Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 23 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 23

23

 

 

Fair Faryn

 

Gossam er revoa j unto ao m eu ouvido enquanto estou parada de pé em um canto do enorm e e cristalino salão de festas da Marfim . A fada m e fez várias visitas ao longo do dia, oferecendo sua agradável com panhia, apesar de sua afeição inabalável por Morfeu. Trabalhar j untas para espantar os m om irratos do ginásio da m inha escola, no m ês passado, parece ter criado um vínculo entre nós.

Quanto a Morfeu, não o vej o desde que a coruj a com eçou a caçá-lo na torre. Ele até ficou longe da m inha m ente. Mas enviou um a m ensagem através de Gossam er, inform ando estar contente com a m inha decisão acerca da Verm elha.

Velas de cham as prateadas flutuam de cabeça para baixo no teto, ilum inando suavem ente o am biente. Um quarteto de cordas toca sem m usicistas; os instrum entos gelados, glaciais, brilham e pulsam com as cores do arco-íris. A m úsica é leve e anim ada com o o ar da m anhã, m as baixa, com o sussurros m elodiosos que ecoam em um a caverna de gelo.

Gossam er e eu ficam os quietinhas ao lado de um a porta aberta, observando m am ãe e papai dançarem com a Marfim e Finley. Os quatro — lindos e graciosos — se destacam , com o enfeites para um bolo de casam ento, entre os bizarros intraterrenos que dançam desaj eitadam ente em torno deles.

Eu dancei, um pouco antes, com alguns convidados. Chessie, Nikki e o Rábido. Flores zum bis, encolhidas para seu tam anho original. Fadas. Diabretes. Até Herm an Chapelão apareceu, com o rosto m udando feito um a tela de televisão entre m im e nossos outros parceiros de dança, o Cam undongo e a Lebre Careca.

Jeb m e roubou para um a m úsica lenta e rom ântica. Ele j á foi em bora e está trancado em seu quarto no castelo. Estava exausto. Tendo se debatido com a m agia da Verm elha e a de Morfeu por um m ês, sobrevivido a seus próprios dem ônios interiores em um m undo diferente e bárbaro, dado vida a paisagens m oribundas e abandonado sua inspiração para sem pre, não estou surpresa. Mesm o assim , não consigo deixar de im aginar se a principal razão para ele se ausentar não foi por não querer estar aqui quando Morfeu chegar para m e levar em bora.

Fico olhando para a porta pela qual Jeb saiu, incapaz de afastá-lo dos m eus pensam entos.

— Seu cavaleiro m ortal é singular — Gossam er diz em sua voz tilintada ao perceber para onde estou olhando. Seus olhos bulbosos cor de cobre, a pele verde reluzente e as escam as brilhantes parecem quase fosforescentes sob a luz tênue.

Fico pensativa, analisando suas palavras. Sinto um a ardência gostosa na língua devido ao batom verm elho-canela que as outras fadas m e passaram antes, com a m aquiagem para a noite.

Pairando diante do m eu nariz, Gossam er inclina a cabeça dim inuta.

— O que leva à pergunta... Antes de tudo isso. Antes de com prom eter seu coração. Você tinha chegado a um a decisão? Qual deles? Qual futuro?

Respondo, olhando-a fixam ente, ainda sem saber ao certo se Morfeu está disposto a com prom eter-se com algum a coisa:

— Eu ia escolher o País das Maravilhas e ia regê-lo sozinha. Eu não poderia viver um a eternidade sabendo que teria partido o coração de algum deles em detrim ento do outro. Principalm ente agora, que eu sei com o um coração partido pode ser dilacerante. — Solto um suspiro trêm ulo. — Talvez eu ainda devesse fazer essa escolha. Parece errado ter que obrigá-los a suportar m eus dois lados. Parece que estou sendo egoísta.

A fada produz um som bem leve, algo entre um resfôlego e um espirro. Seus astutos olhos de libélula refletem as luzes dos instrum entos com as cores do arco-íris.

— O quê? — Eu m e recosto na m oldura gelada da porta, im pressionada por perceber com o o gelo não é frio ao toque, em bora possa congelar as batidas de um coração ou colocar em suspensão um a paisagem que se degrada.

A fada se aninha em m eu om bro, e suas asas fazem coceira em m inha orelha.

— Você está pensando com o um a hum ana novam ente. Vendo as coisas em preto e branco.

É m inha vez de resfolegar.

— Certo. Eu esqueci. No País das Maravilhas, tudo é cinza.

— É. Eu lhe disse um a vez que ninguém sabe do que é capaz até as coisas chegarem ao lim ite. Quando você estava m orrendo, seus dois hom ens encararam aquele m om ento. Eles uniram suas forças, olharam dentro um do outro, em vez de olharem para si m esm os, e encontraram o cinza: o denom inador com um .

