Qualquer Outro Lugar
Capítulo 21
21
Suturas
O som de pequenos sinos m e acorda, retinindo m elodiosos. Um a com oção de fadas paira sobre m eu corpo. Meus dreadlocks sum iram e o cabelo está solto em leque sobre o travesseiro, em ondas loiras e lustrosas. As fadas m anej am pincéis de m aquiagem e colocam broches de j oias cintilantes no lugar com a precisão e eficiência de um lava-rápido, deixando um arom a de perfum e e talco em sua esteira.
Um a fada roça o m eu nariz e faz cócegas na ponta. Ela se parece tanto com Nikki que preciso olhar outra vez. A coceira que ela causou evolui para um espirro, o que faz todas as fadinhas se espalharem feito sem entes de dentes-de-leão.
Elas soltam trinados, reclam ando.
Eu esfrego os olhos, m e sento e observo o entorno.
Estou afundada em um a cam a enorm e, coberta por edredons de plum as tão brancos e fofos que parecem m ontes de neve. As fadas recolhem cestas do chão de m árm ore branco, quatro em cada alça, e saem voando pela porta entreaberta.
Eu pisco. Nunca estive aqui, m as conheço este lugar dos esboços que Morfeu desenhou na contracapa do livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas de m am ãe. Este é o castelo de vidro da Marfim , e estou em um quarto ornam entado: paredes de vidro cobertas de gelo para dar privacidade e castiçais de cristal sem velas nem pavios. Suas cham as prateadas flutuam , com o pirilam pos suspensos no ar.
Um a espreguiçadeira cristalizada está diante da lareira, onde crepitam m ais cham as. De algum a m aneira, elas produzem calor e luz sem derreter o gelo das paredes. Mam ãe e papai dorm em profundam ente sobre as alm ofadas brancas, ela no colo dele e as pernas dos dois entrelaçadas. O bonito perfil de m eu pai está desalinhado, o nariz enfiado no cabelo loiro-averm elhado dela. Os fios se m exem , cheios de m agia. Suas asas transparentes estão dobradas atrás dela com o um a borboleta que descansa.
Eles são tão adoráveis j untos. O cavaleiro Branco e sua m ágica consorte, finalm ente nos braços um do outro. Apesar de tudo o que passaram para chegar a este lugar, seu am or nunca vacilou. Eles m erecem isso m ais do que qualquer pessoa que eu conheça.
Meu coração se incha de felicidade e eu m e preparo para a dor lancinante que certam ente virá em seguida. Em vez disso, um a pequena onda reverbera a em oção. Parece um a libélula chocando-se contra m eu esterno — delicada e vibrante. Respiro fundo, m ais forte e m ais em paz do que j am ais estive desde que com ecei esta j ornada, quem sabe na m inha vida toda.
Algum a coisa m e atiça no fundo do crânio. A Verm elha ainda está lá, recolhida em lam entação, m as perdendo poder a cada segundo. É só um a questão de tem po até ela se esvair de m im e m urchar até se transform ar em nada. Sou a única coisa que a m antém lá dentro, m as posso deixá-la ir quando estiver pronta. Seu feitiço sobre m eu coração foi revertido.
Com o?
Olho para a cam isola que m e cobre. É feita de tecido branco puro e renda — transparente com o o vidro que cerca esta sala —, com fendas nas costas para as asas. Um collant de renda prateada oferece certo recato.
Um a luz indistinta de cor púrpura pisca por baixo do peito do collant. O brilho irradia de dentro de m im ... sob m inha pele e de trás do esterno.
Meu estôm ago se revira. A últim a vez que vi esse tipo de m agia, ela vinha de dentro de Jeb — um a com binação das m agias da Verm elha e de Morfeu.
Passos estalados cham am m inha atenção para a porta de cristal. Um a cabeça nua brilha nas som bras. Olhos rosados e orvalhados brilham por dentro da pele albina que pende em cam adas de rugas, com o um filhote de shar-pei.
— Atrasado, digo. Rainha Aly ssa. Atrasado estou eu.
Aliso m eu vestido e sorrio.
