Qualquer Outro Lugar
Capítulo 3
3
Dilemas em Miniatura
Papai m e conta que seu verdadeiro nom e é David Skeffington.
— Interessante — eu digo, enquanto cam inham os pelo corredor. — E eu pensava que daríam os em algo relacionado a Martin Gardner.
Papai franze a testa.
— Quem é esse?
— O cara que escreveu Alice: Edição Comentada. Um m ago da m atem ática. — Eu dou de om bros. — Isso só prova quanto m am ãe estava envolvida com o País das Maravilhas. Com o ela não conseguiu encontrar seu verdadeiro nom e, deu a você um que se encaixasse no legado de Lewis Carroll.
— Sem saber que eu j á estava encaixado — papai em enda.
— Por quê? Quem são os Skeffingtons? — pergunto.
Ao notar o condutor pendurado na parede, papai não responde.
Eu o aj udo a libertar o besouro que esperneia sem parar.
— O inseto de tapete não estava cooperando m uito — explico, soltando a pele em aranhada do m eu prisioneiro dos fios e m etais.
— Existem outras m aneiras de ser persuasivo. — A expressão de papai é séria enquanto ele abaixa o inseto desalinhado até o chão. — Maneiras m enos violentas.
Fico calada em sinal de respeito, m as quero dizer que ele não sabe nada sobre com o lidar com intraterrenos.
Depois de um pedido de desculpas que ganha um a cautelosa, em bora reverente, m esura do condutor e dois pacotes de am endoim de brinde, papai m e pega pela m ão e vam os j untos para a plataform a do trem de brinquedo. A porta do vagão se fecha atrás de nós com um rangido forte.
Eu bocej o, inalando o arom a de poeira e pó de pedras no frescor do túnel parcam ente ilum inado. Os sussurros de centenas de insetos se m isturam — um a distração que m e acalm a. As m em órias da Verm elha continuam m e cutucando, ofuscando m inha m ente com m anchas rubras desconcertantes: seu rosto verm elho quando ela tentava segurar o espírito da m ãe, o trem eluzir cor de rubi do cabelo da m eia-irm ã durante um a difícil aula de croqué, vendo o pai se afastar, e o verm elho cor de sangue das fitas sussurrantes anunciando o erro m ais devastador da Verm elha.
Não posso sentir em patia. Tenho de ser forte.
Coloco as m ãos sobre o estôm ago, enj oada e tonta. Eu não fazia ideia de que o efeito aderente das m em órias seria tão poderoso. Preciso encontrar um m odo de controlá-lo.
Papai percebe que esfrego o estôm ago e estende um pacote de am endoim .
— Você precisa com er.
Jogo alguns am endoins na boca. O sabor salgado e crocante aplaca m inha fom e, m as não alivia as raj adas de chuva verm elha que inundam m inha m ente.
— Me diga onde está sua m ãe — papai diz abruptam ente.
Eu quase m e engasgo.
— Me diga que ela não está no m undo do espelho.
Depois de engolir, respondo:
— Ela está no País das Maravilhas.
Ele solta um suspiro de alívio.
— Que bom ! Existem criaturas em Qualquer Outro Lugar que nenhum ser hum ano... — Ele se detém , com o se lem brasse que m am ãe pode ser tudo, m enos hum ana. — Ela é um a deles. Com o aquele rapaz alado que m e carregou através do portal. Ela é intraterrena.
— Em parte — eu sussurro. Eu também sou fica parado em m inha língua, não dito.
— Ela é m ais forte do que eu poderia im aginar — ele m urm ura. — Ela pode proteger o Jeb. Eles têm um ao outro.
Ele está m eio certo. Mam ãe é forte, e eu tenho de acreditar que ela está sobrevivendo no País das Maravilhas. Se o Jeb estivesse com ela, ele estaria m ais seguro, tam bém . Ainda não vou contar ao papai que eles não estão j untos. Prim eiro, ele precisa digerir tudo o que acaba de saber.
— Eles estão bem . Todos... os dois estão bem .
