Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
outro, se nossa taxa de colesterol exceder 5,35.” Outras vezes enfim ( enfim, porque vou parar, mas poderia continuar, é claro, indefinidamente: sempre há um sentido a questionar, sempre uma seriedade a afastar), outras vezes, dizia para concluir, são nossas esperanças que desvendam o que eles têm de problemático (“a eternidade é longa, principalmente quando vai chegando ao fim”), de sórdido (“Se pelo menos Deus quisesse me dar um indício de sua existência… Se me depositasse uma boa grana num banco suíço, por exemplo!”) ou de improvável (“Não apenas Deus não existe, mas tentem encontrar um encanador no fim de semana!”)… Segui aqui Woody Allen – a todo senhor toda honra. Freud, que não teve a sorte de conhecê-lo, o teria apreciado, creio eu – Freud que gostava de evocar este anúncio de uma agência funerária americana: “Por que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?” Ele acrescentava o seguinte comentário: “Quando nos interrogamos sobre o sentido e o valor da vida, estamos doentes, pois nem um nem outro existem objetivamente…” É o que o humor manifesta e com o que se diverte, em vez de chorar.
Isso torna a coincidir com Kierkegaard: “Cansado do tempo e de sua sucessão sem fim, o humorista dele se afasta de um pulo e encontra um alívio humorístico em constatar o absurdo.” Mas, para Kierkegaard, isso era menos a verdade do humor do que sua “falsificação”, sua “retratação” ou “revogação”, pelo que o humor trai sua verdadeira vocação, que é conduzir do ético ao religioso, de ser assim “o último estágio da existência interior antes da fé”, de ser mesmo, como dizia Kierkegaard, o incognito da religiosidade na ética, assim como a ironia era o incognito da ética na estética! Não acredito nem um pouco nisso, é claro. Se é verdade que o humor questiona a seriedade da ética, relativiza essa seriedade, desconfia dela, diverte-se com sua vaidade, suas pretensões, etc., de outro também questiona a seriedade do esteta, quando há seriedade (no esnobe, no mulherengo…), ou a seriedade mais freqüente, mais essencial, do homem religioso. Rir da ética em nome de um sentido superior (por exemplo, em nome da fé), não seria humor, seria ironia. O humor rirá antes da ética (ou da estética, ou da religião…) em nome de um sentido inferior, logo (tendencialmente) em nome do disparate ou, simplesmente, da verdade. Por exemplo, esta, que é de Pierre Desproges: “O Senhor disse: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo.’ Pessoalmente, prefiro a mim mesmo, mas não introduzirei minhas opiniões pessoais nesse debate.” Ou esta, que é de Woody Allen: “Sempre obcecado pela idéia da morte, medito constantemente. Não cesso de me perguntar se existe uma vida ulterior, e, se houver uma, será que nela poderão me trocar uma nota de vinte dólares?” Somente a verdade é engraçada, em todo caso humorística, só ela pode sê-lo, e é por isso que o disparate tantas vezes nos diverte: porque nada é
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André Comte -Sponville
verdadeiro no sentido, a não ser pela seriedade que lhe damos e que o humor não suprime (pois não se pode gracejar sempre, pois não se deve, pois o humor supõe, para rir do sentido, que o sentido seja de certa forma mantido), mas relativiza, alivia, afasta, fragiliza de forma feliz, em relação à qual, enfim, ele nos liberta (pois se pode gracejar de tudo) sem a abolir (já que o humor deixa o real imutado e já que nossos desejos, nossas crenças, nossas ilusões fazem parte dele). O humor é uma desilusão alegre. É nisso que é duplamente virtuoso, ou pode sê-lo: como desilusão, tem a ver com a lucidez (portanto da boa-fé); como alegria, tem a ver com o amor, e com tudo.
O espírito, repitamos com Alain, zomba de tudo. Quando zomba do que detesta ou despreza, é ironia. Quando zomba do que ama ou estima, é humor. O que mais amo, o que estimo mais facilmente? “Eu mesmo”, como dizia Desproges. Isso diz o suficiente sobre a grandeza do humor, e sobre sua raridade. Como não seria uma virtude?
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