— Rábido. Fiquei preocupada. Pensei que você estivesse congelado.
— Convidados ao castelo de gelo som os nós. Antes do inverno cham ados pela fada Marfim .
Então foi isso que eu vi em m eu prim eiro sonho com m am ãe. A Marfim trouxe Grenadine, m inha m ãe e m eu conselheiro real, o Rábido Branco, para cá, onde estariam protegidos dos estagnados.
A silhueta do Rábido, do tam anho de um coelho, aguarda no corredor, im óvel.
— Por favor, entre. — Aceno para ele. Ele passa pela soleira em um salto. Seus lábios espum antes fazem biquinho de concentração enquanto equilibra a coroa de rubi sobre um a alm ofada nas m ãos enluvadas.
Seu corpo esquelético se chacoalha dentro do fraque verm elho a cada m ovim ento bam boleante. Coloco um dedo sobre a boca para pedir silêncio.
Ele olha para m eus pais adorm ecidos e dim inui os saltos para passos desaj eitados, intuitivos apesar de sua expressão sinistra com olhos arregalados. É isso que faz dele um conselheiro real form idável. Com o a m aioria dos intraterrenos, ele é am bíguo. Introspectivo e insondável quando necessário. Foi assim que ele m e enganou no ano passado, fazendo-m e pensar que queria m e m atar, quando o tem po todo ele só queria m e colocar no trono.
Ele está vestido com o da prim eira vez que o vi, só que hoj e o casaco é flocado e tem botões de veludo preto e um a gola de pele com binando.
Encho-m e de com paixão por essa form a hedionda escondida sob roupas extravagantes. Nunca m e esquecerei de com o a Verm elha o despiu de seu orgulho e de sua pele. Um a parte de m im quer contar-lhe a verdade. Que foi ela quem causou sua deform idade; que, quando salvou a cara dele do ácido, foi som ente um a m anobra para garantir sua lealdade. Mas de que adiantaria lhe contar que ele foi um peão? A Verm elha não é m ais um a am eaça para ninguém . É triste, na verdade, ver com o ela está im prestável e im potente agora.
Um a pontada de profundo rem orso m e cutuca o crânio onde ela se esconde. Ela cresce à m edida que o Rábido se aproxim a, o bastante para a Verm elha sussurrar dentro de m im :
— Por favor... alivie meu sofrimento. Deixe-me dizer a ele que me arrependo de minhas ações e depois me liberte para que eu não mais exista.
Tarde demais, eu sussurro em resposta lá dentro, resistindo a toda e qualquer propensão à m isericórdia. Ainda vou decidir seu destino.
O Rábido aproxim a-se da cam a e estende a alm ofada. Suas antenas brancas e peludas quase o fazem tropeçar quando ele se aj oelha. Seguro sua cabeça para equilibrá-lo. Nós vivem os m uitas coisas m alucas j untos quando ele entrou no reino hum ano antes do baile de form atura apocalíptico. Ele conquistou m inha confiança e afeição eternas.
Ele suspira — um som de contentam ento — e continua:
— Hora chegou, diz Rainha Grenadine. — A espum a escorrega dos cantos de sua boca enquanto ele fala. — Coroar Rainha Aly ssa, ela ordena.
Intrigada, pego a alm ofada e coloco-a no colo sobre as cobertas. Enrolada no centro da coroa está um a chave incrustada de rubis com um a corrente filigranada. Eu a coloco no pescoço. Senti falta de usar a chave do reino no peito. Com a ponta dos dedos, percorro a intrincada estrutura dourada da coroa e a ergo, fazendo os rubis cintilarem sob a tênue luz.
— Aly ssa, não! — A voz assustada de m am ãe faz o pobre Rábido lançar-se de cabeça no chão. Coloco a coroa de lado, afasto as cobertas e viro os pés descalços para aj udá-lo a ficar de pé. Mam ãe e papai j á estão ao m eu lado, piscando os olhos sonolentos.
