Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
amor, pois é feliz. Ou, se esses dois amores podem se mesclar, como todos já experimentamos, isso confirma que são diferentes. Há o amor que sofremos, é paixão; há o amor que fazemos ou damos, é ação. Onde já se viu a ereção ser uma falta? Onde já se viu todo amor ser um sofrimento?
Podemos multiplicar os exemplos. O pai só é pai, notava Sócrates, quando tem um filho. Muito bem. Mas então: o pai ama seu filho, que não lhe falta! Ele o amava antes de tê-lo, claro, em todo caso é possível, ele o desejava, o esperava, talvez até estivesse com falta de filho, como se diz, ele amava o filho que lhe faltava, aí está, ele tinha a paixão de gerar, ele tinha o eros paterno… Amor imaginário: objeto imaginário. Amava o filho sonhado, e era apenas o sonho de um amor. Sonho feliz, enquanto se imagina satisfeito, depois doloroso, se dura. Quantos sofrimentos, quantas frustrações, se o filho não vem! Mas e se ele vem, e se está ali? Pode acontecer, mas não é, evidentemente, o mais comum. A maioria dos pais aprenderá antes a amá-lo de outro modo, a amá-lo de verdade, isto é, tal como ele é, tal como ele vive, tal como cresce, tal como muda, tal como não falta… É passar do amor ao filho sonhado ao amor ao filho real, e isso nunca acaba. Todos os pais sabem que isso é ao mesmo tempo necessário e difícil, que não há amor (ao real) sem uma parte de luto (do imaginário), e que, na verdade, não se passa de um a outro, do filho sonhado ao filho real, mas que esses dois amores se misturam, se somam um ao outro, sem no entanto se confundirem totalmente. Porque a imaginação permanece. A falta permanece. Ninguém se liberta sem mais nem menos de Platão ou de Eros. O pai, como qualquer um e como diria Platão, deseja “ter também no futuro” o que tem no presente: deseja, pois, o que não tem (pois o futuro, por definição, está ausente) e que lhe falta. Ele deseja que o filho corresponda ao que dele espera, com o que o filho não se preocupa, e sobretudo que viva, meu Deus, que viva, com o que a vida não se preocupa. Eis o pai no temor e nos tremores da paixão: Eros o domina, não o larga mais. Que pai não tem esperanças, que pai não tem angústias? Mas quem não vê que isso não é a totalidade de seu amor, nem sua melhor parte, nem a mais viva, nem a mais verdadeira, nem a mais livre, nem a mais feliz? Pobre pai, pobre amor (e pobre filho!), se só amasse o filho por vir, a conservação do filho, como diria Platão, em outras palavras, se só amasse aquilo de que a morte, a todo instante, pode privá-lo, o que estou dizendo, de que o privará necessariamente (“queira o céu”, pensa o pai, “que seja pela minha morte!”), de que já o priva, pois é o filho que falta, pois é o filho que não existe, pois é o filho como sonho e como nada, pois é o filho da angústia, como um grande buraco no ser ou na felicidade, e esse nó na garganta, e essa vontade súbita de chorar… Esse amor existe sim, repitamos: é o amor apaixonado do pai por seu filho, com
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André Comte -Sponville
seu quinhão de esperanças e de temores, que o encerra, como toda paixão, que pode também encerrar o filho, que entrega os dois à angústia, ao imaginário, ao nada… Esse amor existe, mas enfim não é o único: o pai também ama o filho tal como é, tal como não falta, o filho atual e presente, o filho vivo, contra o qual a morte nada pode, nem a angústia, nem o nada, cuja própria fragilidade tem algo de indestrutível ou de eterno, apesar da morte, apesar do tempo, algo absolutamente simples e absolutamente vivo, que o pai às vezes sabe acompanhar simplesmente, e que o apazigua, o tranqüiliza, estranhamente, sim, que o tranqüiliza, e que o rejubila…
Contra a angústia? O real. Contra a falta? A alegria. Ainda é amor, mas já não é Eros. É o que, então?
E com nossos amigos? Que tristeza, se fosse necessário só amá-los ausentes ou faltando! É exatamente o contrário que é verdade, por isso, a amizade se distingue em muito da paixão: aqui não há falta, não há angústia, não há ciúme, não há sofrimento. Amamos os amigos que temos, como são, como não faltam. Platão não escreveu nada de importante sobre a amizade, e não é por acaso. Aristóteles, ao contrário, disse o essencial, em dois livros sublimes da Ética a Nicômaco . O essencial? Que sem a amizade a vida seria um erro. Que a amizade é condição da felicidade, refúgio contra a infelicidade, que é ao mesmo tempo útil, agradável e boa. Que é “desejável por ela mesma” e “consiste antes em amar que em ser amado”. Que é inseparável de uma espécie de igualdade, que a precede ou que ela instaura. Que vale mais que a justiça, e a inclui, que é ao mesmo tempo sua mais elevada expressão e sua superação. Que não é nem falta nem fusão, mas comunidade, partilha, fidelidade. Que os amigos se rejubilam uns aos outros, e com sua amizade. Que não se pode ser amigo de todos, nem da maioria. Que a mais elevada amizade não é uma paixão, mas uma virtude. Enfim, mas isso resume tudo, que “amar [é] a virtude dos amigos”. De fato, é ainda amor (um amigo que não amaríamos não seria um amigo), mas não é uma falta, não é Eros. Então, é o quê?
Precisamos de outra definição, e eis-nos em Spinoza. O amor é desejo, claro, pois o desejo é a própria essência do homem. Mas o desejo não é falta: o desejo é potência, o amor é alegria. É daí que temos que partir, ou tornar a partir.
Fala-se de potência sexual, e isso diz algo importante. O quê? Que o desejo, falte-lhe ou não seu objeto, não poderia reduzir-se a essa falta eventual, que ele também é, e antes de tudo, uma força, uma energia, uma potência, como diz efetivamente Spinoza: é potência de gozar e gozo em potencial. Isso é verdade para o desejo sexual, mas não apenas para ele. Todo desejo, para Spinoza, é
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