Papai j á está tendo de se esforçar m uito para entender a lem brança daquele ser alado aj udando m am ãe a tirá-lo do j ardim das alm as no País das Maravilhas. Ele não precisa saber que Morfeu é parte de nossa m issão de resgate neste m om ento. No entanto, depois terei de explicar o im enso papel que Morfeu desem penhou em m inha vida desde a infância. Mas nunca poderei confessar o papel que ele planej a desem penhar em m eu futuro, pois j urei, pela m agia da m inha vida, não dizer um a palavra. Nem posso contar a Morfeu que vi o que vai acontecer, m esm o que ele próprio tenha visto.
— O problem a é que — eu continuo — a toca do coelho foi soterrada. Todos os portais estão interligados. Então, se a entrada não está funcionando, as saídas tam bém não.
— Foi por isso que você m e trouxe aqui para ver m inhas m em órias. — Papai capta no ar os fios soltos da m inha explicação. — Para encontrar outra entrada para o País das Maravilhas.
Tenho m edo de contar a ele o estado em que o País das Maravilhas se encontra. E, pior ainda, que eu sou culpada por isso. Que m inha inabilidade para usar poderes não cultivados e negligenciados causou toda essa tragédia. E que, para consertá-la, terei de encarar m eu m aior m edo.
Tem os m uito a conversar antes de eu incluir a Verm elha na história.
— O que aconteceu entre você e o condutor? — Papai m uda de assunto, para m eu alívio. — Por que você o intim idou daquele j eito?
Jogo um am endoim na boca.
— Ele m e cham ou de m esticinha esquelética — respondo, m astigando. — Achei a m inha solução bem criativa. — Minha voz é abafada pelo som de m otores e pessoas conversando que chega da ponte através dos dutos de ar.
Papai lim pa m igalhas da cam isa polo da sua loj a de artigos esportivos.
— Assim com o achou que as m entiras que você e sua m ãe inventaram tam bém eram criativas.
Ai! Jogo outro punhado de am endoim na boca, desej ando que as coisas entre nós voltem a ser com o eram antes. É tão estranho que, de algum a form a, as m entiras tenham se tornado a base de nosso relacionam ento. Sem elas, nosso vínculo é frágil... precário.
Que vontade eu tenho de abraçá-lo, m as o vácuo entre nós é grande dem ais.
— Se vam os aj udar sua m ãe e o Jeb — papai continua —, preciso de respostas sinceras de você. De toda a verdade. Chega de disfarces.
Analiso os dedos de m eus pés descalços, que se contraem a cada passo que dam os sobre seixos e pedras quebradas. A sola de m eus pés não é a única coisa que parece exposta e frágil.
— Nem sei por onde com eçar, papai.
Ele franze a testa.
— Não espero respostas im ediatas. Tem os que encontrar a Estalagem do Hum phrey prim eiro.
— Estalagem do Humphrey? — Quase m ordo a língua. O único Hum phrey que j á conheci é a criatura em form a de ovo do País das Maravilhas, tam bém conhecido por Hum pty -Dum pty, do rom ance de Lewis Carroll. — O que é isso?
— É a única pista que tenho para localizar m inha fam ília. Eu vivia aqui.
— Aqui, tipo em Londres?
— Aqui, tipo neste m undo. A Estalagem do Hum phrey é um a espécie de casa de passagem entre o m undo m ágico e o reino m ortal. Fica escondida debaixo da terra.
O fato de ele aceitar de im ediato um m undo subterrâneo m ágico m e deixa confusa. Talvez eu estej a errada em achar que ele não está preparado para lidar com intraterrenos. Talvez eu até suspeitasse disso, m as ainda é difícil aceitar quão enraizado o País das Maravilhas se encontra em m eu sangue — dos dois lados da m inha fam ília.
Esse pensam ento deflagra outro flash de m em órias da Verm elha, e eu cam baleio.
Papai m e segura.
— Você está bem ?
— É só um a dor de cabeça — respondo quando a sensação vai em bora. Vou ter de fazer um esforço concentrado para não pensar em m inha tataravó até que possa descobrir um a m aneira de reprim ir esses episódios. — Você estava m e falando sobre a estalagem .
