Qualquer Outro Lugar
Capítulo 17
17
Assuntos do Coração
O cabelo da Rainha de Copas m uda repentinam ente de um tom para o outro enquanto ela nos acom panha até um a sala do castelo. Três de seus guardas nos seguem . Isso m e lem bra de quando fui forçada a cam inhar por um corredor no castelo da Verm elha com Morfeu, um ano atrás, a poucos m inutos da m orte certa na boca arreganhada do bandersnatch.
Uma morte da qual ele me salvou, lem bro a m im m esm a.
Cerro os dentes enquanto ele segura m inha m ão, os dedos entrelaçados nos m eus. Decidi adiar a liberação de m inha m agia e do vestido m ortal. Estou aceitando a farsa do noivado por três m otivos:
Prim eiro: Jeb está em algum lugar deste castelo e tenho de m e m anter calm a por tem po suficiente para localizá-lo.
Segundo: estou tão aliviada que o coração de Morfeu não estej a na tábua de carne que ainda não consigo ter vontade de estrangulá-lo.
Terceiro: a expressão de Morfeu prom ete respostas e im plora por cooperação. Há m ais coisas que ele não está dem onstrando.
Com tato, arrancarei a verdade dele quando estiverm os a sós, que deve ser o que ele tinha em m ente quando pediu um m om ento só para nós antes da cerim ônia. A Verm elha concordou, m as cada passo que dou se torna m ais pesado. Desconfio que ela foi condescendente porque vam os a algum lugar privado para transferir o espírito dela.
Sem a tábua de salvação do diário, pode ser que eu estej a m e afogando. Aperto os dedos de Morfeu enquanto ondas de insegurança se agitam dentro de m im . Sustentando m eu olhar, ele levanta m inha m ão e beij a m eus dedos enluvados. Está genuinam ente feliz em m e ver.
Isso m udaria num piscar de olhos se ele soubesse da prom essa que fiz a Jeb. Em bora m eu lado hum ano tenha sem pre pertencido a Jeb, em bora em algum lugar do coração de Morfeu ele sem pre tenha sabido disso, vai ficar furioso. Os dois podem ter aprendido a coexistir neste m undo, m as, se Jeb atrapalhar algum plano m estre, as coisas podem m udar da noite para o dia. Não contarei a Morfeu enquanto estiverm os no castelo. Seu lado cium ento e feroz é im previsível dem ais quando se trata do País das Maravilhas ou de m im .
Depois de subirm os dois lances de escadas sinuosas, passam os por um saguão de m árm ore. Centenas de caixas de som bras perfilam as paredes, exibindo um a seleção de corações de diferentes tam anhos e form as que batem loucam ente em seus com partim entos. A cada batida surda, j atos verm elhos m ancham as tam pas de vidro, com o se os órgãos estivessem batendo à porta de sua prisão. Um fedor acre de carne m e revira o estôm ago.
Tento não com parar os insetos que m atei e pendurei nas paredes de m inha casa com o que a Copas faz, m as o paralelo é incrível. Colecionar deve estar em m eu sangue. Não ouso especular o que m ais pode estar...
Os guardas abrem um a série de portas duplas e nos conduzem para um a câm ara com um tapete felpudo preto e paredes de azulej os cor de vinho. A rainha entra conosco, m as a contragosto. Fica aparente, pelo cabelo carm im , que a Verm elha assum iu novam ente. Depois que estam os seguros lá dentro, os guardas saem para o corredor e fecham a porta.
— Bem-vindos à sala de jogos da Copas. — A voz soprada da Verm elha invade m eu espaço pessoal.
Sua presença alfineta aquele espaço frangível atrás de m eu esterno onde ela deixou sua m arca. Aperto o corpete forrado contra a pele num a tentativa de não ser paralisada pelo clim a de terror e opressão que a circunda de todas as form as. Tenho de ser m ais forte do que ela.
Eu m e fam iliarizo com a sala, buscando possíveis arm as. Um a variedade de cadeiras de salão de beleza forradas de veludo dourado e espreguiçadeiras perfila as paredes. Corações roubados oferecem a decoração: m olduras de fotos e espelhos utilizam os órgãos pulsantes de m aneiras horrendas, em bora criativas; tapetes ornam entam o carpete, com borlas de contas latej antes do tam anho de fadas, com o as que vi nas m angas da rainha.
A dem onstração m ais intrincada e m órbida é um candelabro gigante de latão no centro do teto abobadado, pontuado pelos órgãos pulsantes. Em palados com lâm padas, eles brilham de dentro, lançando fachos venosos pelo teto branco. As contrações dos m úsculos ocos e o fluxo do sangue circulam infinitam ente, com o se estivessem proj etados em um a tela. Com a dissonante vibração das batidas e as luzes estranhas pulsando, a sala parece ter algo de consciente — e nós som os a presa, aprisionados em sua caixa torácica.
Foi assim que Morfeu se sentiu quando foi engolido pelo bandersnatch?
Desorientada, pego em seu cotovelo. Em resposta, um a de suas asas envolve as m inhas, aninhando-m e ao seu lado em um gesto de apoio inabalável. Seu cheiro m e envolve.