Faço um a careta.

— Está dizendo que isso os m udou?

Ela se senta e, apoiada na curva do m eu pescoço, ergue um a perna de cada vez para aj ustar os sapatos verdes pontudos que tem nos pés.

— Você sem pre despertou o lado m ais terno em m eu m estre. Mas ele não m udou. Ele é tão im utável quanto eterno. Ele sem pre será egoísta, m anipulador e indom ável. Ele não conhece outro m odo de ser, pois é todas as coisas do País das Maravilhas. O evento sim plesm ente deu a ele um novo m eio de determ inar a direção de suas ações ao lidar com você.

— Com o assim ?

— Um a bússola m oral dos m ortais. Assim com o o seu Jebediah agora com preende os desej os m ágicos e ferais do País das Maravilhas, Morfeu com preende as necessidades e inseguranças em ocionais do m undo hum ano. Ele e seu cavaleiro m ortal sem pre foram o parceiro perfeito para você, dividido em dois. Mas agora cada um deles tem a percepção necessária para fornecer o que você precisa em qualquer um dos reinos. Não foram eles que uniram seu coração. Foi o seu coração que os uniu. Eles são m ais sábios agora por causa do am or que têm por você. Eu ousaria dizer até m ais felizes. Sim , eles poderiam sobreviver sem você, m as serão hom ens m elhores com você. São eles que precisam de você para serem com pletos, para serem tudo o que nasceram para ser. Isso não a torna egoísta. Isso a torna indispensável.

Eu sorrio. A ideia é libertadora, e tão fascinante, excêntrica e bela quanto o próprio País das Maravilhas.

Minha atenção se volta para a pista de dança e para os convidados que representam o reino Verm elho, o Branco e até m esm o os solitários de nossa espécie. Reconheço alguns outros presentes: os m ustelas — criaturas parecidas com furões, com presas longas e venenosas e crânios vulneráveis —, um ser parecido com um ouriço com cara de pardal, um a m ulher cor-de-rosa com o pescoço com prido com o o de um flam ingo.

Tam bém estão presentes alguns que não conheço, com asas de m orcego e cara de peixe, ou fêm eas sensuais escuras com o lam a, com plantas anfíbias que crescem em sua pele elástica.

Posso não conhecer todos os intraterrenos, m as conheço seus dons e poderes. Morfeu m e ensinou tudo durante a infância.

Os dreadlocks do ogro da ponte são encantados com um a telepatia que faz um a lavagem cerebral em suas vítim as, fazendo com que tenham tanto m edo de ficar no lugar que atravessam sua ponte m esm o quando sabem que ele as aguarda do outro lado para transform á-las em pedra. E a raposa m arrom que não tem nom e e usa um a canção que atrai os seres de m ente m enos privilegiada para a água, onde suga a vida deles.

Nem todos são letais, m as todos são insanos e estranhos o suficiente para provocar m eu lado obscuro com a possibilidade do caos. Estou ávida por com eçar a visitá-los em m eus sonhos para poder aprender suas fraquezas e com o m anipulá-los, porque ser razoável nunca é lei na terra da Corte Verm elha. Tudo se resum e a quem é m ais astuto, m ais hábil com as palavras. E quem está m ais determ inado a im por sua vontade.

E é por isso que Morfeu será o Rei Perfeito um dia.

Jeb m encionou antes que ele e Morfeu conversaram enquanto eu estava m e recuperando do estado de congelam ento. Ele disse a Morfeu que estava m e libertando de m eu voto, na esperança de que Morfeu tivesse um a atitude de cavalheiro e fizesse o m esm o. Mas não espero que ele j ogue lim po. Assim com o sei que ele não espera que eu sej a um alvo fácil.

Im paciente, brinco com o vestido que ele m andou esta tarde: corpete branco com m iniaturas de botões de rosa carm im costuradas no decote e renda acetinada preta que se entrecruza e balança em laços na cintura. Um a saia aj ustada verm elha com listrinhas brancas na altura dos tornozelos abraça m inha m etade inferior, e um a gargantilha presa sobre m eu colar com a chave, com binando. Atendendo a um pedido dele, m eu cabelo está solto e se enrola nas rosas fixadas em seu lugar. Cada parte do conj unto parece feita para seduzir. Até as m angas com pridas — de renda preta e com fitas verm elhas entrelaçadas em toda a sua extensão — se aj ustam feito beij os doces aos m eus braços.

— Você deu a ele m eu últim o recado? — pergunto a Gossam er no intervalo entre um a m úsica e outra. Mais cedo, fiquei pensando na construção das frases de m eu voto pela m agia da m inha vida: que eu devia dar-lhe um dia e um a noite. Nunca m encionei se seriam consecutivos, nem se seriam passados no País das Maravilhas. Com o salientei que nós acum ulam os pelo m enos doze horas diurnas j untos em Qualquer Outro Lugar, ele não terá escolha a não ser concordar que só falta cum prir a m etade noturna do m eu voto.

