Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

André Comte-Sponville · Capítulo 5 de 111

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

 

homem honesto descortês melhor do que um crápula refinado. A polidez nada mais é que uma ginástica de expressão, dizia Alain; é dizer claramente que ela pertence ao corpo, e, é claro, o coração ou a alma é que prevalecem. Inclusive, há pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição que inquieta. “Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência! Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor, moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido demais para ser honesto!

O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. É um ritual, mas sem Deus; um cerimonial, mas sem culto; uma etiqueta, mas sem monarca. Forma vazia, que só vale por esse próprio vazio. Uma polidez cheia de si, uma polidez que se leva a sério, uma polidez que crê em si é uma polidez iludida por suas maneiras e que falta, por isso, às regras que ela mesma prescreve. A polidez não é suficiente, e é impolido ser suficiente.

A polidez não é uma virtude, mas uma qualidade, e uma qualidade apenas formal. Considerada em si, é secundária, irrisória, quase insignificante; ao lado da virtude ou da inteligência, é como que nada, e é o que ela, em sua fina reserva, também deve saber exprimir. Que os seres inteligentes e virtuosos não sejam dispensados dela, é mais do que claro. O próprio amor não poderia prescindir totalmente das formas. É o que as crianças devem aprender com seus pais, com esses pais que as amam tanto – embora demais, embora mal – e que, no entanto, não cessam de repreendê-las, não quanto ao fundo (quem ousaria dizer a seu filho: “Você não me ama o suficiente”?), mas quanto à forma. Os filósofos discutirão para saber se

 

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André Comte -Sponville

 

a forma primeira, na verdade, não é o todo e se o que distingue a moral da polidez é algo mais que uma ilusão. Pode ser que tudo não seja mais que uso e respeito do uso – que tudo não seja mais que polidez. Não creio, porém. O amor resiste, e a doçura, e a compaixão. A polidez não é tudo, é quase nada. Mas o homem, também, é quase um animal.

 

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