— A única coisa que a Copas quer — diz a Verm elha, as gavinhas lutando contra as m ãos da rainha pelo controle — é que vocês não toquem em suas tintas nem em suas tortas.
Um a m esa encontra-se posta, com salgados e um copo com um líquido branco que parece leite. Na parede acim a dela está pendurado um cavalete cheio de papéis em branco seguros por um clipe. Um a série de tintas para pintura a dedo em pequenos recipientes aguarda ser usada. Vê-las m e faz pensar em Jeb, e eu engasgo com a falta de ar que vem acom panhada daquela punhalada atrás de m eu esterno. A tontura borra m inha visão.
Com o se sentisse m inha aflição, Morfeu senta-se em um a cadeira de salão e m e puxa para seu colo — m inhas asas caem para um lado de sua perna e m inhas panturrilhas ao longo do outro. Ele m e envolve nos braços, com pletam ente à vontade.
— Está vendo? É com o eu disse — ele fala para a Verm elha, e sua voz provoca um ruído surdo e profundo j unto ao m eu ouvido. — Estam os absolutam ente apaixonados e planej ando nosso futuro. — Ele acom oda nossas m ãos entrelaçadas no m eu colo, fazendo as cam adas do vestido tilintarem suavem ente. Procuro não retesar o corpo enquanto aguardo a sensação dilacerante dentro de m im se acalm ar. A parte de trás das m inhas coxas fica totalm ente em cim a de suas pernas m usculosas, um a distração e um conforto. — Ela está usando o vestido de casam ento do qual eu falei. Isso não é prova suficiente? Agora, quanto ao seu lado do trato...
— Ah, não — a Verm elha entoa. — Não até nós estarmos casados. Este é o trato. Você já me enganou uma vez. Não acontecerá novamente.
— Nós estarm os casados? Com o assim , nós? — Olho para Morfeu, que oferece um pedido de súplica por baixo da aba do chapéu. É enfurecedor ter a cúpula de ferro acim a de nós. Sem ela, ele poderia m e enviar seus pensam entos em vez de ficarm os brincando de cabra-cega.
— Nós três. A trindade perversa. — A Verm elha ri sarcasticam ente de sua esperteza, e um galho de hera tira a m echa verm elha de m eu coque. Os corações nas m angas de seu vestido pululam de m odo tão frenético que reproduzem o som de beij os ruidosos. Seu olhar azul-escuro recai sobre o m eu, e m eu cabelo ganha vida, envolvendo sua hera com afeição. Foi a m inha m agia que causou o contato, não a dela, o que m e assusta ainda m ais.
— Você e eu vamos reivindicar o trono para a nossa linhagem de uma vez por todas — continua a Verm elha. — E, para me provar que você encara suas tarefas reais com seriedade, que viver como uma rainha no País das Maravilha é sua maior prioridade, e para garantir que não haja mais distrações mortais, você se casará com Morfeu hoje. Ele me disse que vocês se amam e que, juntos, governarão o Reino Vermelho. Desejo ver com meus próprios olhos. Não sairei deste lugar até que você tenha expurgado sua outra vida e o rapaz que tem sido uma distração para você. Ou, se preferir, posso livrá-la dele permanentemente e dar à nossa antecessora o coração humano que ela tanto anseia ter em sua coleção.
O tem or pela segurança de Jeb ressuscita m inha coragem . Com um puxão, liberto m eu cabelo traidor, forçando-o a ficar atrás da orelha.
— Continue fazendo am eaças assim e não a levarei daqui nunca, sua m iserável. Pode ficar aqui e apodrecer.
— Seu adorado prometido deseja demais que eu conserte o País das Maravilhas para permitir que sua rebeldia atrapalhe tudo. Não é mesmo?
Olho para Morfeu atrás de m im . Ele retribui o olhar, insondável.
— Parece que a única coisa a apodrecer será seu espírito livre sob meu comando — a Verm elha rebate, enquanto um de seus galhos desliza na m inha direção pelo chão.
Ainda dando trela ao m eu surto de ódio, concentro-m e no tapete por baixo dela, im aginando as cerdas com o os tentáculos de um a anêm ona-do-m ar. As fibras se esticam , altas e tubulares, capturando seu apêndice rastej ante.
Eu sorrio enquanto ela olha para m im , chocada.
— Andei praticando. Quer tentar novam ente? Tenho um m ar inteiro de tapetes com que brincar. E, segundo eu m e recordo, seu espírito definhou sob o meu com ando, com o agora.
Os dedos de Morfeu apertam os m eus — um aperto de estím ulo ou de alerta? Não sei ao certo. De qualquer form a, eu o ignoro e m e envolvo na luta contra o olhar venenoso dela.
— Ah, mas eu tomei medidas para garantir que isso não volte a acontecer. Ainda não notou? — A Verm elha ergue a m ão inanim ada da Copas e aponta para o m eu peito, provocando novam ente aquela dor lancinante.
Minha concentração vacila. A gavinha que eu capturei escapa dos filam entos do carpete.