— Sim . Fica em algum lugar de Oxford.
— Sério? Foi lá que Alice Liddell cresceu. E onde ela conheceu Lewis Carroll.
Papai esfrega a barba por fazer.
— De algum a m aneira, no passado, os Skeffingtons eram aparentados com os Dodgsons, que era o sobrenom e de Carroll antes de ele criar um pseudônim o. Espero obter m ais detalhes quando encontrarm os a estalagem .
Não pressiono m ais. Nem consigo im aginar a overdose de inform ação que ele está processando.
A distância, as m onarcas que nos deram carona estão penduradas nas paredes dos túneis, batendo as asas lenta e relaxadam ente. Os lustres de vaga-lum es refletem seus desenhos em laranj a e preto e lem bram tigres se esgueirando pelas florestas em um program a sobre a natureza.
As borboletas sussurram : Nós sabemos o caminho para a Estalagem do Humphrey. Gostaria que os levassem, pequena rainha flor?
Meus braços ficam com pletam ente arrepiados quando penso em sacolej ar no m eio de m ais um a raj ada de vento e chuva. Não é m edo. É um a ansiedade eletrizante — com o ficar na fila para andar na sua m ontanha-russa favorita. Os brotos de m inhas asas se agitam . O da direita ainda não está totalm ente curado. Talvez eu possa soltá-lo enquanto voam os, exercitar as asas sem o perigo de cair.
Sim, por favor, levem-nos. Envio a resposta silenciosa para as borboletas.
— Elas estão falando com você? — papai pergunta quando m e pega olhando fixam ente para elas.
Engulo em seco. É difícil m e acostum ar a não fingir com alguém para quem m enti a vida inteira.
— Ã-hã.
Ele m e analisa, com a pele quase verde sob a luz tênue. Pergunto-m e se ele j á se tocou que perm itim os que m am ãe ficasse trancada em um sanatório por algo que estava realm ente acontecendo, e não por um a ilusão.
— As borboletas sabem onde fica a estalagem — eu afirm o.
Papai faz um ruído de insatisfação.
— Quando chegarm os lá, podem os voltar ao nosso tam anho norm al, por favor?
— É claro. Eu tenho aqui exatam ente do que precisam os. — Dou um tapinha no bolso onde os cogum elos aguardam , surpresa por sentir a caneta do condutor j unto deles. Tinha esquecido que ainda estou com ela.
Papai tira a carteira e vasculha entre recibos, dinheiro e fotos. Ele para ao ver um retrato de fam ília que tiram os m eses atrás e, com a ponta do dedo trêm ulo, percorre a silhueta de m am ãe.
— Não acredito no que ela fez por m im — ele m urm ura, e eu m e pergunto se deveria ouvir aquilo, ou se é um m om ento íntim o. Nunca duvidei da força do am or que papai sentia por ela, m as só recentem ente vim a saber com o o am or dela por ele era forte.
Estou curiosa para saber quanto ele lem brou, se com preende que ela ia ser rainha antes de conhecê-lo.
O queixo de papai se fecha com força, e ele desliza a foto de volta para seu lugar.
— Não tem os a m oeda daqui. Vam os ter que usar m eus cartões de crédito. Devem os chegar por volta da hora do j antar. Enquanto com em os, vam os discutir as coisas. — Ele parece cansado, m as há anos não o vej o tão alerta. — Vam os planej ar nosso próxim o passo. Mas é im portante ficarm os quietinhos para não cham ar atenção. Considerando a profissão da m inha fam ília, eles podem ter feito inim igos m uito perigosos.
Um nó de apreensão se form a em m inha garganta.
— Que profissão?
Ele guarda a carteira no bolso.
— Porteiros. Eles são os guardiões de Qualquer Outro Lugar.
Meus j oelhos am olecem .
— O quê?
— E chega de falar nisso. Ainda estou processando.