— Olá? — eu digo, m ais com o um a pergunta. Eles m e abraçam , m e esprem em entre o perfum e floral dela e o cheiro puro de m usgo que vem dele. Mam ãe beij a m inha testa e papai roça o nariz em m eu cabelo ondulado todo arrum ado.
— Ficam os tão preocupados — m am ãe sussurra.
— Estou bem — respondo. Olho para papai. — Mas não entendo com o...
Ele abre a boca, m as se cala quando o Rábido sobe na cam a e escava as cobertas em busca da coroa, estendendo-a um a vez m ais.
— Pronto para servir à Rainha Aly ssa estou eu. Tem po m uito esperei. Muitas dívidas a pagar. Leal, sem pre e eternam ente.
— Ainda não é o m om ento. — Mam ãe lim pa lágrim as de seu rosto e pega a coroa das m ãos do Rábido.
Ele silva, m ostrando os dentes afiados e os olhos flam ej antes.
— Do contrário, a Rainha Grenadine diz.
Coloco a m ão sobre sua cabeça e ele se curva outra vez, relaxando, obediente.
— Os planos m udaram — papai diz, m ovendo-se com cautela ao aj udar o intraterreno a descer da cam a. Ele o acom panha até a porta. — Nós enviam os um a m ensagem a Grenadine, m as ela deve ter esquecido. Ela não tem m ais as fitas para aj udá-la a lem brar as coisas. Por que não vai cham ar a Marfim para nós? Ela explicará tudo.
Os olhos cor-de-rosa do Rábido perdem o brilho, ficando nebulosos com o algodão-doce. Antes de fechar a porta, ele resm unga:
— Zum bis na Terra dos Brinquedos?
Papai para e troca um olhar preocupado com m am ãe.
Eu dou risada.
— É um j ogo do m eu celular. O Rábido superou m eu recorde há algum as sem anas. — Sorrio para m eu pequeno conselheiro. — Vam os j ogar de novo em breve. Vou conseguir m inha revanche.
Seus olhos se ilum inam .
— Generosa é você! Biscoitos tam bém ? Rábido Branco com fom e está. Sem pre.
Eu rio.
— Sim , sem pre. Vou pedir que m am ãe faça uns biscoitos para você.
Ele ri e sai pulando pelo corredor, parecendo m ais um coelho do que um ser m aluco de outro m undo.
Papai fecha a porta e os dois ficam olhando para m im com o se eu fosse um a m iragem que pudesse desaparecer a qualquer instante.
— Muito bem . — Cansei de ficar no escuro. — O que está havendo?
O olhar de m am ãe cai para o brilho púrpura que irradia de m eu peito. Eu tinha m e esquecido dele com a chegada inesperada do Rábido. Ergo a m ão e aperto a chave contra o lugar que brilha, sobre o vestido. Um surto de m em órias felizes m e tom a: Morfeu e eu quando crianças, depois Jeb sem pre presente durante m eus anos de escola. Ouço suas vozes, m isturadas um a com a outra e cheias de am or e estím ulo: Você é a melhor dos dois mundos... Vai conseguir, menina do skate e rainha fada.
Olho para m eus pais, buscando as respostas que vej o em seus rostos.
— Onde estão Jeb e Morfeu? — pergunto com a garganta seca. — Não acredito que eles não estão aqui. Eu quase m orri.
— Eles estariam aqui, m as... a Marfim poderá explicar a ausência deles. — Mam ãe volta os olhos para papai. Por trás dos cílios negros e das íris azuis salpicadas de turquesa, há ansiedade.
Ausência? Um a percepção m e agita as entranhas. Esta m udança em m eu coração é um a com binação deles e sua m agia. Ainda não tenho ideia de com o Jeb conseguiu m anter o poder da Verm elha depois que entram os no País das Maravilhas vindos de Qualquer Outro Lugar, m as a pergunta que m ais m e angustia é: por que eles não estão aqui?
Eu titubeio quando m inha m ente é perturbada por cenários horríveis.
— Borboleta, fique sentada. — Papai apoia m eu cotovelo e m e coloca de volta na cam a. Ele m e dá seu sorriso à la Elvis, m as não acredito nele, por causa do espasm o na pálpebra que vem a seguir.