No m esm o m om ento, a Verm elha tom ba, levada ao chão pelo ressurgim ento da Copas em seu corpo com partilhado. Elas rolam de um lado para o outro, parecendo um a paciente de sanatório m utante, arranhando e puxando o próprio cabelo, que não para de m udar, com dedos e espinhos de hera.
Coloco-m e de pé, pronta para aproveitar a vantagem e libertar as lâm inas de m eu vestido para rasgá-la em pedaços.
Morfeu m e puxa de volta para o colo e sussurra em m eu ouvido:
— Você só estaria destruindo a carcaça e transform ando os dois espíritos em cinzas. — É incrível com o ele pode ler m inha m ente m esm o sem nenhum a m agia. — Precisam os da Verm elha para consertar o País das Maravilhas. Aguarde o m om ento certo, am or. Aguarde o m om ento certo.
Sem pre a voz da razão, m esm o quando a loucura conduz todas as ações. A Verm elha detém todas as cartas, e tam bém o m eu coração. Ela adm itiu ter m e contam inado, confirm ou m inha suspeita de que preciso dela não som ente para reparar o País das Maravilhas, m as tam bém as m inhas entranhas.
Com um baque surdo, o corpo da rainha gira e bate na perna da m esa, entornando o leite. A Verm elha consegue levar a m elhor m ais um a vez. Ela fica de pé, enrosca-se nos braços da rainha e alisa o cabelo carm im com um galho trêm ulo.
— Controle a sua prometida, ou o trato estará cancelado — ela diz a Morfeu. — E você sabe o que isso significará para o seu precioso lar.
Am eaço retrucar com grosseria, m as Morfeu aperta m inha cintura — um apelo silencioso.
A atenção da Verm elha volta-se para m im .
— Hoje, você receberá meu espírito dentro de seu corpo. Nós desposaremos Morfeu, deixaremos Qualquer Outro Lugar e assumiremos o lugar que nos é de direito no trono Vermelho. Seu prometido expressou uma ansiedade especial para começar a lua de mel. — Ela corre para a porta em um a fluida cascata de renda, cetim e ram os parecidos com tentáculos. — Preparem-se para a cerimônia. Retornarei em menos de uma hora.
Ela fecha a porta, deixando-nos trancados com nada além das batidas de um a centena de corações — os que não têm corpo e em balam a sala, e os dois que lutam dentro de nosso peito.
Eu pulo de seu colo e o encaro.
— Ansioso para com eçar nossa lua de m el? É m esm o?
— Ora, não sej a tão recatada, florzinha — ele diz, ronronando, seu rosto perfeito a encarnação da tentação sob o brilho pulsante do candelabro. — Você sabe que não conseguim os tirar as m ãos um do outro.
A intraterrena dentro de m im se inquieta, atorm entada pela provocação.
— O que eu sei é que você adora se vangloriar.
Em vez de um sorriso pom poso ou do sarcasm o com o resposta, ele m e cala levando um dedo aos lábios e fazendo sinais.
— As paredes têm ouvidos.
Nem ouso presum ir que ele estej a falando no sentido figurado. Levantando-se devagar, ele olha com cuidado à nossa volta. Tira o chapéu e as luvas e os coloca sobre a cadeira.
Eu aguardo enquanto ele pega um guardanapo da m esa e corre o dedo pela parede de azulej os cor de vinho. Ele está quase no fim da sala quando pega algo na m ão e m e cham a. Cinco criaturas do tam anho de ervilhas correm loucam ente sobre a palm a de sua m ão. Elas lem bram dim inutas orelhas hum anas, com pernas de caranguej o e asas que parecem pequenas dem ais para erguê-las no ar.
Em brulhando-as no guardanapo, Morfeu as esm aga e enfia o tecido am assado por baixo da porta.
— Ácaros de ouvido. Eles teriam gravado tudo o que disséssem os e relatado à rainha. — Ele m e leva para o centro da sala. — Agora podem os falar livrem ente.
Digo a m im m esm a para não ter um a reação exagerada... para dar a ele um a chance de se explicar.
— Então, este é um vestido de casam ento?
O sorriso irônico que eu esperava m ais cedo faz sua aparição tardia.
— Talvez não o que eu, originalm ente, pretendia que você usasse em nossa união, m as vai nos tirar do aperto. Você não está feliz por ter tido a intuição de vesti-lo?
Desfaço o coque em m inha nuca para dar às m ãos algo para fazer que não sej a dar-lhe um soco.
— Você deixou bem claro que eu deveria usá-lo — respondo, entrelaçando a m echa verm elha com o resto das m inhas ondas platinadas.
Morfeu observa cada m ovim ento m eu, m om entaneam ente distraído enquanto eu volto a prender o cabelo, m echa por m echa.
— Eu pensei que este vestido fosse um a arm a. — Coloco o últim o alfinete no lugar.
— Ah, do j eito que ele cai em você, certam ente é — Morfeu diz com voz rouca. O leite derram ado sobre a m esa com eçou a produzir um ping-ping-ping irritante sobre o tapete. Ele m e faz recuar até um a espreguiçadeira afastada de toda a suj eira.