— Eu disse a ele, sim — tilinta a voz de cam painha de Gossam er. É óbvio, pelo seu cruzar de braços, que ela não vai m e contar qual foi a reação dele.

— E ele ficou am uado, certo? É por isso que não veio à cerim ônia — digo, falando m ais alto que os instrum entos.

— Ele passou m uito tem po longe de casa. Tinha coisas para fazer lá. Preparar-se para a noite que vocês vão passar j untos. — As asas peludas de Gossam er se agitam , erguendo-a de m eu om bro.

— É claro. — Eu esboço um sorriso. — Nós duas sabem os que ele não veio porque não queria m orrer de tédio. É tudo m uito arrum adinho para o gosto dele.

Ela dá risada, concordando — um som m etálico que se funde com a m úsica.

Mais cedo, a Marfim fez um discurso m e apresentando com o a Rainha Verm elha, assegurando a todos que m eu sangue está ligado à coroa que o Rábido Branco está guardando a sete chaves até que possa colocá-la sobre m inha cabeça.

Dois de m eus súditos da Corte Verm elha vieram à frente agradecer a Jeb por sua contribuição ao nosso m undo: Charlie, um pássaro dodô com cabeça de hom em e m ãos saindo das pontas das asas atarracadas, e sua esposa, Lorina, um a intraterrena parecida com um periquito, de rosto hum anoide enfiado no m eio de penas carm im , com o se fosse um a m áscara. Eles honraram Jeb com um a chave dos portões do cem itério entregue por cinco dos duendes fedorentos da Irm ã Dois. O fato de um hum ano ter conquistado o respeito das Irm ãs Twid rendeu a ele um séquito de fãs entre os convidados.

Depois disso, a m úsica com eçou e a com ida foi servida.

O arom a de m el do chá que fervilha nos potes é convidativo e a com ida cintila de gelo e m agia. Travessas cheias de biscoitos de luar e outras guloseim as incom uns, com o tortas de m arzipã estreladas e m erengue de vaga-lum es, todos aguardando para verter um a deliciosa luz na boca dos convidados com um a só m ordida.

A ideia de entretenim ento da Marfim é diferente dos banquetes que frequentei com Morfeu na realidade, nos sonhos e nas visões. Todos se com portam m uito bem graças às centenas de cavaleiros élficos postados em cada entrada e saída. Vários de m eus guardas de cartas vieram reforçar a segurança.

A reunião é digna e refinada.

Desconfio que um dia, se Morfeu e eu regerm os j untos, terei de com parecer a essas ocasiões sozinha, devido a esse lado perversam ente volúvel dele, que tanto m e irrita quanto m e provoca.

Algo tilinta acim a da cabeça. Levanto os olhos e vej o algum as cam painhas com sabor de cerej a feitas de pingentes de gelo açucarados, suspensos no ar por encantos de fadas. Só é preciso estender a m ão para capturar um a. Mas isso não é tão desafiador nem tão divertido quanto perseguir um pato assado com um taco na m ão.

— Estou ficando com fom e — digo à m inha com panheira fada.

— Eu j á disse. O m estre desej a fazer um piquenique. Valerá a pena esperar. — Seus olhos reluzentes se concentram em m im , repreensivos.

— Você está interpretando m al as insinuações dela, bichinho. — A voz profunda de Morfeu aquece o topo da m inha cabeça, vinda de trás. Eu m e viro e o pego espiando na porta com aquele sorriso sarcástico. Ele m e oferece um a rosa com haste com prida que com bina com as que tenho no cabelo. — Aly ssa estava se referindo à sua fom e de aventuras com m ais pancadaria. Não é isso, am or? — Ele estende a m ão, com as j oias nos olhos piscando entre violeta e rosa.

Em vez de adm itir que ele m e entende m uito bem , aceito sua m ão em silêncio. Ao nos dirigirm os para a porta, olho para trás em busca de m eus pais, que se perderam na m ultidão.

— Gossam er — eu com eço. — Você se im portaria...?

— Direi a todos que você j á foi. — Ela abre um sorriso m alicioso para m im e Morfeu. — Fennine es staryn, es fair faryn. — Em seguida, sai voando.

Morfeu m e conduz para fora do castelo, passando pelos cavaleiros élficos e ganhando o ar fresco da noite. Faço um esforço acentuado para não perceber quanto ele está garboso em seu fraque branco com colete preto de listrinhas verm elhas, nem quanto suas asas estão m aj estosas e altas nas costas.

