Qualquer Outro Lugar
Capítulo 20
20
O País das Maravilhas
Eu afrouxo a tensão com que aperto o pescoço de Morfeu para deixá-lo respirar.
Ele traga o ar avidam ente.
— Eu — ele diz, tossindo — vou sem pre — respira outra vez — fazer o que for m elhor para você.
Eu pisco, com lágrim as e gotas de chuva caindo dos cílios.
— Jeb está m orto! — Meu grito arde na garganta e nos galhos que m antêm unido m eu coração. Sinto tontura e titubeio. Volto a m e orientar e puxo Morfeu para m ais perto. Mais gavinhas irrom pem de m inha pele, envolvendo sua cintura e seu peito. — Com o isso pode ser o m elhor para m im ? Responda!
— Menina do skate.
A voz vem de trás, não das cordas vocais com prim idas de Morfeu. Solto o galho que prende seu pescoço, m as os outros continuam a segurá-lo. Não consigo m e virar, com m edo de estar im aginando coisas.
— Escute, eu sei que ele é um pé no saco. — Um a m ão forte e fam iliar toca a pele de m eu cotovelo, e o calor faz m eus cortes arderem . — Mas seria m ais divertido usar um m ata-m oscas tam anho fam ília. Coloque-o no chão, tá?
Morfeu sustenta m eu olhar com um sorriso com placente curvando-lhe os lábios.
— Eu disse. — Em seguida, ele olha por cim a da m inha cabeça e dá outra golfada de ar. — Já era hora de você aparecer.
Meus m em bros trem em e eu abaixo Morfeu até o chão. As gavinhas se retraem para dentro de m eu corpo e eu m e viro.
É o CC que está olhando para m im . A cópia arlequim agora está usando túnica e calças de cavaleiro. Chessie está sentado em seu om bro, sorrindo de orelha a orelha. Duas das som bras criadas por Jeb estão sob o pórtico ao lado da ponte levadiça para não se m olharem , as asas descansando enquanto aguardam novas ordens.
Extasiada, fico olhando o CC se transform ar sob a chuva que cai.
As m angas de sua túnica estão arregaçadas, e um a tatuagem púrpura com eça a aparecer na parte interna do pulso direito conform e a cam ada de tinta fresca é lavada pelas gotas. A ponta das orelhas, o rem endo em form a de coração e as m utilações sob o olho esquerdo tam bém se derretem . Sua cor de porcelana se esvai à m edida que veios pretos, verm elhos e brancos vão escorrendo e revelam a tez m orena de Jeb. Tudo — os cortes e o globo ocular deslocado, as j oias de elfo e as orelhas pontudas — era pintado... e anim ado ao com ando de Jeb.
De algum a m aneira, ele e Morfeu conseguiram trocar Jeb por sua cópia.
Eles enganaram todo m undo. Inclusive a m im .
Balanço a cabeça. Chessie se lança do om bro de Jeb e flutua diante de m im . Seus olhos de torvelinho, que tudo sabem , m e contam : Morfeu encontrando Jeb na m asm orra; os dois sozinhos bolando o plano e entrando no quarto de Manti sem serem vistos porque usavam o traj e de sim ulacro; Manti concordando com tudo, desde que ele pudesse bancar o rei fiel, para salvar sua reputação perante os olhos da rainha; Jeb pintando e anim ando o narguilé em m iniatura que deflagrou m inhas m em órias hum anas; e, finalm ente, Jeb retocando o rosto de seu sósia com perfeição antes de pintar fios de sangue sob o tapa-olho e a m ordaça, e em seguida m ascarando as próprias orelhas e rosto com feições de elfo, pintura de arlequim no rosto, tapa-olho e buracos no corpo.
Chessie sorri novam ente, os dentinhos reluzindo. Estendo a palm a da m ão e ele se deita de costas para que eu coce sua barriga. Com um grunhido de contentam ento, ele se lança ao ar e voa em linha reta para Morfeu, que o m anda ir procurar seu chapéu em m eio às cinzas.