Sento-m e na beira da alm ofada central com as asas j ogadas nas costas.
— Me conte o que está acontecendo, e é m elhor que sej a bom .
Ele sacode um guardanapo de tecido.
— Ainda não confia em m im , não é?
— Eu confio que você não queira provocar m inha ira.
Ele desdenha.
— Sou pau para toda obra. Vai m e bom bardear com corações que caem em um a chuva sim bólica do nosso am or não correspondido? Ou talvez m e acorrentar a um a parede feita de renda de luar e fazer de m im o que quiser? — As j oias que decoram seu rosto piscam em um a rapsódia de cores: flerte, provocação e m alícia.
— Quer falar sério? Você tem m uita coisa para explicar.
Suas j oias se fundem num verde-esm eralda.
— E você tam bém . Vam os com eçar com o m otivo pelo qual você estava zanzando por aí sem inua com Jebediah nas areias de um a praia enquanto eu estava arriscando a m inha pele para pegar o antídoto para seu pai.
Tento segurar m eu queixo para ele não cair. Ele não pode m e culpar. Só há um j eito de ele ter descoberto isso, e não fica bem para suas próprias atividades noturnas.
— Você está trabalhando com Manti... — Minhas cordas vocais arranham um a na outra com o se fossem feitas de lixas.
Morfeu absorve o leite com o guardanapo para cessar o som de gotej am ento.
— Vam os chegar a essa parte. Mas prim eiro você precisa ser notificada do que aconteceu enquanto brincava de pega-pega com nosso pseudoelfo. Dois parentes de seu pai foram capturados pelos guardas da rainha ontem à noite. Quando eu estava acom panhando Nikki até o castelo, eu os vi atravessando o portão, escoltados. Eu não sabia quem eles eram , só que eram cavaleiros e que um deles tinha os olhos do seu pai.
Eu entrelaço as m ãos, nervosa.
— Tio Bernard.
— Ele está bem .
— Não posso acreditar que nós o envolvem os nisso...
Morfeu senta no braço da espreguiçadeira, com as asas pensas nas costas. A luz pulsante do candelabro trem e sobre seu punho de renda preta enquanto ele caça um fiapo.
— Você deve agradecer a Jebediah por isso, na verdade. Antes de as transform ações cênicas dele confundirem os túneis de vento, os cavaleiros nunca tiveram m otivo para viaj ar pelo m undo do espelho a pé. A interferência do seu ex colocou em perigo os frágeis m eandros deste m undo.
— Mas ele fez isso para proteger você — eu defendo. — Você m esm o m e disse que ele m udou a paisagem para confundir a vida anim al.
Morfeu aperta a própria coxa.
— Por que você ainda está tão apaixonada por aquele m ortal? Depois de tudo o que ele fez para m agoá-la?
Olho para ele com seriedade.
— Algo que você nunca fez.
Baixando os olhos para seus dedos brancos, Morfeu cerra os dentes.
— Eu nunca desisti de você.
O tom sincero de sua voz m e am olece.
— Eu sei. — Entrelaço m eus dedos nos dele, e seus m úsculos se contraem em resposta. — Mas Jeb tam bém nunca desistiu de m im . Ele desistiu de si m esm o. E você teve participação nisso.
Morfeu revira os olhos.
— Estam os saindo do rum o. Você não está percebendo a seriedade da situação. Durante séculos, a Copas vem procurando um a form a de atacar o portão do País das Maravilhas, de sequestrar um túnel de vento e atravessar o abism o do nada. Pode im aginar o caos que ela provocaria se tivesse acesso ao m edalhão de um cavaleiro?
É estranho, m as, em algum nível, fico aliviada com as palavras dele.
— Eu estava certa... eu sabia que o País das Maravilhas tinha que estar em perigo. — O fato de confiar nele e ele não m e desapontar m e tira um peso dos om bros. Não coloquei Jeb e papai em perigo desnecessariam ente.
— Mais do que o País das Maravilhas, na verdade — Morfeu diz, interrom pendo m eus pensam entos. — A Rainha de Copas concordou em m anter o espírito da Verm elha vivo som ente porque a Verm elha a convenceu de que você viria aqui m e resgatar, e a Jebediah, se ela não achasse que ele estava m orto. Foi por isso que a Verm elha nos capturou e nos arrastou para Qualquer Outro Lugar, prim eiram ente. Com o garantia. As duas rainhas planej avam usar você para encontrar o cam inho de volta para o País das Maravilhas, onde a Copas teria acesso aos portais para os dom ínios hum anos e poderia colher relógios de vida hum anos para sua coleção.
— Relógios de vida? — Reviro as palavras na língua, saboreando as sílabas. Quando m e viu pela prim eira vez, a rainha disse que queria o m eu.
Morfeu faz um gesto m ostrando a decoração da sala.
— É com o ela cham a os corações que rouba. Relógios de vida.
Trem endo, dou um soco no m eu peito para acalm ar a dor. A Copas disse que sentia que o m eu era especial. Ela devia saber que estava contam inado. Talvez ela possa m e dizer o que a Verm elha fez com ele.
