Qualquer Outro Lugar
Capítulo 5
5
Ovos Beneditinos
— Não lam ente. — Sinto o hálito m orno de papai no alto da m inha cabeça. — É claro que queria ter conhecido m eus parentes. Mas não m udaria m ais nada. Se eu fosse um cavaleiro Branco, nunca teria conhecido sua m ãe. Você não teria nascido. E, só para deixar claro, não trocaria m inhas m eninas por nada de m undo algum . — Ele m e estala um beij o na cabeça.
Aconchego-m e, fazendo esforço para a voz sair firm e.
— Obrigada, papai — eu sussurro, sentindo-m e reconfortada pelo cheiro de giz de cera em sua cam iseta. Mesm o que ele consiga aceitar a guinada em seu passado, eu não consigo aceitar a que acontece no presente.
— O.k. — A voz dele retom a o tom grave e firm e enquanto m e afasta. — Deixe-m e olhar você. — Ele franze a testa enquanto passa o dedo no alto da m inha cabeça. — Aquele truque de cura funcionou m esm o. Você sangrou tanto que pensei que tinha sofrido um a concussão.
Ele deve ter ficado bem assustado ao m e ver penetrar na tem pestade e bater na árvore.
— Com o você sabia que eu podia ser curada?
— Eu não sabia. Queria levar você a um hospital, m as estávam os m uito pequenos e os cogum elos tinham desaparecido. — Ele retesa a m andíbula. — Pedi às borboletas que nos trouxessem até aqui. Eu esperava que elas com preendessem e que alguém na estalagem soubesse o que fazer.
Deve ter sido aterrorizante sentir-se tão im potente, ir contra a lógica e deixar-se levar pela fé no insensato. Papai tem m ais coragem do que m am ãe, e j am ais im aginam os isso.
Aperto seus braços.
— Você foi dem ais.
— Aquele gato-pássaro foi fantástico. — Papai abre m inhas m ãos e sente as cicatrizes. — Era isso que a sua m ãe estava tentando fazer quando você era pequena e ela m achucou suas m ãos. Por isso é que ela vivia dizendo que podia consertar você. Ela queria curar você. E eu a afastei. — Seus olhos cheios d’água encontram os m eus. — Sinto m uito, Allie.
— Você não sabia. Nós nunca contam os.
Ele franze a testa e a encosta na m inha.
— Bom , você pode se redim ir. Para com eçar, nunca m ais quero ver você se atirando no céu novam ente.
Sorrio para ele através das lágrim as.
— Ora, eu tenho asas.
Ele se inclina para trás.
— Sim , e elas são lindas. Mas não estavam funcionando m uito bem . — Ele olha sobre m eus om bros para a som bra que as finas asas lançam sobre o sofá. — Em bora pareçam m ais fortes do que foram naquela hora.
Agito-as. Não sinto dor. Até a da direita está forte. A m istura de Chessie deve ter curado m ais do que a m inha cabeça.
Agora vou poder voar, bem na hora de ir para Qualquer Outro Lugar.
Papai deve ver os pensam entos em m eu rosto, pois segura m eu queixo de novo.
— Você não é indestrutível, m esm o que tenha habilidades que as outras garotas não têm . Nada de se arriscar sem necessidade. Está bem ?
Assinto com a cabeça para tranquilizá-lo. Ele não entende quanto é necessário m e arriscar para consertar as coisas. E, o pior, não entende que estou com eçando a gostar disso.
— O que m ais? — pergunto, para m udar de assunto.
Ele deixa a m ão cair sobre o j oelho.
— O quê?
— Você disse “para com eçar”. Quer dizer que tem m ais.
As rugas de preocupação reaparecem em sua testa.
— Certo. É hora de você m e contar a verdade. Toda ela.
Meu estôm ago se aperta em um nó.
— São m uitos anos para recapitular. Por onde com eço?
— Desde o com ecinho. A história da sua m ãe. Com o Jeb se envolveu. Ele sabe o que você é? E aquela criatura com asas que m e carregou para fora do portal do País das Maravilhas. Qual é o papel dela?
— Nossa, papai. Isso é só o com ecinho?
— Isso m esm o.