Volto-m e para Jeb, ainda trem endo.
— A im agem do CC. O rosto dele. Eu pensei que você não conseguisse acabá-lo.
Jeb esfrega o piercing com o polegar.
— Porque eu não conseguia ver dentro do m eu coração. Desde que eu consigo m e lem brar, sem pre m edi o m eu valor m e com parando ao m eu pai, ou ao sucesso da m inha arte. Você m e dizia o tem po todo que eu escolhi ser m elhor do que m eu pai. Que foi um a escolha. Eu finalm ente entendi que você tinha razão. Toda vez que a sua vida estava em perigo, m eu prim eiro pensam ento era aj udar você. Com o hoj e. Mesm o se eu não conseguisse pintar um a saída, teria encontrado outra. Essa é a única coisa boa que aprendi na m inha infância. Ver o que existe de pior m e aj udou a escolher ser m elhor. Este lugar m e fez enfrentar m eus dem ônios. Mas você... sem pre acreditou que eu poderia derrotá-los. E eu derrotei. E agradeço você por isso, Al. — Seus olhos verdes brilham com um autocontrole que nunca tiveram . Um a aceitação total e irrestrita.
A chuva para, e a realidade se instaura.
Jeb está vivo e inteiro — em todos os sentidos. Morfeu não nos traiu. E todo o horror que acabei de testem unhar foi um a m entira brilhante e louca.
Jeb enrola um de m eus dreadlocks loiros em seu dedo.
— Você está bem ?
Fico tentada a gritar com ele por ter m e deixado acreditar naquelas coisas horríveis sobre os dois. Mas estou tão contente por ele estar vivo, aqui, do m eu lado, conversando com igo... m e tocando...
Quero pular em seus braços e abraçá-lo bem apertado. Todavia, com o m eu vestido é um a m áquina m ortífera, m e contento em pressionar a m ão contra seu peito. Seu coração bate forte por baixo das roupas. Nunca m ais deixarei de dar im portância a isso, nem ao fato de ele ainda possuir um relógio de vida.
— Nunca m ais m e assuste desse j eito — digo.
Ele ergue um a sobrancelha.
— Epa, essa fala é m inha. — Usando m eu dreadlock, ele puxa m eu rosto para m ais perto e roça os lábios e o labret na m inha testa, e depois na têm pora, até a boca, dando um selinho.
Morfeu com eça a bufar.
— Bem , isso tudo é m uito lindo. Mas fui eu que ganhei um galo no coco e quase m orri estrangulado.
Jeb m e solta, revirando os olhos.
Com tapinhas, Morfeu tenta, em vão, tirar as cinzas grudadas em suas roupas.
— E você ganha toda a atenção dela, m as ficou com a parte m ais fácil. Seguir Chessie até lá fora e levá-lo até o lugar onde o pai e o tio dela estão escondidos. Oooh, que m edo.
Contendo um sorriso, observo as m arcas verm elhas em seu pescoço que parecem queim aduras de cordas.
Pego a m ão dele e a aperto.
— Me desculpe. Eu não sabia.
O polegar dele escorrega dos m eus dedos.
— Você não podia saber. No m om ento em que a Verm elha entrou em você, tudo o que você soubesse ela tam bém saberia. Tivem os que criar um plano para pegar o m edalhão e fazer você se lem brar de sua força e ficar com raiva suficiente para dom ar o espírito dela sem que ela soubesse. Sem que você soubesse. Era a única m aneira.
A única maneira...
A frase m e faz recordar o conselho de papai quando chegam os aqui: Você nunca matou ninguém, Allie. Certifique-se de que essa é a única maneira. De outro modo, isso vai assombrá-la...
Volto a olhar para toda a chacina que causei. Meu estôm ago se revolta.
— Era a única m aneira.
— Era, sim — Jeb diz ao m eu lado.
— Certam ente era — Morfeu concorda. Seu olhar se volta para a pilha de cinzas, deixando claro que ele com preende que estou falando de m uito m ais do que o plano deles. Estou contente que Jeb não estivesse aqui para testem unhar m eu ataque de fúria. Já basta que ele tenha m e visto sob o dom ínio da Verm elha.
