Qualquer Outro Lugar
Capítulo 7
7
Ilusões
O ódio de Morfeu m e atinge com o um soco, um a pulsação agonizante que se equipara à contusão onde a rocha se proj eta para dentro de m inhas costelas.
— O fato de você estar aqui não m uda nada — ele diz, fervendo de raiva. — Você fez a cam a. Agora, deite-se nela. — Não desperdiça m ais nenhum a palavra, não pergunta com o cheguei aqui nem m enciona m eu nom e. Sim plesm ente em purra a pedra para o lado para que ela não fique entre nós.
Eu m e curvo num a bola. O que poderia esperar? Destruí o lar que ele am a e depois o m andei para o m undo do espelho para apodrecer sem sua m agia. Ele não poderia m e receber nos braços e dizer quanto sentiu m inha falta.
Não que ele não tenha tido participação nesse pesadelo, também.
Um pedido de desculpas bate de frente com m inha j usta indignação. É m elhor que as palavras fiquem presas em m inha garganta dorm ente. Haverá tem po para quebrar as barreiras de Morfeu depois. Neste m om ento, preciso encontrar papai e m e certificar de que ele estej a bem . Depois, vam os procurar Jeb — que, certam ente, terá a m esm a reação ao fato de eu estar aqui.
Procuro o diário e a chave no m eu pescoço para garantir que estão a salvo por baixo das roupas. Estou prestes a ficar de pé e a cam inhar através das árvores secas quando Morfeu se levanta e dá as costas e asas para m im .
— Eu disse: volte para sua cam a de cinzas. — Ele cutuca a pedra com a bengala. — Você não tem perm issão para m e seguir a m enos que eu sinalize.
Baixo a cabeça. Estendo um braço e olho através dele. Ainda estou invisível. Morfeu não sabe que estou aqui. Ele estava falando com a pedra o tem po todo. Fico de pé o m ais silenciosam ente que consigo e estico os m úsculos doloridos.
— Nós só g-g-gostaríam os de saber — a pedra responde para Morfeu, com um a boca que surge por baixo da superfície branca e em poeirada — se nosso m ais g-gracioso rei pensou em nosso p-pedido de nos aj udar a recuperar nossos ovos.
— Essa é nossa única pergunta — acrescentam cerca de trinta pedras m enores, articulando os lábios em poeirados. — Se o senhor vai salvar nossos ovos.
— Vam os colocar isso em perspectiva. — Morfeu ergue as asas sobre sua escarpada plateia. — Foram vocês que perderam os ovos por descuido, deixando-os sozinhos para poderem nadar um pouquinho em um oceano tem porário. Agora, eu disse que pensaria em aj udar vocês. Pensar, por definição, é avaliar os fatos e m editar sobre os resultados. Isso leva tem po. Até m esm o cabeças de pedra fuj onas que nem vocês conseguem com preender que eu vim aqui hoj e porque queria ficar só, um sentim ento raro quando se tem sem pre a própria som bra por trás. Finalm ente encontrei um ponto sem sol, o lugar perfeito para m editação. Então, vão em bora.
As pedras continuam no lugar. Usando a ponta com garras da bengala, Morfeu cutuca um a que rolou para m ais perto.
— Talvez seu cérebro tenha se fossilizado — ele grunhe. — Você realm ente desej a se desentender com o único que tem m agia suficiente para transform ar seus ovos em poeira?
Um a luz púrpura trem e na ponta dos dedos de Morfeu que seguram a bengala. A estática desce pela haste e pula das patas do leão para o chão, com o um raio violeta.
Eu tapo a boca com um a m ão, tarde dem ais para abafar um gem ido.
Os m úsculos de Morfeu se retesam e ele olha para trás, m as as pedras voltam a cham ar sua atenção.
— Ah, não. Nós não que-que-querem os nossos ovos esm agados — a criatura pedregosa m aior responde. — P-p-por favor. — Seis pernas de lagosta e dois olhos de contas saltam de seu corpo. As outras pedras fazem o m esm o, libertando os m em bros e os olhos, lem brando-m e da lagosta de pedra da história de Carroll.
Lam entando-se, as pedras rastej am para trás, form ando um a onda, a fim de evitar o brilho m ágico e crepitante que se arrasta em sua direção saindo das m ãos e da bengala de Morfeu. Suas pinças dianteiras cortam as cinzas, j ogando um a névoa branca sobre os raios de m agia violeta.
