Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 24 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Epílogo

 

Jeb e eu passam os toda a nossa vida em Pleasance, e m am ãe e papai nos visitavam com frequência, quando não estavam em Londres com os Skeffingtons.

Não m encionarei outros detalhes: quantos filhos e netos, as sobrinhas e os sobrinhos que Corbin e Jenara nos deram , nem que idade tinha Jeb quando m orreu. Só direi que nossa vida m ortal j untos foi tudo ou m ais do que eu esperava. Mesm o quando a m orte levou os m em bros de m inha fam ília — um a um —, a felicidade logo retornava, um a enxurrada de m em órias e risos que perdura feito inestim áveis obras de arte nas paredes do m eu coração.

Consegui construir um a reputação com m eus m osaicos, enquanto Jeb ficou fam oso por fazer labirintos de brinquedo, percorridos por bolinhas, feitos de m odo tão engenhoso e intrincado que foram com parados às obras de Rube Goldberg. Contudo, o verdadeiro legado que ele deixou a nossos filhos e netos não foi a fortuna, nem os prêm ios obtidos com suas proezas m ecânicas. Foram sua gentileza, seu senso de hum or e seu am or incondicional.

Mam ãe e eu queríam os que nossos descendentes tivessem a vida norm al que nunca tivem os, e consegui silenciar os insetos e as flores em seus ouvidos sim plesm ente ordenando — um benefício da m agia da m inha coroa. Mesm o assim , deixei a eles um a oportunidade de tropeçarem em seu legado do País das Maravilhas: centenas de m osaicos repletos de paisagens m ísticas e bizarras, e um a caixa cheia de relíquias, j unto a um m apa e um a chave. Escondi tudo no sótão para que eles encontrem e, quem sabe, saiam a buscar respostas.

Talvez eles pensem que são sim ples elucubrações de um a m ente senil. Ou talvez acreditem e se lancem , seguindo a m esm a fé que um dia m e m oveu, e a um a m enina curiosa cham ada Alice, a m e aventurar na toca do coelho.

Estarei lá para recebê-los, se o fizerem ...

Abandonar m inha fam ília hum ana é a coisa m ais difícil que j á fiz. Depois de forj ar m inha m orte, m inha últim a viagem à toca do coelho não é tanto um salto, m as um a queda. Morfeu está lá para m e pegar. Ele tom a m inha m ão enrugada e cheia de m anchas senis e m e aj uda a entrar, lim pando com beij os as lágrim as da m ulher velha, grisalha e frágil que m e tornei.

Ele não recua nem pestanej a. Vê através da m inha idade o que sou por dentro. Vê a regente que ele aj udou a form ar em m eus sonhos desde a infância: adepta do pandem ônio e da m anipulação, tem perados pela sabedoria.

Ele coloca a coroa sobre m inha cabeça e m eu cabelo fica m ais forte e se aquece com o loiro-claro da j uventude, cheio de m agia. Meus ossos, pele e m úsculos voltam a ficar lisos e torneados. Minhas asas brotam novam ente.

Volto a ter dezesseis anos.

— Dar-lhe-ei tem po para lam entar suas perdas — ele sussurra, m as o desej o que queim a em seus olhos contradiz qualquer paciência.

Em bora m eu coração estej a pesaroso, ele tam bém é forte e inquebrantável, graças aos dois hom ens que colocaram as m inhas necessidades acim a de suas próprias.

Morfeu e o País das Maravilhas aguardaram tem po suficiente por sua rainha, por sua criança sonhadora. Toco o rosto decorado por j oias que eu aprendi a am ar tanto, não apesar de suas táticas enfurecedoras, da m anipulação das palavras, da suave m alícia... m as por causa de tudo isso.

— A Corte Verm elha precisa de um rei — é a m inha resposta.

Nós nos casam os, rodeados por um a salada de criaturas: algum as vestidas, outras nuas, todas m ais bestiais do que hum anoides. São nossos súditos, e m eu coração transborda de afeição — por sua estranheza, sua loucura e sua lealdade.

Morfeu e eu vestim os verm elho: eu, um vestido de rosas verdadeiras, tule e renda; e ele, um lindo terno carm im .

Quando chega o m om ento, eu digo com orgulho:

— Aceito.

Ele ergue m inha m ão e toca com os lábios m acios as cicatrizes que a m arcam .

— Eu sem pre soube que aceitaria — ele provoca. Em seguida, sorri, e suas j oias brilham em dourado reluzente.

Ostentando coroas de rubi, voam os j untos para o céu.

— Vam os dançar nas nuvens, am or? — m eu rei pergunta.

Lem bro-m e da visão que tive um a vida atrás — nossas alm as e corpos desnudados diante de um inferno brilhante — e respondo:

— Quero dançar no sol.

E lá, em m eio às ofuscantes cham as laranj a, am arelas e brancas, com eça nossa eternidade.

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