Em vez disso, adm iro o entorno. O sol e a lua se trançam no céu purpúreo. Sua luz com binada lança um tom ultravioleta sobre tudo. A distância, para além dos dom ínios gelados da Marfim , plantas de todas as espécies florescem em cores psicodélicas — arbustos cor-de-rosa, flores am arelas, árvores laranj a e relva de arco-íris.

Deleito-m e com toda essa beleza. Entrelaçando m eus dedos nos de Morfeu, pergunto:

— Então, o que a Gossam er disse?

Ele se inclina para m e ouvir por causa da bagunça de alguns convidados elegantes e atrasados que espirram ao passar por nós a cam inho da entrada.

— Um a antiga bênção do nosso reino. Que a deusa das fadas ilumine seus passos com estrelas, e que a jornada seja boa, por mais distante que seja seu destino.

— E estam os dispostos a ir m uito longe? — pergunto, com m eu lado intraterreno quase salivando ao ver nossa carruagem . É um a cópia razoável do “balão de ar quente” de m ariposas que ele pretendia usar em Qualquer Outro Lugar. Mas esta cesta feita de um cogum elo gigante é fechada para nos m anter aquecidos e puxada por m ilhares de m ariposas cuj os arreios são fios de m agia azul. A m esm a m agia form a as rodas lum inescentes. Elas m e recordam os vidros das placas de néon, m oldadas em círculos e raios.

— Todos os cantos e recantos do reino se estenderão aos seus pés esta noite — Morfeu responde. — Com tantos súditos aqui no castelo, é a oportunidade perfeita para se fazer essa excursão. Dos desertos de tabuleiros de xadrez aos penhascos caóticos e as florestas gigantes. Vam os fazer algum as paradas especiais no cam inho. Pedi a Jebediah que pintasse algum as cenas do passado tal qual eu as lem bro. A caverna em que Alice foi presa... a gaiola de passarinho e tudo o m ais. O casulo de onde nasci sob um a nova form a. Tudo isso é parte da história que dividim os. E agora está tudo preservado para sem pre.

Fico tocada pelo sentim ento e m e aproxim o para olhar bem sua cartola sob a luz da lua.

— Você está usando seu Chapéu da Sedução. Por que será que não estou surpresa?

Ele oferece um sorriso de pirata.

— Notou... o novo ornam ento que coloquei? — Ele exagera o gesto de aj ustar um a pena de coruj a na faixa do chapéu.

Faço força para não dar risada.

— Um a coruj a vegetariana, eu suponho?

— Que não vai m e im portunar por um bom tem po.

— Posso garantir que não é a única que anda por aí.

Ele envolve m eu braço no seu.

— Que bom . Estou sem pre pronto para um a caçada digna.

Balanço a cabeça.

— O que nos leva de volta ao Chapéu da Sedução.

Ele sorri com sarcasm o.

— Estou usando este chapéu porque com bina com o seu vestido.

— Sei — eu digo, em bora sua cartola, m etade carm im , m etade branca, com um a guirlanda de m ariposas pretas e botões de rosa na aba, de fato com bine perfeitam ente com igo.

— Parece que Gossam er encontrou seus pais. — Morfeu aponta um a das torres, onde m am ãe e papai nos observam partir. — Espero que ela tenha dito para eles não esperarem — ele gracej a.

Meus pais fizeram as pazes com Morfeu depois que ele provou quanto gosta do m eu lado intraterreno e tam bém do hum ano, m as não ficaram entusiasm ados ao saberem do m eu voto. Depois, viram o exem plo de Jeb, de com o ele confia que eu faça m inhas próprias escolhas. Então, só m e desej aram força, na m ente e no coração. Eu lhes garanti que tenho as duas coisas de sobra, por causa do exem plo deles.

Morfeu m e aj uda a subir na carruagem . O com partim ento é grande o bastante para acom odar suas asas, e os bancos são forrados de veludo azul. Cortinas de um púrpura surpreendente decoram a j anela, e rodam oinhos fluorescentes e anim ados se m ovem pelas paredes. O interior é igual a Morfeu, em todos os sentidos... elegante e refinado, m as ao m esm o tem po dissonante e surpreendente. Eu m e acom odo no banco em frente a ele, com as m ãos cobertas de renda segurando a rosa que ele m e deu. A fum aça de um narguilé envolve todo o ar. Dois candeeiros estão m ontados dos dois lados da j anela, cheios de pirilam pos que lançam um brilho ultravioleta, colorindo de azul os tons m ais claros de nossas roupas e a pele de porcelana e os lindos lábios de Morfeu.

— Então, para onde vam os prim eiro? — pergunto. — Não esqueça que só tem os doze horas.

Ele fecha a porta e inclina-se para a frente, com os cotovelos apoiados nos j oelhos.

