Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 2 de 24

Páginas do PDF

Qualquer Outro Lugar

Capítulo 2

2

 

 

Descendo

 

No m om ento em que fecho a porta atrás de m im , toda a m inha confiança fraquej a.

A sala é pequena e não tem j anelas. Um a tapeçaria de cor m arfim cobre um a espreguiçadeira, e um abaj ur alto está ao lado dela, lançando um a luz tênue sobre o chão quadriculado.

Um arom a de am êndoas vem dos biscoitos de luar que parecem sem pre estar aguardando em um a travessa. Por m ais fom e que eu tenha, não consigo com ê-los. Tudo é m uito doloroso e fam iliar aqui dentro.

Eu abracei Jeb e m am ãe neste lugar, sentindo seu am or quando retribuíram o abraço. Meus braços doem de saudade. Na parede oposta, cortinas de veludo verm elho à espera de serem abertas para revelar pedaços do passado. Eu conheci a história de am or de m eus pais neste trem e assisti às lem branças de Jeb tam bém . Entrei na cabeça deles e senti suas em oções com o se fossem m inhas.

Senti a m udança de atitude de m am ãe quando ela abdicou da coroa de rubis para dar a m eu pai um a chance na vida... vi até Morfeu aj udando-a, carregando m eu pai pelo portal até o reino hum ano, em bora fazer isso fosse pôr todos os seus m eticulosos planos em risco. Vivenciei a nobreza e a coragem de Jeb quando ele deu as costas para o seu futuro para que eu pudesse ter um .

Tantos sacrifícios conduziram a este m om ento. Eu faria qualquer coisa para reverter o relógio e consertar tudo. Mas este m om ento é im piedoso.

“Momento. Você não terá essas restrições no País das Maravilhas. Permita-se ver o lado bom. Agora, recomponha-se. Temos que nos preparar para a Vermelha.” Essas foram as palavras de Morfeu na noite do baile de form atura, poucas horas antes de tudo desm oronar. A m ensagem tem tanta ressonância que parece estar conectada à m inha m ente; m as isso é im possível, com a cúpula de ferro que nos separa. Mesm o assim , faz sentido que essa percepção ecoe por m inha alm a quando estou nos lim ites da insegurança, considerando-se que ele é o guardião da sabedoria do País das Maravilhas, o depositário de todas as coisas loucas e ousadas.

Jeb é um a âncora; ele m e m antém conectada à m inha hum anidade e com paixão. Mas Morfeu é o vento; m esm o m e debatendo e gritando, ele m e arrasta para o precipício m ais alto, m e em purra e fica m e observando voar com asas de intraterrena. Quando Jeb está ao m eu lado, o m undo é um quadro — im aculado e acolhedor; quando estou com Morfeu, é um play ground insano — m alévolo e viciante.

Cada um deles ocupa um lado diferente de m eu coração duplo. Juntos, eles fazem um a ponte entre m eu m undo intraterreno e m eu m undo hum ano. O que devo fazer com esse conhecim ento, não sei ao certo. E, a m enos que m eu pai saia daquela sala com suas m em órias intactas, talvez nunca tenha a oportunidade de saber.

Lágrim as m e queim am os olhos pela prim eira vez em sem anas. Acabei ficando boa em esconder o desespero. Fazia parte da m inha encenação de louca para o sanatório — parecer distante e isolada. Mas isso está m uito longe do que sinto agora.

Recusando-m e a chorar, levanto o queixo. Morfeu diria que sou um a rainha, e rainhas não choram . E Jeb diria: “Você vai dar conta, menina do skate”.

Os dois têm razão.

Giro o controle na parede para dim inuir a luz. As cortinas do palco se abrem , revelando um a tela de cinem a. “Im agine o rosto dela enquanto olha para a tela vazia” — eu im ito as instruções dadas pelo condutor da últim a vez que estive aqui — “e vivenciará o passado dela com o se fosse o dia de hoj e”.