Eu estreito os olhos. Então Morfeu é o único a ostentar seus poderes sob a cúpula de ferro? É m elhor que sej a ele do que a Verm elha, m as com o ele está usando a m agia sem ser distorcido por ela? Teria sido o ferro que tornou sua m agia púrpura em vez de azul?
— Por favor! — as lagostas de pedra im ploram em uníssono.
— Muito bem — Morfeu diz, rebobinando os fios encantados, que sobem pela bengala até desaparecerem dentro de seus dedos. — Deixe que seu rei analise a questão. Quando um a decisão for tom ada, cham arei vocês. Está claro?
— Sim , m -m -m uito claro. — A cor da pedra m aior vai esm aecendo até ela ficar quase transparente, com o se fosse feita de cristal. Sua concha é com o um a pérola trem eluzindo sob o céu laranj a. As pedras m enores a seguem , arrastando-se até a colina e enterrando-se na pilha de cinzas até todas ficarem tão escondidas quanto eu.
— Maldito reino — diz Morfeu. Ele apoia a bengala nas quatro patas, tira do bolso um par de luvas e as veste. — Tudo e todos desej am um pedaço do bolo real. Até a paisagem tem intenções.
Eu contenho um sorriso. Ele está igualzinho a quando foi sugado para cá — narcisista, desconcertantem ente irritável e inteligente. Fico feliz que tenha encontrado um m odo de reinar sobre as criaturas daqui. Mesm o que seus poderes tenham causado inquietação entre os prisioneiros e problem as aos parentes de papai, pelo m enos o m antiveram vivo.
Ele se vira para ir em bora, acariciando as penas da bengala enquanto anda.
Esforço-m e para tirar o sim ulacro do rosto e das m ãos, m as ele gruda na m inha pele suada. Deixo as palm as das m ãos caírem para o lado, concentrando-m e em m inhas roupas. Quem sabe, se eu m entalizar o que estou usando por baixo, isso reverta a m agia que m e deixou invisível.
— Morfeu, espere. — Minha voz é fraca e sai com o um sussurro. Mesm o assim , ele se detém .
Silêncio... nada além de sua respiração. Cinzas se revolvem sob um giro de seu calcanhar. Estendo a palm a da m ão para ele, transparente com um contorno vagam ente distinguível.
— Tem alguém aí? — Morfeu estreita os olhos.
Um a m ão segura m eu om bro por trás. Eu a sinto, m as não a vej o.
— Allie. — O sussurro de papai roça m inha orelha. — Não se m ostre.
Eu agarro sua m ão, aliviada por ele estar a salvo. Antes que eu possa responder, o chão trem e, abrindo-se feito pedaços de um quebra-cabeça. O braço de papai m e envolve com força e nós dois cam baleam os no lugar. Em um instante, o terreno se m ovim enta e fica rachado. Água borbulha pelas frestas, enchendo os veios entre nós. Minúsculos gêiseres esguicham — do tam anho do j orro de um bebedouro.
As árvores, a colina, Morfeu, eu e papai — estam os todos flutuando em nossas próprias ilhas em m iniatura.
O ar quente e suave sopra em raj adas, com a um idade aum entando.
— Mas que droga — Morfeu resm unga, com as asas esticadas bem baixo para estabilizar o fragm ento de terra sob os pés. Ele levanta o rosto para o céu quando este se torna cinza. — Sério? — Grita para ninguém em especial. — Gêiseres? Esta é sua noção de piada?
Arrasto m eu pé para perto do pé de papai, equilibrada em nossa ilha flutuante, tentando entender o sentido da tirada de Morfeu. Um zum bido m ecânico surge acim a de nós à m edida que um bando de pássaros gigantes vai aparecendo. Em vez de usar suas asas, eles estão agarrados a som brinhas de renda com estam pas florais de cores vivas que rodopiam para erguer os pássaros. Cada um deles parece um a Mary Poppins m onstruosa pairando no céu. Para descerem , as som brinhas se invertem e as criaturas-pássaros se chocam com a água. O esguicho atravessa o sim ulacro e atinge m inhas roupas. Sinto o calor na pele.
A m aioria dos pássaros abandona as som brinhas, usando o bico para içar os fum egantes corpos em plum ados da água. Alguns levam as som brinhas j unto.
Em bora alguns se pareçam com patos e outros com filhotes de águia-pesqueira, são horrorosam ente deform ados: do tam anho de gorilas, com quatro braços peludos e m ãos ligadas a dois pares de asas. As costas são retorcidas e nodosas, fazendo com que coxeiem ao andar.
