Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 1 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Dedicatória

Para mamãe:

Sinto sua falta. Obrigada por me dar a coragem de voar bem alto e ir atrás de

meus sonhos, e por ser o vento que impulsiona minhas asas.

1

 

A Trupe Mística

da Memória

 

Que pobre memória é essa que só trabalha para trás.

— Lewis Carroll, Alice através do espelho e o que ela encontrou por lá

 

Eu achava que lem branças eram algo que seria m elhor deixar para trás... bolsões de tem po congelados que você poderia rever por seu valor sentim ental, m as m ais um a indulgência do que um a necessidade. Isso foi antes de eu perceber que as lem branças poderiam ser a chave para seguir adiante, para recuperar a fé e o futuro de todos que você m ais am a e aprecia no m undo.

Estou diante da porta verm elha e brilhante de um a câm ara particular no trem da m em ória. Na plaqueta rem ovível dentro do suporte está gravado o nom e Thomas Gardner.

— Um a form alidade desnecessária, visto que ele está aqui em carne e osso — disse o condutor, um besouro revestido de tapete quase do m eu tam anho, quando pedi a plaqueta. Lancei-lhe um olhar raivoso e insisti que ele fizesse o que eu queria.

Agora, ao pressionar a testa com força contra a m oldura de latão, perm itindo que o m etal esfrie m inha pele, penso no nom e de papai e em com o ele significa m ais do que eu j am ais im aginei... com o ele próprio é m ais do que eu poderia ter sonhado.

Quase o segui para dentro da sala quando chegam os. Ele estava trem endo tanto, m esm o antes de aterrissarm os em Londres.

Por que não estaria? Encolhido até ficar do tam anho de um inseto e cruzando o oceano m ontado em um a borboleta-m onarca. Ainda posso sentir o gostinho de sal no ar. De m adrugada, quando papai com eçou a aceitar que estávam os realm ente voando em borboletas, escorregam os por um buraco na base de um a enorm e ponte de ferro e aterrissam os ao lado de um trem de brinquedo enferruj ado dentro de um túnel subterrâneo. O fato de estarm os pequenos o bastante para entrar no trem fez papai arregalar tanto os olhos que achei que iam saltar das órbitas.

Eu quero protegê-lo, m as ele não é fraco. Não vou tratá-lo com o se fosse. Não m ais.

Ele tinha nove anos — som ente dois anos m ais do que Alice tinha — quando entrou sem querer no País das Maravilhas e caiu na arm adilha de um a aranha zeladora de túm ulos, m as, de algum a m aneira, sobreviveu. É m elhor que ele encare suas m em órias sozinho. De outro m odo, poderia tentar m e proteger. E eu não preciso de proteção m ais do que ele.

Precisei enlouquecer para ver m elhor as coisas. Se m eu pai tam bém precisar passar por isso, que assim sej a.

Meus dedos trem em enquanto contornam as letras: T-h-o-m-a-s. Papai conhecerá seu verdadeiro nom e hoj e, não o nom e que m am ãe lhe deu. Todas as revelações, toda a m onstruosidade que ele viveu quando criança, essas experiências nos levarão para Qualquer Outro Lugar — o m undo do espelho onde os exilados do País das Maravilhas ficam presos. Ele é coberto por um a cúpula de ferro, m antendo-os prisioneiros e, de algum a form a, distorcendo sua m agia, caso eles a usem lá dentro. Cavaleiros da Verm elha e da Branca m ontam guarda nos dois portões de Qualquer Outro Lugar.

Meus dois cavaleiros, Jeb e Morfeu, estão aprisionados lá. Já se passou um m ês desde que eles foram sugados por aquele lugar. Quero acreditar que ainda estej am vivos.

Tenho de acreditar.

E ainda tem a m am ãe, isolada em um País das Maravilhas em desintegração, refém da m esm a m alévola criatura aracnídea que um dia m anteve papai cativo em sua teia. A toca do coelho, o portal para o reino interior, foi destruída por m im . E agora Qualquer Outro Lugar é a única porta de entrada.