— Um com ecinho enorm e, pelo j eito — eu brinco.
Seu sorriso m e encoraj a e conto tudo a ele. Desde o m om ento em que ouvi pela prim eira vez um a abelha e um a flor discutirem na enferm aria na quinta série até o sonho com Alice no País das Maravilhas aquela noite, e sobre o últim o verão, quando Jeb e eu entram os pela toca do coelho e fui coroada Rainha Verm elha depois de descobrir de quem m am ãe e eu descendíam os.
Vej o o rosto de m eu pai em palidecer, m as continuo. Afinal, ele tem de saber sobre m am ãe, com o ela própria quis ser rainha e desistiu de tudo por ele. E de com o Jeb sofreu lavagem cerebral, esquecendo-se do que passam os no País das Maravilhas, m as, assim que lem brou, lutou por m im e pelos hum anos na festa de form atura. E é por isso que ele está no m undo do espelho agora.
— Ah, não. Lá, não. — A expressão de papai se enche de pavor. — Fui tão duro com ele... quando ele disse que tinha escondido você depois daquele incidente na escola. Ele só estava tentando proteger os seus segredos.
— Está tudo bem . Ele sabia que você não teve intenção de m agoá-lo.
Papai balança a cabeça.
— Ele sem pre foi com o um filho para m im . Quando nos encontrarm os, vou m e acertar com ele. Prom eto.
— Sei disso, papai. — Gosto que ele diga quando, e não se. — Tam bém preciso m e acertar com ele. — Apesar de m inhas falhas o terem ferido bem m ais profundam ente.
Respiro, trêm ula, antes de confessar o resto: o papel de Morfeu em tudo aquilo. Com o ele aj udou m am ãe a encontrar um j eito de ganhar a coroa, m as foi traído quando ela escolheu papai à sua m issão. E de com o essa traição fez Morfeu visitar m eus sonhos de criança e se tornar ele próprio criança para m e atrair até o País das Maravilhas sem m e dizer por que eu estava ali.
Um a som bra percorre o sem blante de papai — um a severa desconfiança escurece suas feições. Igual a Jeb, quando o nom e de Morfeu é m encionado.
Papai abre a boca para falar, m as o interrom po.
— Antes que o condene, você precisa saber que ele salvou m inha vida no País das Maravilhas. E tam bém a salvou aqui, no reino hum ano. Na verdade, salvou o Jeb. Ele não é de todo ruim , papai. Ele é...
Glória e reprovação — a luz do sol e as sombras —, o escapulir de um escorpião e a melodia de um rouxinol. A descrição que a Irm ã Um fez dele nunca pareceu tão perfeita. A respiração do mar e a canhonada de uma tempestade. Pode falar essas coisas com sua língua?
Não. Não posso.
— Ele é o quê, Allie? — papai pergunta.
— É m aligno. É perigoso. E está longe de ser confiável. Mas é fiel a m im e ao País das Maravilhas. Por isso é m eu am igo. — Paro antes que o resto escape: ele se alojou na metade intraterrena de meu coração, por mais que eu tentasse negar-lhe acesso.
— Com o pode dizer isso? — papai pressiona. — Depois de toda a tristeza que ele causou à nossa fam ília?
— Porque não seríam os um a fam ília se ele não tivesse retirado você do País das Maravilhas e m antido sua identidade em segredo por todos esses anos. Ele não precisava ter feito isso.
O desagrado de papai se intensifica.
— Não estou bem certo se concordo com seus argum entos.
— Não há argum entos quando se trata de Morfeu. Tem que aceitá-lo com o é.
— Bem , eu não o aceito. Foi ele quem provocou tudo isso. É ele o culpado por sua m ãe e o Jeb estarem em ...
— Está enganado — interrom po-o e sou tom ada pela vergonha de m inha confissão. — Fui eu quem com eçou tudo.
— Allie, não. O que entendi foi que, de algum m odo, você contribuiu para o soterram ento da toca do coelho. Mas sei que foi por acidente.
— É m ais do que isso. — Esprem o as palavras entre os dentes. — Eu libertei a Rainha Verm elha, m as tive m edo de encará-la. Não consegui voltar ao País das Maravilhas, então ela veio ao nosso m undo. E, agora, m am ãe, Jeb e Morfeu são todos vítim as da m inha covardia.