Fico surpresa ao perceber com o é fácil recordar as im agens da Verm elha nos desenhos do livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas de m am ãe. Antes de a pequena Alice cair na toca do coelho, antes de o m undo da rainha ser arruinado por um m arido infiel... antes de ela ser traída por seu rei. No tem po em que a Verm elha era som ente um a princesa.

A tela se ilum ina e eu explodo em m il pedaços que se reúnem na tela dentro do corpo e do ponto de vista da Verm elha.

Ela é pequena e j ovem , talvez tenha uns dez anos hum anos. Em bora as crianças sej am diferentes no reino interior — m ais inteligentes e cínicas, e lhes faltem inocência e im aginação. Sua respiração é arfante e ela corre atrás de um bando de duendes. Eles estão arrastando um cadáver enrolado em veludo verm elho. Os duendes só param quando adentram os portões do cem itério, seguros dentro dos j ardins cobertos.

— Esperem! Tragam-na de volta! — grita a Vermelha.

Ela quase tropeça em seu vestido, mas abre as asas e se ergue do chão. Aterrissa diante do portão no momento em que ele se fecha. Parada lá, sozinha, ela espia por entre as grades. A Irmã Um sai correndo de seu labirinto de arbustos com as oito pernas chutando a barra da saia. O torso humanoide da guardiã do jardim inclina se sobre a mãe da Vermelha e persuade o espírito a sair do corpo. Ele se debate, erguendo-se do cadáver feito um ramofluorescente.

A Irmã Um enrola o espírito em seu pulso e manda os duendes saírem com o corpo vazio.

— Não, a senhora não pode ficar com ela! — grita a Vermelha com um peso tão grande no peito que até respirar dói. O fedor de bolor e folhas queimadas faz arder seu nariz. Ela nunca chegou tão perto do jardim das almas, e cresceu ouvindo histórias sobre as guardiãs e o lugar. Mas lendas sobre mãos de tesoura e invasores reduzidos a fiapos sangrentos não podem assustá-la hoje. Não com sua mãe sendo levada para sempre.

A Irmã Um fica olhando de dentro do portão, franzindo a cara.

— Aqui é terreno sagrado, pequena rainha. Se estiver planejando alguma coisa, é bobagem. Você não tem aqui o poder de que usufrui em seu reino.

A Vermelha faz uma carranca. Seu corpo inteiro brilha em carmim enquanto ela se concentra no cabelo da mulher-aranha. Os fios, tremeluzentes e finos como aparas de lápis, pairam no ar em torno de seu rosto de jardineira com uma brisa, mas a magia da Vermelha não surte efeito.

A Vermelha olha para a cerca alta e para os ramos espinhosos que avançam sobre a amplidão dos jardins do cemitério, como um telhado. Não há forma de quebrar essas defesas.

A Irmã Um sorri desdenhosamente.

— Seria um erro tentar encontrar uma brecha, princesinha, a menos que deseje conhecer minha irmã pessoalmente. Ela tem o dom de fazer confete com pestinhas delicadas que nem você.

Um arrepio percorre a espinha da Vermelha até a ponta das asas.

Com um último olhar para a Vermelha, a Irmã Um enrola o espírito lamuriento e brilhante nos dedos. Com um movimento rápido de saias e pernas de aranha, ela desaparece no labirinto de folhagens.

Chega o pai da Vermelha, o rei, com o rosto vermelho de tentar alcançar sua filha.

— Qual é a vantagem em ser imortal — pergunta a Vermelha com o nariz enfiado no portão e frio do contato com o metal — se não podemos ficar juntos eternamente?

— A imortalidade significa somente que você atinge um ponto e para de envelhecer... e seu espírito nunca morre — ele responde ofegante. Aperta o ombro dela. — Mas o corpo é vulnerável a algumas coisas e pode ser deixado, pois é uma casca.