Estam os em um a m issão de resgate, e a m em ória de papai é a chave de tudo.

Arrasto os pés enlam eados pelo piso de azulej os verm elhos e pretos, dirigindo-m e para a frente do vagão de passageiros. Meus m úsculos doem de pilotar um a m onarca por vinte e quatro horas. Teria levado m uito m ais tem po se não tivéssem os sido carregados por um a tem pestade e levantados m ilhares de m etros no ar, cobrindo centenas de quilôm etros em questão de m inutos — um a viagem m aluca que papai e eu não vam os esquecer tão cedo.

Meu cabelo cai sobre os om bros em um em aranhado loiro platinado lavado pela chuva. Os nós com binam bem , pois é assim que m e sinto por dentro: caótica, m as exaurida. A m etade intraterrena de m eu coração se expande para se libertar das em oções hum anas nele enredadas. Não haverá trégua até eu encontrar m eus am ados e consertar as coisas no País das Maravilhas.

Ainda assim , sei que nenhum de nós voltará a ser o m esm o.

Meia dúzia de criaturas esquisitas ocupa os bancos de vinil branco. Elas não estão aguardando para recuperar suas m em órias. Estão aqui porque tam bém ficaram isoladas. Desde que a toca do coelho foi destruída, elas não têm com o voltar para o País das Maravilhas, seu lar.

Um a das criaturas é hum anoide e pálida, com cabeça em form a de cone cuj o crânio se abre esporadicam ente para que ela possa discutir com um a versão m enor de si m esm a. Depois, a versão pequena do crânio se abre e revela um a im agem ainda m ais pequenina. A m enor é um m acho de nariz grande. Ele bate em suas sósias fêm eas com um dim inuto rolo de m acarrão e em seguida volta a se esconder. É com o assistir a um a versão pesada de Punch e Judy, um a peça de fantoches que estudei na aula de teatro da escola.

Dois outros passageiros são duendes, e eu m e pergunto se fizeram parte do grupo que encontrei ano passado no cem itério do País das Maravilhas. Ficam diferentes sem os capacetes de m ineiro: cabeças calvas e escam osas com tufos de cabelos grisalhos. Um a sacola plástica farfalha entre eles, enquanto se revezam para atirar am endoins na criatura com cabeça de cone, provocando m ais discussão.

A cauda longa dos duendes se debate e sua cara de m acaco-aranha se retorce em expressões diligentes quando m eu olhar encontra o deles. Eles não têm pupilas nem íris, e as pálpebras piscam na vertical, com o cortinas de teatro.

Sussurram algo um ao outro enquanto eu cubro o nariz com a m ão para conter o fedor de carne podre que exsuda em form a de lodo prateado de sua pele.

— Alice, pelinpeguaperupeda cinpetilante — um deles diz em voz profunda quando eu chego m ais perto. — Peno peperpedipeda opsta pevez?

O dialeto é um a m istura estranha da língua do P com outras tolices. Ele quer saber se estou perdida desta vez.

— Não pé Alice, pestúpipedo — o outro interrom pe antes que eu possa responder. — E aqui só petem pepensadores e om entsm aus.

Eu continuo andando pelo corredor, absorvida dem ais em m eus problem as para m e envolver.

O besouro condutor rabisca algum a coisa em um a prancheta enquanto conversa com os últim os três passageiros. Estes são redondos e fofos, com os olhos presos a hastes altas e felpudas que m ais parecem orelhas de coelho do que globos oculares. Eles observam quando eu passo, as pupilas dilatando-se a cada rotação de suas orelhas.

O m ais gordo espirra em resposta a um a pergunta do condutor, e um a nuvem de poeira levanta-se de sua pele.

— Malditos coelhos de poeira — o besouro resm unga, e puxa um aspirador de pó de um coldre na cintura, usando-o para sugar a poeira da própria pele de tapete.

