Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

André Comte-Sponville · Capítulo 45 de 111

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Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

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faltas demais, uns e outros, somos miseráveis demais, fracos demais, vis demais, para que ela não seja necessária.

Voltemos um instante à sua diferença em relação à compaixão. Esta refere-se a um sofrimento, como vimos, e a maioria destes são inocentes. A misericórdia refere-se às faltas, e muitas destas são indolores. Portanto, a misericórdia e a compaixão são duas virtudes diferentes, que, quanto a seus objetos, não se sobrepõem. É verdade, porém, que perdoaremos mais facilmente quem sofre, mesmo que seu sofrimento não tenha relação com sua falta (e, especialmente, não seja arrependimento). A misericórdia é o contrário do rancor, e o rancor é um ódio. Ora, como vimos a propósito da compaixão, é quase impossível odiar quem vemos sofrer atrozmente: a piedade desvia-se do ódio, dizia eu, e é nisso que a compaixão, sem se confundir com ela, pode de fato levar à misericórdia. O inverso também pode ser verdadeiro, às vezes (condoemo-nos mais facilmente quando paramos de odiar); mas a compaixão, que é mais afetiva, mais natural, mais espontânea, é o primeiro movimento, quase sempre. A misericórdia é mais difícil e mais rara.

Porque ela requer reflexão, que a piedade dispensa sem problema. Sobre que reflete o misericordioso? Sobre si mesmo, que muito pecou? Pode ser, e isso o dissuadirá, como dizem os Evangelhos, de atirar a primeira pedra… Mas essa misericórdia por identificação só vale quando a identificação é possível: apenas nas faltas comuns, ou que poderiam vir a sê-lo. Assim, posso perdoar o ladrão, pois já me ocorreu roubar (livros, na minha juventude). O mentiroso, pois às vezes minto. O egoísta, pois o sou. O covarde, pois eu poderia sê-lo. Mas e o estuprador de crianças? E o torturador? Quando a falta excede a medida comum, a identificação perde sua força, ou mesmo sua plausibilidade. Ora, são sobretudo esses crimes, e os mais horríveis dentre eles, que reclamam nossa misericórdia. Para que o perdão, se ele só se refere a bagatelas? Para que a misericórdia, se ela só perdoa o que, mesmo sem ela, seria perdoável?

Portanto é necessária outra coisa que não a identificação, mas o quê? O amor? Quando ele existe, e quando subsiste depois da descoberta da falta, acarreta evidentemente a misericórdia, mas também a deixa sem objeto. Perdoar é cessar de odiar, é renunciar à vingança, e é por isso que o amor nem precisa perdoar, pois sempre já o fez, sempre o fará, ele só existe com essa condição. Como cessar de odiar, quando não se odeia? Como perdoar, quando não se tem em si nenhum rancor a vencer? O amor é misericordioso, mas tal como respira e sem que isso seja nele uma virtude específica. “Perdoamos enquanto amamos”, dizia La Rochefoucauld. Mas enquanto amamos não é misericórdia, é amor. Os pais

 

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sabem disso, e os filhos às vezes também. Amor infinito? Não, pois não é possível. Mas incondicional, e superior parece, a qualquer falta possível, a qualquer ofensa possível. “O que você não me perdoaria?”, pergunta o garotinho a seu pai. E o pai não encontra nada. Não, nem mesmo o pior. Os pais não têm o que perdoar aos filhos: o amor toma neles o lugar da misericórdia. Cabe aos filhos perdoar aos pais, se puderem, ou quando puderem. Perdoar o quê? Amor e egoísmo demais, amor e tolice demais, angústia e infelicidade demais… Ou então pouco amor demais, e o perdão não será menos necessário. Que outra coisa é tornar-se adulto? Aprecio muito a fórmula de Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray: “Os filhos começam por amar os pais; quando crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos.” Felizes os filhos que podem perdoar seus pais, felizes os misericordiosos!

Quanto ao resto, quero dizer fora da família, somos tão pouco capazes de amor, sobretudo para com os maus, que é improvável que a misericórdia possa nascer dele. Como poderíamos amar nossos inimigos, ou mesmo suportá-los, sem perdoá-los primeiro? Como o amor poderia resolver um problema que só se coloca por causa da sua ausência? Porque amar nós não sabemos, e amar os maus ainda menos. É por isso mesmo que precisamos tanto de misericórdia! Não porque o amor está presente, mas porque não está, porque só há ódio, porque só há cólera! Como amaríamos os canalhas? Quanto aos bons, eles não precisam de nossa misericórdia, nem nós precisamos ter misericórdia por eles. A admiração basta, e é melhor.

De novo, é preciso outra coisa, portanto. Não um sentimento primeiramente, o que faz a misericórdia ser mais difícil que a compaixão. O corpo se projeta no sofrimento do outro e quer poupar aquele que sofre: piedade. Mas o corpo quer punir, mas o corpo quer vingar: cólera, rancor, ódio. Talvez pudesse renunciar a isso, se o adversário sofresse, se a piedade viesse socorrer a misericórdia. Mas e em outro caso? É preciso mais ou menos que uma sensação, mais ou menos que um sentimento: uma idéia. Como a prudência, a misericórdia é virtude intelectual, em todo caso intelectual a princípio e por muito tempo. Trata-se de compreender alguma coisa. O quê? Que o outro é mau, se for, ou que está enganado, se estiver, ou que é fanático ou dominado por suas paixões, se paixões ou idéias o dominarem, enfim que lhe seria difícil, em todo caso, agir ao contrário do que ele é (por que milagre?) ou de se tornar subitamente bom, doce, razoável e tolerante… Perdoar: aceitar. Não para cessar de combater, é claro, mas para cessar de odiar. “Morro sem ódio em mim ao povo alemão…” E sem ódio a seus próprios carrascos? É mais difícil, e a história não o diz. No entanto, quem não

 

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