Sua aspereza m e m agoa. Mas que direito tenho de m e sentir m agoada? Eu o fiz esperar dezessete anos para saber a verdade sobre m im .
— Tá bom . — Reprim o um pedido de desculpas e analiso m inha roupa rasgada. — Não vai ser fácil passarm os despercebidos usando roupas de sanatório. Você vai precisar se trocar tam bém .
— Algum a ideia? — papai pergunta, e em seguida levanta um a m ão. — E, antes que diga algum a coisa, não vam os roubar nada do varal de ninguém .
É com o se ele tivesse lido m inha m ente.
— Por que não? Os m otivos sem pre j ustificam o crim e. — Eu m ordo a língua. Esse é o raciocínio de Morfeu, não o m eu. É ao m esm o tem po atem orizante e libertador que sua lógica ilógica estej a com eçando a fazer todo o sentido.
Papai estreita os olhos.
— Me fale que você não acabou de dizer isso.
Controlo o desej o de sustentar m eu ponto de vista. Justificar crim es pode ser a lei vigente no reino interior, m as isso não a torna legítim a para m eu pai neste m om ento.
— Eu só quis dizer que seria com o tomar emprestado, se depois nós com prássem os roupas novas e devolvêssem os as outras.
— Muitas m anobras. Precisam os de um a solução rápida. Roupas im provisadas.
Roupas improvisadas. Queria que Jenara, com seu talento de estilista, estivesse aqui. No m ês que passei no sanatório, não pude receber nenhum a visita além de m eu pai. Mas Jen m andava m ensagens, e papai sem pre se encarregava de entregá-las. Ela não m e culpou pelo desaparecim ento de seu irm ão, apesar dos boatos dizendo que eu fazia parte de um culto cuj as vítim as tinham sido ele e m am ãe. Jen se recusa a acreditar que eu poderia estar envolvida em algo que fizesse m al a eles.
Eu queria m erecer essa fé.
Queria que ela estivesse aqui. Ela saberia o que fazer quanto às roupas. Jenara consegue criar roupas com qualquer coisa. Certa vez, para um proj eto de m itologia, ela transform ou um a Barbie na Medusa, pintando a boneca de prateado e criando um vestido “de pedra” com um a tira de papel-alum ínio e giz branco.
Bonecas...
— Ei! — eu grito para o lustre de vaga-lum es m ais próxim o. — Será que vocês poderiam ilum inar um pouquinho aqui, por favor?
Eles percorrem o teto e param bem acim a de nossa cabeça, ilum inando o que está à nossa volta. Este lugar j á foi um corredor que dava em um elevador, onde os passageiros aguardavam para ser levados à cidade depois que desciam do trem . Pais distraídos e crianças descuidadas deixaram para trás brinquedos que são com patíveis com o nosso tam anho: blocos de m adeira que poderiam passar por barracões de ferram entas, um catavento que poderia servir de m oinho, e alguns elásticos de cabelo m aiores do que os arbustos que eu via rolando ao vento nas estradas de Pleasance, no Texas.
Há um a placa acim a dos brinquedos. As palavras ACHADOS E PERDIDOS foram riscadas e substituídas por TREM DO PENSAMENTO.
Pouco adiante de alguns livros de ilustrações m ofados há um a m ala infantil redonda de pé, de m odo que a frente está visível. O estilo é retrô — rosa, de vinil estofado, com um a m enina de rabo de cavalo parada diante de um avião. Seu vestido desbotado j á foi azul um dia. Abaixo do zíper, escrito com letra de criança e m arcador preto, lem os: Loja de Roupas da Emily. Esparram ada no chão ao lado da m ala está um a Barbie vintage.
— Roupas de boneca — eu sussurro.
Papai estreita os olhos.
— Precisam os de coisas que sirvam quando ficarm os do tam anho norm al, Allie.
— Elas crescem e encolhem com a gente. Faz parte da m agia.
Ele olha para seu uniform e rasgado e cheio de lam a.
— Ah, certo...
