Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 19 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 19

19

 

Cinzas, Cinzas...

Todas Elas Caem

 

Nuvens escurecem o céu e um vento frio esvoaça nossos cachos carm im , fazendo-os bater em nossos om bros com o cham as incontroláveis.

O pátio foi despido das barracas coloridas, exceto por um a cobertura de lona esticada sobre o palco onde a cerim ônia será realizada. O palco de dois m etros e m eio se eleva ao lado do poço do m edo. Grossas cordas pretas pendem do alto das m uralhas inclinadas do castelo para um a estaca larga fincada no centro dele. Laços de fitas verm elhas encontram -se am arrados ao longo das cordas, um a rem iniscência do j eito esquecido e traiçoeiro da boba da Grenadine.

Nós reprim im os um rosnado de orgulho. Em breve, terem os nosso reino de volta, e nossa prim eira ordem será banir aquela bruxa infiel para sem pre do País das Maravilhas.

A Rainha de Copas aguarda em cim a do palco com um a caixa de som bras aninhada nos braços. Ela está diante de um padre vestindo um a toga cor de vinho e um chapéu retangular alto. Sua form a, parecida com a de um sapo, está presa por um a correia ao poste central para que ele possa dorm ir na vertical. Seu queixo gordo solta borbulhas a cada ronco. Um pequeno enxam e de vaga-lum es paira sobre sua cabeça, aguardando.

Atrás da Copas, no nível do chão, estão sentadas centenas de testem unhas — os m esm os convidados que antes se divertiam em j ogos sádicos na esperança de m atarem a si m esm os. Imbecis.

Esperam os atrás da plateia que Morfeu chegue e cam inhe em nossa direção pelo corredor. Fora da cobertura, no alto da plataform a esquelética onde a corrida eleitoral com eçou, há um a esfera gigante. Um inferno queim a em seu interior, lam bendo o vidro em flam ej antes tons de laranj a, am arelo e verm elho. Ao final da cerim ônia, Nós andarem os em m eio às cham as com nosso noivo, iniciando nossa prova de fogo. Depois disso, estarem os unidas a ele para sem pre.

Do outro lado do pátio, o m úsico arrasta o arco pelas cordas do violoncelo. As cordas são feitas das entranhas evisceradas de um anim al m eio vivo. As vibrações se harm onizam com os gem idos da criatura e ecoam na im ensidão, criando um a m órbida m archa nupcial.

Ao soar a terceira nota, Morfeu surge das som bras na torre m ais distante. Seus sapatos produzem um ruído quase inaudível em m eio à anim ada acústica. As asas ficam m ais m urchas quando ele vê nossa aparência alterada.

Com sua chegada, a plateia se levanta e aplaude.

Nossas gavinhas chicoteiam a pequena fada e o gato abelhudo que voam em volta da cabeça de Morfeu. Eles se acovardam e m ergulham para baixo de seu chapéu.

A plateia aplaude ainda m ais.

Com a m andíbula retesada, Morfeu oferece a m ão. Nossa hera se estende, m as ele a rebate.

Os convidados ficam em silêncio. Até a m úsica para. Som ente o ronco do padre, o zunido dos vaga-lum es e o inferno que estala dentro da esfera podem ser ouvidos.

Morfeu abre sua luva m ais um a vez.

— Dê-m e a m ão de Aly ssa. Só tocarei nela.

Nós conduzim os nossos dedos inertes para j untá-los aos dele, poderosos. Ele inclina a cabeça e os beij a. O contato desperta um calor que envia um a centelha de prazer fam iliar através de nosso corpo hum ano. Nossos dedos saltam em resposta.

Morfeu levanta o queixo, as j oias dos olhos brilhando em apaixonado tom de púrpura.

— Aly ssa, pode m e ouvir, florzinha? Ela a fez esquecer sua hum anidade. Mas eu sei que você ainda está aí.

— É claro que Nós estamos aqui — respondem os. — Mas tem lugar para mais um. — Sorrim os sedutoram ente, correndo os tentáculos folhosos por sua cam isa preta e penetrando nos espaços entre os botões para acariciar seu peito nu por baixo.

A afeição no rosto de Morfeu m uda para um a expressão torturada, e ele arrasta nossas gavinhas para longe do tecido, em purrando-as.