A j usta indignação no rosto de m eu pai desaparece. Um a batida na porta nos sobressalta e estrem ecem os. Tio Bernie entra com a água que prom etera.
— Hora errada? — ele pergunta.
Papai faz um gesto para que entre, e pego o copo. O líquido desliza por m inha garganta, fresco e lim po, em bora não consiga acalm ar o estôm ago. Ainda não contei a papai a pior parte. Com o libertei um poder no baile de form atura que fez com que m am ãe fosse tragada pela toca do coelho antes que ela desabasse.
— Você não parece m uito bem — tio Bernie diz, colocando a m ão em m inha testa. — Sem dúvida ainda é efeito do chá de cogum elo.
Sua explicação paira no ar, em bora eu e papai saibam os que é m uito m ais do que isso. Preocupo-m e com o pequeno diário. Tirando o cordão da bolsa de balé rasgada, passo-o pelo fecho do livro, form ando um colar. Enfio-o pela cabeça de m odo que o diário estej a ao lado da chave, que é três vezes m aior. Terei de redim ensionar um ou o outro quando chegar a hora de abrir as páginas e libertar a m agia da m em ória volátil sobre a Verm elha quando ela m enos esperar.
— Vocês precisam com er algum a coisa — Bernie sugere. — E a sala de j antar está quase vazia agora, então ela estará em segurança.
Meu tio sai do quarto e papai m e olha incisivam ente.
— Vá tom ar um banho prim eiro. Term inarem os nossa conversa no j antar.
A sala de j antar tem o estilo espalhafatoso e colorido dos outros côm odos, com o detalhe adicional dos conj untos de m esa e cadeira alm ofadados e do arom a de com ida. Só um a m esa está ocupada, e os hóspedes são intraterrenos.
Eles olham fixam ente para o piso alguns m etros abaixo do restaurante, onde quatro cavaleiros hum anos lutam com espadas. Isso m e faz lem brar os j antares anim ados por encenações de duelos no reino hum ano, à m oda de Las Vegas.
Um dos grupos de cavaleiros veste túnica verm elha por baixo da m anta de m alha de ferro, e o outro está de branco. Cada dupla consiste em um hom em m ais velho e um garoto com idade entre oito e doze anos. O cavaleiro m ais velho no grupo de branco é tio Bernie. Os garotos lutam enquanto os m ais velhos os instruem . As espadas envergam e soltam cinzas que sobem pelo ar, às vezes quase os encobrindo.
— Então, j antar com direito a show? — cochicho com papai.
— Estão usando floretes... espadas flexíveis com pontas arredondadas — ele fala enquanto assiste ao acontecim ento no ringue com olhar distante. — É parte do treinam ento de nossa concentração fazer com que atuem os na frente dos clientes desde j ovens. Tem os que m anter a cabeça fria e ao m esm o tem po estar conscientes dos que nos olham e do arom a de com ida... do som das vozes. Não podem os nos distrair.
— E as cinzas?
— As cinzas cobrem boa parte da terra de Qualquer Outro Lugar. Então, aprendem os a nos m over sem escorregar ou deixar que nos atrapalhem . — Ele m e dá um beij o na testa e indica um a m esa vazia no canto. — Peça algum a coisa. Vou dar um alô.
Ele segue pelas escadas de pedra na direção de seus parentes. Nossos parentes.
Os cavaleiros deixam de lado as espadas e adagas à m edida que ele se aproxim a. Ele se j unta aos de branco, pois veste a m esm a túnica e calças de cam urça m arrons.
Olho para m inha túnica verm elha. A segunda pele que uso por baixo das calças, em bora longe de ser de renda com o gostaria, é m acia ao toque sobre a pele lim pa depois do banho. Devem ter m e dado um tam anho de m enino, porque serviu direitinho. E, o m elhor, as costuras do om bro têm um rasgo para encaixarem m inhas asas. Ainda estou com as botas da Barbie, o único sapato que m e serve.
Minha aparência por fora é tão descom binada quanto m e sinto por dentro. Os parentes de papai acenam para m im , indiferentes às m arcas em m eus olhos e às m inhas asas.