Papai m e puxa para m ais perto. Nossa ilha flutuante balança quando três pássaros passam m ancando em suas pernas de avestruz. Algo m e diz que eles não nos perceberiam nem se estivéssem os visíveis, pois seu olhar está fixo em Morfeu.
Ele perm anece no lugar enquanto sete criaturas batem as asas para pular os fossos e o cercam , estalando os bicos afiados. Mais cinco sobem a colina onde as lagostas de pedra se escondem .
— Ora, ora. — Morfeu sorri com prazer. — Se não é o bando dos patetas. Um a entrada e tanto. Vej o que estão fazendo o possível para controlar suas m utações. Mas tem o que o verdadeiro estrago j á tenha sido feito. Eu realm ente espero que vocês não tenham vindo buscar conselhos de m oda. Não há estilo ou charm e que consigam esconder tanta feiura.
— Cale a boca — grasna um pássaro que parece m ais um m artim -pescador. — Você não será tão petulante depois de saber que o Manti descobriu seu ponto fraco.
— Sim , ponto fraco. — Um a criatura sem elhante a um filhote de águia estala o bico perto da orelha de Morfeu, deixando um arranhão verm elho no lóbulo. Morfeu se retrai, m as não recua. Ele praticou m agia agora há pouco. Por que não voa e escapa? Tento m e libertar de papai, m as ele m e prende com m ais força.
— Essa luta não é sua — ele sussurra, quase inaudível em m eio ao farfalhar de penas m olhadas e gêiseres borbulhantes.
Eu reprim o um grunhido.
— Acabou a farsa, rapaz — um a águia-pesqueira diz, puxando a lapela de Morfeu com a m ão de m acaco m olhada. A bengala escorrega da m ão dele. — Manti andou espionando você. Ele sabe que você desaparece depois de seus truques m ágicos para se recarregar. O que ele quer saber é como você se recarrega e como usa sua m agia sem que ela o afete. — A águia olha para o casaco de Morfeu onde o tecido que ela havia agarrado se desintegrou, deixando um buraco. — Com o isso aconteceu?
Morfeu sorri com desdém .
— Parece que m inhas roupas têm aversão ao seu toque pegaj oso e escolhem evitar isso a todo custo.
Meu corpo trem e em um riso involuntário. Papai aperta m eu om bro novam ente — um alerta.
A águia se inclina para m ais perto do rosto de Morfeu.
— É m elhor ir parando com essa gaiatice. Manti não tem o nosso senso de hum or.
Morfeu estala a língua.
— Bem , então talvez devêssem os deixar isso para outra tarde qualquer. Estou m e sentindo particularm ente espirituoso hoj e. Agora, se m e dão licença, vou pegar m inha bengala...
— Não vai, não. — O m utante m artim -pescador se aproxim a. — Nós m andam os as lagostas de pedra para drenar sua m agia em troca dos ovos. Você está sem carga. Então, não tem escolha a não ser vir conosco e responder às perguntas de Manti.
Morfeu olha para o alto da colina, onde as outras criaturas-pássaros estão pegando as pedras com o que parecem ser cordões de pérolas do tam anho de bolas de beisebol. Seus dedos enluvados batem na coxa.
— Crustaceozinhos traidores. Eu deveria saber que eles estavam m al-intencionados. — Ele dá as costas para seus captores. — Então, seu chefe gostaria de entrar na com petição, não é?
— Foi você quem insistiu em balançar o barco e form ar um a ditadura real. Todos nós sabem os que a coroa pertence a Manti. Ele j á era o valete da rainha antes de eles serem exilados aqui. Há séculos. Você acha m esm o que poderia se tornar rei sem outro candidato para desafiá-lo? — A águia-pesqueira chuta a bengala de Morfeu, fazendo suas penas esvoaçarem . — Não. A Rainha de Copas m arcou a Festa de Consagração para depois de am anhã, e haverá um a corrida eleitoral para eleger um rei oficial. Quem vencer a corrida reinará ao lado da rainha. E os derrotados perderão seu coração pulsante.
— É as regras — diz um pássaro com bico de pato, zom bando e balançando a som brinha diante do rosto de Morfeu. — Criadas pela própria rainha.