Nós sorrim os com sarcasm o. O conforto e a felicidade dele são irrelevantes. Ele é um m eio para alcançarm os um fim , um lindo peão no tabuleiro de xadrez da nossa vida. Nós apreciarem os usá-lo até o fim .

Um tendão do pescoço salta quando ele cam inha pelo corredor ao som da m acabra m úsica que ecoa m ais um a vez pelo pátio. As asas das m onarcas sacodem em nosso vestido quando nos m ovem os.

Ele aperta nossos dedos.

— Por que não está usando suas luvas? — ele m urm ura pelo canto da boca.

A pergunta não faz sentido, m as seu recato nos diverte, então Nós respondem os:

— Achávamos que você admirava nossas mãos nuas. As cicatrizes de batalha adquiridas em nossa forma mais frágil.

Ele lança um olhar taciturno, com o se Nós não tivéssem os o direito de falar dessas coisas. Com o se elas fossem , de algum a form a, sagradas.

Saboream os seu torm ento. Nosso coração bate em unificada vindicação. Um a só pulsação... um só propósito: obter nossa vingança. Finalm ente colher as recom pensas do esquem a que com eçou tanto tem po atrás com um a curiosa m enininha cham ada Alice.

À esquerda do palco, um a tropa de pássaros trogloditas entra abruptam ente. Manti aparece atrás deles com o rapaz hum ano capturado. O prisioneiro veste calças de sm oking e um colete. Um saco de tecido preto cobre a cabeça. As m ãos estão am arradas atrás das costas com correntes envoltas em um a enorm e pedra. Manti faz força para carregar a pedra a fim de que o rapaz possa cam inhar.

O sósia arlequim vem m ais atrás, usando cam iseta e j eans velhos. A linha de j oias verm elhas brilha em um lado de seu rosto. Do outro, o tapa-olho em form a de coração está rasgado, e algo se m ovim enta no vazio escuro onde a pele se abre. A parte de trás de um globo ocular surge na superfície, com as veias e o nervo óptico. Ela gira e em seguida desaparece dentro do buraco.

O quadro m edonho nos encanta e Nós rim os bem alto, um riso esganiçado e alegre, com o o de um a criança com um brinquedo novo. O som acorda o padre de seu sono por cerca de dois segundos, e em seguida os olhos bulbosos ficam pesados e ele volta a roncar m ais alto ainda.

Morfeu baixa a cabeça e nos puxa pela m ão. Deslizam os ao lado dele, orgulhosas, propelidas por nossas gavinhas.

O sósia sobe no palco e tom a seu lugar ao lado da rainha. Um a brisa levanta o cabelo que cobre um a de suas orelhas, revelando a extrem idade pontuda. Manti força o m ortal a se aj oelhar na beira do palco, perto do poço do m edo, e larga a pedra ao lado dele com um baque surdo.

Nós deslizam os escada acim a e observam os o prisioneiro hum ano com rem orso. Não por sua vida, m as pelo entretenim ento que ele poderia ter nos proporcionado. Ele é atraente, para um ser inferior. Nós teríam os apreciado usá-lo até o fim tam bém .

Assum im os nosso lugar diante do padre, nosso noivo à esquerda entre Nós e o m ortal acorrentado; a Copas está à direita, segurando sua caixa. Manti e o sósia estão do outro lado dela.

Estam os a instantes da vitória. A instantes do País das Maravilhas, de nossa coroa e de nosso trono.

Morfeu retira o saco que cobre a cabeça do m ortal e recua, soltando um palavrão.

Um a tira de pano cobre os olhos do m ortal, e outra aperta sua boca. A tez m orena está perfeita, apesar dos fios de sangue que escorrem pelo rosto, unindo a venda nos olhos à m ordaça. Outro filete verm elho escorre pelo queixo.

— Por que ele está am arrado desse j eito... e sangrando? — Morfeu inquire.

— Esta era exatam ente a m inha pergunta! — A Copas resm unga de seu lugar entre Nós e Manti. — Eu quero ver o m edo nos olhos dele e ouvir seus gritos quando retirarm os seu relógio de vida.