Chessie em erge de um a pilha de escom bros, propelindo o chapéu em poeirado de Morfeu, com o fez com o roupão na estalagem ontem . O chapéu ziguezagueia pelo ar, m as Chessie se recusa a soltar o prêm io. Sua cabeça espia por trás e o sorriso m aroto se abre quando Morfeu faz um a careta.
Eu m ordo o lábio inferior, com m ais um a dúvida m e incom odando.
— E quanto ao Manti... você o atacou no palco. Foi parte do plano?
— Sim — Jeb responde. — Mais ou m enos. — Ele inclina a cabeça, apontando Morfeu. — Você pegou pesado.
Morfeu estala a língua.
— Meu desem penho foi perfeito — ele com enta, finalm ente conseguindo pegar seu chapéu de Chessie.
— Certo — Jeb diz, zom bando. — Tenho certeza de que m eus m aus-tratos não teriam deixado você histérico, seu dram ático.
Morfeu sorri com desdém .
— Faz sentido. Por outro lado, seu desem penho com o robô desm iolado foi im pecável.
Os lábios de Jeb se curvam , com o se ele estivesse tentando conter um sorriso.
— Olha, eu ainda tenho tinta suficiente para fazer aquele m ata-m oscas.
— Tsc, tsc. Não precisa usar de violência. — Morfeu lim pa a poeira do chapéu e o coloca na cabeça. — Eu só estava dando o crédito m erecido.
Os olhos deles brilham com leveza, com o quando eles m e provocam . Estão gostando dos gracej os. Há até m esm o certo tom de respeito quando antes havia pouco m ais do que tolerância.
Meu coração fica cheio, os dois lados dele, orgulhoso de com o eles trabalharam j untos e deixaram os ressentim entos de lado por um bem m aior. A sensação é m aravilhosa, m as causa m ais um a pontada — um estalo visceral atrás do esterno.
Falta-m e o ar.
— Al, você está branca com o papel. — Jeb olha para Morfeu com preocupação. — Talvez ela estej a perdendo m uito sangue.
— Talvez. — Morfeu pega m eu pulso esquerdo para senti-lo. Posso adivinhar, pelo arco de suspeita em sua testa, que ele está pensando no m eu ataque de anem ia na sala de j ogos da Copas.
Eu m e afasto.
— Estou bem . De verdade.
Jeb vira m eu outro braço para avaliar o estrago. Eu m e contraio quando m inha pele ferida se estica.
— Eu não tenho a m agia dela — Jeb diz. — Não posso curá-la.
— Eu posso, quando estiver recuperado. Por enquanto, vam os estancar o sangue. — Morfeu tira seu lenço m anchado de tinta, fazendo-m e lem brar nossos m om entos na sala da Copas. Ainda não consigo acreditar que quase o estrangulei. E depois de professar m eu am or... algo que ele esperou tanto para ouvir.
Com um olhar, ele alivia m inha culpa. Mesm o sem estar dentro da m inha cabeça, sei no que ele está pensando: que com preende m eu lado som brio e suas facetas cruéis; que, de fato, são essas m esm as facetas que o desafiam e o fazem sentir-se vivo.
Faço um sinal de agradecim ento. Ele pisca para m im e pressiona o lenço com cuidado sobre m inha pele.
Um a forte raj ada de vento varre o pátio, revolvendo m ontes de cinzas m olhadas e form ando um a nuvem furiosa. Um túnel de vento surge a distância, logo acim a do penhasco onde pousam os esta m anhã.
Jeb pega m eu cotovelo com cuidado.
— Tem os que ir. Seu pai, seu tio e o outro cavaleiro estão naquele arvoredo, esperando. Nós tem os um funil de vento para pegar.
— Você disse nós — com ento enquanto vou rapidam ente com eles na direção do pórtico para reaver as som bras pintadas.
Jeb lança um últim o olhar para o poço do m edo e a enorm e bola de fogo que o cobre, com o se procurasse fantasm as.