— Aly ssa. Por que você está tão pálida? — Morfeu escorrega pelo braço da cadeira para se acom odar ao m eu lado. Ele coloca as costas da m ão sobre m inha bochecha, verificando a tem peratura. — Você está absolutam ente glacial.
A m ão dele escalda m inha pele e eu a afasto.
— Estou só preocupada. — Com mais coisas do que posso dizer. Com o pode m eu corpo estar tão frio enquanto há um rastro de gasolina que queim a atrás de m eu esterno? Aperto a beirada da alm ofada, determ inada a m e controlar. — Tem os que recuperar os m edalhões... e tirar m eu tio e o outro cavaleiro daqui.
Fazendo beicinho, Morfeu pega m inha m ão e tira um a das luvas para colocar o polegar sobre m eu pulso. Ele franze a testa, m as parece satisfeito, porque recoloca a luva e acom oda m inha m ão no m eu colo.
— Já foi providenciado. Devido ao m eu pensam ento rápido, e não graças a você e sua falta de confiança.
— Quer parar? Não é falta de confiança. Você e eu ainda não tem os um com prom isso um com o outro.
— Ainda. — Seu rosto se ilum ina. — Então você vislumbrou um futuro com igo.
Resisto a um a onda de ternura que m e invade. Com o pode essa criatura m ágica e eterna ser tão sábia quando se trata de guerra, estratégias e política, m as tão infantil em assuntos com o relacionam entos e am or?
— Me conte os detalhes de seu plano, porque eu sei que você tem um .
Seu queixo se contrai.
— Não é exatam ente um plano. É m ais um trato.
— Que envolve a m im , sem o m eu consentim ento. — Estreito os olhos. — É estranho com o isso sem pre acontece.
Ele solta a gravata e pigarreia.
— Prim eiro, deixe-m e assegurá-la de que seus parentes estão bem . Manti usou CC para encenar um a revolta na m asm orra.
— Espere... então Manti está com o sósia de Jeb?
— Sim , foi um presente da rainha. Manti estava ávido por ele, pois cavaleiros élficos são os m elhores soldados. E esse, por ser um a pintura, é ainda m ais robótico do que a m aioria. Durante a confusão na m asm orra, Manti aj udou seu tio e seu am igo a escapar antes que a rainha pudesse arrancar o coração deles. Felizm ente, eles levavam som ente um m edalhão para os dois. Infelizm ente, a Copas j á o tinha confiscado. Ela o entregou para que os guardas o escondessem , então nem ela sabe qual deles o escondeu, nem onde. Desse m odo, a Verm elha tam bém não sabe. Então a Copas não precisa m ais de ninguém para aj udá-la a atravessar a fronteira para o País das Maravilhas. Mas a Verm elha controla m etade de seu corpo e está disposta a enganá-la e a pegar o m edalhão em troca de certas... exigências.
As j oias em torno dos olhos de Morfeu brilham num tom verde-chá, a cor da satisfação. Não é surpresa, visto que as exigências parecem envolver um casam ento. Mas ainda não sei se a cerim ônia será encenada ou real.
— Detalhes, Morfeu.
Ele se inclina para m ais perto da m esa e pega a travessa de tortas em form a de losango, oferecendo-m e um a com calda de um a fruta verm elha que lem bra sem entes de rom ã.
— Você devia com er. Ainda está com aparência anêm ica dem ais para o m eu gosto.
Solto um grunhido para suas táticas de enrolação.
— Disseram para não m exerm os nas tortas.
Morfeu dá um a m ordida delicada e m astiga.
— O roubo das tortas — ele diz enquanto engole — é a m enor preocupação da Copas neste m om ento. — Coloca a travessa de lado e lim pa os lábios com um guardanapo. — Ela tem um traidor em sua corte.
— Manti. — Franzo a testa. — Estou confusa. Eu achava que vocês dois fossem inim igos.
— Inim igos podem se tornar fiéis aliados, um a vez que com partilhem dos m esm os obj etivos. — Ele toca m eu lábio inferior, deixando um pouco de calda de fruta. Ele m e observa lam ber o resíduo agridoce, e então lam be o resto da calda no dedo. Ao ver sua língua, fico corada.
Ele dá um sorriso m alandro.
— Olhe só. Consegui fazer suas bochechas voltarem a corar.
Faço um a careta de reprovação.
— Dá para pular a sedução? Não é hora para rom ance.
Seu sorriso de resposta é incontrolável.
— Pelo contrário. Toda e qualquer esperança de escaparm os depende de rom ance. Andei observando Manti desde que caí neste buraco infernal. Ele está totalm ente apaixonado pela Copas. Ele a vinha cortej ando fazia séculos, sem sucesso, até que os dois vieram dar aqui. Neste m undo, ele não tem a interferência dos pretendentes form ais. Além disso, ela pode ser ela m esm a... Suas obsessões cruéis e sua degradação foram acolhidas pelos bárbaros habitantes daqui. Ela é reverenciada pelas m esm as ações que resultaram em sua expulsão de nosso m undo. Manti acredita que seu espírito seria destruído se ela voltasse. E ele tem e perdê-la para algum outro rei. Ele não perm itirá que isso aconteça, m esm o que precise enganá-la.
