Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
livremente ser o que é), isso só confirma sua maldade, se ele faz o mal pelo mal, ou seu mau coração, como diz Kant, se faz o mal apenas por egoísmo (para seu próprio bem). A misericórdia não anula essa vontade má, nem renuncia a combatê-la: ela se recusa a compartilhá-la, a somar ódio a seu ódio, egoísmo a seu egoísmo, cólera à sua violência. A misericórdia deixa o ódio ao odiento, a maldade aos maus, o rancor aos ruins. Não porque estes não sejam verdadeiramente odientos, maus ou ruins (ainda que fossem por causa deste ou daquele determinismo, como creio, nenhum determinismo poderia anular aquilo que produz), mas porque o são. Foi o que Jankélévitch percebeu muito bem: “Eles são maus, mas precisamente por esse motivo devemos perdoá-los – pois são ainda mais infelizes do que os maus. Ou melhor, é sua própria maldade que é uma infelicidade; a infinita infelicidade de ser mau!”
O fato, entretanto, é que perdoaremos mais facilmente quando tivermos consciência das causas que pesam sobre um ato ou, sobretudo, sobre uma personalidade. O que há de mais atroz, o que há de mais imperdoável do que martirizar uma criança? Todavia, quando ficamos sabendo que aquele pai carrasco é (como acontece com freqüência) um ex-filho martirizado, alguma coisa muda no juízo que temos dele; isso não suprime o horror da falta, mas ajuda a compreendê-la e, por conseguinte, a perdoá-la. Como saber se educado como ele, no medo e na violência, não teríamos evoluído como ele? E, ainda que assim não fosse, é porque somos diferentes do que ele é (pois supomos que as circunstâncias teriam sido idênticas). Mas terá ele escolhido por sê-lo? E nós não o sermos? Como escolheríamos o que somos, aliás, já que toda escolha supõe o que somos e depende disso? Como a existência precederia a essência – não seria existência de nada, seria apenas, portanto, inexistência. Essa liberdade não passaria de um nada, o que dá razão a Sartre, e o refuta.
Mas eis que me deixo levar a falar disso, do livre-arbítrio, que eu queria deixar de lado. Digamos antes o seguinte. Pode ser que haja duas maneiras de perdoar, conforme acreditemos ou não no livre-arbítrio do culpado: pura graça, como diria Jankélévitch, se o acreditarmos, ou conhecimento verdadeiro, como diria Spinoza, se não o acreditarmos. Mas as duas coincidem no fato – que é a própria misericórdia – de que o ódio desaparece e de que a falta, sem ser esquecida nem justificada, é aceita pelo que é: um horror a combater, uma infelicidade a lamentar, uma realidade a suportar, um homem, enfim, a amar – se pudermos. Os que leram meus livros precedentes sabem que, pessoalmente, nunca pude acreditar no livre-arbítrio, mas não cabe aqui eu me explicar. Que me baste evocar a grande idéia de Spinoza, com a qual cada um fará o que quiser: os
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André Comte -Sponville
homens se detestam tanto mais quando se imaginam livres, e tanto menos quando se sabem necessários ou determinados. É com isso que a razão se aplaca, com isso que o conhecimento é misericordioso. “Julgar”, dizia Malraux, “é evidentemente não compreender, pois, se compreendêssemos, já não poderíamos julgar.” Digamos antes que não poderíamos mais odiar, e é tudo o que a misericórdia pede – ou antes, tudo o que ela propõe.
É esse o sentido de uma das mais famosas fórmulas de Spinoza: “Não zombar, não chorar, não detestar, mas compreender.” É a própria misericórdia, sem outra graça, aqui, senão a da verdade. Ainda é um perdão? Não exatamente, pois quando se compreende já não há verdadeiramente o que perdoar (o conhecimento, como o amor, torna o perdão a um só tempo necessário e supérfluo). Desculpa? Não vou discutir por causa de palavras. Tudo se desculpa, se quiserem, pois tudo tem suas causas. Mas não basta sabê-lo: o perdão realiza essa idéia, que sem ele não passaria de uma abstração. Não queremos mal à chuva que cai ou ao raio que fulmina, dizia eu, e por conseguinte nada temos a lhes perdoar. O mesmo não vale para o mau, finalmente, e não é esse o verdadeiro milagre – que não é milagre – da misericórdia? Que o perdão se abole no mesmo instante em que se dá? Que o ódio se dissolve na verdade? O homem não é um império num império: tudo é real, tudo é verdadeiro, o mal como o bem, e é por isso que não há nem bem nem mal fora do amor ou do ódio que introduzimos. É nisso que a misericórdia de Deus, como diria Spinoza, é verdadeiramente infinita, porque ela é a própria verdade, que não julga. Nessas regiões de que se aproximam os sábios, os místicos e os santos, ninguém pode habitar em permanência. Mas a misericórdia tende a elas; mas a misericórdia leva a elas. É o ponto de vista de Deus, se quisermos, no coração do homem: grande paz da verdade, grande doçura do amor e do perdão! Mas o amor prevalece sobre o perdão, ou o perdão arrebata a si mesmo nesse dom do amor. Perdoar é cessar de odiar, é portanto cessar também de poder perdoar: quando o perdão é consumado, quando é completo, quando não há nada mais além da verdade e do amor, não há mais ódio a fazer cessar, e o perdão se abole na misericórdia. Por isso eu dizia no início que a misericórdia era menos a virtude do perdão do que sua verdade: ela o realiza, mas suprimindo seu objeto (não a falta: o ódio); ela o consuma, mas abolindo-o. O sábio spinozista, em certo sentido, nada tem a perdoar: não porque não pode ser vítima de injustiça ou de agressão, mas porque nunca é conduzido pelo pensamento do mal nem enganado pela ilusão do livre-arbítrio. Sua sabedoria nem por isso é menos misericordiosa, e é até mais: pois o ódio desaparece de todo, levando consigo toda e qualquer idéia de culpa absoluta (que seria responsabilidade não pelo ato, mas pelo ser), pois o próprio amor
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