Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
que nunca é verificada, pelo menos sua ausência, pelo menos sua exigência, pelo menos seu mandamento. O amor não pode ser comandado, dizia eu, pois comanda. Mas comanda efetivamente, e é por isso que ele é toda a lei, como são Paulo havia visto, e mais precioso até que a ciência, a fé ou a esperança, que só valem por ele, quando valem, e para ele. Cabe aqui citar o mais belo texto, talvez, que já foi escrito sobre a caridade, da qual este longo capítulo, no fundo, pretendia apenas ser uma justificação, mas sem Deus, e tanto pior para aqueles que consideram isso impossível ou contraditório:
Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver caridade,
não serei mais que bronze que soa ou címbalo que retine. Ainda que eu
tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência;
ainda que eu tenha a plenitude da fé, uma fé de transportar montanhas, se
não tiver caridade, nada serei. E, ainda que eu distribua todos os meus
bens em esmolas, ainda que entregue o meu próprio corpo às chamas, se
não tiver caridade, nada disso me aproveitará.
A caridade é paciente, a caridade é serviçal; ela não é invejosa; não se gaba,
não se infla, ela não se conduz inconvenientemente, não procura os seus
interesses, não se exaspera, não leva em conta o mal; não se alegra com a
injustiça, mas põe sua alegria na verdade. Ela tudo desculpa, tudo crê, tudo
espera, tudo suporta.
A caridade não passa nunca. As profecias? Elas desaparecerão. As línguas?
Elas se calarão. A ciência? Ela desaparecerá. Porque parcial é nossa ciência,
também parcial nossa profecia. Quando, porém, vier o que é perfeito, o
que é parcial desaparecerá. Quando eu era menino, falava como menino,
sentia como menino, pensava como menino, raciocinava como menino;
quando cheguei a ser homem, fiz desaparecer o que era do menino. Pois
vemos agora num espelho, enigmaticamente, então veremos face a face;
agora conheço de maneira parcial; então conhecerei como também sou
conhecido.
Agora, pois, permanecem fé, esperança e caridade, estas três coisas: porém
a maior delas é a caridade.
Essas três “coisas” são o que tradicionalmente se chama de três virtudes teologais (porque teriam Deus mesmo por objeto). Duas delas, a fé e a esperança, estão ausentes deste tratado, porque me pareceram, de fato, não ter outro objeto plausível que não Deus, em que não creio. Dessas duas virtudes, aliás, podemos prescindir: basta a coragem, diante do futuro ou do perigo, assim como a boa-fé,
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André Comte -Sponville
diante da verdade ou do desconhecido. Mas como poderíamos prescindir da caridade (ao menos como idéia ou como ideal)? E quem ousaria pretender que ela só pode ter Deus como objeto, quando todos sentem (e quando Paulo escreve explicitamente) o contrário, a saber, que ela só pode existir por inteiro no amor ao próximo? De resto, santo Agostinho e santo Tomás, comentando o hino à caridade, bem mostraram que, das três virtudes teologais, a caridade não era apenas “a maior das três”, como dizia são Paulo, mas também a única a ter um sentido em Deus ou, como dizem, no Reino. A fé passará (como crer em Deus quando se é Deus?), a esperança passará (no Reino, não haverá mais nada a esperar), e é por isso que se diz que apenas a caridade “não passará”: no Reino só haverá amor, sem esperança e sem fé! Aí estamos. A esperança e a fé nos deixaram: nada mais há senão a falta, nada mais há senão a alegria, nada mais há senão a caridade. Isso não é, necessariamente, trair o espírito de Cristo, nem renunciar em tudo a segui-lo. Cristo, observa santo Tomás, não tinha “nem a fé nem a esperança”, no entanto houve nele “uma caridade perfeita”. Que essa perfeição não nos é acessível, está claro. Mas será isso uma razão para renunciarmos ao pouco de amor puro, gratuito ou desinteressado – ao pouco de caridade – de que talvez sejamos capazes?
Digo “talvez” porque nada garante que esse amor seja ao menos possível. Mas assim acontece, mostrava Kant, com toda virtude, e isso portanto não refuta nem a caridade nem o dever. Um tal amor está a nosso alcance? Podemos vivê-lo? Podemos nos aproximar dele? Não podemos sabê-lo sem prová-lo. Talvez seja “esse amor que falta a todo amor”, como diz Bobin, ao qual no entanto nada falta, e que por isso nos falta, e nos atrai. Mesmo ausente, ele nos ilumina: a ausência do amor ainda é um amor.
“Amar”, dizia Alain, “é encontrar sua riqueza fora de si.” É por isso que o amor é pobre, sempre, e a única riqueza. Mas há várias maneiras de ser pobre no amor, pelo amor, ou de ser rico, antes, de sua pobreza: pela falta, que é paixão, pela alegria recebida ou partilhada, que é amizade, enfim pela alegria dada, e dada em pura perda, pela alegria dada e abandonada, que é caridade. Haveria, pois, para resumir, para simplificar, três maneiras de amar, ou três tipos de amor, ou três gradações no amor: a carência ( erôs ), o regozijo ( philia), a caridade ( agapé). Pode ser que esta última seja, em verdade, apenas um halo de doçura, de compaixão e de justiça, que venha temperar a violência da falta ou do regozijo, que venha moderar ou aprofundar o que nossos outros amores possam ter de demasiado brutal ou de demasiado pleno. Há um amor que é como uma fome, outro que ressoa como uma gargalhada. A caridade mais parecia um sorriso, quando não, o
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