Eu m e acom odo em um a fileira na frente e m e debruço sobre um a j anela, esperando o condutor. Ele ficou de verificar um a coisa — as m em órias perdidas que preciso ver. Elas não são m inhas. Vou espionar os m om entos que faltam na vida de outra pessoa.

Mam ãe sentiu-se culpada por visitar as m em órias perdidas de papai sem ele saber. O bom senso dela m e faz ter cautela. No entanto, a pessoa cuj a m ente violarei não m erece m eu respeito. Ela é cruel e vingativa. Quase roubou m eu corpo e conseguiu destruir m inha vida e a m aior parte das paisagens do País das Maravilhas.

Morfeu sem pre diz que todos têm um a fraqueza. Se ele estivesse aqui, m e diria para descobrir a dela, para que, quando encontrá-la novam ente, eu possa esm agá-la.

E pretendo fazer j ustam ente isso.

O aspirador do besouro zune, abafando a discussão, os espirros e a gritaria à m inha volta. Recosto-m e e olho para os lustres feitos de vaga-lum es — cada um tem m etade do tam anho do m eu braço — am arrados j untos por tiras e correntes de latão. Os insetos lum inosos voam para cim a e para baixo, pincelando com luz am arela as paredes de veludo verm elho. Inclino a cabeça e olho pela j anela. Mais peças feitas de vaga-lum es ilum inam a escuridão, rolando pelo teto do túnel com o refulgentes rodas-gigantes.

Resisto a um bocej o. Estou exausta, m as ligada dem ais para fechar os olhos. Parece que não consigo perm anecer em nenhum tem po e espaço. Ainda ontem eu estava sentada a um a m esa no ensolarado pátio do sanatório, tentando enganar m eu pai e fazê-lo com er um cogum elo que o encolheria. Parece que isso aconteceu há um a eternidade, m as faz m ais tem po ainda que abracei m am ãe pela últim a vez... discuti com Morfeu... e beij ei Jeb. Sinto saudade do cheiro de m am ãe depois que ela trabalha no j ardim — de terra m exida e flores. Sinto saudade do m odo com o as j oias nos olhos de Morfeu volteiam por um arco-íris de em oções quando ele m e desafia, e da expressão concentrada de Jeb quando ele pintava.

As m ínim as coisas, que sem pre tom ei com o naturais, tornaram -se preciosos tesouros.

Meu estôm ago ronca. Papai e eu não tom am os café da m anhã, e m eu corpo j á m e diz que é hora de alm oçar. Enfio a m ão no avental am arrado sobre a cam isola de hospital dura de lam a e rolo os cogum elos que sobraram entre os dedos. Estou com fom e o bastante para pensar em com ê-los, m as não farei isso. A m agia dentro deles, que nos tornou pequenos o suficiente para voar em borboletas, nos tornará grandes novam ente depois que term inarm os aqui. Preciso conservá-los.

Meu perfil é refletido no vidro da j anela: cam isola azul, avental branco, cabelo loiro em baraçado com um a m echa carm im de um lado.

O prim eiro duende tinha razão. Eu sou o epítom e de Alice.

Um a Alice de pesadelo.

Um a Alice que enlouqueceu, que tem sede de sangue.

Quando eu encontrar a Rainha Verm elha, ela vai implorar para que eu só corte sua cabeça.

Rio dessa ironia e fico quieta quando o besouro desliga o aspirador. Ele aj eita o chapéu de condutor e vem claudicando sobre duas de suas seis pernas finas. Os outros dois pares servem de braços e aninham um a prancheta.

— E então? — pergunto, olhando para ele.

— Encontrei três m em órias. De m uito tem po atrás, quando ela era j ovem e solteira. Antes de ser — ele olha em volta e abaixa a voz, sussurrando — rainha.

— Perfeito — respondo. Com eço a m e levantar, m as volto a sentar no banco quando ele em purra m eu om bro com seu braço espinhento.