Eu o encaro com olhar sério.
— Os paralelos são im pressionantes.
Morfeu pisca para m im , inabalável.
— E não são? Com o eu conheço o m odo com o o tolo apaixonado pensa, ele foi fácil de m anipular.
— O que significa que você estava por trás do ataque à m ontanha. — Como eu suspeitava.
— Na m aior parte — Morfeu adm ite. — Expliquei a Manti com o chegar lá, o que pegar e o que deixar de pé. Você e Jebediah conseguiram frustrar m eu plano de tê-la entregue em m ãos a m im . Mas eu sabia... — Seus olhos negros brilham e ele afaga m inha face. — Sabia que você não m e deixaria aqui para m orrer.
Então contei a Chessie que a rainha estava planej ando arrancar m eu coração.
Meu corpo inteiro se encrespa com um m isto de frustração e fúria. Am eaço m e levantar, m as Morfeu m e puxa para baixo.
— Para sua inform ação — ele diz —, eu estava à beira da m orte. A Verm elha estava decidindo se m e m atava pessoalm ente ou se m e servia com o alim ento para as enguias da ponte levadiça. Foi preciso convencê-la depressa de que eu tinha algo a oferecer em troca de m inha vida patética. E, se você não tivesse vindo para cum prir a troca, eu j á teria virado ração de enguia a esta hora.
Balanço a cabeça.
— Então, o antídoto para m eu pai. Aquilo foi um a garantia.
— Sua consciência hum ana não perm itia que você m e deixasse aqui depois de eu salvar Thom as, m esm o que conseguisse sobrepuj ar o am or que seu lado obscuro sente por m im .
Estou prestes a censurar sua tática e negar quaisquer sentim entos por ele quando ele coloca a m ão em m inha nuca e pressiona os lábios aveludados contra os m eus. Não é m ais do que um beij inho, m as o sabor da torta que ele provou perdura com o um a ferida quente e saborosa — um torm ento irresistível para a intraterrena dentro de m im .
Ele recua e m inha pele brilha, prism as radiantes refletidos em seu rosto e nas alm ofadas. Estou segurando as lapelas do casaco dele, m as não m e recordo de ter m e aproxim ado.
— Chega de negar — ele diz ao apertar m inha m ão com a sua esquerda. — Eu vi o am or em seus olhos e em suas ações. Eu o senti ontem , quando a peguei nos braços, e hoj e, quando veio m e salvar. E é por isso que o m eu trato com a Verm elha pelo m edalhão não deve ser encarado com o um a m anobra ou um a barganha, m as com o o próxim o passo lógico em nosso relacionam ento.
Eu solto suas lapelas.
— Lógico? Um casamento? Nós vam os fingir, certo?
— Com o podem os fingir se a Verm elha estará dentro de você? Não, tem que ser autêntico. E eterno. — Ele sorri de alegria, toda a ingenuidade j uvenil e o charm e m undano em um ser prim oroso.
Devo estar com um a expressão de dor, porque ele passa o polegar sobre as m arcas de m eus olhos.
— Aly ssa, vam os ter um futuro m uito glorioso. Você verá.
Isso não pode acontecer, e por m uitos m otivos. Um deles é o voto que fiz para Jeb. Mas há outra razão m uito óbvia.
— É cedo dem ais. Nós só estam os com eçando a nos conhecer.
A expressão de Morfeu fica séria.
— Nós passam os a infância j untos.
Eu entrelaço os dedos nervosam ente.
— Foi tudo m uito inocente... brincadeiras... treinam ento. Os hum anos dem oram a assum ir esse tipo de com prom isso. É preciso um a prova de fogo.
— Ah! E nós terem os nossa prova de fogo. É um a tradição intraterrena que o casal atravesse um círculo de cham as para queim ar as rusgas do passado e com eçar um a vida nova, pura. Com o purificar um m etal precioso.
A im agem de nós dois sob o sol do País das Maravilhas m e vem à cabeça: dançando descalços enquanto nossas roupas soltam faíscas e pegam fogo, abraçando um ao outro sem reservas.
Um frêm ito de expectativa percorre m eu corpo, m as eu o reprim o.
— Não, não literal. Simbólico. Dar e receber. Aprender a com preender e confiar um no outro em todas as situações. Eu tive isso com Jeb, durante seis anos. Estou só com eçando a ter isso com você.
Morfeu solta um grunhido que vem de suas entranhas.
— Não vou ficar esperando e virar o reserva de Jebediah até seu lado m ortal com eçar a m e com preender e a confiar em m im .
— Você não é a segunda escolha. Você e eu tem os a eternidade. A eternidade. Jeb tem só um a vida. É j usto que eu a passe com ele. — Eu contorno a verdade, chegando o m ais perto que consigo.
— Justo? Todo esse tem po ele esteve com você nas horas em que estava acordada. Eu só a tinha durante seus sonhos. Quero você na realidade. Já esperei pelo que parecem ser m il anos. É hora de nossa eternidade com eçar.
Ele não está pensando direito.