Os braços e pernas da Vermelha ficam entorpecidos. Seu próprio corpo parece uma casca. Vazia e quebradiça, como se pudesse ser levada pela primeira lufada de vento.

Ela se agarra às barras, procurando manter-se de pé.

— Mas por que não podemos enterrá-la no chão, entre as begônias e as margaridas, no pátio de nosso palácio, como fazem os humanos? Se ela vivesse no meio das flores, poderíamos visitá-la todos os dias.

Seu pai franze a testa, como se estivesse pensando.

— Você sabe que nossos espíritos precisam de sonhos para saciá-los, para impedir que fiquem inquietos... e possuam corpos vivos. Somente as Irmãs Twid podem encontrar e fornecer essas coisas.

— Sonhos. — A Vermelha funga. — Um dia, vou trazer sonhos para nossa espécie, pai. Eles serão abundantes em todo lugar, não só no cemitério. Um dia, vou libertar os espíritos para que possam dormir em nossos jardins, roçando nossas janelas à noite e tropeçando em nossos pés de dia. Vou trazer imaginação ao nosso mundo para que todos possam sempre estar com aqueles que amam.

Ele dá tapinhas na cabeça dela, um gesto terno que quase preenche o imenso vazio em seu peito.

— Isso faria de você a rainha mais adorada de todos os tempos, meu botão de rosa. Mas, até lá, devemos seguir as mesmas regras que todos os demais. Não podemos abusar de nosso poder e status nem colocar nossos súditos em perigo. Não importa quanto a amemos. — Ele seca os olhos com um lenço. — Compreende?

A Vermelha, com um gesto de cabeça, diz que sim.

 

A cena se em baralha e som e. Sou arrastada para fora da m em ória e j ogada em m eu assento, acolhida pela escuridão à m inha volta. Um a sensação de batida faz m eu crânio balançar, com o um soco vindo de dentro. Pressiono as m ãos contra as têm poras até parar.

Deve ser a m em ória repudiada aninhando-se no m eu crânio, porque eu não senti nada disso da últim a vez que estive aqui.

A tela se acende novam ente. Um arco-íris vívido invade a sala e m e j oga de volta para o palco. Meus ossos se acom odam aos da Verm elha e m inha pele se adapta à dela.

Ela está uns seis anos m ais velha. Seu pai desposou um a viúva intraterrena depois da m orte da m ãe, para que a Corte Verm elha tivesse um a rainha para regê-la até que a Verm elha tivesse idade suficiente. Contudo, daqui a alguns m eses, a Verm elha será coroada e a m agia da coroa correrá em seu sangue...

A Vermelha se esconde atrás de alguns arbustos no jardim do pátio do castelo. As zínias com listras púrpura murcham com o ódio que pinga dela quando espiona seu pai e sua meia-irmã, mais nova. Grenadine é filha do primeiro casamento da nova rainha e provou ser uma pedra no sapato da Vermelha.

Não basta que seu cabelo esvoace com o brilho de rubis e seus olhos cor de prata dancem sob cílios grossos de lavanda. Ela vive distraída — uma lousa em branco aguardando que alguém escreva nela. Sua fragilidade e dependência oferecem uma distração para o coração entristecido do rei, algo que a força e independência da Vermelha não conseguem fazer.

O rei inclina-se para mostrar a Grenadine, pela centésima vez, como se joga croqué, já a tendo lembrado, pela milésima vez, de que ele é seu novo pai. Ele aponta os aros de metal em formato de U que formam um losango no chão. Estacas cor-de-rosa e cinza marcam cada final, e dois jogos de bolas aguardam em uma caixa revestida de cetim.

— Nós seguimos o circuito de aros — o rei diz gentilmente. — Minha cor vermelha contra a sua cor prata. O primeiro lado que conseguir passar as bolas pelos aros na ordem e atingir a marca vence.

Grenadine balança a cabeça, com seus cachos rubros roçando os ombros.