— Prim eiro você destrói a única passagem de volta para o País das Maravilhas, m e transform ando em babá de coelhos em poeirados e duendes fedidos. Agora quer que eu arrisque m inha vida lhe m ostrando... — ele estuda os passageiros atrás de m im com as m andíbulas cruzadas trem endo — as memórias particulares dela. — Seu sussurro é acom panhado de um a série de cliques, com o o estalar de dedos.

Eu ranj o os dentes.

— Desde quando os intraterrenos respeitam a privacidade de alguém ? Isso não faz parte de seu código de ética. Na verdade, a m aioria de vocês nem sabe o que é ética.

— Eu sei tudo o que preciso saber. E sei que aquela lá não perdoa. — Ele evita falar o nom e dela, m antendo-a anônim a.

Sigo seu exem plo.

— Ela nunca vai saber que você m e m ostrou.

O condutor vira páginas na prancheta e rabisca algum a coisa com sua caneta, enrolando.

— Há outro m otivo para preocupação — ele diz, m ais alto desta vez. — As m em órias são repudiadas.

— O que quer dizer isso?

— Ela não foi forçada a esquecer. Ela escolheu esquecer. Tom ou um a poção de esquecim ento.

— Melhor ainda — eu falo. — Ela tem m edo delas por algum a razão. É aí que eu levo vantagem .

Os estalidos crescem conform e suas m andíbulas trem em m ais.

— Idealm ente, você poderia usá-las com o arm as. Mem órias repudiadas são m aculadas, m arcadas por m agia em ocional volátil. Elas querem vingança contra quem as criou e as repudiou. Mas você teria que levá-las até ela, m antendo-as adorm ecidas em sua cabeça. Sendo m estiça, você não tem força suficiente.

Eu m e irrito com a condescendência.

— Os m ortais têm sua própria m aneira de m anter as m em órias adorm ecidas. Eles anotam , para que o passado não preocupe seus pensam entos. Eu só preciso de um diário.

Ele segura a caneta bem perto de m eu nariz.

— Isso não vai funcionar com m em órias encantadas, a m enos que seu caderno estej a cheio de papel encantado para retê-las. Infelizm ente, nunca ouvi falar de um diário assim . E você?

Eu o encaro em silêncio.

— Eu achava que não, m esm o. — O besouro bate em m eu nariz com a ponta da caneta.

Rindo com desdém , arrebato a caneta e a m eto no bolso, desafiando-o a pegá-la de volta.

— Bobinha. Quando as m em órias repudiadas se aninham em um a m ente, são com o aquelas m úsicas que ouvim os um a vez e não saem da cabeça, voltando sem parar a um grau que chega a ser doloroso. Na m elhor das hipóteses, elas fazem com que você sim patize com sua presa e não tenha forças para enfrentá-la. Na pior das hipóteses, você é levada à loucura. Está disposta a arriscar tam anha perda?

Deslizo as m ãos sobre m eus j oelhos dobrados e em seguida enfio o excesso de tecido da cam isola hospitalar sob os quadris. Não im porta com o sej a terrível im aginar as m em órias hostis de alguém devorando m inha m ente. Descobrir as fraquezas da Verm elha é a única m aneira de derrotá-la.

— Eu j á perdi tudo e j á enlouqueci. — Encaro seus olhos bulbosos. — Quer um a dem onstração?

Múltiplas pálpebras m ovem -se em seus olhos com postos. Insetos não têm pálpebras nem cílios, m as este não é um inseto norm al. É um inseto do espelho, ou rej eitado, dependendo da term inologia que você escolher: a de Carroll ou a do besouro-tapete.

O besouro foi engolido pela m adeira tulgey e foi parar no portão de Qualquer Outro Lugar. Então ele foi cuspido de volta para cá com o m utante. Exatam ente o que quase aconteceu com Jeb e Morfeu. Por sorte, eles foram aceitos no m undo do espelho, em bora pensar neles sozinhos lá m e eleve a um novo nível de horror. Morfeu não será capaz de usar sua m agia por causa da cúpula de ferro, e Jeb é som ente hum ano. Com o eles poderão ter algum a chance em um a terra de assassinos intraterrenos exilados?