— Não tenho razão para ficar.
Sou egoísta, porque estou contente que todas as criaturas que ele criou na m ontanha tenham sido destruídas. É irônico que eu deva agradecer a Morfeu por isso tam bém . Ou talvez ele tenha planej ado tudo desde o com eço. Nunca canso de m e surpreender com a am plitude do escopo de suas m aquinações.
— Pobre Nikki — Jeb fala com voz pesarosa.
Com um sinal da cabeça, Morfeu concorda, triste, e Chessie desm orona em seu om bro, o sorriso virado para baixo.
— Eu pensei que ela estivesse tentando salvar seu criador — acrescento enquanto passam os pelo pórtico e subim os na ponte. — Mas ela estava tentando salvar seu am igo.
— Ela era um a fadinha coraj osa — Morfeu reconhece. — E, por falar de fêm eas pequenas, m as ferozes, é hora de você abrir as asas, am or.
Não m e sinto tão feroz. Só essa pequena cam inhada pelo pátio j á m e deixou exaurida. Não sei quanto tem po ainda tenho antes que o poder da Verm elha se esgote e os galhos que seguram m eu coração cedam .
Por um segundo, penso em contar aos rapazes sobre seu feitiço, com partilhar m inhas preocupações para não ter de carregá-las sozinha. Mas de que adiantaria? Eles ficariam atorm entados porque não conseguiriam revertê-lo. Ninguém pode.
A própria Verm elha disse que não havia m agia que pudesse m e curar.
Meus olhos ardem nas bordas. Nunca m e senti tão só.
— Vam os pegar sua m ãe. — Jeb recua para que m inhas asas possam se abrir com pletam ente.
Forço um sorriso, deixando para trás a sensação lancinante em m eu esterno, e alço voo, ávida por ver papai e abraçá-lo. Com Jeb levado por sua som bra de um lado e Morfeu com a dele do outro, rum am os para o penhasco e para o nosso transporte até o País das Maravilhas.
Enquanto voam os, a lem brança de m inha visão de m am ãe m e açoita com o as correntes de vento. Ela está segura, m as o coração do País das Maravilhas está aflito. O que enfrentarem os ao chegarm os lá? Só espero que eu possa consertar as coisas antes que m eu próprio coração aflito entregue os pontos.
Poderei m orrer satisfeita se souber que o País das Maravilhas viverá.
Tenho tem po som ente para absorver as asas, despir-m e do vestido m ortífero e vestir um a túnica extra sobre m inha legging de couro antes de ser sugada para dentro do túnel de vento e largada diante do portão que leva ao País das Maravilhas. Depois que coloco todos a par de m inha visão com m inha m ãe e a Marfim , tio Bernie se despede de nós com um abraço. Prom etem os visitá-lo quando retornarm os ao reino hum ano.
É um a prom essa que receio não poder cum prir.
Deixando tio Bernie com os outros cavaleiros, atravessam os o portão sem ninguém saber que estou abrigando um a fugitiva. Depois disso, exceto pelo fedor horrível de podridão, viaj ar pela garganta de quase m eio quilôm etro de m adeira tulgey não é nem de perto tão aterrorizante ou perigoso com o eu esperava. Em parte porque papai j á se aventurou por aqui antes e nos conduz pelo cam inho, m as tam bém porque a tulgey está congelada. Literalm ente.
Morfeu j á esperava por isso e até nos preparou. Ele disse que, de acordo com a m inha visão, a Marfim congelou tudo para desacelerar o feitiço de degeneração colocado pela Verm elha. Para nos dar um a oportunidade de revertê-lo.
Avistam os a boca aberta da árvore sob um a luz nebulosa, prateada. Nossa respiração form a nuvens de condensação enquanto m anobram os em torno da língua gigante acinzentada pelo gelo, usando os dentes lascados com o degraus.
Eu salto da m andíbula desengonçada para o bosque, atrás de papai. Jeb e Morfeu vêm em seguida. A gram a de néon brilha com a geada e quebra ruidosam ente sob m inhas botas. Um cheiro de m ofo paira no ar, em bora tudo estej a envolvido pelo inverno.