— Os rapazes? — pergunto em voz esganiçada.
— Eles estão bem — ele responde. — Vão passar aqui para ver você em breve. Estão ocupados agora.
Solto a respiração, o alívio tão palpável que quase posso sentir seu gosto.
— Ocupados com o quê?
— Recriando o País das Maravilhas — m am ãe responde.
Volto a m e erguer.
— Eu é que deveria aj udar a Marfim a fazer isso. É preciso duas rainhas trabalhando j untas, dos dois reinos. Este m undo é m etade do m eu, e de m inha total responsabilidade.
O rosto de papai cora. Ele m e envolve em um a colcha.
— É necessária a m agia da coroa de duas rainhas. A Marfim vai explicar. E você precisa vestir algum a coisa se planej a sair desta sala...
— Ela não pode sair — m am ãe interrom pe. — Allie, existem instruções para as suturas m ágicas.
Fecho a colcha no pescoço, form ando um roupão.
— Suturas? — Eu m e recosto na cam a e apoio os quadris contra a beirada do colchão. — Mas a Verm elha disse que não conhecia nenhum a m agia que pudesse m e aj udar.
— É verdade. — Ao ouvir o som da voz da Marfim , olho para a porta. Sua pele leitosa e o vestido longo em cam adas brilham com o o gelo cristalizado nas paredes deste quarto. — Esse tipo de m agia nunca foi vivenciado pela Verm elha nem pela m aioria dos intraterrenos. — Ela entra no quarto. Chessie está sentado em seu om bro esquerdo e Nikki no direito, confirm ando que não im aginei a fadinha antes. Só há um a explicação: Jeb a repintou.
— A m agia da Verm elha não saiu de Jeb — eu arrisco.
As asas da Marfim varrem o chão atrás dela, parecendo um m anto de plum as.
— A inspiração dele foi alterada para sem pre. O vínculo entre seu ím peto criativo e a obstinação da Verm elha era tão forte que eles se fundiram e se tornaram um a entidade. Então, em bora a m agia de Morfeu tenha retornado ao seu recipiente original, a da Verm elha perm aneceu dentro de seu cavaleiro m ortal. Seu talento para a pintura é algo vivo agora, guardado dentro dele. E é m ais poderoso aqui do que era no m undo do espelho, pois não há ferro para m acular ou enfraquecer suas criações. Elas não desaparecem com a água. Elas se tornam reais, com o eu e você.
Por m ais extravagante e perturbador que sej a o conceito, ele faz sentido.
— Então, porque o poder dele vem da Verm elha, ele retém sua linhagem real e a m agia da coroa. Ele aj udou a recriar as paisagens com você.
— Sim — diz a Marfim , sorrindo. — E Morfeu nos guiou, pois ele conhece todos os cantos do País das Maravilhas, até m esm o os lugares inóspitos ocupados pelas fadas solitárias. Foi trabalho dele fazer os esboços para Jebediah segui-los. Agora j á term inam os.
Um a estranha onda de tristeza m e assola, e eu volto a m e sentar.
— Eu deveria ter participado. Era m eu dever.
— Não, Aly ssa — a Marfim retruca. — Seu dever era descansar e curar-se, pois seu reino precisa de um a rainha, e não de um cadáver. Correto?
Balanço a cabeça, concordando, m as não é totalm ente sincero.
Mam ãe senta-se j unto de m im , com o braço em m inha cintura.
— Allie, ainda tem um a coisa m uito im portante para você fazer. Som ente você pode decidir o que acontecerá com a Verm elha. Você vai expeli-la e destruí-la? Ou vai devolvê-la à Irm ã Dois com o um espírito inquieto?
Espírito inquieto. A Verm elha está m uito longe disso. Nunca vi ninguém tão desalentada e exaurida. Suas m em órias não esquecidas são correntes im óveis em torno dela.
Ela choram inga dentro de m im , encolhendo-se ainda m ais.