— É as regras? — Morfeu diz com um sorriso profundo e suave. — Você precisa m elhorar suas táticas de intim idação, Patolino. Gram ática incorreta usada por um pássaro troglodita carregando um a som brinha de renda não surte bem o efeito esperado.
Os sete pássaros o atacam , derrubando-o no chão.
Eu luto contra papai, m as ele se recusa a m e soltar.
— Nada de com ê-lo! — diz a criatura com bico de pato. — O chefe m andou!
— Ele tem razão — a águia-pesqueira grunhe para os com panheiros. — Manti ordenou que o levássem os vivo. Mas ele não foi m uito específico. Quase vivo está bom para vocês, cavalheiros?
Todos grasnam , concordando, atacando o corpo inclinado de Morfeu. Alguns batem com suas som brinhas; outros usam seus m últiplos punhos.
Sem conseguir m e libertar de papai, eu grito até m inha garganta despertar com pletam ente. Ao m e ouvirem , os pássaros olham para trás dos próprios om bros em plum ados. Tiro o sim ulacro no m om ento em que as m ãos de Morfeu se soltam da distraída pilha de penas. Ele estala os dedos enluvados e as asas da bengala se abrem .
A bengala se transform a em um grifo vivo — cabeça e asas de águia, com o corpo coberto de pelos dourados e patas de um enorm e leão. Com um rugido, a besta voa na direção do bando, m ergulhando sobre os pássaros.
Morfeu rola para fora da confusão e se levanta. Mais buracos decoram seu casaco agora, j unto a alguns na cam isa, onde o peito liso fica à m ostra. Mesm o em suas calças há buracos, com o se o conj unto tivesse passado algum tem po pendurado em um arm ário infestado de traças. Ele pega o chapéu e o espana com a m ão. Seus olhos grudam nos m eus. O calor m e sobe às bochechas quando ele lim pa o rosto m anchado com um lenço.
Os sete pássaros não se m exem diante do grifo. Rosnando um alerta, a criatura m itológica ganha o céu, indo atrás dos outros cinco pássaros e das lagostas de pedra até todos desaparecerem sobre a colina.
Enquanto papai tenta se livrar de seu sim ulacro, Morfeu sustenta nosso olhar. Ele guarda o lenço, a expressão em algum ponto entre o fascínio e o orgulho. É difícil dizer com exatidão, porque as j oias sob seus olhos estão piscando com incontáveis em oções.
— Minha Rainha — ele finalm ente fala, e sua voz costum eiram ente forte dem onstra um ínfim o trem or.
— Meu lacaio. — Eu nem pisco, retribuindo a indiferença. — Não parece surpreso por m e ver aqui.
— Ah, eu sabia que encontraria um m odo. Era só um a questão de tem po. Na verdade, você chegou antes do que eu esperava. — Ele gesticula, indicando o entorno. — Daí, o deplorável estado de m inha casa.
— Bons criados são difíceis de achar — eu provoco.
Suas íris pretas com o tinta cintilam feito ônix, e um sorriso aponta em seus lábios. Não consigo resistir m ais um segundo, e sorrio em resposta. O m om ento é quebrado por sete pássaros m utantes que surgem acim a dele.
— Cuidado! — eu grito.
Quatro o atacam . Os outros três voam na nossa direção.
— Allie, abaixe-se! — Papai abre a bolsa de viagem .
Um dos pássaros investe contra a cabeça de papai. Os outros dois colidem em pleno ar e despencam no chão. Papai se defende com um a adaga de ferro em um a m ão e um m angual na outra. Trocando os pés com destreza, ele gira a bola com pontas de ferro e arranca um pedaço do bico do atacante.
Os dois pássaros do chão rolam de encontro a papai, fazendo-o cair de j oelhos. Ele solta um gem ido, esparram ado ao lado de garrafas de água e barras de proteína. A captura de m am ãe surge em flashes na m inha cabeça, em dores vivas e pulsantes.
A loucura por baixo da superfície de m inha pele desperta. Concentro-m e nos gêiseres em m iniatura m ais próxim os de nós, m entalizando-os com o línguas que se desenrolam das bocas de serpentes. As cascatas crescem até ficarem grandes o suficiente para estalar no ar e arrebatar os atacantes de papai, capturando o pássaro com o bico ferido em seu retorno. As línguas líquidas puxam os pássaros gigantes para os fossos e os subm ergem .
Papai cam baleia na beira da água, com a adaga em punho. Bolhas em ergem das profundezas e vão escasseando aos poucos.