Aceno de volta, m ais tím ida do que desej aria.
Todos se voltam para papai, que coloca um m anto de m alha de ferro. Ele pega a espada que lhe oferecem e se dirige ao m eio do ringue com o irm ão. Cum prim entam -se; em um piscar de olhos, estão lutando. Cinzas esvoaçam em torno, a cada golpe e desvio.
Papai parece pouco à vontade, os m ovim entos desengonçados e desequilibrados. É derrubado e levado ao chão pela espada de Bernard algum as vezes. De repente, é com o se algo se acendesse. Seus golpes com a espada tornam -se fluidos e naturais. Os dedos, pulsos, corpo e braços ganham a cadência graciosa de um a valsa. O estalar das espadas reverbera no ar. Foi bom ele ter se m antido em form a j ogando tênis e correndo, do contrário nunca teria resistência para isso.
As epifanias e os eventos das últim as vinte e quatro horas com eçam a m e inquietar. Alcanço a m esa que papai tinha indicado e m e sento. Os hóspedes intraterrenos que avistei ainda não perceberam m inha presença.
Um é um a criatura reptiliana. O outro tem rosto de m acaco e é peludo. O lagarto parece ter cabeça e m ãos flutuantes. A m em ória da Rainha Verm elha acerca de Bill, o Lagarto, vem à tona — com detalhes frios e distantes. O corpo do lagarto pareceu sum ir quando suas roupas adquiriram a cor das folhas à sua volta. Era com o se, em vez dele, as vestes é que fossem cam aleônicas.
Será que é Bill? Se for, m eu reino está m ais em perigo do que eu im aginava. Grenadine, a m eia-irm ã am nésica e m inha substituta tem porária com o rainha, não tem sangue real nem um a m agia pulsante com o a m inha. Ela ficará inevitavelm ente perdida se o lagarto não a cobrir de lem bretes. Ao aprisionar Bill aqui, tornei as coisas ainda piores.
— Fique sabendo que é um a ilusão de óptica.
Em pé ao m eu lado está um a criatura branca e oval. Partes do corpo ovoide são recobertas de m içangas coloridas e fitas brilhantes grudadas no lugar. Parece um ovo Fabergé gigante que escapou de um m useu.
Ele coloca um copo de água e um cesto com pãezinhos fum egantes sobre a m esa e m e passa o cardápio.
— Meu cliente que você está encarando. A roupa dele tem um capuz e é feita de seda sim ulacro. É confeccionada por verm es telepáticos encantados. Fica transparente quando sobreposta a outras roupas. Conecta-se com a m ente de quem a veste e reflete o que está em volta. Quem observa tem a ilusão de ver apenas as partes do corpo descobertas. Engana, não é? Você nem im agina o quanto é útil.
Seus olhos am arelo-gem a, o nariz verm elho e a boca larga m e lem bram tanto o hom em -ovo do País das Maravilhas que deixo escapar seu nom e:
— Hum phrey ?
— Dificilmente — ele responde m al-hum orado. — O nom e é Hubert. Ninguém lhe ensinou com o se apresentar às pessoas?
Uau. Até a voz é de Hum phrey. Eu estreito os olhos.
— Hum ...
— Bem , você vai ficar sentada aí à toa ou vai pedir algum a coisa? — Um de seus braços de louva-a-deus aj eita a gola debaixo do pescoço, enquanto o outro equilibra a bandej a com bloquinho e caneta à espera de m inha resposta.
— Você é irm ão dele, não é? — pergunto, afastando o cardápio. O cheirinho de pão fresco é irresistível e cravo os dentes em um .
As bochechas de Hubert ruborizam .
— Ah, entendi. Basta term os a m esm a form a e cor que som os parentes, não é isso? Sou só um ovo com outro nom e e pronto.
— Na verdade, não. É que você trabalha aqui e o lugar tem o nom e dele. — Dou outra m ordida no pão. — Pensei que era um negócio de fam ília.
— Em prim eiro lugar, pediria a você que não falasse com a boca cheia de pão. E, em segundo lugar, se você olhar no m enu, o nom e da estalagem é “Hum phrey e Hubert”. Séculos de clientes com preguiça de falar o abreviaram . Mas está bem aqui, e preste atenção para não fazer isso tam bém .