— Mais ou m enos isso. Quando voltei para casa para m e preparar, tive algum tem po para pensar sobre o seu voto. Você, deliberadam ente, deixou a cláusula “depois de derrotarm os a Verm elha” de fora em sua recordação. O que, tecnicam ente, não abrange nossas horas no m undo do espelho, não é m esm o?

Minha bolha de arrogância estoura.

— Hum ....

— Precisam ente — diz Morfeu, aj ustando as luvas brancas em suas m ãos. — Entretanto, para provar que posso ser tão conciliatório quando seu príncipe m ortal, e para recom pensá-la pelo esforço de m e m anipular, deixarei passar. Você só será cobrada por um a noite.

— Que generoso — eu resm ungo.

Suas j oias cintilam da cor de orquídeas na prim avera.

— E, de fato, é. Considerando que, originalm ente, antes de nossa excursão pelo País das Maravilhas, eu desej ava dançar com você nas nuvens e fazer-lhe um a serenata ao vento. E depois j antaríam os aranhas cristalizadas e beberíam os vinho de dente-de-leão para você aplacar suas tendências sádicas com relação a flores e insetos.

Finj o ficar am uada.

— Algum dia você vai perm itir que eu esqueça isso?

— Não nesta vida. Talvez na próxim a. — Ele afasta as cortinas púrpura, revelando um a j anela grande o bastante para nós dois olharm os por ela. — Terem os que abdicar da dança. Aprontei um lanchinho e nós com erem os enquanto exploram os.

Nós subim os ao céu e eu observo a grandeza do País das Maravilhas passar lá em baixo.

Cedo ao roncar do m eu estôm ago e experim ento um a aranha cristalizada. Não é ruim , exceto pelo fato de ela se agitar ao descer e deixar um leve gostinho de sabão. Morfeu recom pensa m inha ousadia com biscoitos de luar e vinho de dente-de-leão. O vinho faz a garganta coçar com bolhas efervescentes, dando-m e soluços. Cada vez que m inha boca se abre, o interior da carruagem pisca por causa dos raios de luar que cobrem m inha língua.

Morfeu ri alucinadam ente e só m e resta rir com ele.

Em questão de quatro horas, vim os tantas coisas do País das Maravilhas que m inha m ente está rodopiando em tons resplandecentes de ultravioleta e relevos bizarros. Mal posso esperar para captar tudo com m inha arte. Essa ideia m e deixa triste, ao pensar em Jeb e em sua inspiração, agora órfã.

Nossa últim a parada antes da casa de Morfeu é o j ardim de flores diante da porta da toca do coelho. A m aioria das flores está ausente no castelo da Marfim . As que não estão se acovardam ao m e ver, pois ouviram falar de m inha vitória sobre a Verm elha e da chacina de centenas de prisioneiros deflagrada por m im em Qualquer Outro Lugar.

Com a paciente preparação de Morfeu, aceito o caos interior e ordeno aos m om irratos que vivem no solo que revertam os danos causados à toca do coelho. Em um turbilhão de gem idos que ferem os tím panos e ciclones de tinta negra que açoitam nossas roupas, eles obedecem , colocando tudo do j eito com o era no com eço, com a estátua do m enino no relógio de sol e tudo o m ais.

— O que o reino hum ano vai pensar quando acordar e vir a m udança am anhã? — pergunto para Morfeu, enquanto subim os m ais um a vez na carruagem , alerta e com os nervos ainda agitados. Fiquei um pouco m aníaca depois que uni forças com os m om irratos. Sinto a pele quente e o rosto corado.

— Quiçá algum bom sam aritano tenha chegado de noite e restaurado o relógio de sol — Morfeu responde. — Você foi com o eles um dia... facilm ente levada à com placência.

— Isso porque acreditar que você está sozinho no universo é m enos assustador do que adm itir que pode ter um a plateia de outro m undo.

Morfeu m e olha com o quem está avaliando.

— E essa é um a fraqueza hum ana. Use-a quando for a hora de lim par toda a bagunça que sua ausência do reino hum ano causou nos últim os dias. Quando for a hora de explicar onde sua m ãe e Jebediah estiveram durante um m ês. Sua dualidade lhe dá um a vantagem neste m undo, Aly ssa. Mas tam bém no outro. Nunca se esqueça disso.

Nós chegam os ao seu solar e ele m e deposita no quarto sem j anelas, prom etendo voltar em breve trazendo chá.

Eu m e viro para adm irar a decoração extravagante e form idável. A luz âm bar é produzida pelo candelabro de cristal gigante espalhado pela cúpula do teto. Tapizes de veludo forram as paredes em tons de dourado e púrpura, entrelaçados com fios de hera, conchas e plum as de pavão.

As prateleiras de cristal em vários níveis cham am m inha atenção. Toco um dos m uitos chapéus decorados com m ariposas m ortas. Quando criança, eu ficava fascinada observando com o ele tecia as guirlandas.