Não é fácil esm agá-la agora que ela se lem brou. Agora que ela se arrependeu. Ela até sabe o que foi feito de seu rei, com o ele ficou aprisionado para sem pre na caixa linguardarte em razão dos eventos que ela desencadeou. Sua vingança perdeu todo o sentido.
Digo a m im m esm a que vou m antê-la viva para puni-la, m as não é só isso.
— Eu vim para m atá-la — respondo, buscando aconselham ento para m eus sentim entos conflitantes.
— Talvez sej a o suficiente você ter feito com que ela lem brasse que existem m ais coisas na vida do que m orte e destruição — papai diz, acariciando o alto da m inha cabeça.
— Você precisa decidir logo — a Marfim acrescenta. — Em algum as horas, depois que as paisagens se estabilizarem , despertarei todos os habitantes que dorm em sob o m eu feitiço. Farem os um banquete e, j untas, assegurarem os a todos que nosso m undo está seguro e forte. O que você escolher fazer com a Verm elha estabelecerá os precedentes de com o seus súditos a verão com o rainha.
Com o se as coisas estivessem m uito sérias para seu gosto, Chessie m ergulha sobre m im , os olhos transm itindo seu alívio por eu estar bem . Nikki vem em seguida, m as m e observa com tim idez, com os olhos de um a estranha. Ela não é exatam ente a m esm a fadinha. É um a versão atualizada, m as, m esm o assim , Chessie está deliciado por tê-la de volta.
Eu sorrio e abro as m ãos para ele se aninhar. Nikki se em poleira no polegar, cautelosa e inquisitiva.
Olho para a Marfim .
— E quanto à m agia que m e curou?
Ela olha para m eus pais.
— Eu poderia ficar um m om ento a sós com a sua filha?
Papai concorda e aperta m eu om bro. Mam ãe beij a m inha face, tranquilizando-m e. De m ãos dadas feito adolescentes, eles saem da sala e fecham a porta.
— Esta m agia — a Marfim aponta para m eu peito — é feita do am or m ais inocente, Aly ssa. Do am or das crianças. Puro e incondicional.
Chessie se lança das m inhas m ãos e sobrevoa a sala, com Nikki em seu rastro. Olho para o brilho suave atrás de m eu esterno.
— Eu não com preendo.
— Venha. — A Marfim m e conduz até a lareira. As cham as prateadas piscam , pincelando as pálidas íris da rainha, as sobrancelhas e os cílios com brilho, com o neve sob o luar. Sentam os j untas na espreguiçadeira de cristal e ela enrola o cabelo prateado, que vai até a cintura, em um lado da alm ofada branca; Nikki se acom oda no alto da espiral e gira sobre os fios.
A curva graciosa do longo pescoço da Marfim m e recorda um cisne, form a que às vezes ela assum e. Assim com o Morfeu se transform a em um a m ariposa. Subitam ente, percebo que m inha aparência alternativa é a hum ana... que m inha m agia nunca terá um a cor reveladora, porque sou m estiça. Isso m e torna singular, assim com o m eus sonhos e m inha im aginação. Isso m e faz especial para os dois m undos. E é isso que Morfeu tem afirm ado o tem po todo. É exatam ente isso que a Verm elha esperava conseguir produzindo um a raça de m estiços, antes de perder de vista suas nobres intenções.
A Verm elha se m exe lá no fundo da m inha cabeça, encolhendo-se de agonia.
A Marfim estende a palm a da m ão e surge um a bolha do tam anho de um a bola de softbol, lum inosa e transparente.
— Outra visão? — pergunto, lem brando-m e m uito claram ente da últim a que ela m e m ostrou e do voto pela m agia da vida que se seguiu. Não planej o fazer m ais nenhum voto por um bom tem po.
— Não é um a visão. É m ais um lam pej o de seu passado recente.
Chessie desce e, com um puf, dissipa-se em centelhas alaranj adas e fum aça cinza. Sua névoa vaga ao lado da bolha com o um a nuvem , trazendo clareza à im agem borrada que se form a lá dentro.