— Então vocês são sócios.
— Éram os.
Eu m e retraio.
— Desculpe, só pensei que...
— Shhh. Sei tudo sobre você e seus pensam entos nefastos. — Ele agita os bracinhos. — Foi você quem tam pou a toca do coelho.
Agora são m inhas bochechas que ruborizam , ao m esm o tem po em que o pão form a um pedaço grande dem ais para engolir.
— F-f-foi um acidente.
— Um acidente. — O rubor das bochechas de Hubert se espalha por todo o rosto e o corpo. Penso que ele vai explodir, lançando as m içangas do corpo às paredes, ricocheteando com o proj éteis. — Um acidente com o aquele que quebrou a casca de Hum phrey e fez com que ele fosse expulso para o j ardim das alm as? Um acidente desse tipo?
Espetando a ponta do garfo no cesto de pães, eu franzo a testa.
— Bem , sim . Ele caiu do m uro. E depois tropeçou na cabeça de Chessie.
— Empurrado. Ele foi em purrado de cim a do m uro por sua tataravó. Tudo para que Hum phrey caísse por cim a do Rábido Branco. Tudo para que suas entranhas cozinhassem a carne daquele pobrezinho. E a corroesse para a Rainha Verm elha poder “salvá-lo”.
Balanço a cabeça.
— O que aconteceu ao Rábido foi um feitiço m aligno...
— Ah, foi m aligno. Mas não foi um feitiço. Nossas entranhas são com o ácido. A não ser que você possua a poção curativa. O que, é óbvio, a Verm elha tinha à m ão, por um a grande conveniência. — Ele bufa. — Por que você acha que Hum phrey estava sob a proteção da Irm ã Um no cem itério? Som ente por causa de sua alm a? Ele tinha tantas rachaduras após cair duas vezes que não podia m ais ser rem endado. Ele estava em perigo. É por isso que tudo aqui é acolchoado. Para que eu não exponha m eus clientes ao m esm o destino.
A aparência de ovo Fabergé de Hubert faz sentido agora. Ele se rem endou. Ao m enor sinal de rachadura, ele gruda algo no lugar.
— Mas isso não tem lógica — eu digo, apesar de saber que no País das Maravilhas isso é o que m enos existe. — A Verm elha planej ando um acidente só para ter o Rábido nas m ãos? Alguém com todo aquele poder teria súditos atendendo aos seus desej os por toda parte.
Um vozerio alto vem do andar de baixo. Dou um a olhada e vej o papai aj udando seu irm ão a se levantar. Os outros cavaleiros se reúnem em volta de papai, parabenizando-o. Estão todos rindo e felizes, até tio Bernie.
Hubert em purra o cardápio em direção à m inha m ão.
— Parece que você sabe bastante sobre o que aconteceu com a Rainha Verm elha — retruco, encarando-o.
Ele debocha.
— Ouvi da própria fonte. Sua tataravó visitou m inha estalagem . O com patriota dela, o Rábido, veio com ela. Ele m e contou a história de com o o salvou. Mas eu j á sabia da verdade, porque Hum phrey tinha m e contado que ela o em purrou.
— Você está dizendo que a Verm elha esteve aqui. No reino dos hum anos. Quer dizer, depois que ela foi banida do País das Maravilhas? — Antes m esm o de a pergunta deixar m eus lábios, sei que não pode ser isso. A Verm elha estaria usando sua form a de Alice se fosse depois da expulsão, vivendo com o um a m enininha hum ana.
— Ela esteve aqui enquanto ainda reinava — Hubert corrige. — Muito antes daquela trapalhona da Alice se enfiar na toca do coelho e provocar toda aquela desordem e a queda da Verm elha.
Minha boca seca. Tom o um gole de água.
— Por que a Verm elha teria vindo ao reino hum ano antes do incidente de Alice?
— Você é lerda? Ela veio porque estava solitária. Seu m arido a traía. Parecia que ela esqueceu a si m esm a depois disso, e tam bém a bondade que a fam ília real lhe incutira. Esqueceu até com o fazer am igos entre os de sua própria espécie.