— Não tive escolha, ó Maj estade — Manti responde a sua rainha. — Eu confisquei as tintas dele, m as ele im provisou. Ele pintou na cela dele com lam a feita de terra e saliva e escondeu tudo o que fez nas som bras. Os grilhões nas paredes e as barras das celas ganharam vida e se voltaram contra nós quando tentam os trazê-lo para cá. Perdem os um a dúzia de nossos guardas m ais fiéis com m ortes violentas nas m ãos das criações dele. A única form a de deter sua m agia foi arrancar seus olhos para que ele não pudesse m ais ver e dar vida a outras coisas... e cortar sua língua para que ele não pudesse m ais com andá-las.

Morfeu fica pálido, com o se nem ele tivesse estôm ago para o que aconteceu com o m ortal.

Algum a coisa se retorce no âm ago de nosso ser, um a dor incôm oda que provoca um a voz inesperada e indesej ada...

 

Jebediah Holt, a voz diz aos soluços.

 

Nosso coração para por um segundo, e então volta ao seu ritm o. Não serem os influenciadas por um nom e. Nós nos postam os altivas ao lado dele, bloqueando tudo exceto o triunfo im inente que pulsa em nossas veias — o m aior de todos.

 

Mas ele é mais... A voz fraca não cede. Ele é mais do que um nome... os dois são mais.

 

Não. Nós nos recusam os a ouvir. Eles são somente degraus. E, em breve, todo o País das Maravilhas se tornará degraus sob nossos pés. Nós reinaremos sobre dois reinos e todos nos venerarão.

— Seus idiotas! — Morfeu grita, fazendo-nos lem brar de onde estam os, do que está em j ogo. — Eu poderia ter convencido o m ortal a libertar Aly ssa de seu voto. Eu poderia ter... — A voz dele falha.

— Ah! — a Copas diz, bufando. — Bem , agora ele não pode m ais fazer isso, não é? Ele perdeu para sem pre a capacidade de falar. Só há um m odo de libertá-lo agora.

Num explosivo ataque de fúria e asas, Morfeu salta sobre Manti, pegando o m anticórnio pelo chifre e colocando-o de j oelhos. Ele segura um a faca na base do chifre de Manti.

— Afastem -se — ele grita para os guardas.

A Copas grita, e a plateia dá pulos e vivas. Alguns ficam de pé nas cadeiras para enxergar m elhor, antecipando, em frenesi, o banho de sangue.

Já que Morfeu está com a vantagem no palco, os guardas e os pássaros trogloditas descem as escadas para tentar conter a m ultidão.

Em m eio a tudo isso, o padre adorm ece sob o zum bido da nuvem de vaga-lum es.

— Você m e traiu — acusa Morfeu j unto ao ouvido hum anoide de Manti, fervendo de raiva. — Eu lhe inform ei a localização do m ortal com a condição de que ele não fosse ferido.

Manti encolhe os om bros, m as o chifre é seu calcanhar de aquiles, sua fonte de força e, ao m esm o tem po, fraqueza. Ele está à m ercê de Morfeu.

— Eu precisava provar m inha lealdade à rainha. Com pensá-la pelos cavaleiros hum anos que escaparam do calabouço sob m inha custódia.

— Selvagem ! — rosna Morfeu, forçando o m anticórnio a se levantar. O sósia se j oga contra eles, separando-os.

Morfeu perde a faca, que é agarrada pela Copas, enquanto Manti volta ao seu lugar entre ela e o sósia.

— Basta de atrasos — am eaça a Copas, entregando a faca a Manti. — O casam ento segue conform e planej ado, Morfeu. Tente qualquer outra coisa assim , e nadará com as enguias antes que o dia acabe.

Envolvem os o braço de Morfeu com nossas gavinhas e o puxam os para nós enquanto Manti e a Copas se voltam para a plateia, bradando com andos para silenciá-la.

Morfeu avalia o m ortal m utilado. Um a tristeza profunda obscurece suas feições. Ele se livra de nossos ram os, sussurra um a im precação e tira o chapéu.

A fadinha e Chessie saem voando, carregando um narguilé em m iniatura. Nós os observam os, desconfiadas.

Incitado pela atividade, o prisioneiro hum ano contrai os m úsculos num a tentativa inútil de se libertar das correntes. Ele produz um som gutural e engasgado — bestial e agoniado, sem a língua.