Um grito m udo de frustração queim a m eus pulm ões.

Abaixo a voz para que som ente o condutor possa ouvir.

— Eu costum ava colecionar insetos. Eu os prendia com alfinetes em quadros de cortiça. Eles cobriam todas as paredes do quarto. Eu estava pensando em voltar a fazer isso. Talvez você queira ser m inha prim eira peça.

O condutor faz um a careta ou franze o cenho — é difícil dizer com todos aqueles traços se m ovim entando. Ele faz um gesto indicando o corredor.

— Por favor, m adam e.

Dirigim o-nos para as câm aras particulares. Duas portas adiante da sala de papai, o besouro para, olha para trás para se certificar de que não fom os seguidos e insere um a plaqueta com um nom e no suporte: Rainha Vermelha.

Os botões de m inhas asas coçam , querendo libertar-se. Um a torrente de m agia e ódio ferve logo abaixo da m inha pele. Pronta, aguardando.

O condutor com eça a destrancar a porta, m as se detém .

— Certa vez com pareci a um a festa no j ardim do palácio dela. — Ele volta a sussurrar. — Eu a vi tirar a pele do am igo do Cam undongo... aquela lebre.

Eu m e contraio, lem brando-m e da prim eira vez que vi a lebre durante o chá da tarde, um ano atrás, e de com o ela parecia estar do avesso.

— O Lebre Careca? Foi a Verm elha que o escalpelou?

O besouro balança a cabeça freneticam ente, confirm ando, e seu boné quase cai.

— Ela o pegou m ordiscando as pétalas das rosas. Elas eram um presente e tinham sido plantadas para hom enagear o pai dela. Mas m esm o assim . Ela usou um a enxada com o se fosse um descascador de legum es... esfolando a pele dele. O sangue j orrou sobre os convidados. Estragou a m elhor roupa de todos, e todas as m argaridas. Já ouviu um coelho gritar? Não se esquece um som com o aquele.

Eu estudo as pálpebras piscantes do inseto. Ele está perdendo a coragem . Com preendo, pois eu m esm a fui vítim a da violência da Verm elha. Ela certa vez usou m inhas veias com o cordões de m arionete — a experiência física m ais excruciante de m inha vida. Ela até deixou um a m arca no m eu coração... que ainda posso sentir, um a pressão diferente.

Ultim am ente, tem sido m ais do que um a pressão. Desde aquela m alfadada noite em que tudo deu errado no baile de form atura, quando aceitei m inha loucura, a pressão em m eu coração progrediu para um a pontada de dor recorrente, com o se algo dentro de m im estivesse lentam ente se desenrolando.

Não contei nada a papai. Estava ocupada exercitando m inha m agia, form ulando m eu plano. Meus entes queridos precisam que eu vença esta batalha, que eu sej a m ais forte do que a Verm elha de um a vez por todas.

Não posso m e dar ao luxo de m arcar um a consulta m édica. E não adiantaria. Sej a o que for, o que tenho foi causado pela m agia. A m agia da Verm elha. Sinto isso em m inhas entranhas. E vou fazê-la consertar isso antes de acabar com a existência dela para sem pre.

Mais determ inada do que antes, tento pegar a chave que está na m ão do condutor.

Ele a enfia debaixo do chapéu e em seguida com eça a brincar com a plaqueta, tentando tirá-la do suporte.

— Mudei de ideia — ele diz entre estalos das m andíbulas. — Um inseto faz isso de vez em quando.

— Não. — Eu seguro seu braço, que m ais parece um graveto. Seria fácil quebrá-lo. Um a tentação atravessa m eus pensam entos, desafiando-m e a ser cruel, m as eu m e afasto e coloco a palm a da m ão sobre o peito, j urando: — Eu j uro, pela m agia da m inha vida, que nunca direi que foi você que m e m ostrou.

