Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Aristófanes. Uma falta, ao ser satisfeita, desaparece enquanto falta: a paixão não poderia sobreviver por muito tempo à felicidade, nem a felicidade, sem dúvida, à paixão. Daí o grande sofrimento do amor, enquanto a falta domina. E a grande tristeza dos casais, quando não domina mais… O desejo se abole em sua satisfação: portanto ele tem de estar insatisfeito ou morto, estar em falta ou faltando, infeliz ou perdido… Uma solução? Platão sugere duas, mas nenhuma delas resolverá, assim temo, as dificuldades de nossa vida amorosa. O que é amar? É carecer do que se ama e querer possuí-lo sempre. Pelo que o amor é egoísta, em todo caso esse amor, e no entanto perpetuamente posto para fora de si mesmo, extático, como diz Lacan, e esse êxtase (êxtase de si no outro) define muito bem a paixão: é egoísmo descentrado, egoísmo dilacerado, como que repleto de ausência, cheio do vazio de seu objeto, e de si, como se fosse esse próprio vazio. Como poderia possuir sempre, já que vai morrer, e o que quer que seja, já que é falta? “Pelo parto na beleza”, responde Platão, “segundo o corpo e segundo o espírito”, em outras palavras, pela criação ou procriação, pela arte ou pela família. É a primeira solução, a mais fácil, a mais natural. Já a vemos em ato nos animais, explica Diotima, quando são possuídos pelo desejo de procriar, quando o amor os trabalha, quando se sacrificam por seus filhotes… A razão nada tem a ver com isso, o que basta para provar que o amor a precede ou a supera. Mas então de onde ele vem? Do fato de que, responde Diotima, “a natureza mortal sempre busca, tanto quanto pode, a perpetuidade e a imortalidade; mas só o pode pela geração, deixando sempre um indivíduo mais jovem no lugar de um mais velho”. É essa a causa ou o princípio do amor: o amor é aquilo pelo que os mortais, embora nunca sendo sempre iguais, tendem a se conservar e a participar, tanto quanto podem, da imortalidade. Eternidade substituta, divindade substituta. Donde esse amor que têm pelos filhos, donde esse amor à glória: é a vida que amam, é a imortalidade que buscam – é a morte que os atormenta. O amor é a própria vida, mas enquanto ela tem perpetuamente falta de si, enquanto quer se conservar, enquanto não o pode, como se fosse cavada pela morte, como se fosse fadada ao nada. Por isso o amor não escapa da falta absoluta, da miséria absoluta, da infelicidade absoluta, a não ser parindo, como diz Platão: uns parem segundo o corpo, e é o que se chama família, outros segundo o espírito, e é o que se chama criação, tanto na arte ou na política como nas ciências ou na filosofia. Uma solução? Talvez, mas não uma salvação, pois a morte, apesar de tudo, permanece, a morte que nos carrega, e a nossos filhos, e a nossas obras, já que a falta nos tortura ou nos falta… Que a família é o futuro do amor, seu desaguadouro natural, todos constatam, mas isso nunca conseguiu salvar o amor, nem o casal, nem a família. Quanto à criação, como ela poderia
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André Comte -Sponville
salvar o amor, se dependesse dele? E como, se não dependesse? É talvez por isso que Platão propõe outra solução, mais difícil, mais exigente, que é a famosa dialética ascendente, com a qual termina o discurso de Diotima. De que se trata? De uma ascensão, de fato, mas espiritual, o que equivale a dizer, de um percurso iniciático e de uma salvação, propriamente dita. É o percurso do amor, e a salvação pela beleza. Seguir o amor sem nele se perder, obedecer a ele sem nele se encerrar é transpor umas depois das outras as gradações do amor: amar primeiro um só corpo, por sua beleza, depois todos os corpos belos, depois a beleza que lhes é comum, depois a beleza das almas, que é superior à dos corpos, depois a beleza que está nas ações e nas leis, depois a beleza que está nas ciências, enfim a Beleza absoluta, eterna, sobrenatural, a do Belo em si, que existe em si mesmo, para si mesmo, de que todas as belas coisas participam, de que procedem e recebem sua beleza… É aonde nos conduz o amor, é o que o salva e nos salva. Em outras palavras, o amor só é salvo pela religião – eis o segredo de Diotima, eis o segredo de Platão: se o amor é falta, sua lógica é sempre tender mais para o que falta, para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo nada mais é que a deslumbrante manifestação), que é Deus, e aí se abolir, enfim saciado, enfim apaziguado, enfim morto e feliz! Ainda é amor, se mais nada lhe falta? Não sei. Platão diria talvez que então há apenas a Beleza, como Plotino dirá que há apenas o Uno, como os místicos dirão que há apenas Deus… Mas, se Deus não é amor, para que Deus? E do que Deus poderia ter falta?
Temos de deixar Platão, neste ponto em que ele nos deixa. Ele nos levou, não é pouco, do sonho da fusão (Aristófanes) à experiência da falta (Sócrates), depois da falta à transcendência e à fé (Diotima). Belo percurso, para um pequeno livro, e que diz muito de sua grandeza. Mas ainda seremos capazes dessa solução que nos propõe? Podemos acreditar nela? Podemos aceita-la? Os cristãos responderão que sim, sem dúvida, e vários deles passarão tranqüilamente da água-com-açúcar à água benta… Mas não todos. É que os amantes, crentes ou não, sabem que mesmo um Deus não os poderia salvar, se eles não salvarem primeiro o amor neles, entre eles, por eles. Que vale a fé, se não sabemos amar? E em que ela é necessária, se sabemos?
Mas a verdade é que não sabemos, claro, e é o que os casais não cessam de experimentar, dolorosamente, dificilmente, o que os condena ao fracasso, talvez, e o que os justifica. Como amar sem aprender? Como aprender sem amar?
Sei que há outros amores, e chegarei a eles. Mas este é o mais forte, em todo caso o mais violento (o amor parental é mais forte ainda, em alguns, porém mais
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