Galhos em aranhados e refugos do espelho — intraterrenos que foram cuspidos da tulgey em estranhas e terríveis form as —, todos im óveis. Morfeu identifica as criaturas: um a form iga carpinteira com corpo feito de ferram entas; um a vespa com nariz de trom pete; e um inseto com corpo de gafanhoto e cabeça de cavalo exibindo um torrão de gram a congelada no focinho — com o se em plena m astigação.
A cena é assom brosam ente igual à do chá da tarde congelado que Jeb e eu encontram os em nossa prim eira viagem para cá. Entretanto, diferentem ente do chá, não há nenhum relógio quebrado que tenha aprisionado o tem po em sua cela de gelo. Isto é algo com pletam ente diferente.
Meu olhar cruza com o de Jeb e ele faz um sinal com a cabeça, reconhecendo a lem brança.
Morfeu para ao m eu lado. Salpicos azuis brilhantes giram em torno de suas m ãos, com o luvas de fibra óptica. Elas se acendem , apagam e voltam a se acender. A m agia dele titubeia conform e vai esquentando, com o o m otor de um autom óvel que ficou m uito tem po sem ser ligado.
— Tem certeza de que nos contou tudo sobre sua visão? — ele m e pergunta enquanto Jeb e papai procuram um cam inho.
— Creio que sim . — Esfrego a testa. — Eu estava... em um lugar esquisito quando a tive. Por quê?
Morfeu faz beicinho.
— Eu esperava ver o solo sob um inverno perpétuo. Mas a Marfim congelou os habitantes. Não consigo entender o m otivo. Era a paisagem que corria o perigo de deterioração. Não os intraterrenos.
Eu m ordo o lábio. Algum a coisa cutuca m inha m ente lá no fundo. A m am ãe não usou um a palavra estranha para descrever a doença que tinha acom etido tudo? Mas não consigo lem brar qual era... com eçava com E.
Frustrada com a m inha am nésia, vou até onde papai e Jeb estão retirando galhos que caíram sob um a trilha que parece ser a única saída.
Papai para quando eu m e agacho para aj udar.
— Allie, pode deixar com a gente. Não quero que suas feridas voltem a abrir. — Ele se vira para Morfeu. — Será que vai poder curá-la logo?
Lum inosos orbes de luz azul — fortes e firm es — explodem na ponta dos dedos de Morfeu. O brilho se reflete em sua face. Ele sorri com o um m enino encantado.
— Sim .
Chessie dá voltas em torno dele, rodopiando em com em oração.
Com um sinal de cabeça, papai agradece. Ele tira sua adaga de ferro da bainha no om bro.
— Muito bem . Jeb e eu vam os ver se esta trilha é segura. Voltam os logo.
Jeb aperta a m inha m ão antes de segui-lo. Eu a seguro, surpresa por ver que sua tatuagem ainda está brilhando, em bora, em vez de violeta, estej a verm elha. Ele ergue as sobrancelhas, parecendo confuso, e desce as m angas da cam isa, num pedido silencioso para que deixem os esse m istério para depois. Ele e papai se agacham sob um a m assa de galhos tulgey e som em de vista.
Os olhos de Chessie se reviram , contando a m im e a Morfeu quanta saudade ele sentiu de casa e com o quer visitar seus refúgios prediletos.
— Prim eiro, encontre a m ãe de Aly ssa e a Marfim — Morfeu insiste. — Diga a elas que estam os aqui. Se as portas nos espelhos estiverem funcionando, peça a elas que abram um a para nós.
Chessie concorda e parte, desviando de algum as árvores quase grudadas um as nas outras antes que eu possa piscar.
Morfeu levanta as m ãos, testando seu poder. Filam entos elétricos azuis atingem cada galho da copa acim a de nós, balançando-a e libertando flocos brancos. Ele fica ali de pé — com as asas num arco alto —, orgulhoso e régio enquanto um a chuva de flocos m acios cai sobre ele. Um riso franco ressoa do fundo de seu peito. Está tranquilo e brincalhão, ainda m ais do que estava em seu quarto em Qualquer Outro Lugar. Ele ficou tanto tem po sem sua m agia que agora está em briagado dela.
