Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
ou despropositada – trata-se de amar nossos inimigos, se pudermos, ou de perdoá-los, se não pudermos.
Cristo ou santo Estevão deram o exemplo, a crermos na tradição, desse perdão sem preliminares nem condições; desse perdão que não espera que o mau o seja menos (pois ele lamentaria tê-lo sido) para o perdoar, desse perdão que é verdadeiramente um dom, e não uma troca (meu perdão contra seu arrependimento), desse perdão incondicional, desse perdão em pura perda, se quisermos, mas que é, contudo, contra o ódio, a maior vitória, e a única talvez, desse perdão que nunca esquece mas que compreende, que não apaga mas que aceita, desse perdão que não renuncia nem ao combate nem à paz, nem a si nem ao outro, nem à lucidez nem à misericórdia! Estou plenamente de acordo com que esses exemplos nos excedem. Mas isso acaso impede que nos esclareçam?
Não é, no entanto, que as Escrituras possam fazer as vezes de sabedoria, nem que tenham resposta para tudo, nem que eu as aprove por inteiro (mesmo deixando de lado a religião). Não estou disposto a oferecer a outra face, e contra a violência prefiro o gládio à fraqueza. Amar nossos inimigos supõe que os tenhamos (como poderíamos amar o que não existe?). Mas termos inimigos não supõe necessariamente que os odiemos. O amor é uma alegria, não uma impotência ou um abandono: amar os inimigos não é cessar de combatê-los; é combatê-los alegremente.
A misericórdia é a virtude do perdão, e seu segredo, e sua verdade. Ela não abole a falta mas o rancor, não a lembrança mas a cólera, não o combate mas o ódio. Ela ainda não é amor mas o que faz as vezes dele, quando ele é impossível, ou que o prepara, quando ele seria prematuro. Virtude de segunda ordem, se quisermos, mas de primeira urgência, e por isso tão necessária! Máxima da misericórdia: se não podes amar, cessa ao menos de odiar.
Notar-se-á que a misericórdia pode ter por objeto tanto as faltas como as ofensas. Tal hesitação é bem reveladora de nossa pequenez, que sempre condena o que nos condena, para a qual toda ofensa é uma falta, para a qual toda afronta é condenável. Assim é, e é preciso que se saiba. Misericórdia para todos, e para nós mesmos.
Por ser o ódio uma tristeza, a misericórdia (como o trabalho do luto, com o qual ela se parece e de que talvez dependa: perdoar é fazer o luto de seu ódio); por ser o ódio uma tristeza, dizia, a misericórdia está do mesmo lado da alegria: sem ainda ser alegre, e nesse caso é perdão, ou já sendo, e nesse caso é amor. Virtude mediadora, ou de transição. No fim, porém, para quem puder chegar a ele, não
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André Comte -Sponville
há nada mais a perdoar: a misericórdia triunfa nessa paz (adeus ódio! Adeus cólera!) em que o perdão culmina e se abole. Misericórdia infinita, como é o mal, ou que deveria sê-lo, e por isso fora de nosso alcance, sem dúvida. Mas já é uma virtude esforçar-se nesse sentido: a misericórdia é o caminho, que inclui até mesmo os que fracassam nela. Perdoa-te, minh’alma, teus ódios e tuas cóleras.
Podemos perdoar a nós mesmos? Claro, pois podemos nos odiar e cessar de nos odiar. Senão, que sabedoria? Que felicidade? Que paz? Temos de nos perdoar por sermos apenas nós… E nos perdoar também, quando pudermos, sem injustiça, por ser o ódio às vezes forte demais, ou o sofrimento, ou a cólera, para que possamos perdoar a este ou aquele de nossos inimigos… Felizes os misericordiosos, que combatem sem ódio ou odeiam sem remorso!
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