— É m elhor você sentar e esperar seu pai — o condutor sugere. Mexendo desaj eitadam ente no trapo que cobre seu tórax, ele tira um pacote de am endoim e o entrega a m im . — Você deve estar com fom e depois da viagem . Vá alm oçar.

— Não saio daqui até ver as m em órias dela, inseto de tapete. — Jogo o pacote no chão e apoio as costas na porta, bloqueando a plaqueta.

O besouro faz um som regurgitado de raiva.

— Não im porta se m eu corpo é feito de tapetes. Minha cabeça funciona tão bem quanto a sua.

— É óbvio que não. Você esqueceu o que Morfeu disse. Eu faço parte da realeza.

— Ah, m as Morfeu não está aqui agora, está?

Esforço-m e para pensar em um a réplica, m as a lem brança do m otivo de Morfeu não estar aqui m e deixa im óvel, tornando m inha língua inútil — um naco de carne congelada.

— Você nada m ais é do que um a chateação real — o condutor retruca. — Tem consciência de que estam os sob um a ponte de ferro? A m agia dos intraterrenos é lim itada aqui. É por isso que guardam os as lem branças perdidas neste lugar: para m antê-las seguras. Então você não pode m e forçar a fazer nada. E não serei esm agado sob o polegar da Rainha Verm elha por um a m esticinha esquelética e inútil.

O pulsar do orgulho m e invade, descongelando m inha língua.

— Você deveria se preocupar m ais em ficar preso do que em ser esm agado.

Invoco os lustres de vaga-lum es acim a de m im , visualizando-os com o um a enorm e água-viva de m etal. As correntes chacoalham e os parafusos se soltam do teto. As cintas se abrem , libertando os vaga-lum es presos. Excitados com a liberdade, os insetos cintilantes quicam e voam em espiral dentro do vagão, feito um a dem onstração de asteroides em um planetário. Os outros passageiros, aos guinchos, enfiam -se debaixo dos bancos.

Uivando, o condutor tenta se afastar conform e as geringonças voam na nossa direção — com os tentáculos m etálicos im pulsionando-as em um espetáculo gracioso, m as perturbador. Eu m e agacho e as correntes acertam o inseto, derrubando seu chapéu e atirando-o contra a parede. Os parafusos voltam ao lugar e form am um a enorm e rede de m etal. Ele fica preso lá dentro, tão alto que as pernas ficam suspensas no ar.

Os vaga-lum es pairam no ar, lançando um brilho suave.

Cerrando os dentes, fisgo a chave de dentro do chapéu que caiu do condutor e está ao lado do pacote de am endoim .

— Tem um a nova rainha na cidade. — Olho para ele. — E, por causa do m eu sangue m eio hum ano, m inha m agia não é afetada pelo ferro. Então a Verm elha não leva vantagem sobre m im . — Dirij o-m e à porta da Rainha Verm elha.

— Espere — o besouro im plora. — Perdoe m inha im pertinência, Maj estade. A senhora tem toda a razão. Mas eu sou o condutor. Devo proteger as reservas de lem branças perdidas dos passageiros clandestinos. Tire-m e daqui, eu im ploro!

Giro sobre o calcanhar para encarar os outros. Eles espiam de debaixo dos bancos — os olhos saltados, a cauda encolhida, os pelos eriçados —, espirrando e trem endo de m edo.

O condutor choram inga enquanto j ogo para ele o pacote de am endoim , que fica preso em um a das correntes perto de seus braços esquerdos.

— Ele está em horário de alm oço — digo aos passageiros. — Qualquer um que sair do seu assento, por qualquer m otivo, terá que se ver com igo. Estam os entendidos?

Os clandestinos respondem com um balançar de cabeça coletivo e se acom odam cuidadosam ente nos bancos. Um com eço de satisfação se desdobra dentro de m im .

Sorrindo, enfio a chave na fechadura e abro a porta que leva ao passado de m inha inim iga.