Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
nada? Entre o regozijo e a coerção? Entre a potência e a submissão? Quid então do espírito de Cristo, como diz Spinoza, em outras palavras, desse amor ao mesmo tempo singular e universal, exigente e livre, espontâneo e respeitoso, desse amor que não poderia ser erótico, pois ama o que não lhe falta (como o próximo nos faltaria, se ele só se define por existir, se não cessa de nos estorvar, de ser de mais?), e que tampouco poderia ser simplesmente amistoso, pois em vez de amar apenas os amigos, como cada um de nós, se reconhece por ser também e, talvez, sobretudo – é sua diferença específica, sua medida-desmedida própria – amor aos inimigos?
“Ouvistes o que foi dito: Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo. Pois eu vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem…” Quer Cristo tenha existido ou não, e não obstante o que tenha vivido ou dito efetivamente, o que jamais saberemos, quem não vê que a mensagem evangélica, tal como chegou até nós, excede em muito as capacidades do erôs (como é óbvio) e também da philia? Amar o que falta está ao alcance de qualquer um. Amar os amigos (os que não faltam, os que nos fazem bem ou que nos amam), embora seja mais difícil, continua sendo acessível. Mas e amar os inimigos? E amar os indiferentes? E amar os que não nos faltam nem nos alegram? E amar os que nos estorvam, que nos entristecem ou nos fazem mal? Como seríamos capazes? Como, inclusive, poderíamos aceitá-lo? Escândalo para os judeus, dirá são Paulo, loucura para os gregos; e, de fato, isso excede a Lei tanto quanto o bom senso. No entanto, e ainda que só existisse a título de ideal ou de imaginação, esse amor além do amor (além do erôs, além da philia), esse amor sublime e talvez impossível merece pelo menos um nome. Esse nome, em francês, é, em geral, charité [caridade]. Mas essa palavra foi tão deturpada, prostituída, maculada (por dois mil anos de condescendência clerical, aristocrática e, depois, burguesa), que é melhor remontar à fonte e continuar, depois de erôs e philia, a falar grego; esse amor que não é nem falta nem potência, nem paixão nem amizade, esse amor que ama até seus inimigos, esse amor universal e desinteressado é o que o grego das Escrituras (retomando, sem dúvida por estar disponível, uma palavra quase desconhecida da literatura profana, ao menos na forma nominal, mas derivada do verbo agapan, acolher com amizade, amar, querer bem, atestada em grego clássico, por exemplo em Homero ou Platão), é o que o grego das Escrituras, então, desde a Bíblia dos Setenta até as epístolas apostólicas, chama de agapé (como no Evangelho de são João: “Deus é amor, o Theos agapé estin”), que a Vulgata traduziu quase sempre por caritas (o amor, o afeto, o que torna caro), que dará de fato, e independentemente de suas perversões anteriores, o francês charité [caridade]. É a terceira definição que eu
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André Comte -Sponville
anunciava, ou antes é o terceiro amor, que ainda não serve de definição, mas que a chama. Se Deus é amor, esse amor não pode ser falta, pois a Deus nada falta. Nem amizade, pois Deus não se regozija com um ser, que seria causa de sua alegria e o faria existir mais, porém o engendra, porém o cria, ainda que sua alegria nem por isso seja aumentada, nem sua potência, nem sua perfeição, mas antes são amputadas, se isso é possível, feridas, crucificadas. É daí que se deve partir: da criação e da Cruz. Para procurar Deus? Nada disso. Para procurar o amor. Agapé é o amor divino, se Deus existe, e mais ainda, talvez, se Deus não existe.
Por que o mundo? A existência de Deus, longe de responder a essa pergunta, como às vezes se acredita, torna-a mais difícil. De fato, supõe-se que Deus seja absolutamente perfeito, e essa suposição, como mostram Descartes ou Leibniz, lhe serve – ou antes, nos serve – de definição: Deus é o máximo de ser e de valor possível. Portanto, não lhe poderia faltar o que quer que fosse. Imaginar que Deus criou o mundo e os homens para seu próprio bem, porque lhe faltava alguma coisa, por exemplo uma obra, uma glória ou um público, em suma imaginar uma justificativa erótica para a criação é, evidentemente, nada compreender da idéia de Deus tal como o Ocidente a pensou, isto é, enquanto perfeição absoluta. Se Deus é perfeito, tudo no mundo tem falta dele talvez, tudo tende a ele (assim é em Aristóteles, onde Deus move tudo como causa final, isto é, como objeto de amor, erômenon, sem ser movido nem comovido pelo que quer que seja), mas a ele mesmo nada falta, ele não tende a nada e, portanto, explica Aristóteles, não se move: Deus pensa a si mesmo – seu pensamento é pensamento do pensamento – e essa contemplação em ato basta para a sua alegria, que é eterna, e não precisa de uma criação ou de um amor. Isso também vale, é claro, para o Bem em si de Platão, objeto último de todo desejo, de toda falta, de todo erôs, sem experimentar nada disso. Se o amor é desejo do bem, como dirá Plotino, e se o desejo é falta, como o Bem poderia ser amor, já que deveria por isso ter falta de si?
Mas o mundo também não poderia ser explicado pela philia divina. Não apenas porque há algo ridículo, como Aristóteles mostrou, em se acreditar amigo de Deus, mas também porque a amizade permanece submetida à lei do ser, do amor a si, da potência. Isso, que poderíamos ler em Aristóteles, é mais explícito ainda em Spinoza. O que é o amor? Uma alegria que a idéia de sua causa acompanha. O que é uma alegria? A passagem a uma perfeição ou a uma realidade (as duas palavras, para Spinoza, são sinônimas) superior. Regozijar-se é existir mais, é sentir aumentar sua potência, é perseverar triunfalmente no ser. Estar triste, ao
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