— Aly ssa — ele cham a.
Não m e im porto com o fato de ele ter usado m eu nom e por extenso nem com a preocupação em sua voz.
Em vez disso, perm ito que as espirais da loucura rastej em sobre m inha com paixão hum ana — enj aulando-a para que fique alheia às m inhas ações. Então, olho fixam ente para as bolhas, com andando que o ar se dissipe, aguardando que os pulm ões dos pássaros sucum bam . Desej ando sua m orte.
— Você nunca m atou ninguém , Allie. Certifique-se de que essa é a única m aneira. De outro m odo, isso vai assom brá-la... — A lógica de papai m e desperta.
Um a pontada de noj o revolta m eu estôm ago.
Ele está errado. Eu m atei. Houve tantos insetos em m inha vida que eu poderia encher um elevador de grãos com os corpos, se não os tivesse usado em m eus m osaicos. Tam bém contribuí para a m orte de inúm eros guardas de cartas e pássaros j ubj ub no País das Maravilhas, sem falar no octopolvo.
Já chega. Por enquanto.
Com um com ando silencioso, ressuscito os gêiseres. Eles se erguem , carregando os pássaros m utantes para o alto. Um esguicho quente m e açoita enquanto conduzo a água cascateante para a árvore m ais próxim a, im aginando que seus ram os estéreis são pétalas de flor. A água estatela seus passageiros dentro dela, e os ram os se fecham à sua volta, deixando m eus prisioneiros ensopados e arfantes de cara para m im . Os gêiseres voltam a afundar nos fossos.
— Essa é a m inha m enina — papai diz.
O poder que estou aprendendo a exercer m e assusta, m as não o suficiente para m e fazer parar e analisar a situação. E isso m e assusta ainda m ais.
Viro-m e para ver com o está Morfeu. O grifo voltou e segura os quatro pássaros restantes sob as garras gigantes. Há sangue pingando delas, o que não deixa dúvida quanto ao destino dos cinco pássaros que ele perseguiu na colina.
Morfeu coloca-se diante dos cativos.
— Um a palavra m inha e m inha m ascote os cortará ao m eio, com o fez com seus com parsas.
A criatura com bico de pato em ite um som que é algo entre um chiado e um grasnido, e os outros trem em sob as garras afiadas que pressionam suas penas.
Morfeu agacha-se ao lado da águia-pesqueira.
— Os rapazes têm com a senhorita um a dívida de gratidão. — Ele arranca um a pena da cara feia do pássaro. — Com o estou tentando im pressioná-la, vou seguir seu exem plo e ser piedoso. Mas levem um a m ensagem para Manti, por favor. Digam -lhe que ele não tem a m enor chance de vencer nenhum a corrida se não pode nem travar suas batalhas pessoalm ente. — Morfeu traça o contorno do bico trêm ulo do pássaro com a ponta da pena. — Ah, e obrigado pela nova pena de escrever.
Com um sinal para o grifo, Morfeu levanta-se e os pássaros m utantes ganham a liberdade. Viro-m e para m eus prisioneiros na árvore e os solto tam bém . Com grasnidos e guinchos de derrota, eles se espalham pelo céu púrpura sem as som brinhas, tornando-se ainda m ais deform ados a cada bater de asas.
Dois deles com eçam a perder as penas. Os corpos se contorcem em pleno ar até eles não conseguirem m ais voar. Despencam das alturas. Nuvens de cinzas se agitam a distância, m arcando o contato.
— Estão m ortos? — pergunto.
— Estão — Morfeu responde com indiferença. — A derradeira consequência por continuarem usando m agia. Sua espinha enrolada e seu corpo m urcho e reduzido a um a carcaça inútil.
Aperto os dedos em torno do diário sob m inha túnica. As m em órias da Verm elha estão quietas e calm as por enquanto, m as sua presença m e traz à m ente várias perguntas.
— O que acontece com os espíritos deles? Vão procurar corpos para possuir?
Morfeu enfia a pena no bolso.
— Não é assim que funciona em Qualquer Outro Lugar. Quando você m orre, desaparece para sem pre. É um efeito do ferro. Cada parte de nós que continha m agia vira cinzas, do corpo ao espírito. Nossos restos são levados com o vento, form ando os ciclones que trazem e levam prisioneiros. — Seu rosto torna-se som brio. — Então, não hesite em m atar se for o único m odo de sobreviver, Aly ssa. Aqui, não.