Sua agonia nos fascina, cham a nossa atenção. Novam ente, aquele aperto de reconhecim ento lá dentro, desta vez m ais agudo, feito um a faca. A voz indesej ada retorna:

 

Não é a primeira vez que ele sangra por você, ela incita. E ele já pintou com outras coisas além de lama. Como pôde esquecer a sala de luar e neve, as fitas com desejos e sonhos? Como pôde esquecer tudo o que ele sacrificou por você?

 

Chessie aparece diante de nosso rosto. Ele dá um a tragada do narguilé e solta um a nuvem de fum aça. A névoa arom ática perm eia o ar e atinge nossa língua, deflagrando im agens: tabaco de alcaçuz e um ser m ágico sedutor com segundas intenções, o sal do oceano e o suor de um rapaz m ortal, o xarope de bordo e o am or de um pai, o sacrifício de um a m ãe e um j ardim lunar cheio de lírios e m adressilvas.

A hum ana dentro de nós vacila por um instante, despertada pelos sentidos. Suas em oções são avassaladoras... aterrorizantes.

Nós nos retorcem os no lugar, nossas gavinhas chicoteando Chessie para afastá-lo. Mas é tarde dem ais. A faca do reconhecim ento com eça a serrar as am arras que Nós colocam os em nosso coração.

Não perm itirem os. Vai doer se as costuras forem rom pidas.

Concentrem-se. Concentrem-se somente no homem que será nosso rei.

Nossa atenção se volta para Morfeu e depois para a Copas enquanto ela e Manti se postam diante do padre, tendo aplacado os convidados sedentos de sangue. Os guardas e os pássaros trogloditas bloqueiam as escadas, form ando um cordão de isolam ento entre a cerim ônia de casam ento e a plateia.

— Acorde, seu bufão — a Copas diz ao padre, e os vaga-lum es o eletrocutam até ele rir tão alto que seus olhos arregalados se abrem . — Com ece a cerim ônia.

O padre estala os lábios grossos e grudentos.

— Vocês vêm para esta união livres de toda e qualquer am arra? — A pergunta coaxada j orra de sua garganta esverdeada.

A cabeça de Morfeu está tão baixa que seu cabelo cobre todo o lado esquerdo do rosto. Vislum brado através de espaços na cortina azul, seu perfil cravado de j oias se desvanece, assum indo a cor de lágrim as.

— Um voto pela vida de m agia se interpõe entre nós.

— Então ele deve ser quebrado, ou a união será nula — o hom em -sapo diz, e bocej a bem alto.

O silêncio envolve o pátio. Nós olham os para as cham as na esfera lá em cim a. O brilho deixa um a m arca em nossa m ente, cauterizando as em oções hum anas que tentam nos despertar.

— Chegou a hora, Morfeu — a Copas urge. — Prove lealdade a suas noivas e ao seu m undo e será recom pensado com a chave do portão. Traga-m e o coração do rapaz.

Morfeu grunhe.

— Prim eiro, m ostre-m e o m edalhão. Eu quero vê-lo.

A Copas passa a caixa de som bras para Manti. Ela abre a tam pa, revelando dois relógios de vida pulsantes. Com um barulho de m olhado, a Copas m ergulha os dedos no coração m aior e retira o m edalhão. Ela o coloca na palm a da m ão, pingando sangue.

— É prova suficiente? Agora, m ate-o.

Morfeu tom a nossa m ão inerte e a leva aos lábios. Sua respiração envolve nossos dedos, m ais um a sensação de rendição.

— Lem bre-se: as lem branças são nossa m aior arm a — ele sussurra.

Nós nos voltam os para o agonizante m ortal. Im agens piscam em nossa m ente: o m esm o rapaz de berm uda cargo e cam iseta escura por baixo do colete do Subm undo, luzes negras salientando os braços torneados com flashes azulados; o rapaz com a m áscara de plum as no baile de form atura; Jeb surfando na areia comigo em carrinhos de chá e derram ando o próprio sangue para salvar m inha vida inúm eras vezes; Jeb m e beij ando depois de eu ter partido seu coração e lutando na noite do baile por m im e por todos os outros seres hum anos.

Um dos fios em nosso coração se solta com um a pontada visceral, ressuscitando a voz:

 

A língua dele disse palavras lindas a você... Os olhos dele a cobriram em carinhosa contemplação. Nunca mais. A menos que impeça isso. Ele ainda pode ser curado com magia, assim como ele, um dia, curou Morfeu.