As m em órias insatisfeitas e repudiadas da Verm elha obscurecem m eus pensam entos. Hubert não faz ideia do quanto está certo sobre o esquecim ento dela, nem de que ele aconteceu deliberadam ente.
— O único j eito que ela tinha de saber se alguém era leal — o ovo continua — era se a pessoa estivesse em dívida com ela. Pelo visto, esse é o único j eito de alguém da sua linhagem garantir devoção. Assim com o você fez ao tam par a toca do coelho. Agora todos nós dependem os de você abrir um cam inho de volta, j á que não podem os reduzi-la ao tam anho de um inseto e esm agá-la sob nossos sapatos com o gostaríam os.
A voz de Hubert ecoa, estridente. A criatura lagarto e seu com panheiro peludo voltam os olhares em nossa direção. Ao m e verem , fazem caretas.
— Não sou com o a Verm elha — protesto, surpresa com a raiva por trás das palavras.
Em bora sej a verdade que, tecnicam ente, m altratei o besouro de tapete para conseguir o que queria... e forcei m eu pai a com er um cogum elo e a voar em um a borboleta até Londres. Mas foi por um bem m aior.
Cerro os dentes.
— Não sou tirana com o ela. Sou apenas... determ inada.
— Igualzinha a ela. Determ inada a m elhorar nosso m undo. Ela chegou a ponto de estudar os hum anos, com o se fossem m elhores do que nós. Com o se fossem algo a que devêssem os aspirar. — O hom em -ovo olha sobre m eus om bros. — Essas asas não são a única prova de sua linhagem . Você é um a traidora, enviando-nos rio acim a para que você pudesse salvar sua insignificante m etade m ortal. Você não é nada além de um a...
— Beneditinos — interrom po, falando entre os dentes.
Hubert estreita os olhos — curiosos e cheios de raiva.
— Ovos beneditinos. — Aponto a figura no cardápio. — Ovos poché. Bacon canadense. Molho holandês e um m uffin. E um a fruta de acom panham ento.
Ele apanha o cardápio e rabisca m eu pedido no bloquinho.
— E, só para registro — acrescento, voltando-m e para os intraterrenos que m e encaram —, estou aqui para reabrir os portais e a toca do coelho. Os m om irratos m e entenderam m al e bloquearam tudo. — Estrem eço ligeiram ente ao im aginar as criaturas fantasm agóricas pavorosas e seus lam entos lancinantes. — Vou reverter tudo isso. Estou aqui para m elhorar as coisas.
— É claro — Hubert bufa com desdém . — Assim com o a Verm elha ia fazer um País das Maravilhas melhor. Mas ela tinha um a ideia m eio distorcida do que era m elhor. Ela até se deixou influenciar por um hum ano e revelou coisas que seria m elhor m anter em segredo.
Um a intuição forte atravessa m inha m ente.
— Que hum ano?
— O nom e dele era Dodgson. Conhecido pelos seus com o aquele autor... Lewis Carroll.
Aperto as costas contra a cadeira e encaro Hubert, incrédula.
— Você está tentando m e dizer que a Rainha Verm elha conhecia Lewis Carroll. Pessoalm ente. Antes m esm o que Alice Liddell encontrasse a passagem para o País das Maravilhas?
O olhar am arelado de Hubert se escurece com o gem as ressequidas.
— Pelo que ouvi, a Verm elha disfarçou-se sob o glam our de um professor e fez am izade com Dodgson em um a universidade conceituada aqui em Oxford. Eles travaram em bates filosóficos interm ináveis sobre um reino m ágico e sobre onde haveria um a entrada. A Verm elha aj udou Dodgson a elaborar um a fórm ula m atem ática para encontrar a latitude e a longitude dessa entrada. Foi assim que Dodgson descobriu esta estalagem . Talvez você devesse questionar o Rábido, visto que ele faz parte disso tudo e é o seu conselheiro real agora. — O hom em -ovo cobre a boca e dá um tapinha nos lábios. — Ah, espere. Ele está preso no País das Maravilhas, de onde não há saída, graças a você. Portanto, você nunca saberá.
Ele se retira, balançando os bracinhos de louva-a-deus e deixando-m e intrigada.