Volto-m e para os terrários de vidro que parecem casas de boneca. Casulos cobrem os painéis — lagartas se transform ando. Em outros pontos, m ariposas rodopiam e se aninham sobre folhas e galhos secos.

Suas graciosas travessuras m e recordam de com o Morfeu m e afeta agora, com o m ulher e intraterrena. Estar aqui funciona com o um tônico... levando-m e de volta àquele m om ento m onum ental, m ais de um ano atrás, quando ele m e transform ou — despertou m eu lado som brio com chá da tarde e um j ogo de xadrez vivo.

A queda-d’água que serve com o o dossel de sua cam a gotej a atrás de m im .

Vou até ela e estendo a m ão. A cortina líquida reage a m im com o fez naquela vez, afastando-se com o um a coisa viva para eu poder ver o colchão. Colchas e alm ofadas de veludo dourado cobrem toda a cam a, e centenas de pétalas de rosas verm elhas estão espalhadas sobre ela, enchendo m inhas narinas de um delicado perfum e.

Eu recuo, deixando a cortina cair, e esbarro na m esa de vidro que tam bém serve de tabuleiro de xadrez preto e prateado. As peças de j ade devem estar guardadas em sua caixa; todas, exceto Alice e a lagarta, recém -talhadas, porque estou com as originais em casa.

Um a sentença paira no alto de três quadrados prateados, m ágica, em letras pequenas e brilhantes: Dormir com Alyssa.

— Deixe-m e tirar a poeira, am or. — A m ão de Morfeu aparece por trás e esfrega o vidro, apagando as palavras.

Tensa, viro-m e para encará-lo. Ele tirou o casaco, o colete e as luvas. Seu peito torneado e pálido aparece por baixo da cam isa branca m eio desabotoada. Ele está extasiante e sedutor dem ais para eu m e sentir confortável.

Meu queixo trava.

— Não vou fazer isso.

— O quê? Tom ar chá com bolinhos? — Ele equilibra um a bandej a com xícaras e um a chaleira na outra m ão e a coloca sobre um canto vazio da m esa. — Por que não?

Mantenho-m e firm e.

— Jeb quer envelhecer com igo. A hum ana dentro de m im tam bém quer. Vivenciar o que Alice nunca vivenciou no reino m ortal. Ele estava disposto a arriscar sua única vida para enfrentar a Verm elha a fim de que eu pudesse ter um futuro com você. Para ele, a m inha felicidade era m ais im portante do que a dele própria. E você está pedindo que eu m e afaste dele depois de todas as coisas das quais ele abdicou pelo País das Maravilhas?

— O que a faz pensar que estou? — Morfeu pendura o chapéu no braço da cadeira e serve um líquido com cor de m irtilo em um a xícara. Anéis de vapor enchem a sala, espalhando notas de m enta e lavanda.

— A sentença que você escreveu.

— Ah, isso... — Ele m e convida a sentar. Com o não m e m exo, ele m esm o se senta, cruzando as pernas na altura do tornozelo. Suas asas pendem , largadas dos dois lados da cadeira. — Aly ssa, pense. Algum a vez eu tirei vantagem de sua inocência?

— Não.

— Eu tive os m eios e oportunidades?

— Muito das duas coisas.

— Muito bem . Você aprendeu tanto em nossa j ornada. Certam ente ainda não esqueceu a lição m ais im portante: com o as palavras podem dizer um a coisa, m as significar outra. — Ele ergue sua xícara e m e olha por sobre a borda enquanto dá pequenos goles, em seguida a colocando sobre o pires com um estalido. — É crucial, com o rainha da Corte Verm elha, que você m antenha isso claro e em m ente, em todas as situações. Você deve sem pre analisar cada ângulo de cada afirm ação antes de reagir em ocionalm ente.

Então, a noite de hoj e é, ao m esm o tem po, um a lição e um teste. Ele está m e ensinando a política do País das Maravilhas e, ao m esm o tem po, m e testando para ver se consigo praticar o que prego: confiar nele com o espero que ele confie em m im .

— Agora — ele continua —, eu trouxe o chá para você relaxar. Mas você, definitivam ente, não é obrigada a tom á-lo. Em bora, no m ínim o, depois de tudo o que passam os, era de esperar que você pudesse se sentar e falar abertam ente com igo. Se for m ais fácil, use as peças do xadrez, com o quando éram os crianças.

Respiro fundo, recolho a saia em torno das pernas e m e sento na cadeira diante dele.

Concentrando-m e na figura de Alice, im agino-a viva. Ela continua dim inuta, m as com eça a se m over, estendendo os braços e as pernas, com o se tivesse dorm ido durante anos. Ela vai, aos saltos, até a lagarta e faz um a reverência.