A neve cai sobre m im tam bém , fria e refrescante. Ela m e faz lem brar o Texas e as nevascas sazonais em que Jeb, Jenara e eu brincávam os quando crianças. Bonecos de neve, sorvete de neve, fortes de neve. Não consigo m e conter e rio com ele, apesar da fraqueza que sinto.
— Dance com igo, flor — ele convida, e, quando hesito, m e puxa com sua m agia. Eu m e aninho em seu peito, saboreando sua vitalidade, querendo poder absorvê-la.
Ele passa um braço pela m inha cintura e pega m inha m ão. Com os lábios pressionando m inha cabeça coberta por dreadlocks, ele cantarola a canção de ninar enquanto sua voz interior enche m inha cabeça em um a frequência que só eu posso ouvir:
— Você me deixou extasiado hoje. Tão desinibida. Tão cheia de malícia.
Eu sorrio secretam ente e sigo seus passos graciosos. Suas asas cascateiam à nossa volta feito rodam oinhos de tinta etérea.
— Na verdade — a voz de sua m ente continua —, agora que recuperei minha magia — ele m e gira, em seguida m e puxa novam ente para si —, espero que você me permita outra tentativa em nosso jogo.
— Jogo? — eu pergunto.
— Não sou avesso a um pouco de violência — ele responde, agora não m ais cantarolando. Pega m inha m ão, dá um a m ordidinha nas j untas dos dedos e depois os conduz para as m arcas verm elhas em seu pescoço. — Rainha raivosa e lacaio voluntarioso... esta será a regra para o nosso j ogo de am or. Sem as gavinhas da Verm elha, e nós dois escassam ente vestidos.
Eu desdenho.
— Está delirante.
— Prefiro o term o “enlouquecido”.
Eu sorrio para ele, anim ada por vê-lo provocativo e contente. Pressiono a orelha contra seu peito para poder ouvir as batidas fortes do coração. Tento fazer m eu coração duplo se fundir a um a batida e seguir seu ritm o perfeito. Não consigo.
— Aly ssa, estou inteiro novam ente — ele m urm ura enquanto o ritm o de nossa dança vai dim inuindo até chegar a um m ero balançar.
— Eu sei.
— Jebediah está inteiro tam bém .
Não respondo, porque, de algum a m aneira, Jeb ainda m antém a m agia da Verm elha e não sei direito o que pensar sobre isso.
— Então, você deve convencê-lo a libertá-la de seu voto — Morfeu acrescenta, resoluto.
Com eço a m e afastar, m as ele m e abraça com m ais força.
— Você m e am a. Você adm itiu.
— Eu am o você, sim .
O corpo dele reage trem endo, com o se não conseguisse conter as em oções diante de m inha resposta.
— Nós dois sabem os que você fez esse voto para tirar seu m ortal de Qualquer Outro Lugar. Para dar-lhe fé em sua hum anidade e em você. Seu estratagem a salvou a vida dele.
Cerro os dentes.
— Não foi a única razão pela qual eu o fiz. — É im portante que ele aceite o m eu am or por Jeb. Terei de dizer a Jeb a m esm a coisa sobre Morfeu antes de ir. Não vou deixá-los com m entiras pairando entre nós. — Eu am o vocês dois.
Morfeu fica tenso e volta a dançar com igo no espaço pequeno, refazendo nossos passos pela neve até nossas pegadas se apagarem . Nós rodopiam os de um a ponta à outra, com o se ele achasse que pode m e distrair de m inha própria verdade.
Por fim , sem fôlego, nós param os de cara um para o outro. Toda a alegria de antes se apaga com o um a vela, e nossas respirações form am nuvens de condensação.