Papai e eu trocam os olhares inquietos.
O grifo se esfrega na perna de Morfeu com o um gato gigante e em seguida volta a se transform ar na bengala. Morfeu a pega na m ão, lim pando o sangue das garras com o lenço.
— Agora eu entendo — digo ao observá-lo.
Os cílios negros de Morfeu se levantam , o interesse ilum inando os olhos.
— Entende o quê?
— Por que você precisa de um a bengala.
Ele ergue um a sobrancelha.
— Que bom que saciou sua curiosidade.
— Exceto pelo que aconteceu com suas roupas.
Olhando para seu conj unto, ele grunhe:
— Só lavagem a seco, oras. — Ele espana o casaco com a m ão, franzindo a testa para os buracos onde aparece sua pele.
— Morfeu.
Ele volta a olhar para m im .
— Com o é que você está usando m agia sem ser afetado, apesar da cúpula de ferro?
— Creio que m anterei essa resposta para m im , am orzinho. Se eu lhe contasse todos os m eus segredos, não haveria m ais m istérios em nosso relacionam ento.
— Não sou grande fã de m istérios.
Aquele sorriso m alandro que um dia eu odiei curva seus lábios e m inhas entranhas.
— Bobagem . Você adora. — Ele anda até a beira de sua m ini-ilha e usa a ponta com garras da bengala para puxar nossa ilha flutuante para m ais perto, evitando a água. — Você se delicia com o desafio de solucioná-los.
Ele pisa em nosso pedaço de terra e suas asas se erguem . Seu brilho negro e suave é o oposto do brilho das que tenho enfiadas na pele, incrustadas com j oias opacas. Sinto o arom a de tabaco. Está diferente de antes — m enos açucarado e m ais frutado, terreno —, com o carvão e am eixas.
— Pare bem aí — m eu pai grunhe quando os pés de Morfeu se detêm a poucos centím etros de m inhas botas.
— Papai, ele é m eu am igo e eu não o vej o há um m ês. — Não vou adm itir quanta saudade senti dele. Sei que não devo dar nenhum a vantagem a Morfeu. — Poderia nos dar um segundo, por favor?
Papai lança um olhar corrosivo da cabeça às asas de Morfeu.
— Nada de gracinhas — ele diz.
As j oias de Morfeu cintilam em um m alicioso púrpura-averm elhado, precursor de algum a réplica irônica que aguarda para saltar de sua língua. Eu lhe lanço um olhar de súplica e ele revira os olhos em resignação silenciosa.
Satisfeito, papai se afasta e se agacha para guardar os sim ulacros e as arm as na sacola de viagem .
— Jeb está vivo? — pergunto a Morfeu.
A cor branca desbota suas m arcas de j oias — a cor da indiferença.
— Eu não o m atei, se é isso que está sugerindo.
— Você sabe que não. Será que poderia, um a vez na vida, m e dar um a resposta direta?
Ele olha para o nebuloso céu cinza.
— Seu m ortal está vivo e bem . Na verdade, você certam ente o verá m uito em breve.
Lágrim as de alívio brotam em m eus olhos.
— Então, isso quer dizer que você sabe onde ele está? — É possível que Morfeu tenha acolhido e protegido Jeb, afinal?
Papai para de guardar as roupas na sacola, esperando pela resposta.
Estudando sua bengala, Morfeu grunhe:
— Eu sei onde ele está, sim . — Antes que eu possa responder, ele levanta os olhos e encara os m eus, as j oias agora de um tom verde-esm eralda. — Suponho que eu deveria ser grato porque não foi o nom e dele a prim eira coisa que saiu de sua boca.
O ciúm e e a m ágoa com que ele m e encara não são inesperados, m as o efeito que têm em m eu coração, sim . Provocam aquela m esm a sensação dilacerante e tortuosa que está se tornando m uito fam iliar. Controlo a respiração para abrandá-la.
— Eu fiquei com m uito m edo por vocês dois. Agora que sei que você está bem , é claro que preciso saber dele.
— Você poderia pelo m enos m e perguntar prim eiro com o m inha orelha está.
O pedido é quase côm ico. Morfeu — o m ais confiante e independente intraterreno do País das Maravilhas — está am uado, e isso o faz parecer um a criança... com o m eu com panheiro de brincadeiras de tantos anos atrás. Mais do que isso, ele parece o filho que tivem os na visão da Marfim , o que deflagra um a torrente de em oções à qual tenho m edo de dar um nom e.
