Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
o nosso, é nossa vida, é nossa história. Não há nada de arbitrário ou de contingente nisso. Nosso corpo nos leva a ele, pelo desejo; nossa infância nos leva a ele, pelo amor e pela lei. Porque o desejo quer primeiro tomar. Porque o amor quer primeiro consumir, devorar primeiro, possuir primeiro. Mas a lei o proíbe. Mas o amor o proíbe, o amor que dá e que protege. Freud está menos distante do que ele mesmo imaginava, talvez, de uma certa inspiração evangélica. Mamamos o amor ao mesmo tempo em que o leite, o bastante para saber que só ele podia nos satisfazer (que “sem amor não somos nada”, como diz a canção) e que, portanto, ele nunca deixaria de nos fazer falta… Daí essas virtudes, às vezes, mesmo aproximadas, mesmo fracas, que são a homenagem que prestamos ao amor, quando ele está ausente, e o indício de que ele continua a valer, como exigência, mesmo quando falta, de que reina, se quisermos, onde não governa – ou ainda de que comanda (é o que se chama um valor) mesmo em sua ausência!
O amor nos falta, dizia eu, e é essa, muitas vezes, a mais segura experiência que temos dele.
Fizemos dessa falta uma força, ou várias, e é a isso que chamamos virtudes.
Isso vale por exemplo, e em especial, para a generosidade. Ela nasce como exigência quando o amor falta, claro, mas não totalmente, pois pelo menos amamos o amor (“ nondum amabam et amare amabam”: não saímos disso), suficientemente em todo caso para que continue a valer, como modelo ou como mandamento, quando, como sentimento, ele fracassa em triunfar ou em se expandir plenamente. E visto que daríamos, se amássemos, a generosidade nos convida, na falta do amor, a dar exatamente aos que não amamos, tanto mais por necessitarem mais ou por estarmos mais bem situados para ajudá-los. Sim, quando o amor não nos pode guiar, por estar ausente, que a urgência e a proximidade o façam! É o que se chama erradamente de caridade (pois a verdadeira caridade é amor, e a falsa, condescendência ou compaixão) e que se devia chamar de generosidade, pois depende de fato de nós, só de nós, pois é livre nesse sentido, pois é – contra a escravidão dos instintos, das posses e dos medos – a própria liberdade, em espírito e em ato!
Seria melhor o amor, é claro, e é por isso que a moral não é tudo, nem mesmo o essencial. Mas a generosidade é melhor, porém, que o egoísmo, e a moral que a frouxidão.
Não, é claro, que a generosidade seja o contrário do egoísmo, se entendermos com isso que ela lhe escaparia totalmente. Como seria possível? Por que seria necessário? “Como a razão não pede nada que seja contra a natureza”, escreve
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André Comte -Sponville
Spinoza, “ela pede, pois, que cada um ame a si mesmo, procure o útil próprio, o que é realmente útil para ele, deseje tudo o que leva realmente o homem a uma perfeição maior e, falando de modo absoluto, que cada um se esforce por conservar seu ser, tanto quanto este está em cada um.” Não saímos do princípio do prazer, pois não saímos da realidade. Mas isso não quer dizer que todos os prazeres se equivalem. A alegria decide. O amor decide. O que é então a generosidade? “Um desejo”, responde Spinoza, “pelo qual um indivíduo, a partir do simples mandamento da razão, se esforça por assistir os outros homens e estabelecer entre estes e ele um vínculo de amizade.” A generosidade é, nisso, com a firmeza ou a coragem ( animositas), uma das duas ocorrências da força de alma: “As ações que visam apenas a utilidade do agente, refiro-as à firmeza”, explica Spinoza, “e as que visam igualmente a utilidade de outrem, à generosidade.” Portanto, há utilidade nos dois casos, utilidade do próprio sujeito. Não saímos do ego, ou só saímos dele desde que assumamos primeiro nossa exigência própria, que é a de perseverar em nosso ser, o mais possível, o melhor possível, em outras palavras, “agir e viver”. Que isso nem sempre é realizável, que às vezes é preciso morrer, e até que o é necessariamente, pois o universo é o mais forte, todos sabemos e Spinoza não desmente. Mas aquele que prefere morrer a trair, morrer a renunciar, morrer a abandonar, é ainda seu ser que ele está afirmando, é a potência vital – seu conatus – que ele opõe à morte ou à ignomínia, e vitoriosamente enquanto vive, e utilmente enquanto combate ou resiste. Que a virtude é afirmação de si e busca do útil próprio, Spinoza não cessa de repetir; mas também Cristo, mesmo na cruz, é o melhor exemplo disso. O útil próprio não é o maior conforto, nem sempre a vida mais longa: é a vida mais livre, é a vida mais verdadeira. Não se trata de viver sempre, pois não se pode, mas de viver bem. Mas como, sem coragem e sem generosidade?
Ter-se-á notado que a generosidade é definida como desejo, não como alegria, o que basta para distingui-la do amor ou, como diz também Spinoza, da caridade. Que a alegria possa nascer em acréscimo, e mesmo que ela seja expressamente visada, é mais que claro, pois a amizade (a que tende à generosidade) nada mais é que alegria partilhada. Mas, precisamente, a alegria ou o amor podem nascer da generosidade, e não se reduzir a ela ou com ela se confundir. Para fazer bem a quem se ama, não é preciso o “mandamento da razão”, nem, pois, da generosidade: basta o amor, basta a alegria! Mas, quando o amor falta, quando a alegria falta ou é muito fraca (e ainda que não interviesse a compaixão, que nos torna benevolentes), a razão subsiste, e ela nos ensina – ela, que não tem ego e, por isso, nos liberta do egoísmo – que “nada é mais útil ao homem do que o homem”, que todo ódio é ruim, enfim que “quem é conduzido pela razão deseja
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