Sintonizo todos os sentidos: eu vej o, ouço, sinto o cheiro e o gosto do m om ento:
Morfeu traz meu corpo inconsciente para esta sala e me coloca na cama sobre as colchas brancas. Ele para, olha para meu rosto, e as joias sob seus olhos têm um cinza tempestuoso. Mamãe dávoltas em torno dele, as asas esvoaçando nervosamente. Ele dáum passo para trás enquanto ela limpa o sangue dos meus lábios e desaba sobre mim, aos prantos.
Chessie paira no ar, ansioso.
Morfeu volta-se para ele com as mandíbulas tensas.
— Atravesse a passagem do espelho... traga Thomas e Jebediah. Depressa!
Chessie chispa porta afora.
Há um movimento na porta, e entra a Marfim.
— Só há um m eio de salvá-la agora.
Minha mãe levanta os olhos vermelhos. Mesmo em sua tristeza, ela é linda, a pele luminosa e lisa, como se fosse vinte anos mais jovem.
— Não. Ainda, não. Ela ainda tem outra vida para viver.
A Marfim entrelaça as mãos brancas como a neve.
— Se você deseja que ela viva, é a única maneira. Já pedi a Grenadine que envie a coroa por intermédio do Rábido. Eles estão na torre norte, então ele deve chegar logo.
— Não podemos fazer isso. — Mamãe retesa os ombros. Toda e qualquer vulnerabilidade se desvaneceu de seu rosto. As asas se erguem, altivas. Ela está determinada, pronta para lutar.
A Marfim aproxima-se e coloca a mão em seu braço.
— Ao colocar a coroa na cabeça dela, renovaremos seu coração intraterreno. Ela retornará à idade que tinha quando veio no ano passado, a idade de sua coroação. E estará mais forte do que nunca.
Mamãe arruma os dreadlocks em torno da minha cabeça.
— Mas a metade humana dela é fraca demais para resistir a essa tensão. Essa metade vai morrer. E Allie será sempre assombrada pela sua ausência.
— Podemos dar a ela uma poção de esquecimento — a Marfim sugere. — Banir suas memórias. Ela será a Rainha Vermelha, com nada de humano para impedir que reine.
— E nesse processo — Morfeu diz do lado da lareira — destruirão algumas de suas melhores qualidades.
Mamãe e a Marfim olham para ele, tomadas de surpresa por ouvir essas palavras dos lábios dele.
Ele se deixa cair na espreguiçadeira, as asas cobrindo as costas, e apoia os cotovelos nos joelhos. As chamas prateadas piscam em seu rosto decorado por joias.
— O que será dos caprichos e da curiosidade dela, de sua compaixão e lealdade? Da imaginação, dos sonhos? Isso tudo faz parte do lado humano dela.
Minha mãe olha fixamente para ele, incrédula.
— Tudo isso é por causa dos seus estratagemas. Você a pressionou a escolher você... escolher o País das Maravilhas, e não o outro lado. O que você achou que aconteceria?
Morfeu se curva, triste.
— Alison. — A Marfim senta-se ao lado de mamãe no colchão. — Você está sendo dura. Esta brecha não foi causada meramente pelos esforços dela para escolher entre os dois mundos, ou entre o amor dela por Morfeu e o pelo cavaleiro mortal. A Vermelha lançou um feitiço em seu lado intraterreno na esperança de que ele dominasse e destruísse o outro. Não pode culpá-lo por isso.
— Posso, sim, porque tudo começou quando a Allie veio para cá no verão passado. — Mamãe olha novamente para Morfeu. — Agora, finalmente, você vai ter o que queria. Vai mantê-la aqui no País das Maravilhas com você. Vai fazê-la cortar todos os vínculos com os mortais para sempre. Você deveria estar comemorando. Você venceu.
— Venceu o quê? — papai pergunta da porta.
Antes que alguém possa responder, Jeb surge atrás dele. Ele resmunga algo e corre para a cama com papai.
A Marfim se afasta enquanto explica tudo, incluindo o plano que se apresenta.
Papai avança em Morfeu.
— Está contente? Você fez tudo isso por causa do País das Maravilhas. Agora ela será uma rainha sem a família que a ama.