— Vam os. — Pego a m ão dele e avanço na direção da m ala, controlando-m e para não uivar de dor, pois as pedras no chão furam m eus pés. Papai se detém por um m om ento para tirar os sapatos e m e aj udar a pisar nelas.
Os sapatos são grandes dem ais, é claro, m as a ternura do gesto m e recorda dos tem pos em que eu costum ava m e equilibrar sobre a ponta dos seus sapatos para que pudéssem os dançar j untos. Eu sorrio. Ele tam bém sorri, e volto a ser sua m enininha. Em seguida, sua expressão m uda da adm iração para o desapontam ento, com o se ele estivesse continuam ente tentando aceitar o que eu sou, o que m am ãe é, e todo o tem po que escondem os isso dele.
Meu peito parece encolher. Por que o privam os de um a parte tão grande de nós? De um a parte integral dele?
— Papai, eu sinto...
— Não, Allie. Ainda não estou pronto para ouvir isso. — Sua pálpebra esquerda com eça a trem er e ele desvia o olhar, os pés protegidos por m eias sondando os escom bros com cautela.
Sigo em frente e sinto o ar, dizendo para m im m esm a que é a poeira que faz m eus olhos lacrim ej arem .
Quando chegam os perto da m ala de roupas de boneca, ela parece alta com o um prédio de dois andares, e o fecho do zíper é do tam anho da m inha perna.
— Com o vam os abrir essa coisa? — pergunto.
— Tenho um a pergunta m elhor: com o vam os caber nessas roupas? — Papai aponta a Barbie coberta de poeira. — Você está do tam anho da cabeça dela.
As íris da boneca são pintadas, com o se ela estivesse olhando para o outro lado. Com sua m aquiagem felina, ela parece estar zom bando de m im . Exasperada, enfio as m ãos nos bolsos do avental. Meus dedos sentem a caneta do condutor. Mais no fundo, chego aos cogum elos, e um a ideia se form a na m inha cabeça.
— Vam os sentá-la apoiada na m ala.
Papai m e lança um olhar perplexo, m as não titubeia. Ele pega nos om bros da boneca e eu, nos calcanhares. Um a aranha am arelada do tam anho de um cocker spaniel foge correndo, reclam ando por term os destruído sua teia. Ela desaparece dentro da pilha de livros. Quando colocam os a Barbie sentada, acom odo-m e ao lado dela.
Entrego um cogum elo a papai e devolvo seus sapatos. Em seguida, pego outro cogum elo para m im e dou um a m ordida no lado salpicado. Ranj o os dentes ao sentir o desconforto dos nervos se esticando, os ossos se alargando e a pele e cartilagens crescendo. Tudo à m inha volta com eça a encolher e eu continuo a com er até m inha cabeça ficar na altura da cabeça da boneca.
Papai com preende tudo e tam bém m orde seu cogum elo até ficarm os am bos grandes o bastante para abrir a m ala e vestir as roupas estilo anos 1950 de Ken e de Barbie que escorregam de dentro da m ala.
Jogo para o lado calças boca de sino prateadas e um m aiô com listras brancas e pretas, descobrindo um collant e um a saia de balé da m esm a cor verde-m ar dos olhos de Jeb quando ele fica bravo. Exatam ente da cor que ficaram quando ele pegou Morfeu aos beij os com igo no m eu quarto antes do baile de form atura.
O arrependim ento m e corrói as entranhas. Todas essas sem anas, Jeb ficou pensando que eu o traí. No últim o m om ento que passam os j untos no baile, ele pegou o pingente que eu usava no pescoço — um am ontoado de m etal que um dia j á fora m inha chave para o País das Maravilhas, seu m edalhão em form a de coração e seu anel de noivado — e m e beij ou. Prom eteu que nós ainda estávam os longe de term inar. Mesm o depois de eu ter traído sua confiança, ele ainda planej ava lutar por m im .
Um a sensação de cócegas cham a m inha atenção para o tornozelo, onde um a teia de aranha se pendura na beira de m inha tatuagem de asa. Eu a fiz m eses atrás para cam uflar a m arca de nascença intraterrena. Aqui, nas som bras, percebo quanto a tatuagem realm ente se parece com um a m ariposa, com o Morfeu sem pre disse. Quase consigo ver os lábios dele se enrugarem de deleite com o fato de eu adm itir isso.