— O que é uma marca mesmo?

— A estaca no final da pista.

— E um aro... é isto? — Grenadine levanta um ser mágico com pescoço de flamingo cujo corpo foi enrijecido magicamente no formato de um bastão de hóquei. As plumas rosadas se eriçam, como se tivesse ficado ofendido com a troca de nomes.

— Isso é um taco, querida. Os aros são as argolas que atravessamos com nossas bolas.

As covinhas de Grenadine aparecem, como sempre o fazem quando ela está desorientada.

— Oh, pai, eu simplesmente não consigo lembrar.

Ele sorri, encantado com sua graça insensata.

— Creio que descobri uma maneira de driblar isso. Senhor Bill? — Ele acena para alguém.

Bill, o Lagarto — um réptil intraterreno com a habilidade de escrever sem tinta —, surge e faz uma mesura. Seu fraque e suas calças vermelhas tornam-se verde-folha, combinando de modo tão convincente com o arbusto ao seu lado que ele parece uma cabeça decapitada e mãos cheias de garras em pleno ar.

Grenadine retribui a reverência.

— Prazer em conhecê-lo, senhor.

O lagarto sorri, encantado com sua doçura, como todos.

— O Senhor Bill é o estenógrafo da Corte Vermelha. Ele tem a habilidade de comer sussurros — o rei explica. — E, depois, ele pode anotá-los em qualquer superfície, onde ficarão colados para sempre, como murmúrios silenciosos, para que possam ser ouvidos e não vistos. Sussurre algo de que deseje lembrar-se.

Grenadine murmura as regras do croqué que acabou de ouvir.

As mandíbulas camaleônicas de Bill rangem e sua língua estala em pleno ar, capturando o eco do sussurro dela. Os olhos bulbosos giram em diferentes direções e ele engole um caroço bem grande. Em seguida, tira do bolso uma fita de veludo e escreve sobre ela com a ponta do dedo com garra.

Piscando, ele entrega a fita vermelha ao rei.

— Escute — o rei diz, levando-a ao ouvido de Grenadine.

Ela espera, e depois explode numa gargalhada de bochechas rosadas.

— São as regras sussurradas!

O rei amarra a fita no dedo mindinho dela.

— Agora você nunca vai esquecê-las. Pedi ao Senhor Bill que seja seu consultor real particular. Ele vai fazer fitas encantadas durante o tempo que você precisar.

Grenadine enruga o nariz.

— Bill? Creio que não conheço essa pessoa.

O rei dá risada.

— É claro que conhece. Ele está bem aqui.

Bill, o Lagarto, faz mais uma mesura.

Cansada do espetáculo, a Vermelha se concentra na fita amarrada no dedinho da irmã. De seu corpo emana um brilho carmim enquanto sua magia desata a fita. A tira de veludo voa de Grenadine e vai pousar na palma da mão da Vermelha. Ela sai do esconderijo.

O rei enrubesce. Ele dispensa Bill, mandando-o para dentro do palácio com Grenadine para que possam dar vida a mais sussurros.

— Por que fez isso? — o pai da Vermelha pergunta, tentando pegar a fita roubada.

A Vermelha a aperta entre os dedos.

— Talvez eu deva nomear Bill para fazer fitas para o senhor, para que se recorde de que tem outra filha. Com quem nunca fica.

O rei olha para os sapatos vermelhos.

— Fitas não ajudariam. Porque eu não esqueci.

O queixo da Vermelha fica rijo.

— Ela nem é sua filha! Eu sou, de sangue.

— Sim, meu botão de rosa. E a cada dia você se parece mais com sua mãe. E a cada dia volto a sentir a dor de ter sido afastado dela. Você tem mais coragem do que eu.

— E é por isso que serei rainha — declara a Vermelha, tentando endurecer o coração.