Jeb segura o braço de papai antes que ele possa atravessar a sala.
— Thomas, não foi só ele. Nós também a dividimos tentando convencê-la a ficar no nosso mundo. Temos que nos unir agora, pensar na Al e em como mantê-la viva. — Há um tormento por trás de seus olhos verdes, porque ele sabe que está prestes a me perder para sempre. Mas não há dúvida, somente uma dolorosa resignação.
— Jebediah está certo. — O olhar de Morfeu encontra o de Jeb. Uma compreensão tácita acontece entre os dois. — Mas este não é o caminho para a salvação de Alyssa. Se ela pudesse falar por si mesma neste momento, ela insistiria que deve haver outra maneira.
— Não consigo pensar em nenhuma, e estamos ficando sem tempo — a Marfim responde com tristeza. Suas asas pendem frouxamente das costas, parecendo pesadas.
— Então a congele — Morfeu sugere. — Congele o coração dela e nos dê uma chance de buscar outras opções.
A Marfim concorda.
Uma onda ártica me envolve, e meu sangue corre mais lento nas veias, como neve quase derretida. A dor em meu peito desaparece.
Mamãe afaga meu cabelo gelado e papai cai de joelhos ao lado de Jeb, enfiando o rosto em meu vestido coberto de gelo.
— Se pelo menos ainda tivéssemos o diário — Jeb diz distraidamente, esfregando meus dedos nos dele, como se tentasse me manter aquecida. — Poderíamos usar a magia dele de alguma maneira.
Morfeu inclina o queixo.
— O diário. É claro. — Ele se levanta e olha seriamente para a Marfim. — Estamos olhando as coisas de modo errado. Precisamos pensar no coração dela como um objeto... um brinquedo. O que torna os brinquedos abandonados recipientes poderosos para as almas da Irmã Dois? Não é tanto o que eles são, mas o que é usado para lacrá-los.
— A magia do amor de uma criança. — A Marfim faz beicinho com a boca rosada e pálida. — Poderia dar certo, porque vocês dois compartilharam da infância dela em momentos diferentes.
— Vale a pena tentar, pelo menos — Morfeu acrescenta.
A Marfim concorda, lançando um olhar sábio e compreensivo dele para Jeb.
— O lacre pode ser só um remendo temporário para mantê-la segura até ela sarar. Vocês dois precisam estar dispostos a assumir esse compromisso... ver além de suas necessidades e aceitar que o destino dela é maior do que satisfazer as expectativas que nutrem por ela. Vocês terão que apoiar um ao outro como constantes na vida dela, se vão unir seu coração humano com o intraterreno. Ela deve viver nos dois mundos por períodos iguais. Isso permitirá que seu coração cresça e se recupere, pouco a pouco. Quando ele estiver curado e unido, ela não vai mais precisar das suturas e poderá ser coroada sem perder nenhuma parte do que é agora. Estão dispostos a permitir que ela tenha esse futuro duplo? A decisão é toda de vocês. Ela está fraca demais para tomá-la. A ganância e o desejo de vingança da Vermelha providenciaram isso quando ela fez do coração de Alyssa um campo de batalha.
— Farei o que for preciso — Morfeu e Jeb respondem simultaneamente e sem hesitar.
A bolha nas m ãos da Marfim estoura, Chessie se rem aterializa e o m om ento term ina.
Franzo a testa, tocada pela devoção de Jeb e de Morfeu, m as ainda confusa.
A Marfim coloca a palm a da m ão sobre m eu coração.
— O que você vê aí dentro?
Fecho as m ãos em punho.
— Algum as das m em órias m ais felizes com cada um deles, quando éram os m ais j ovens. Mas vej o do ponto de vista deles, não do m eu.