Não perm ito que a culpa ressurj a desta vez. Estou firm e quanto ao m eu novo propósito. A explicação de Hubert confirm a a alegação de papai de que Charles sabia sobre a entrada para o País das Maravilhas antes de Alice cair na toca do coelho. Mas por que a Verm elha plantaria a possibilidade de tal local na m ente de Charles Dodgson, para com eço de conversa? Por que ela quereria que ele descobrisse o País das Maravilhas?
A voz de papai interrom pe m eus pensam entos e olho para cim a. Ele está de volta ao restaurante. Hubert está de pé entre ele e tio Bernie. O hom em -ovo escreve em seu bloquinho, anotando o pedido de papai. Quando o dono da hospedaria se encam inha para a cozinha, papai dá um tapinha nas costas do irm ão. Eles se separam , tio Bernie volta ao ringue e papai vem em m inha direção.
Brinco com o garfo na m esa, pensativa. A luz suave da vela se reflete nos dentes do garfo, enquanto tento entender a história com Charles Dodgson.
— Em que você está pensando? — Papai puxa delicadam ente um a de m inhas tranças.
— Em nada. — Até que essa inform ação faça sentido, acho que não vale a pena com partilhá-la.
Papai deixa-se cair na cadeira e toca com o polegar a covinha de seu queixo, com o se ponderando se insiste ou não no assunto.
— Você foi dem ais, lá — digo para distraí-lo.
Ele sorri e enxuga um pouco o suor do rosto com o guardanapo.
— Veio tudo à tona de novo. Com o andar de bicicleta. — Faz um gesto em direção à cozinha. — O hom em -ovo está acelerando nossa refeição. Tem os que partir em um a hora. — Olha de relance para os hóspedes intraterrenos que deixam o salão.
— Certo. Qual é o plano? — Em purro o cesto de pães para papai.
Ele dá um a m ordida em um pão.
— Esta noite é a troca de guarda. Bernard vai entrar. Ele pode nos garantir a entrada pelos espelhos infinitos, porque eu posso estar enferruj ado e não conseguir localizar o portal. Mas ainda assim tem os que passar pelo portão. — As rugas de preocupação na testa dele indicam que há m ais algum a coisa.
— O tio Bernie disse o que pode acontecer se form os pegos? — arrisco, deixando a parte do viraremos mutantes subentendida.
Papai olha para baixo.
— Não foi preciso. Eu m e lem bro.
Retraio-m e. Com certeza ele testem unhou algo ou alguém ser rej eitado pelo espelho. Sinto form igar a pele por baixo de m inha túnica e passo para ele o copo cheio de água.
Papai dá vários goles.
— Se você estiver preocupada com m utações, saiba que isso só é perigoso onde a passagem se conecta com a floresta tulgey. É o que acontece quando se é engolido e depois cuspido pela garganta de um a árvore tulgey, e só é danoso para os que têm m agia no sangue. Hum anos são im unes. — Um sulco de preocupação se acentua em seu rosto quando se dá conta de que a im unidade não se aplica a m im .
— Tudo bem , papai. — Toco sua m ão. — Só precisarem os passar por esse portão quando form os sair de Qualquer Outro Lugar.
— E então estarem os fazendo o cam inho inverso, e você estará a salvo.
Eu não deveria m e surpreender com a com plexidade das regras. Nada no País das Maravilhas é sim ples.
— Agora, sobre o portão que leva ao m undo hum ano. — Ele bate os dedos no copo. — Ele tem um olho. Minha fam ília fez um trato com esse olho, um século atrás. O com binado é que ele deixará dois guardas entrarem e dois saírem em cada troca. Bernard e m eu prim o Philip são os dois cavaleiros que entram . Eles têm que nos colocar para dentro com eles. Se o portão os pega, m ata todos nós.
Meu corpo inteiro se enrij ece. Legal. Não coloco em perigo só aqueles que am o e todos os ocupantes do País das Maravilhas, com o tam bém o tio que conheço há apenas duas horas e um prim o de segundo grau que nunca conheci. Parece não fazer sentido.
— Se o portão é tão form idável, por que precisa de cavaleiros? Por que vocês têm que correr esse perigo?
