Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
torna a ser possível. É por isso que, em outro sentido, ele perdoa tudo. Todos inocentes? Todos amáveis? Não, é claro, pela mesma razão! Embora as obras das pessoas de bem e as dos maus façam igualmente parte da natureza e decorram de suas leis, explica Spinoza, nem por isso elas deixam de diferir “umas das outras, não apenas em grau, mas por sua essência: de fato, embora tanto um rato quanto um anjo, tanto a tristeza quanto a alegria dependam de Deus (isto é, da natureza), um rato não pode ser uma espécie de anjo, nem a tristeza uma espécie de alegria”. A misericórdia não acarreta nem a abolição da falta, que permanece, nem as diferenças de valor, que ela supõe e manifesta, nem, é preciso lembrar, as necessidades do combate. Mas suprimindo o ódio, ela dispensa que lhe busquemos justificativas. Aplacando a cólera e o desejo de vingança, ela permite a justiça e, se necessário, o castigo sereno. Enfim ela torna concebível que os maus, fazendo parte do real, também sejam oferecidos a nosso conhecimento, à nossa compreensão e – pelo menos é esse o horizonte que a misericórdia deixa entrever – a nosso amor. Nem tudo se equivale, claro, mas tudo é verdadeiro, e o canalha tanto quanto o homem de bem. Misericórdia para todos, paz para todos – e no próprio combate!
A imaginação resiste, e o ódio. Resistiríamos a menos. “Se Spinoza tivesse sido contemporâneo dos extermínios maciços”, diz vigorosamente Robert Misrahi, “não teria havido spinozismo. Um Spinoza escapado de Auschwitz não teria podido dizer: ‘Humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.’ A partir daqui, compreender já não é perdoar. Ou melhor, não se pode mais compreender; não há nada mais a compreender. Porque os abismos da maldade pura são incompreensíveis.” No entanto, será mesmo? Não é dar um crédito singular a esses brutos supô-los inexplicáveis ou incompreensíveis? Como? Einstein, Mozart ou Jean Moulin seriam explicáveis e os SS não? A vida seria racional e o ódio não? O amor poderia se compreender e não a crueldade? De tanto ver nos campos de concentração um irracional absoluto, dá-se razão (apenas nesse ponto, é claro, mas já não é demais?) aos irracionalistas que os construíram ou prepararam. De que valeria a razão, se só pudesse compreender os que a seguem ou se submetem a ela? O fato de o nazismo não ser razoável, o que é claríssimo, não impede que seja racional, como tudo o que é real – o fato de a razão não poder aprová-lo não impede que possa conhecê-lo e explicá-lo. Que outra coisa fazem nossos historiadores? E como, senão, combatê-lo?
É aí que importa sobretudo distinguir o esquecimento da misericórdia. Que podemos perdoar tudo, é o que a tradição atesta e os modernos, mesmo os mais fiéis, estão prontos a aceitar:
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André Comte -Sponville
O perdão não indaga se o crime é digno de ser perdoado, se a expiação foi
suficiente, se o rancor durou bastante… Não há falta tão grave que não se
possa, em último recurso, perdoar. Nada é impossível à onipotente
remissão! O perdão, nesse sentido, pode tudo. Onde o pecado abunda, diz
são Paulo, o perdão superabunda. (...) Se há crimes tão monstruosos que o
criminoso desses crimes não pode sequer expiá-los, resta sempre o recurso
de perdoá-los, pois o perdão foi feito precisamente para esses casos
desesperadores ou incuráveis.
Isso não autoriza, evidentemente, a esquecer o crime, nem nossos deveres de fidelidade para com as vítimas, nem as exigências do combate contra os criminosos de hoje ou contra os que zelaram pelos de ontem. Jankélévitch explicou-se bastante bem a esse respeito, ou antes, bem demais, para que seja necessário nos determos aqui. No entanto, permanece um problema, como uma chaga aberta: pode-se, ou deve-se, perdoar os que nunca pediram perdão? Não, responde Jankélévitch:
Apenas o arrependimento do criminoso e, principalmente, seu remorso
dão um sentido ao perdão, assim como apenas o desespero dá um sentido
à graça. (…) O perdão não se destina às consciências tranqüilas satisfeitas
de si, nem aos culpados não-arrependidos (…). O perdão não é feito para
os porcos ou para suas porcas. Antes que se possa falar em perdão, seria
necessário que o culpado, em vez de contestar, se reconhecesse culpado,
sem arrazoados nem circunstâncias atenuantes, e sobretudo sem acusar
suas próprias vítimas – é o mínimo! Para que perdoássemos, seria
necessário primeiro, não é?, que nos viessem pedir perdão. (…) Por que
perdoaríamos os que lamentam tão pouco e tão raramente seus
monstruosos delitos? (…) Porque se os crimes não-expiados são
precisamente os que precisam ser perdoados, os criminosos não-
arrependidos são precisamente os que não necessitam de perdão.
Eles não, sem dúvida. Mas e nós? O ódio é uma tristeza, sempre, a alegria é que é boa. Não, decerto, que devamos reconciliar-nos com os brutos, nem tolerar seus abusos. Mas será que precisamos odiá-los para combatê-los? Não, tampouco, que se deva esquecer o passado. Mas será que precisamos do ódio para nos lembrar dele? Não se trata de remitir os pecados, o que não podemos fazer, repitamos – e, aliás, não devemos (apenas as vítimas poderiam acreditar-se autorizadas a tanto, mas aqui faltam vítimas, pois foram mortas). Trata-se de suprimir o ódio, na medida do possível, e de combater portanto com a alegria no coração, quando ela for possível, ou com a misericórdia na alma, quando a alegria for impossível
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