Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
vê que ele é mais livre do que eles? Sim, mesmo agrilhoado, mas livre do que seus assassinos, que são escravos! É o que o perdão registra ou exprime, pelo que coincide com a generosidade (em perdoar há doar ): é como uma superabundância de liberdade, que vê bem demais a que falta aos culpados para lhes querer mal absolutamente, e que lhes concede a graça de compreendê-los, de desculpá-los, de perdoá-los por existirem e serem o que são… Que canalha escolheu livremente sê-lo? Inocente? Digamos antes que não é culpa dele ser culpado, que ele é prisioneiro de seu ódio, de sua tolice, de sua cegueira, que ele não escolheu ser o que é, nem seu corpo, nem sua história, que ninguém escolheria livremente estar em seu lugar, ser tão ruim assim, tão mau, que tudo isso tem suas causas, que seria valorizar demais esse canalha imaginá-lo livre ou incompreensível (por que não sobrenatural, logo de uma vez?), que seria prejudicar a nós mesmos odiá-lo, que nos basta combatê-lo ou resistir-lhe tranqüilamente, serenamente, alegremente se pudermos, e perdoá-lo, se não pudermos, sim, que se trata de vencer pelo menos o ódio em nós, na impossibilidade de poder vencê-lo nele, de pelo menos sermos capazes de nos dominar, na impossibilidade de dominá-lo, de pelo menos alcançarmos essa vitória sobre o mal, sobre o ódio, de não somarmos ódio ao ódio, de não sermos cúmplices ao mesmo tempo em que vítimas, de nos atermos ao bem, que é amor, ao amor, que é misericórdia, à misericórdia, que é compaixão. Pois bem, e como dizia Epicteto: “Homem, se for absolutamente necessário que o mal em outrem te faça experimentar um sentimento contrário à natureza, que seja antes a piedade que o ódio.” Ou então, como dizia Marco Aurélio: “Intrui-os ou suporta-os.” Ou ainda, como dizia Cristo: “Pai, perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem.”
Jankélévitch, que cita esta última frase, acha-a “socrática” demais para seu gosto. Se não sabem o que fazem, sua falta é um erro, não um crime: haverá motivo para perdoar? Todo erro é involuntário, merece antes correção do que castigo, antes desculpa do que perdão. Mas para que, então, a misericórdia? Ninguém é mau voluntariamente, dizia Sócrates: é o que se chama intelectualismo socrático, para o qual o mal não passa de um erro. Mas não passa de um erro, sem dúvida, sobre o mal. O mal está na vontade, não na ignorância. No coração, não na inteligência ou no espírito. No ódio, não na tolice. O mal não é um erro, que não é nada; o mal é egoísmo, maldade, crueldade… É por isso, aliás, que ele reclama o perdão, com o qual o erro nada tem a ver. “Desculpa-se o ignorante, mas perdoa-se o mau.” Apenas a vontade é culpada, apenas ela pode sê-lo: ela é o único objeto legítimo do rancor, e portanto da misericórdia. Não queremos mal à chuva que cai, nem ao raio que fulmina, e por conseguinte nada temos que lhes perdoar. Ninguém é mau involuntariamente, e apenas os maus podem depender do
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André Comte -Sponville
perdão. O perdão só se dirige à liberdade, como só pode nascer de uma liberdade: livre graça, por uma livre falta.
Sim, mas que liberdade? Liberdade de agir, claro: é a vontade que é culpada, e uma ação só o é se voluntária. Um dançarino pisa no seu pé, sem querer: não é maldade, é mau jeito. Ele lhe pede desculpas, que você aceita de bom grado: não é perdão, é polidez. Só se tem motivo de perdoar quem agiu de propósito, como se diz, portanto quem fez o que queria, em outras palavras quem agiu livremente. Liberdade de ação: ser livre, nesse sentido, é fazer o que se quer. Quanto a saber se ele era livre não apenas para fazê-lo, mas também para querê-lo, portanto se poderia querer outra coisa, é uma questão insolúvel, que já não tem por objeto a liberdade de ação, que todos podem constatar, mas a liberdade da vontade (o livre-arbítrio), que está fora do alcance das provas e da experiência (pois só se poderia experimentá-la querendo-se uma coisa diferente da que se quer). Dessa liberdade, os antigos, salvo às vezes Platão, não se ocuparam, pois eles não buscavam um culpado absoluto para um castigo eterno. Isso não os impedia, acabo de recordá-lo a propósito dos estóicos, de opor a piedade à cólera, a justiça à vingança, enfim a misericórdia ao rancor. Seria preciso, a pretexto de nos preocuparmos mais com nossa culpa, que nos tornássemos incapazes de perdoar? Como subordinar uma decisão a uma questão insolúvel?
Como a propósito da generosidade, não quero tratar aqui do problema do livre-arbítrio. A virtude não poderia depender desta ou daquela tese metafísica. Direi simplesmente o seguinte: quer o mau tenha escolhido livremente sê-lo, quer tenha se tornado mau necessariamente (devido ao seu corpo, à sua infância, à sua educação, à sua história…), não é menos mau por isso, em todo caso é responsável por seus atos, pois agiu voluntariamente. Por isso pode ser punido, se for preciso, odiado até, se se quiser. Todavia são duas coisas diferentes. O castigo pode ser justificado por sua utilidade, social ou individual, e até por certa idéia que se tem da justiça (“Ele matou, é justo matá-lo…”). Mas e o ódio? É apenas uma tristeza a mais, e não no culpado, mas em quem a sente. Para quê? Principalmente, se o mau é o que é, e quer o seja livremente, quer não, sua própria maldade é uma espécie de desculpa: seja pelas causas que a provocam, se é uma maldade determinada, seja por esse amor ao mal, por essa vontade intrinsecamente má, em suma, por si mesma, se é maldade livre. É culpa dele ser mau? Sim, dir-se-á, pois ele escolheu o ser! Mas será que o teria escolhido, se já não fosse mau? Pois supor que ele tenha escolhido o mal quando preferia o bem é supô-lo louco e, com isso, mais uma vez inocentá-lo. Em suma, cada um é culpado por seus atos, e ainda que fosse culpado também por si (tendo escolhido
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