Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

André Comte-Sponville · Capítulo 35 de 111

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

 

que a generosidade nos ensine grande coisa a respeito dele, nem ele a respeito dela. Não vale para a generosidade o mesmo que para a justiça? O amor não as ultrapassa, uma e outra, muito mais do que está submetido a elas? Dar, quando se ama, é dar prova de generosidade ou de amor? Mesmo os amantes não se enganam quanto a isso. Uma mulher manteúda pode falar da generosidade de seus clientes ou protetores. Mas e uma mulher amada? Quanto aos santos… Cristo era generoso? Será essa a palavra que convém? Duvido muito, e por sinal registro que essa virtude não é muito evocada na tradição cristã, por exemplo, em santo Agostinho ou em santo Tomás, como também não era, diga-se de passagem, nos gregos ou nos latinos. Quem sabe não é apenas uma questão de vocabulário? A palavra generositas existia em latim, mas para designar antes a excelência de uma linhagem ( gens) ou de um temperamento. Podia no entanto, como às vezes em Cícero, traduzir a megalopsuchia dos gregos (grandeza de alma), mais simplesmente que a pomposa magnanimitas , que é seu decalque erudito. Isso é verdade sobretudo em francês: magnanimité [magnanimidade] praticamente não saiu das escolas; é générosité [generosidade], sem dúvida, que melhor diz o que a grandeza pode ter de propriamente moral e em que, de fato, ela é então uma virtude. Assim é em Corneille ou, voltaremos a ele, em Descartes. Na linguagem contemporânea, todavia, a grandeza conta menos que o dom, ou só é generosa por sua facilidade em dar. A generosidade aparece então no cruzamento de duas virtudes gregas, que são a magnanimidade e a liberalidade. O magnânimo não é nem vaidoso nem baixo, o liberal não é nem avaro nem pródigo, por isso são sempre generosos, quando não se identificam.

Mas isso ainda não é o amor e não faz as vezes dele.

A generosidade é a virtude do dom, dizia eu. Dom de dinheiro (pelo qual tem a ver com a liberalidade), dom de si (pelo qual tem a ver com a magnanimidade, ou mesmo com o sacrifício). Mas só podemos dar o que possuímos e somente com a condição de não sermos possuídos. Nisso a generosidade é indissociável de uma forma de liberdade ou de domínio de si que será, em Descartes, o essencial de seu conteúdo. De que se trata? De uma paixão e, ao mesmo tempo, de uma virtude. A definição é dada num artigo famoso do Tratado das paixões, que convém citar integralmente:

Creio assim que a verdadeira generosidade, que faz um homem se estimar

ao mais alto grau que ele pode legitimamente estimar-se, consiste, apenas,

parte em ele saber que não há nada que lhe pertença verdadeiramente além

dessa livre disposição de suas vontades, nem por que ele deva ser elogiado

ou censurado, a não ser por usá-la bem ou mal; parte em ele sentir em si

 

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André Comte -Sponville

 

uma firme e constante resolução de bem utilizá-la, isto é, nunca carecer de

vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar serem as

melhores. O que é seguir perfeitamente a virtude.

A redação é um tanto laboriosa, mas o sentido é claro. A generosidade é ao mesmo tempo consciência de sua própria liberdade (ou de si mesmo como livre e responsável) e firme resolução de bem usá-la. Consciência e confiança, pois: consciência de ser livre, confiança no uso que se fará disso. É por isso que a generosidade produz auto-estima, que é muito mais conseqüência dela do que seu princípio (distingue a generosidade cartesiana da magnanimidade aristotélica). O princípio é a vontade e nada mais que ela: ser generoso é saber-se livre para agir bem e querer-se assim. Vontade sempre necessária, para Descartes, e sempre suficiente, se efetiva. O homem generoso não é prisioneiro de seus afetos, nem de si; ao contrário, é senhor de si e, por isso, não tem desculpas nem as procura. A vontade lhe basta. A virtude lhe basta. Nisso coincide com a generosidade no sentido comum do termo, explica-o o artigo 156: “Os que são generosos dessa maneira são naturalmente levados a fazer grandes coisas, e todavia a não empreender nada de que não se sintam capazes. E por não estimarem nada maior do que fazer o bem aos outros homens e desprezar seu próprio interesse, por causa disso são sempre perfeitamente corteses, afáveis e oficiosos [serviçais] para com todos. E além disso são inteiramente senhores de suas paixões, particularmente dos desejos, do ciúme e da inveja…” A generosidade é o contrário do egoísmo, como a magnanimidade o é da mesquinharia. Essas duas virtudes são uma só e mesma coisa, assim como esses dois defeitos. O que há de mais mesquinho que o eu? O que há de mais sórdido do que o egoísmo? Ser generoso é ser livre de si, de suas pequenas covardias, de suas pequenas posses, de suas pequenas cóleras, de seus pequenos ciúmes… Descartes via nisso não apenas o princípio de toda virtude, mas o bem soberano, para cada um, o qual consiste apenas, dizia ele, “numa firme vontade de agir bem e no contentamento que ela produz”. Felicidade generosa, que reconcilia, dizia ele ainda, “as duas opiniões mais contrárias e mais célebres dos antigos”, a saber, a dos epicuristas (para os quais o bem soberano é o prazer) e a dos estóicos (para os quais é a virtude). O Jardim e o Pórtico, graças à generosidade, finalmente se encontram. Que virtude é mais agradável, que prazer mais virtuoso, do que desfrutar sua própria e excelente vontade? Onde encontramos a grandeza de alma: ser generoso é ser livre, e é esta a única grandeza verdadeira.

Quanto a saber o que é feito dessa liberdade, é outra questão, mais metafísica do que moral, da qual a generosidade não depende nem um pouco. Quantos avaros

 

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