Aquela estranha dor que se desdobra m e arranha o peito novam ente. Ela m e atinge quase sem pre que estou hesitando entre m eus dois m undos.
O que será que a Verm elha fez com igo?
A Vermelha...
Suas m em órias repudiadas trovej am em m eu crânio m ais um a vez. Eu gem o baixinho.
— Disse algum a coisa, Allie? — Papai olha para m im enquanto vasculha as roupas de Ken.
Depois de esfregar as têm poras, levanto um vestido-cam isa sem m angas com botões de pressão na frente e estam pa de cerej a e galhos verdes que com bina com o collant.
— Acho que encontrei algum a coisa. — Ergo as roupas para papai inspecioná-las.
— Parecem ótim as. Estarei logo ali. — Ele pega sua trouxa de roupas e vai para o outro lado da m ala.
Dispo-m e das roupas do sanatório, tendo cuidado para não deixar os cogum elos que sobraram caírem do bolso do avental. Vou ter de encontrar outra form a de carregá-los.
Antes de tirar tudo, procuro algum a roupa de baixo feita de renda. Venho usando roupa íntim a básica de algodão desde que fui para o sanatório. Seria bom vestir algo bonito. Sem encontrar nada, m e conform o com o que j á tenho e visto o collant verde. O detalhe m ais legal da roupa de balé é um a abertura na parte de trás. Isso deixará m ais fácil abrir as asas. O tecido acetinado cheira a lápis de cera e a j uj uba, fazendo-m e sentir saudade da m inha infância, antes de m am ãe ser internada.
Em seguida, visto a cam isa-vestido e fecho os botões de pressão da parte de cim a, deixando a saia aberta para m ostrar as três cam adas de tule verde que saltam acim a dos m eus j oelhos.
Um a fita fúcsia serve com o cinto. Meias finas cor-de-rosa com pletam o conj unto. Elas vestem perfeitam ente das m inhas coxas até as panturrilhas, m as ficam sobrando nos dedões. Eu dobro o excesso e calço botas m oles e verm elhas de cano alto.
Botas vermelhas. As m em órias da Verm elha m artelam m eu crânio até eu sentir tanta tristeza por ela que caio sobre a pilha de roupas que sobraram . Levo os punhos fechados à cabeça até passar. Quando abro os olhos, estou quase soterrada entre sapatos e acessórios da Barbie, com o se tivesse m e debatido inconscientem ente.
— Está tudo bem por aí? — papai pergunta do outro lado da m ala.
Eu solto um grunhido baixinho ao tirar tudo de cim a de m im .
— Estou com dificuldade para calçar a m eia. — Talvez roubar as m em órias da Verm elha tenha sido um grande erro, afinal. Vou acabar usando novam ente um a cam isa de força, e desta vez para valer.
Quando m e levanto, m eu pé esbarra em um diário do tam anho da Barbie com um a chave que deve ter um quarto do tam anho de um alfinete, para um hum ano norm al.
O condutor disse que eu precisaria de papel encantado para conter as m em órias repudiadas. Um ano atrás, no cem itério do País das Maravilhas, a Irm ã Um m e contou que os brinquedos do reino hum ano eram usados para aprisionar alm as no covil de sua irm ã gêm ea.
A Irm ã Um disse que, quando os brinquedos m ais queridos são abandonados, eles desej am as coisas que costum avam preenchê-los e confortá-los. Eles ficam solitários e anseiam ter o que tinham . E, se alguém lhes der essas coisas, eles se apegarão a elas com toda a sua força e determ inação.
Folheio o diário. Algum as das pequeninas páginas foram preenchidas — corações, iniciais e flores, porque escrever palavras de verdade deste tam anho seria difícil para qualquer criança. Os dois terços finais estão em branco.
Talvez este diário tenha sentido falta de alguém que escrevesse nele.