— Quer m esm o com eçar nossa vida j untos enquanto estou abrigando o espírito da Verm elha?
— Nós dois saberíam os que você a estaria levando para fora deste m undo. — A afirm ação é pragm ática, m as a com paixão abranda sua voz. — E você vai derrotá-la. A única coisa que m udou é que ela quer um a garantia de que você não abandonará suas responsabilidades reais novam ente. Ela sabe que, se nos casarm os, você nunca deixará o País das Maravilhas. Foi a única form a de fazê-la concordar em entregar o m edalhão. E ela se recusa a fazer a troca até que o casam ento sej a oficializado. Você pode ver que não tive escolha.
A visão da Marfim m e invade a m ente, com o ruído de passos de um a criança, desencadeando m eu m aior m edo: a Verm elha encontrou um m odo de obter tudo o que sem pre desej ou. Fazer-m e desposar o único intraterreno que pode dar-lhe acesso a um a criança que sonha e ficar próxim a de m eu corpo enquanto isso acontece. Ela está planej ando usar nosso filho para se vingar. Mas com o?
Levanto-m e e recuo.
— Eu pensei que, pelo m enos um a única vez, você não tivesse m otivos ocultos. Você não está m ais preso à Língua dos Mortos. Não está m ais tentando im pedir a onda de destruição da Verm elha pelos dom ínios intraterrenos. Sua única m otivação era sair de Qualquer Outro Lugar, consertar o País das Maravilhas e fazer com que eu ficasse ao seu lado.
— Essa é a m inha única m otivação. — As j oias em seus olhos são do tom m ais cristalino e sincero, com o lágrim as hum anas.
Eu recuo ainda m ais, arrastando as botas no tapete felpudo.
Morfeu se levanta com cautela, com o se eu fosse um anim al selvagem que ele está tentando não assustar.
— Aly ssa, estam os trancados em um a sala com quatro paredes. Você não tem com o correr de m im , ou sej a do que for que estiver m e acusando.
Solto um gem ido.
— O m otivo pelo qual a Verm elha atraiu Alice para a toca do coelho era m udar as próprias bases em que o País das Maravilhas foi construído. Ela queria introduzir sonhos e im aginação em sua linhagem para que os intraterrenos não precisassem m ais depender do reino hum ano para obtê-los.
Por sua expressão chocada, fica óbvio que esta é a prim eira vez que ele ouve sobre o plano dela.
— Essa é um a cruzada m uito m ais nobre do que eu a j ulgava capaz de em preender.
— Nobre, não. Ela não vai deixar os sonhos serem livres e acessíveis a todos. Ela quer controlar esse poder para se tornar a rainha m ais tem ida de todos os tem pos. Sim . Sim , tem que ser isso. — Fico arrepiada dos pés à cabeça, aterrorizada dem ais para pensar no que vou dizer em seguida. — Não vou perm itir que ela o use dessa m aneira.
— Use quem? — A pergunta escapa da boca de Morfeu em um suspiro trêm ulo.
O pânico m e assola — um a torrente fria e quente. É tarde dem ais para retirar o que eu disse. Prendo a respiração, esperando para ver se m e sinto diferente... se há algum a sensação física enquanto m eus poderes desaparecem .
Mas nada acontece. Com um pensam ento som ente, faço os papéis no cavalete virarem e flutuarem no lugar. Então percebo que não quebrei m eu voto; não especifiquei o nosso filho na afirm ação que fiz. É anônim o. Os votos intraterrenos são baseados na construção das frases e palavras.
Na verdade, se eu pensar bem , prom eti à Marfim nunca contar a ninguém sobre a visão que ela teve, m as não disse que não mostraria a ninguém .
Paro ao lado do cavalete. Já arruinam os as tortas da Rainha de Copas. E se abrirm os alguns potes de tinta?
Morfeu se posiciona atrás de m im para olhar sobre m inhas asas, perto o bastante para suas roupas serem rasgadas pelas cam adas de m eu vestido com pequeninos estalos. Posso sentir a tensão que em ana dele.
Eu tiro as luvas. Depois de abrir três cores — verm elho, azul e preto —, enfio o dedo em um a, deixando que a gosm a fria cubra a ponta. Eu trabalho com m osaicos. Não é fácil retratar o que vi em m inha cabeça usando tinta e papel. Não tenho as habilidades de Jeb, as pinceladas suaves, a capacidade de traduzir form as internas e linhas de gravidade. Mas faço o m elhor que posso, esboçando um a im agem de m im m esm a vestida de m onarca, Morfeu de terno e um m enininho com m eus olhos, o cabelo azul do pai e asas.
Antes que eu possa dar os toques finais em nossas coroas, Morfeu recua e desm orona sobre a cadeira onde havia deixado o chapéu e as luvas, am assando-os. Pela prim eira vez, ele parece não se im portar.
As pedras em suas têm poras e face brilham num profundo azul-real, com o se ele estivesse sonhando.
— Você o viu — ele sussurra.
Eu não respondo.
— Quando? Com o? — ele pergunta.
Aperto os lábios ainda m ais.
