Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
estado de fato é bem indicado pela etimologia: ser solidário é pertencer a um conjunto in solido, como se dizia em latim, isto é, “para o todo”. Assim devedores são ditos solidários, na linguagem jurídica, se cada um pode e deve responder pela totalidade da soma que tomaram emprestada coletivamente. Isso tem suas relações com a solidez, de que a palavra provém: um corpo sólido é um corpo em que todas as partes se sustentam (em que as moléculas, poderíamos dizer igualmente, são mais solidárias do que nos estados líquidos ou gasosos), de tal sorte que tudo o que acontece com uma acontece também com a outra ou repercute nela. Em suma, a solidariedade é antes de tudo o fato de uma coesão, de uma interdependência, de uma comunidade de interesses ou de destino. Ser solidários, nesse sentido, é pertencer a um mesmo conjunto e partilhar, conseqüentemente – quer se queira, quer não, quer se saiba, quer não – uma mesma história. Solidariedade objetiva, dir-se-á: é o que distingue o seixo dos grãos de areia, e uma sociedade de uma multidão.
Como estado de alma, a solidariedade nada mais é que o sentimento ou a afirmação dessa interdependência. Solidariedade subjetiva: “Operários, estudantes, mesmo combate”, dizíamos em 1968, ou então “Somos todos judeus alemães”; em outras palavras, a vitória de uns será a vitória dos outros, ou vice-versa, e o que se faz a um de nós, mesmo que esse um seja diferente (por ser judeu, por ser alemão…), se faz a todos. É óbvio que não tenho nada contra esses sentimentos, que são nobres. Mas serão por isso virtudes? Ou, se há virtude neles, trata-se mesmo de solidariedade? Os empresários ou a polícia, em maio de 1968, não eram menos solidários entre si (e sem dúvida eram até mais) do que operários e estudantes, e, embora isso não condene nem uns nem outros, torna a moralidade do conjunto um tanto duvidosa ou suspeita. É raro que a virtude seja tão bem distribuída… De resto, se a solidariedade é comunidade de interesses (solidariedade subjetiva), do ponto de vista moral ela vale tanto quanto valem os interesses, que não valem nada. De fato, das duas uma: ou essa comunidade é real, efetiva, e então ao defender o outro nada mais faço do que defender a mim mesmo (o que, decerto, nada tem de censurável, mas é por demais vinculado ao egoísmo para ser à moral); ou essa comunidade é ilusória, formal ou ideal, e então se luto pelo outro já não se trata de solidariedade (pois meu interesse não está em jogo), mas de justiça (se o outro é oprimido, lesado, espoliado…) ou de generosidade (se não o é, mas simplesmente infortunado ou fraco). Em suma, a solidariedade é demasiado interessada ou demasiado ilusória para ser uma virtude. Nada mais é que egoísmo bem entendido ou generosidade mal entendida. Isso não impede que ela seja um valor, mas um valor que vale, sobretudo, na medida em que escapa ao encolhimento do eu, ao egoísmo estreito
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André Comte -Sponville
ou limitado, digamos, ao solipsismo ético. É muito mais a ausência de um defeito do que uma qualidade. Dou como prova que a língua resiste, apesar do mau uso que dela fazem os políticos, a qualquer tentativa de moralizar ou absolutizar a solidariedade. Se digo de alguém: “É justo, é generoso, é corajoso, é tolerante, é sincero e doce…”, todos compreendem que estou enunciando suas virtudes, que dele fazem um homem moralmente estimável, ou mesmo admirável. Se acrescento: “É solidário”, todos, diante desse uso intransitivo, ficam surpresos e provavelmente me perguntarão: “Solidário… com quem?”
O mau uso que se faz dessa palavra hoje em dia me parece indicar, sobretudo, a incapacidade em que nos encontramos, com freqüência, de utilizar as palavras que conviriam e que nos assustam. Solidariedade, observam os lexicógrafos, tornou-se “no vocabulário sociopolítico um substituto prudente de igualdade”, bem como, eu acrescentaria, de justiça ou de generosidade. Mas que importa essa prudência, que nada mais é que timidez ou má-fé? Alguém acha que, suprimindo-se essas palavras, se tornará mais aceitável a falta daquilo – as virtudes – que elas designam? Alguém imagina que uma comunidade de interesses possa fazer as vezes delas? Triste época, que suprime as grandes palavras para não ver nada mais que sua própria pequenez!
Sendo este um tratado das virtudes, e não um dicionário de idéias prontas, deixei, pois, a solidariedade no universo que lhe é próprio, o universo dos interesses convergentes ou opostos, dos diferentes corporativismos, ainda que fossem planetários, dos lobbies de todo tipo, ainda que fossem legítimos. Não acredito que sejamos todos solidários, isto é, todos interdependentes. Em que sua morte me torna menos vivo? Em que sua pobreza me torna menos rico? Não só a miséria do Terceiro Mundo não é prejudicial à riqueza do Ocidente, como esta só é possível, direta ou indiretamente, graças àquela, que ela explora ou acarreta. E o fato de habitarmos todos a mesma Terra, de sermos, pois, ecologicamente solidários, não impede que sejamos também, e mais ainda, economicamente concorrentes. Não venhamos com histórias. Não é de solidariedade que a África ou a América do Sul necessitam, mas de justiça e de generosidade! Quanto a pensar que os que têm trabalho, em nossos países, seriam solidários com os que não o têm, basta olhar o que fazem concretamente os sindicatos, em cada ramo de atividade, para constatar que a defesa dos interesses na verdade só vale para os interesses comuns e que nenhuma solidariedade objetiva (nem, por conseguinte, subjetiva, pois esta só se distingue da generosidade graças àquela) bastará evidentemente para resolver o problema do desemprego, nem para empreender seriamente sua solução. Mais uma vez, não é de solidariedade que se trata (pode
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