— Sim, porque você aceita as coisas que a fazem se recordar dela. Você toma chá com cinzas, para recordar como ela a acalentava quando você ainda era bebê. Você pede que o cozinheiro faça as tortas de Tumtum, as favoritas dela, para poder lembrar que vocês as comeram juntas. E cantarola as músicas dela.

A Vermelha não responde.

— Por favor, compreenda, amada filha. Eu só a evito para não arrastá-la comigo. Você é importante demais para o reino e não posso atrapalhá-la. Então, observo de longe. Sou um homem de sorte por ter uma filha que cresceu e se tornou uma mulher tão forte.

A Vermelha zomba dos elogios vazios.

— Quem tem sorte é Grenadine. Porque ela não tem memória. Ela pode esquecer qualquer regra que confinaria suas ações, apagar qualquer erro que minaria sua confiança, relegar qualquer tristeza que a impediria de amar. Ela não tem padrões que regulem sua vida. Ela é imune, por suas próprias limitações, a tudo o que poderia restringi-la. Ela vê o mundo com o encanto de um filhotinho que nunca foi escorraçado nem preso a uma corrente.

O rei cutuca a caixa da bola de croqué com o dedo do pé.

— Esquecer não a faz mais forte. Você é que é forte. Pois você se lembra e mesmo assim segue em frente. É isso que a tornará uma regente maravilhosa um dia, assim como sua mãe: solidária e compreensiva.

O punho da Vermelha aperta a fita com mais força.

— As emoções nascem da fraqueza. Não quero nada com elas.

— Como? — A voz severa de seu pai a assusta. — Você desrespeitaria a memória de sua mãe? Tudo por causa de uma pontada de ciúme?

A Vermelha cerra os dentes, sentindo o olhar da mãe sobre si, mesmo ela estando muito longe — uma rosa cristalina dentro do jardim das almas.

O rei estreita os olhos por baixo da sombra da coroa.

— Você tem a mesma qualidade sombria de toda a linhagem real Vermelha. Sua mãe foi a primeira que aprendeu a equilibrar a loucura e a sabedoria. Não renegue esse legado. Permita que ela se orgulhe de você. — Ele estende a mão.

Lágrimas invadem os olhos da Vermelha e ela larga a fita de sussurros na mão dele, uma promessa velada de honrar a memória da mãe, de nunca esquecer seu exemplo.

Meus ossos se agitam e a cabeça dói quando sou novam ente j ogada na espreguiçadeira, e em seguida atirada outra vez de volta à tela para a lem brança final.

A Verm elha está aj oelhada ao lado de um a roseira, inalando seu doce perfum e. Os botões são de um verm elho profundo, parecendo poças de sangue fresco em m eio ao brilho quase artificial das folhas azul-petróleo. Ela plantou a roseira no pátio com o um tributo ao seu pai, depois que ele m orreu. Ela anseia pelo espírito dele. Gostaria que ele estivesse aqui, e não aprisionado no j ardim das alm as, em bora fique confortada em saber que ele finalm ente se reuniu à sua m ãe.

 

— Eu deveria estar com vocês dois no cemitério — ela murmura às rosas. — Agora que minha vida está acabada. — Ela gira um frasco que tem na mão, revelando o rótulo: Poção do Esquecimento.

Seus ombros cedem quando, ao longe, ouve o riso alto da meia-irmã acompanhado pelas gargalhadas do esposo da Vermelha. A Vermelha o conheceu uma semana depois que o pai faleceu. Ele tinha um coração bom, como o pai, e provou ser o único homem que poderia lidar com sua raiva, amenizar sua amargura. A força dele era a compaixão, e ele adorava a Vermelha. Mas a rainha ficou obcecada pela ideia de trazer sonhos para o País das Maravilhas e acabou negligenciando seu casamento, sem mesmo se preocupar em dar ao rei os filhos que ele tanto desejava. Em sua ausência, o marido era comumente deixado sozinho com Grenadine.