— Com o está passando esta noite, Sr. Lagarta? — ela diz com a voz suave da inocência. — Eu gostaria de lhe agradecer por não ter m e coroado antes, por encontrar outro cam inho. Foi m uito nobre de sua parte.

Morfeu sorri. A luz azul na ponta de seus dedos se liberta e envolve a peça da lagarta, agitando-a diante da caricatura de Alice com o se estivesse se m ovendo. Ele é um m estre titereiro, exatam ente com o era em nossos j ogos infantis. Exatam ente com o foi no reino hum ano. Exatam ente com o sem pre será.

— Não foi nada nobre, m inha rainha. — Sua voz é côm ica e esganiçada. — Na verdade, o benefício foi m eu. Sem nenhum a lem brança de sua hum anidade, você não seria a m enina com quem dividi toda um a infância. E eu odeio adm itir, m as passar a vida com os hum anos que você am a fará de você um a regente m elhor aqui. Você sabe que eu sem pre faço o que é m elhor para o País das Maravilhas.

Essas palavras nunca soaram m ais lindas ou pungentes. Estim ulo m inha pequena Alice a arrastar um pé pelo tabuleiro.

— O senhor disse que j á estava cansado de esperar — ela m urm ura sob m eu com ando. — E tem razão. Não posso pedir que espere ainda m ais. O senhor deve encontrar outra pessoa. — Por m ais que doa ouvir tais palavras saindo de seus lábios, Morfeu m erece ser feliz.

Ele deita sua peça, com o se estivesse se recostando, e responde naquela voz anasalada:

— Me perdoe, pequena m aj estade, m as j á esqueceu o que eu sou? Com o um ser m ágico e solitário, não necessito de com panhia. Na verdade, acho o constante dar e tom ar da com panhia tedioso, m esm o no m elhor dos dias. Em bora espere descobrir o encanto disso daqui a uns sessenta anos, m ais ou m enos.

Lágrim as m e ardem nos olhos, m as não perm itirei que caiam . Em vez disso, m inúsculas gotas correm pela face de Alice.

— Então eu gostaria de acrescentar que sinto m uito. Sinto que tenha que esperar tanto por tantas coisas.

O olhar de Morfeu reluz dentro do m eu e volta para as peças de xadrez tom adas por sua m agia.

— Pare de chorar — sua voz excêntrica repreende. — As rainhas não choram . Eu pensei que tinha lhe ensinado isso.

Mordo um lábio trêm ulo, e a pequena Alice afaga o rosto da lagarta.

— Mas o senhor está chorando...

Morfeu abaixa um a asa e cobre o rosto, e tam bém o brilho transparente de suas j oias.

— Bem — a voz esganiçada vacila —, apesar das m inhas preferências por renda e veludo, não sou a rainha. Então, posso chorar quanto quiser.

Minha resposta é fungar, e soluçar tam bém . Cubro a boca com a ponta dos dedos, instruindo Alice a secar o rosto com seu avental.

— Eu am o você. Não quero m agoá-lo — eu m urm uro atrás da m ão.

O queixo de Morfeu se contrai e sua m agia sobre a lagarta se intensifica até ela rodopiar sobre o tabuleiro com o um pião colocado para girar.

— Sua piedade está m al dirigida. — Seu tom infantil abaixa um a oitava. — Com o eu sem pre lhe disse, o tem po não tem lim ites no País das Maravilhas. Jebediah pode ficar com você durante o dia, por enquanto. Mas um a eternidade nos aguarda. Ele é que vai ficar com a parte m ais curta. — Os cantos da boca de Morfeu se contraem com um quê m aldoso. — O que é adequado, considerando-se que ele é m enos qualificado em m uitos outros aspectos.

— Cale a boca! — eu digo, rindo histericam ente. Alice volta a ser um a peça inanim ada de j ade quando eu a j ogo. Faço a m ira e ela cai dentro do chá de Morfeu, respingando sobre ele e o tabuleiro.

Com um gracioso m ovim ento da m ão, ele retira a m agia. O chá escorre por seu rosto enquanto os olhos escuros se voltam para m im , acesos por algo que é ao m esm o tem po perigoso e ousado, m udando de hum or m ais rápido do que consigo piscar.

— Cuidado, florzinha. — Agora ele fala com seu sotaque britânico. Ele lim pa o rosto com um guardanapo. — Não com ece algo que não tem intenção de term inar.

— Ah, eu vou term inar, sim — respondo, incitada pela som bria confiança que paira na beira da m inha psique. O lado m eu que sabe que sou páreo para ele em todos os sentidos. — E você sabe que eu vou ganhar. — Levanto-m e da cadeira para vasculhar a sala em busca de arm as, vagam ente ciente dos prism as de luz refletindo de m inha pele para tudo à m inha volta.