O próprio Morfeu disse que os brinquedos guardam o resíduo do am or inocente de um a criança, a m agia m ais poderosa do m undo. Se isso for verdade, então quem sabe estas páginas sej am encantadas o bastante para conter as m em órias da Verm elha e, assim , afastar os laços em ocionais da m inha m ente.
Mordo o lábio inferior. Veja só, inseto de tapete. Acabo de encontrar um diário mágico.
— Já term inou? — Papai se m ovim enta do outro lado da m ala, com o se estivesse andando para lá e para cá.
— Só um segundo! — Rem exo tudo à procura do avental que estava usando e tiro a caneta do bolso. — A lógica intraterrena reside no lim ite tênue entre o bom senso e a falta dele. — Eu balbucio as palavras de Morfeu para que papai não escute.
Descarrego as m em órias da Verm elha nas páginas restantes, escrevendo o m ais rápido que consigo. As em oções j orram de m im para o papel, um a experiência catártica, com o escrever um diário para apaziguar o im pacto de algum a tragédia.
Quando term ino, fecho o caderno. Ele se retorce em m inhas m ãos, abrindo-se o suficiente para franzir o papel. As m em órias estão tentando escapar. Apertando os dedos em torno da capa, eu o fecho, tranco-o com a chave e ele para de se agitar.
Minha cabeça parece m elhor, os pensam entos m ais claros e a em patia m ais distante. A transferência deve ter dado certo. Ainda consigo m e lem brar do passado esquecido da Verm elha, m as os eventos parecem ter acontecido com algum a outra pessoa, e não com igo. As m em órias vão se distanciando, silenciando a em patia que m artelava dentro da m inha cabeça.
— Allie, nós tem os que ir.
— Estou procurando um lugar para guardar os cogum elos — respondo, enrolando.
Enquanto procuro, aparece um a sacola de balé cor-de-rosa com um cordão. Enfio o diário dentro dela e am arro a chave do diário em um pedaço do cordão para confeccionar um colar. Desde o desastre do baile de form atura, sinto-m e perdida sem a m inha chave para o País das Maravilhas. Esta aqui não é cravej ada de rubis e não abre um portal para outro m undo. Mesm o assim , é um conforto tê-la pendurada no pescoço.
Separando um cogum elo para m im e outro para papai, enfio o resto na bolsa j unto ao diário, fecho-a com o cordão, am arro bem e a penduro no om bro.
Com um a escova de plástico, desato os nós do cabelo e faço tranças dos dois lados da cabeça. Fico olhando para o chapéu e o cachecol púrpura e escarlate de crochê, testando para ver se as m em órias da Verm elha continuam dorm entes. Preciso ter certeza antes de partirm os. Não posso arriscar perder o controle quando estiverm os a vários quilôm etros de altura.
Com o nada acontece, pego o cachecol e o chapéu.
Vou para a frente da m ala. Papai está esperando com traj es de Ken; casaco xadrez preto e branco, calça pregueada de flanela cinza e cam isa branca.
Levo a m ão à pele sob os olhos, preocupada que m inhas m arcas intraterrenas estej am aparecendo depois de toda a m agia que exerci.
— Estou bem ?
— Está linda, borboleta — ele diz. Com a ponta do dedo, percorre o contorno de m eus olhos, seguindo um desenho ilógico que só pode significar que m inhas m arcas estão totalm ente abertas.
O fato de ele usar m eu apelido m e enche de gratidão. Ele está tentando m e aceitar, com todas as m inhas peculiaridades, m esm o tendo passado por um grande choque.
Eu aj eito seu colarinho e lim po a poeira de seu casaco.
— Sabe qual é a m elhor coisa destas roupas? Sabem os que som os as prim eiras pessoas a usá-las — eu provoco.
Papai dá risada. O som ecoa no túnel enquanto m ordem os nossos cogum elos — os lados m acios — até encolherm os o suficiente para caber no dorso das borboletas. Subim os em nossas m ontarias aladas, decolam os através do buraco na base da ponte e ganham os o céu rum o a Oxford.