Pelo travam ento resignado de sua m andíbula, fica claro que ele com preendeu que estou m e equilibrando na corda bam ba de um voto pela m agia.
— Oh, Aly ssa — ele m urm ura. — Faz tanto tem po que eu quero lhe contar. Eu tem ia assustá-la. Ele é a criança m ais especial de todas. Ele vai salvar nosso m undo. Vai ensinar a todos com o im aginar e sonhar. — Aquela expressão caprichosa retorna ao seu rosto, um reluzir de euforia. — Já fiz um a lista de nom es para ele. E existem tantas brincadeiras que podem os usar para desenvolver suas habilidades.
— Eu quero que ele sej a feliz, Morfeu. Acim a de qualquer coisa. Que tenha um a infância.
Sua expressão se atenua para um a profunda ternura.
— Naturalm ente. Cantarei canções de ninar para ele todas as noites. Você... você pode ensiná-lo a ver o m undo pelas lentes da inocência. Nós o am arem os. Cegam ente. Seria im possível não am á-lo. Não consigo parar de ver a beleza dele, a m escla perfeita de nós dois. — Morfeu pega m inhas m ãos borradas e entrelaça nossos dedos. Os três tons de tinta m ancham sua pele, que fica parecida com a m inha enquanto ele coloca nossos dedos lado a lado. — Todos os nossos tons em um arco-íris lum inoso.
A sala fica m ais som bria, ou talvez sej a a ilum inação esquisita.
Morfeu m e puxa para o colo e aninha m inha cabeça debaixo de seu queixo, confortando-m e em seu abraço com cheiro de tabaco. É o gesto m ais gentil que j á tivem os.
— Agora você sabe qual é o seu lugar, Aly ssa. Com igo e com nosso filho.
A m arca cruel da Verm elha m e repuxa atrás do esterno, fincada em m eu coração. Eu m e afasto para ver seu olhar sonhador, pegando seu rosto nas m ãos e deixando m arcas de tinta no queixo.
— É isso que você não está vendo — digo com voz sussurrada. — Ele não será nosso. Sim , você estará introduzindo um a criança m estiça nos dom ínios intraterrenos. Talvez sej a só o que im porta. Mesm o que sej a a Verm elha a com partilhar essa vida, e não eu. Desde que o País das Maravilhas floresça.
— Não. — Ele m e assusta ao levantar-m e com ele. Com um gesto, arrasta o chapéu am assado e as luvas para o chão, volta a m e acom odar na cadeira e se aj oelha aos m eus pés, pegando m inhas m ãos. — Você é a m inha única rainha. Nós a expulsarem os no m om ento em que consertarm os o País das Maravilhas. Antes que um a criança sej a concebida. Eu juro para você.
Eu realm ente acredito que ele desej e isso, m as não sabe que perdi a carta na m anga nem quanto m eu corpo está cansado e exaurido.
— Eu perdi o diário. Minha única chance de derrotá-la. — Quase digo que foi culpa dele por ter m andado os pássaros trogloditas de Manti, m as que diferença faria culpá-lo a esta altura?
Morfeu balança a cabeça.
— Aquela solução era tem porária. As m em órias ainda estão dentro de você, adorm ecidas. Você pode acordá-las, enfraquecê-las. Acredito em sua força. Você nunca fará o m esm o?
Fico tensa.
— Meu coração... não é forte o bastante. Quando ela esteve dentro de m im , fez algum a coisa. Eu tenho certeza.
Ele desliza m eus dedos por seu queixo, borrando os tons de verm elho, azul e preto que deixei em sua pele m om entos antes. É óbvio que ele acha que estou reagindo histericam ente.
— Você está assustada. Mas, agora que você sabe com o nosso filho vai ser especial, agora que você o adora tanto quanto eu, isso lhe dará ainda m ais m otivos para ser coraj osa. E ainda m ais razões para aceitar nossa união.
Puxo m inhas m ãos. Ele não está m e ouvindo.
— Não posso m e casar com você hoj e.
Ele cerra os dentes e se levanta, olhando para m im .
— Então, suas pífias inseguranças hum anas, m ais um a vez, são m ais im portantes do que o bem -estar de todo um m undo? De dois m undos? Vai perm itir que o estilo de decoração particular da Copas sej a estam pado em todos os m uros do reino hum ano? Vai deixar que as paisagens do País das Maravilhas sucum bam ?
— Estou só dizendo que precisam os descobrir outro m odo de pegar aquele m edalhão, e outro m odo de tirar a Verm elha daqui.
As luzes pulsantes brilham nas m anchas de tinta em seu rosto... colorindo-o com um a estranha e perigosa cam uflagem .
— Você e seus m alditos outros m odos. Isso tudo não é por causa do que tem os ou não tem os entre nós, é? Há m ais algum a coisa im pedindo este casam ento... algo que você está com m edo de m e contar.
Eu hesito.
— Aly ssa! — Ele m e pega pelos om bros e m e faz ficar de pé, perdendo a paciência.
Minha confissão sai aos trancos:
— Eu fiz um voto pela m agia da m inha vida de m e casar com Jeb prim eiro. Se eu m e casar com você, perderei m eus poderes... para sem pre.