— Eu sei que vou deixar você ganhar — Morfeu diz, levantando-se. — Nem vou revidar. — Seu sorriso que deixa à m ostra os dentes brancos denota um presságio de provocação, com o se ele estivesse im itando a extensão de suas asas. — Bem , talvez revide um pouquinho, só para m e divertir.

Eu avanço lentam ente para o m eio da sala, lutando contra o sorriso que tenta se abrir em m eu rosto. Meu coração se enleva, em um a tentativa de m e aproxim ar dele, aquela m esm a sensação m agnética revigorante que senti no peito quando Jeb m e abraçou. Mas Morfeu nem sequer m e tocou.

Ele m e analisa com o se estivesse m e entendendo, com o se pudesse ver a reação de m eu coração.

— Pensando bem , a hora do recreio pode esperar. — Ele arrebata m eu pulso com seus fios azuis eletrificados antes que eu possa libertar m inha m agia. — Você se distrai m uito facilm ente, am or. Isso é algo que terem os que praticar. — Ele m e puxa para si, m e pega no colo e m e leva para a cam a.

— Morfeu — eu alerto, debatendo-m e em seus braços. Sei que com um só pensam ento posso fazer o candelabro cair sobre ele e form ar um a gaiola.

— Não, não se precipite — ele ralha, com o se lesse m inha m ente. Afastando a cortina de água, ele m e coloca sobre as fragrantes pétalas de rosas. — Só peço um a coisa de você esta noite. E não com prom eterá seu futuro hum ano. Vam os ficar vestidos. Nenhum a atividade suspeita. — Ele coloca a palm a da m ão j unto ao coração, fazendo um j uram ento. — Eu j uro pela m agia da m inha vida que nunca m ais m e colocarei entre você e Jebediah Holt.

Fico atônita. A profundidade de tal gesto vindo de um ser m ágico que só pensa em si m esm o toca m inha alm a. A única coisa previsível acerca do m eu futuro rei é sua im previsibilidade.

— Você m e disse um a vez que nunca seria um cavalheiro. Você m entiu.

Ele se inclina e acaricia m eu rosto com as costas dos dedos de m odo tão terno que até dói.

— Ah, e reitero o que disse, florzinha. Pois vej a, existe um a chance de você não resistir e se colocar entre vocês dois. Todas as noites em que estiverm os j untos, eu a tentarei ao lim ite da loucura. Eu a provocarei e a atorm entarei. Você vai ter que se esforçar para ter um a vida feliz com Jebediah. Vai ter que ser forte e firm e, com o todas as boas rainhas devem ser. Mas esta noite vou lhe dar um a trégua.

Essas palavras são as m esm as que ele disse na tarde que passam os dentro da m ontanha: Sim, teremos discussões sem fim e lutaremos por poder. E, sim, teremos arroubos de paixão, mas também suavidade e calmaria. É assim que somos quando estamos juntos.

— Da próxim a vez que eu a vir em seus sonhos — Morfeu continua, trazendo-m e de volta ao presente —, nossa prova de fogo com eçará. Você a queria, e a terá. Pretendo pressioná-la e enfurecê-la para obter o m elhor e o pior de você. É a única m aneira de reinar sobre um m undo de criaturas loucas e astutas.

Perm ito que o sorriso que eu suprim ia se liberte, porque estou aberta a qualquer desafio que ele colocar em m eu cam inho. A chance de provar isso m e em polga além de toda racionalidade.

— Agora eu com preendo o que a sentença no tabuleiro queria dizer. Que você quer dorm ir com igo...

Ele se arrasta sobre m eu corpo e se deita do outro lado da cam a, deixando a cortina líquida aberta atrás de m im .

— Diga-m e.

Cobrindo-m e com um a de suas asas, eu m e envolvo em seu arom a de alcaçuz e m el.

— Você quer ficar abraçado com igo enquanto durm o. Você quer observar m eu rosto enquanto eu durm o com o você nunca fez... do exterior.

Ele percorre as m arcas em m eus olhos com a ponta de um dedo.

— Esta será um a lem brança à qual m e apegarei até que você sej a finalm ente m inha, nas horas despertas e adorm ecidas. A pergunta é: confia em m im o suficiente para m e propiciar isso? Para descansar em m eus braços esta noite?

Coloco a palm a m acia de sua m ão j unto ao m eu rosto.

— Você vai cantar a m inha canção de ninar?

Ele passa os dedos pelos m eus cabelos e toca a m inha testa com a sua.

— Para todo o sem pre — sussurra.

Enquanto ele entoa a m elodia que esteve dentro de m inha m ente e de m eu coração a vida inteira, fecho o dossel de água, envolvendo-nos em um casulo dentro de nosso próprio bolsão congelado de tem po.