Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
contrário, é existir menos, é ver sua potência diminuir, é se aproximar em algo da morte ou do nada. É por isso que todo homem deseja a alegria (pois todo ser se esforça em perseverar em seu ser, em existir o mais possível), portanto o amor (pois o amor é uma alegria, portanto um mais de existência ou de perfeição). Em suma, o amor não passa de uma ocorrência entre outras do conatus ou, como também diz Spinoza, da potência, na medida em que é finita e variável. Spinoza tira, sem vacilar, as conseqüências disso. Deus, explica, “não sente nenhuma afeição de alegria ou de tristeza, conseqüentemente não tem amor nem ódio por ninguém” – não por falta de potência, claro, mas, ao contrário, porque sua potência, sendo absolutamente infinita, é constante: portanto ela não poderia ser aumentada (alegria, amor) nem diminuída (tristeza, ódio) pelo que quer que fosse. O Deus de Spinoza é demasiado cheio de ser, demasiado cheio de potência, demasiado cheio de si para amar, ou mesmo para deixar existir outra coisa que não ele mesmo. Por isso não é criador: ele é tudo, e assim permanece.
Em se tratando do Deus pessoal dos diferentes monoteísmos, a criação não é muito mais simples de se pensar, ao menos enquanto permanecermos nessa lógica da alegria plena, da perfeição, da potência. Por que Deus iria criar o que quer que seja, se ele mesmo é todo o ser e o todo o bem possíveis? Como acrescentar ser ao Ser infinito? Bem ao Bem absoluto? Criar só tem sentido, nessa lógica da potência, desde que para melhorar, pelo menos um pouco, a situação inicial. Mas é o que Deus, mesmo onipotente, não poderia fazer, pois a situação inicial, sendo o próprio Deus, é absolutamente infinita e perfeita! Alguns imaginam Deus, antes da criação, como insatisfeito consigo, como um aluno exigente que escrevesse, à margem de seu próprio dever ou de sua própria divindade: “ Pode fazer melhor”… Mas não: Deus não pode fazer melhor do que ele é, nem mesmo igualmente bem (pois teria então de criar a si mesmo, portanto não criar absolutamente nada: é esse, talvez, o sentido da Trindade). Deus, se quiser criar outra coisa que não ele, isto é, criar, só poderá fazer menos bem que si mesmo. Melhor dizendo, ou pior: Deus, já sendo todo o bem possível e não podendo, por conseguinte, aumentá-lo, só pode criar o mal! Daí este nosso mundo. Mas então: por que cargas d’água tê-lo criado?
Esse problema é tradicional. Mas talvez ninguém o tenha percebido melhor, nem resolvido melhor, se é que se possa fazê-lo, do que Simone Weil. O que é este mundo, pergunta ela, senão a ausência de Deus, sua retirada, sua distância (a que chamamos espaço), sua espera (a que chamamos tempo), sua marca (a que chamamos beleza)? Deus só pôde criar o mundo retirando-se dele (senão só haveria Deus); ou, se nele se mantém (de outro modo não haveria absolutamente
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André Comte -Sponville
nada, nem mesmo o mundo), é sob a forma da ausência, do segredo, da retirada, como a pegada deixada na areia, na maré baixa, por um passeante desaparecido, única a atestar, mas por um vazio, sua existência e seu desaparecimento… Temos aí uma espécie de panteísmo em negativo, que é a recusa de qualquer panteísmo verdadeiro ou pleno, de qualquer idolatria do mundo ou do real. “Esse mundo enquanto totalmente vazio de Deus é Deus mesmo”, e é por isso que “Deus está ausente, sempre ausente, como indica de resto a famosa prece: “Pai nosso que estás no céu…” Simone Weil leva a expressão a sério, e tira dela todas as conseqüências: “É o Pai que está no céu. Não em outra parte. Se acreditamos ter um Pai aqui na terra, não é ele, é um falso Deus.” Espiritualidade do deserto, que não encontra ou não prega mais que “a formidável ausência, por toda parte presente”, como dizia Alain, a que responde, em sua aluna, esta fórmula surpreendente: “É preciso estar num deserto. Pois aquele que é preciso amar está ausente.” Mas por que essa ausência? Por que essa criação-desaparecimento? Por que esse “bem feito em pedaços e espalhado através do mal”, estando entendido que bem possível já existia (em Deus) e que o mal só existe por essa dispersão do bem, pela ausência de Deus – pelo mundo? “Só se pode aceitar a existência da infelicidade considerando-a como uma distância”, escreve ainda Simone Weil. Que seja. Mas por que essa distância? E, já que essa distância é o próprio mundo, enquanto ele não é Deus (e ele só pode ser o mundo, evidentemente, desde que não seja Deus), por que o mundo? Por que a criação?
Simone Weil responde: “Deus criou por amor, para o amor. Deus não criou outra coisa que não o próprio amor e os meios do amor.” Mas esse amor não é um mais de ser, de alegria ou de potência. É exatamente o contrário: é uma diminuição, uma fraqueza, uma renúncia. O texto mais claro, mais decisivo, é sem dúvida este:
A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de
retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos que Deus sozinho.
Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-
se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz que o Cordeiro
foi degolado já na constituição do mundo. Deus permitiu que existissem
coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato
criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a
nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor, para nos dar a possibilidade
de nos negar por Ele. Esta resposta, este eco que depende de nós recusar é
a única justificativa possível à loucura de amor do ato criador.
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