— É aí que está a m agia. Os dois a am aram com um am or de criança, e agora com o de hom ens. É o am or de criança que m antém seu coração unido... cim entado pelos m om entos que você com partilhou com eles que eles m ais apreciam . Tiveram que desnudar a própria m ente, coração e alm a um para o outro e enviar os sentim entos diretam ente a você, através da m agia deles, para selar as duas m etades de seu coração. São essas as suturas. E o am or deles por você, com o hom ens, lhes deu a força para superar o orgulho e a intransigência. Durante todo o dia, você passará a vida hum ana no dom ínio m ortal, m as de noite, quando dorm e, Morfeu a trará para cá em seus sonhos. Você continuará a aprender a política de nosso m undo e a se fam iliarizar com seus súditos e seu reinado; aprenderá a confiar, com preender e trabalhar com ele, e um dia — se vocês decidirem se casar e reinar j untos — seu vínculo será inquebrável. E o País das Maravilhas será inexpugnável.
Fico im pressionada que os dois tenham concordado com esse acordo. Principalm ente Morfeu... porque ele tem de voltar a trabalhar nos m eus sonhos e aguardar para ficar com igo na realidade. Ele disse que havia cansado de esperar. Será que realm ente adiaria nossa vida j untos e o nascim ento de nosso filho? Nosso filho...
Pego a m ão da Marfim .
— Espere. A Irm ã Dois. Tem os que dim inuir a necessidade de hum anos no cem itério. É preciso haver sonhos para as alm as inquietas. Ou então ela vai continuar raptando crianças. Ela não terá escolha.
A Marfim estuda m eu rosto.
— Finalm ente, você percebeu que as regras existem por um m otivo, m esm o que pareçam bárbaras. Mas, na verdade, tanto quanto você, eu gostaria de ver essa prática em particular alterada. Nossa espécie nunca se preocupou em buscar a m aneira m ais hum anitária de fazer as coisas. Nossa m entalidade é que os fins j ustificam os m eios. No entanto, com duas rainhas que se im portam o suficiente para encontrar outra form a, isso pode m udar. E o nosso reino será m ais forte quando não precisarm os m ais depender de artigos de fora. — As m arcas pretas de libélula que perfilam suas têm poras se enrugam , um sinal de que ela está pensando. — Por enquanto, tem os um com prom isso que durará o tem po que seu cavaleiro m ortal viver. Ele se ofereceu para ser o sonhador da Irm ã Dois.
Meu estôm ago se revira.
O sonhador da Irmã Dois? Sou confrontada com a im agem do cérebro de m eu pai cheio de sifões que retiravam seus sonhos e pesadelos quando ainda criança. Minha alucinação no hospital, um m ês atrás, se com pleta: Jeb encerrado em um a espessa teia de aranha, eu cortando-a e ele olhando para m im com os olhos esbugalhados. Será que era um a visão o tem po todo?
A Marfim não o m encionou em sua explicação do m eu futuro, só disse que eu viveria m inha vida no reino m ortal.
Jeb está planej ando sacrificar sua existência para que m ais nenhum hum ano sofra, porque é isso que ele faz. Ele protege os vulneráveis. Não im porta quanto lhe custe.
Minha pele faísca, fria e quente. Desta vez, não. Não depois de ele finalm ente encontrar seu cam inho.
Sem m ais um a palavra para a Marfim , eu m e ponho de pé e saio correndo pela porta, insistindo com Chessie para que m e m ostre onde Jeb está. Ele alça voo diante de m im , com Nikki logo atrás. A Marfim nos cham a, m as o tem po é precioso dem ais. Eu não paro.
Viro um a esquina que dá para um corredor com prido e brilhante.
Não consigo tracionar m eus pés descalços no piso de m árm ore branco e escorrego. Endireitando-m e, desam arro o roupão im provisado e o deixo para trás, libertando as asas e ganhando o ar para a im ensidão. Passo por um a dúzia de cavaleiros élficos que observam com curiosidade, m as não tentam m e im pedir.
Não m e sinto constrangida por estar usando um a cam isola transparente. Não preciso ser adequada nem m odesta. Sou a Rainha Verm elha: indom ada, selvagem e insana. E desafio alguém a questionar m inha escolha de roupas.
Estou em um a m issão. A Irm ã Dois não vai usar Jeb até o coração dele parar e ele se tornar um cadáver inerte.
Esse não é o fim que m eu cavaleiro m ortal m erece.