Papai dá outro gole da água.
— Antigam ente havia dois olhos, um que olhava quem entrava e outro que vigiava quem tentasse sair. Mas os olhos disputavam o poder em vez de trabalharem j untos. O que estava para fora conseguiu m atar o de dentro sem se dar conta de que deixaria um ponto cego lá. E é aí que nós entram os. Monitoram os o m undo do espelho para que ninguém escape.
Levanto as sobrancelhas. É incrível com o os hum anos têm vivido lado a lado com o m undo m ágico sem que a m aioria não tenha a m ínim a ideia de que ele existe.
— Só m ais um a coisa — papai acrescenta. — Meu irm ão diz que, pela prim eira vez, tem alguém em Qualquer Outro Lugar exercendo m agia apesar da cúpula de ferro. Isso tornou a troca de guardas com plicada no m ês passado. Norm alm ente, eles se revezam a cada duas sem anas. Mas o único contato que tivem os com os cavaleiros que estão no portão do País das Maravilhas foi por m ensagens via pom bos m ecânicos. Os guardas sem pre levam suprim entos extras por precaução, m as eles estão se esgotando. Sej a quem for que estiver exercendo essa m agia, tem poder suficiente para abalar as terras e confundir as coisas. Essas encenações não são m uito bem -vistas. Os prisioneiros estão zangados e com invej a. Podem os estar entrando em um a zona de batalha.
Meus om bros ficam tensos. Apesar de não ser a prim eira vez que penetro na instabilidade de outro m undo, essas inform ações m e pegam de surpresa.
— Pensei que só eu poderia usar m agia lá.
— Sim . Eu tam bém pensei. — Papai coloca um pedaço de pão na boca e m astiga, enquanto vestígios irreprim íveis de m edo atravessam seu sem blante com o nuvens carregadas.
— E se for a Verm elha? — pergunto, de im pulso.
— Fazendo m agia? Com o?
— Não sei com o. Mas não pode ser apenas m era coincidência. Talvez ela sej a im une ao ferro, j á que, tecnicam ente, está usando o corpo da flor zum bi. — Fecho os olhos perante a lem brança. Não m e deixarei abater. Estou cansada de fugir dela, de m eu destino e de m eus erros. De um j eito ou de outro, j á está na hora de seu reino de terror chegar ao fim .
Papai segura m inha m ão. Abro os olhos e vej o sua pálpebra trem er.
— Você ainda não m e disse o que estava fazendo na câm ara do trem com o nom e dela na plaqueta. — Seus dedos apertam os m eus. — Não quero que se m eta em confusão. Ela j á recebeu a sentença e está onde deve estar. Vam os entrar, pegar o Jeb e sair pelo portão do País das Maravilhas. Sem interagir com nada nem ninguém m ais. E m uito m enos nos deixar distrair com raiva ou dívidas antigas. Está bem ?
O diário pendurado em m eu pescoço parece m ais pesado do que um tij olo, apesar do tam anho dim inuto. Essa m issão tem m ais um a razão de ser. Vam os resgatar m ais alguém . Não deixarei o País das Maravilhas sem três coisas: Morfeu, Jeb e a total aniquilação da Verm elha.
Papai bebe o últim o gole de água.
— Allie, responda. Precisam os ser honestos um com o outr...
O tilintar de pratos interrom pe papai no m eio da frase e Hubert serve a com ida fum egante j untam ente com água e um a xícara de café para papai. O intraterreno m e olha pelo canto do olho ao retornar para a cozinha.
— Belas m aneiras, Ovobert — deixo escapar, m ais alto do que deveria.
Papai faz um a careta quando nosso anfitrião para no m eio do cam inho e se volta para nós, a alva casca averm elhando-se por debaixo dos enfeites de m içangas.
— Da próxim a vez que eu a vir — Hubert aponta para m im com a bandej a —, você estará ou em um caixão ou banida de seu reino por seus atos irresponsáveis. Sej a com o for, aproveite sua últim a refeição aqui com o Rainha Verm elha reinante.
E deixa a m im e papai com endo na sala de j antar deserta, com o som das espadas se chocando no andar de baixo pairando entre nós com o um a sentença de m orte.