O som dos passos de papai fica m ais fraco. Ele está recolhendo as garrafas de água e as barras de proteína para nos dar a privacidade que pedi.
Eu m e aproxim o e corro a ponta do dedo sobre o sangue seco na orelha de Morfeu.
— Está doendo? — sussurro.
Ele inclina a cabeça ao m eu toque.
— Arde um pouco — ele diz baixinho, e estuda m inha boca tão fixam ente que m eus lábios parecem ficar m ais pesados. Seu corpo inteiro se retesa, lim itando-se. Se estivéssem os sozinhos, eu não o reprim iria. — Você pode curar isso, sabe.
Suas palavras m e fazem perder o equilíbrio.
— Curar... o quê?
Ele enruga a testa por baixo da aba do chapéu.
— A dor.
Meu rosto fica quente com a ideia de curá-lo, e depois arde em cham as quando percebo que não é da dor na orelha que ele está falando.
Um a flutuação por baixo da pele em sua clavícula m e diz que sua pulsação está disparando, assim com o a m inha. Com eço a tirar a m ão, m as ele a apanha, pressionando a palm a contra seu rosto m acio. A ação ao m esm o tem po m e surpreende e m e conforta.
— Eu pensei que você estaria furioso — eu digo. — Porque m andei você para cá. Porque destruí a toca do coelho e negligenciei o País das Maravilhas. Eu arruinei tudo. — A confissão provoca um nó em m inhas entranhas.
Ele balança a cabeça.
— Você tom ou um a decisão de rainha ao enviar os m om irratos. E foi a decisão certa. Mesm o quando fazem os o que é certo, as consequências às vezes podem ser calam itosas. Pensar duas vezes a cada passo restringe o ím peto de avançar. Confie em si m esm a, perdoe-se e siga adiante.
Passo a ponta dos dedos em seu queixo. Há m uito tem po eu precisava ouvir essas palavras.
— Obrigada.
— O im portante é que você veio para consertar as coisas — ele diz. É um a observação, não um a pergunta.
Eu concordo.
Segurando m eu pulso, ele inclina a cabeça para que sua boca roce m inha m ão.
— Eu sem pre soube que viria — ele sussurra contra m inhas cicatrizes, suas j oias cintilando intensam ente em dourado, com o cintilaram há m ais de um ano no País das Maravilhas, na prim eira vez que ele disse essas palavras para m im , pouco antes de m e arrastar para um j ogo louco de desordem e política que quase m e m atou.
Mesm o assim , apesar da form a com o o perigo o atrai, de com o cresce dentro dele, ou talvez por causa disso, m eu lado obscuro e cruel am olece ao sentir seus lábios em m inha pele.
A adaga de papai se interpõe entre nós, a ponta pressionando a j ugular de Morfeu.
— Acabou o tem po.
Morfeu solta m inha m ão.
Eu aperto m eus dedos ao lado do corpo para as cicatrizes pararem de form igar.
— Papai, por favor. A faca não é necessária.
Com o queixo retesado feito granito, ele m e em purra para trás com o cotovelo. É só um pouco m ais baixo do que Morfeu, m as a j usta indignação que em ana dele com pensa a diferença de altura.
A pele de Morfeu se tinge de verde, um efeito do contato com o ferro. Então, por que a cúpula não lim ita sua m agia? Ele certam ente tem um segredo. E eu vou descobrir qual é.
A ideia do desafio m e provoca, com o Morfeu disse que faria. É m ais do que um a pequena inquietação saber que ele conhece tão bem o que m e m otiva.
— Você tem ideia do que fez com a m inha fam ília? — papai diz com raiva, tirando-m e da contem plação.
Morfeu conduz a ponta da adaga para seu om bro em lugar do pescoço nu.
— Acredito que tornei possível que você tivesse um a fam ília, em prim eiro lugar, Thom as. Um agradecim ento seria suficiente.
Papai escorrega a adaga de volta para o pescoço de Morfeu.
— Vam os fazer o seguinte: você vai nos levar até o Jeb e depois nos conduzir em segurança por este reino am aldiçoado até o portão do País das Maravilhas, para poderm os encontrar a Alison. — A ponta de m etal enruga a pele de Morfeu. — E depois, som ente depois, eu vou decidir se devo agradecer-lhe ou “cortá-lo ao m eio” e transform á-lo em um m onte de cinzas aos m eus pés.