— Já cansei de esperar. É agora ou nunca. E não ouse esquecer que nossa união garantirá que o que aconteceu com seu pai nunca m ais aconteça com outro hum ano. Ninguém m ais será aprisionado pela Irm ã Dois, porque nós presentearem os o País das Maravilhas com nosso filho capaz de sonhar.
Suas palavras m e atingem , fazendo-m e perceber que isso ainda não havia passado pela m inha cabeça. Com o estou m orrendo, nosso filho não nascerá. O País das Maravilhas terá de continuar roubando crianças para pegar os sonhos delas para sem pre. A não ser que encontrem os um a alternativa.
Sinto um a pontada aguda atrás do esterno e um sabor am argo e m etálico na garganta.
Pouso o rosto no peito dele, abafando um soluço.
— Eu pensei que estivéssem os dançando.
Em resposta, ele m e rodopia. Eu m e solto e vou parar diante do tronco de um a árvore. A expressão dela está congelada em um a careta som bria com a boca aberta, igual à da árvore da qual saím os. Eu m e afasto e analiso todas as árvores tulgey que consigo ver. Todas têm a m esm a expressão, com o se o m om ento em que foram congeladas tivesse sido horrível.
O coração do País das Maravilhas está morrendo. A estagnação está próxima. Venha logo. Vamos aguentar o máximo que pudermos.
— Estagnação — eu m urm uro.
— O que disse? — Morfeu pergunta, surgindo atrás de m im .
— Estagnação. Foi a palavra que a m am ãe usou quando disse para nos apressarm os. Ela m e disse que a estagnação estava se aproxim ando.
Olho para trás para ver a reação dele. Seu queixo está retesado; o lindo rosto, abatido. Ele analisa as árvores e os dej etos do espelho.
— Eu achava que a Verm elha tivesse som ente lançado um feitiço. Mas foi um a praga... um exterm ínio. Tristeza tóxica.
— Não entendi.
— Os estagnados são criaturas m icroscópicas. Sua destruição é tão devastadora e com pleta que eles foram m antidos confinados durante séculos. Cada castelo tem um suprim ento deles guardado a sete chaves, com o um m eio de se m anter a paz. De se m anterem os dois reinos sob controle.
Balanço a cabeça, com preendendo.
— Destruição Mútua Assegurada... Os dois lados sabem que qualquer ataque ao outro será devastador para eles m esm os. Tem os a m esm a coisa com arm as nucleares em nosso m undo.
Morfeu coça a têm pora.
— A Verm elha deve tê-los tirado de fininho antes de ser destituída do trono. Quando ela lançou sua vingança contra nós, não planej ava sim plesm ente destruir a beleza daqui... ela ia erradicar tudo.
— Mas por quê? Eu achava que ela quisesse o reino dela de volta.
— Deve ter sido um plano alternativo, caso algo desse errado com o plano de Alice. Desse m odo, ela poderia nivelar todo o País das Maravilhas, e depois reconstruí-lo a seu bel-prazer.
— É claro. Faz sentido. Ela queria reinar sobre tudo. — Estou prestes a contar a ele com o ela pretendia usar nosso filho com o m oeda de troca para derrotar a Marfim e controlar os dois reinos, m as ele m e interrom pe.
— Ela deve ter libertado a praga depois que você voltou para o reino hum ano — ele diz. — Depois que ela encontrou um novo corpo para habitar. Foi aí que tudo com eçou a desm oronar.
— E foi aí que você tentou m e fazer voltar. — Vou até a árvore m ais próxim a e passo a m ão cheia de cicatrizes sobre a casca gelada. Sinto que Morfeu se aproxim a, m as não m e viro. Estou envergonhada dem ais. — Eu deveria ter ouvido.
— Você teve a sua curva de aprendizado. — Há certa m oderação em sua voz. Ele está bravo. — O que im porta é o que vai fazer com o que aprendeu.
— Mas a m agia da Verm elha pode reverter isso?
Ele suspira, colocando a m ão j unto da m inha sobre a árvore, de m odo que seu corpo e suas asas m e resguardem .