Várias vezes, a Vermelha viu o marido tentar fazer amizade com sua irmã, embora esta sempre o repelisse. Quando o rei da Vermelha voltava para seu lado feito um filhote ferido, a tristeza dele atiçava o ciúme da esposa. Ela fazia a única coisa que podia: roubava as fitas da irmã para mostrar ao marido como Grenadine era bobalhona.

Todos os dias, durante meses, toda vez que sua irmã amarrava fitas nos dedos das mãos ou dos pés, a Vermelha, usando magia, as atraía e fazia com que ficassem flutuando no céu. Em breve, elas eclipsaram o sol, como uma nuvem de rubras borboletas cintilantes. O reino ficou imerso na escuridão, mas a Vermelha não se importava. Não tinha vontade de chamar as fitas de volta nem de ouvir os lembretes mundanos e irrelevantes de Grenadine.

Para a Vermelha, roubar as fitas tornou-se um jogo de malícia e grande satisfação, até que, finalmente, Grenadine parou de usá-las. E, logo depois, parou de impedir os avanços do Rei Vermelho.

Os dois ficavam cada dia mais apaixonados, e a Vermelha testemunhava isso repetidas vezes. Furiosa, ela chamou de volta todas as fitas do céu. Elas se espalharam pelo pátio do castelo em uma torrente de chuva carmim. A Vermelha postou-se em meio às centenas de sussurros que a rodeavam, repetindo as mesmas palavras: Mantenha o marido da Vermelha longe de seu coração. Ela é sua irmã, um amor precioso. Sempre seja fiel à Vermelha.

Grenadine vinha lembrando a si mesma, diariamente, de fazer o que era certo, e a Vermelha havia tornado impossível que ela lembrasse. A responsabilidade sobre a falência de seu casamento pesava toda em seus ombros. E a única maneira de a Vermelha sobreviver era ser como Grenadine e esquecer o papel que tivera em tudo isso. Determinou que se lembraria somente das traições dos outros, para que esses erros pudessem endurecer seu coração.

Afagando uma pétala de rosa, a Vermelha sussurra uma última vez:

— Mãe, Pai, espero que ambos me perdoem, porque a única maneira de perdoar a mim mesma é esquecer. — Em seguida, ela leva o frasco aos lábios.

 

A im agem se apaga, a cortina se fecha e o abaj ur se acende.

Desm oronada na espreguiçadeira, levo as m ãos às têm poras até que o m artelar dentro do m eu crânio se acalm e. Quase m e engasgo com o cheiro agridoce das rosas profundam ente gravado em m eus sentidos. Finalm ente consigo reconhecer o que nunca m e perm iti adm itir: sou descendente da Rainha Verm elha. Ela é um a parte perm anente de m im . Agora posso aceitar isso porque sei que ela, um dia, teve coração. Um coração que sentiu perdas parecidas com as m inhas: a ausência de um a m ãe que ela adorava; o m edo de perder a adm iração do pai; o arrependim ento por um erro tão m onum ental que lhe custou o am or de sua vida.

A Verm elha afastou seus m om entos m ais vulneráveis para não hesitar em sua busca de vingança. Desse m odo, ela pôde abandonar-se à crueldade com pleta sem nenhum rem orso.

A em patia espeta m inha consciência, m as eu a afasto. Não há lugar para a piedade no cam po de batalha... sej a ele m ágico ou não.

Se eu conseguir conter suas m em órias repudiadas por tem po suficiente para reuni-las à sua m ente, elas irão contra ela, a encherão de arrependim ento. Depois, enquanto ela estiver vulnerável, eu atacarei, e o País das Maravilhas nunca m ais precisará tem er sua fúria.

Ainda desorientada em m eio a um turbilhão de em oções obscuras, coloco m e de pé e aliso a cam isola hospitalar. Estou a poucos passos da porta quando ela se abre, revelando papai — com os olhos castanhos ilum inados por um a cham a ardente.

— Allie, eu m e lem bro... de tudo.