos, nem ao adulto a fraqueza que ele protege. Philia? Também não, pelo menos em sua forma primeira: já que a alegria de Deus não poderia ser aumentada, nem a dos pais poderia esgotar seu amor, nem a do adulto poderia explicar por si só – diante de uma criança que lhe é estranha – essa doçura nele que constitui como que uma paz, e mais que isso talvez. A benevolência, no entanto, está presente, a alegria está presente – mas em negativo, mas atestadas
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André Comte -Sponville
sobretudo por essa força que não se exerce, por esse recuo, por essa doçura, essa delicadeza, por essa potência que parece esvaziar-se de si mesma, limitar a si mesma, que prefere se negar a se afirmar, se retirar a se estender, dar a conservar ou tomar, e até perder a possuir. Dir-se-ia o contrário da água, o contrário dos filhos, o contrário do conatus, o contrário da vida que devora ou se afirma: o contrário da gravidade (é o que Simone Weil chama de graça), o contrário da força (é o que ela chama de amor).
Às vezes os casais se aproximam disso. Há erôs, que deseja, que toma, que possui. Há philia, que se regozija, que partilha, que é como uma adição de forças, como uma potência duplicada pela potência do outro, pela alegria do outro, pela existência do outro. E quem não gosta de ser desejado ou amado? No entanto, à força de ver o outro existir cada vez mais, à força de vê-lo tão forte, tão contente, tão satisfeito, à força de ver como o casal lhe vai bem, como o amor lhe vai bem, à força de o ver ocupar tão bem todo o espaço disponível, à força de o ver afirmar sua potência, sua existência, sua alegria, à força de o ver perseverar tão triunfalmente no ser, você às vezes sente diante dele como que um imenso cansaço, como que uma lassidão, como que uma fraqueza, você se sente de repente como que invadido, esmagado, transbordado, sente que você mesmo existe cada vez menos, que sufoca, que tem vontade de fugir ou de chorar… Você recua um passo? Na mesma hora ele avança o mesmo tanto, como a água, como os filhos, como os exércitos: ele chama a isso “seu amor”, chama a isso o “casal de vocês”. E de repente você preferiria estar só.
Deve-se citar uma última vez a perturbadora fórmula de Pavese em seu diário íntimo: “Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.” Esse amor é o mais raro, o mais precioso, o mais milagroso. Se você recua um passo, ele recua dois. Simplesmente para lhe dar mais lugar, para não esbarrar em você, para não o invadir, não o oprimir, para lhe deixar um pouco mais de espaço, de liberdade, de ar, e tanto mais quanto mais fraco o sentir, para não lhe impor sua potência, nem mesmo sua alegria ou seu amor, para não ocupar todo o espaço disponível, todo o ser disponível, todo o poder disponível… É o contrário do que Sartre chamava de “ o grandão cheio de ser”, em que via uma definição plausível do canalha. Se aceitamos essa definição, que vale tanto quanto outra qualquer, devemos dizer que a caridade, na medida em que formos capazes dela, seria o contrário dessa canalhice de ser si mesmo. Seria como que uma renúncia à plenitude do ego, à potência, ao poder. Assim como Deus, que “se esvaziou de sua divindade”, escreve Simone Weil, e é o que torna o mundo possível e a fé suportável. “O
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