— A esta altura, trata-se de m ais do que reverter. É preciso renovar. Criar um m undo novo é a única m aneira de se deter a infecção, e só o poder daqueles que experim entaram a m agia da coroa é capaz disso. É necessário que as linhagens dos dois reinos trabalhem j untas. A Marfim não poderia fazer isso sozinha. Foi por isso que ela congelou tudo. Para im pedir que os habitantes fossem infectados até você voltar e aj udá-la. Juntas, vocês recriarão as paisagens e depois, quando elas estiverem puras, a Marfim poderá libertar todos os intraterrenos de sua suspensão em segurança. Pode ser necessário usar cada fagulha do poder deixado pela Verm elha, com binado com o seu e o da Marfim , para controlar um a epidem ia tão dissem inada.
Lágrim as brotam de m eus olhos, porque m inha m agia só é tão forte quanto eu, e a da Verm elha está dim inuindo.
Morfeu afaga m eu cabelo no lugar onde ele pousa sobre m eus om bros.
— Há um lado bom nisso, am or. Você não precisa expulsá-la. Sim plesm ente, esgote-a. E, então, ela estará finalm ente derrotada. Para sem pre.
Ele não percebe que j á usei a m aior parte do poder dela. Ao tentar m e m anter viva, condenei o País das Maravilhas à m orte. Nunca pensei em quanto nossos destinos pudessem estar interligados.
Eu m e contorço, m inha m ão escorrega pela cara da árvore e desabo ao chão.
— Aly ssa? — Morfeu se agacha ao m eu lado im ediatam ente. Ele pega m eu queixo e m e força a olhar para ele. — Está se sentindo anêm ica de novo?
Faço força para respirar. Meu peito é arranhado, com o se eu inalasse abelhas furiosas. O sangue sobe à m inha garganta e m e engasga.
As j oias no rosto de Morfeu piscam em um ansioso caleidoscópio de cores. Ele tira o casaco, m e envolve nele e arregaça as m angas.
— Tire as botas para que eu possa curá-la.
Meus dentes rangem a qualquer m ovim ento. A única m aneira de controlar a dor agonizante, de im pedir que m eu coração se rasgue ainda m ais, é ficar congelada, com o tudo à m inha volta.
Morfeu se cansa de esperar, tira a m inha bota ele m esm o e sobe m inha legging. Ele acaricia a tatuagem da qual sem pre fala para m e provocar, e em seguida pressiona nossas m arcas um a contra a outra. Um a faísca se desprende delas, expandindo-se feito um a cham a pelas m inhas veias. O poder cura seu pescoço e m eus braços, m as não chega a atingir m eu coração.
Durante a eufórica corrente de calor, o olhar de Morfeu encontra o m eu e sinto-m e desnudada até os ossos. Ele vê o problem a.
— Oh, florzinha. — Sua voz é um poço de desespero. — Por que não m e contou?
Fecho os olhos com força.
— Me desculpe. — O pedido de desculpas se transform a em um arquej o.
— Não — ele esbravej a. — Você tentou m e contar. Na m ontanha. E na sala de j ogos da Copas. Eu estava preocupado dem ais para ouvir.
Chega de culpa. Ele precisa se concentrar no nosso lar.
— Encontre um m odo. — Engulo outra descarga de sangue e saliva. — Salve o País das Maravilhas.
Morfeu m e ergue nos braços, aninhando-m e com carinho.
— É exatam ente o que pretendo fazer. — Em bora eu possa sentir seu calor através de nossas roupas, estou trem endo.
Com os olhos sem icerrados, observo um raio azul saindo de seus dedos para os galhos acim a de nós. Usando-o com o cordas, ele abre a copa ao m eio. Suas asas batem , provocando raj adas de neve. Nós saím os do bosque e ganham os o céu. O solo adorm ecido do País das Maravilhas passa lá em baixo, a um a altura estonteante — branco e brilhante. Pontos pretos surgem nas bordas de m inha visão periférica.
Meu estôm ago se revira um a vez, lem brando-m e de que ainda estou viva. Em seguida, fecho os olhos e encaro a escuridão que m e aguarda.