 

É a minha voz — o m eu raciocínio — m uda e im óvel, desesperada por ser ouvida. Mas m inhas cordas vocais estão dorm entes, com o se eu tivesse respirado a névoa negra do portão de Qualquer Outro Lugar. Assim com o m eu corpo, m inhas palavras são prisioneiras dos tentáculos da Verm elha.

Mesm o assim , ela pode ouvir m eus pensam entos libertados.

Jeb está ferido... mas pode ser salvo. Morfeu vai fazer o que é certo.

 

Morfeu não mostrará misericórdia, a Verm elha contradiz em m inha m ente. Ele fará qualquer coisa pelo País das Maravilhas. Essa é a prioridade dele. É por isso que o escolhi para ser nosso rei. Por isso, e pelo fato de que, por causa da infância que passou com você, ele pode gerar uma criança que sonha. Que perfeição profunda essa mudança no destino acabou tendo.

 

Mais um fio se desprende de m eu coração, com dor precisa e aguda. Eu a aceito, porque ela m e lem bra de que ainda estou aqui. Estou viva. Tenho poder.

A determ inação ferve em m eu sangue, escalda m inha pele. Concentro-m e em m eus dedos, forçando-os a apertar a m ão de Morfeu.

Os olhos dele se arregalam . Ele olha de m im para o m edalhão na m ão da Copas. Um m úsculo em seu queixo dá um pulo.

— Faça um a escolha — a Copas diz, fervendo de raiva. — Ou o hum ano dá a vida ou o País das Maravilhas pertencerá aos habitantes do m undo do espelho.

Morfeu olha para a m ultidão de convidados dem entes, salivantes e brutais, e para o corpo de Jeb aj oelhado. O sangue no queixo de Jeb j á escorreu para a cam iseta sob o colete do sm oking, tingindo o tecido branco de verm elho-vivo.

Meus pés se contraem ... As pernas doem ... O estôm ago se revira. Cada parte de m im acorda lentam ente, m as m inhas cordas vocais se encolhem sob as garras da Verm elha. Luto para usar os m em bros. Suas gavinhas m e seguram m uito alto; não consigo pôr os pés no chão. Um a sensação agonizante açoita m eus ossos, com o punição por ter tentado. A Verm elha enrola m eus braços em sua hera e os fixa j unto do corpo.

Um lam ento m orre em m inha garganta.

A m em ória m e provoca por baixo da dor. Um a lem brança de que eu a sobrepuj ei um dia. Eu m e m exo, ignorando a sensação interna de estar m e partindo ao m eio, e envolvo um a gavinha com os dedos. Eu a puxo. Regatos de sangue j orram de onde o ram o estica m inha pele.

Mais um a das costuras em m eu coração se solta... e outra, e m ais outra. Eu berro com o ardor excruciante. Não consigo arrancá-la sem rasgar m eu coração ao m eio.

Derrotada, quedo-m e inerte.

— Depressa — a Verm elha diz bem alto, usando-m e com o seu bocal, agora desesperada. — Mate o rapaz e ela será sua rainha para sempre, Morfeu. Simples assim.

— Dê-m e seu relógio de vida! — a Copas grita para Morfeu. Ela ergue o m edalhão no ar, balançando-o diante dele com o um pêndulo, para tentá-lo.

Morfeu segura o colete de Jeb e o força a levantar-se. Jeb vacila, desequilibrado pela incapacidade de ver. Ele luta contra as am arras nas m ãos e dá chutes às cegas para defender-se.

Morfeu volta o olhar para m im , as profundezas negras cheias de tanto rem orso que sei o que ele vai dizer antes que abra a boca.

— Aly ssa, m e perdoe. Mas eu sem pre farei o que é m elhor para o País das Maravilhas.

— Não! — eu grito, enfim libertando m inhas cordas vocais.

A m ultidão explode, fazendo os guardas e os pássaros trogloditas reforçarem a barricada.

Ainda segurando o colete de Jeb, Morfeu olha para o caos atrás de si.

— Agora! — ele grita.

Chessie e Nikki aparecem do nada e voam sobre a Copas. Nikki distrai a rainha enquanto Chessie m ergulha e arrebata o m edalhão, em seguida voando para o portão. Manti m anda o sósia atrás do m ágico felino. O fervor da m ultidão atinge um a intensidade frenética, e eles se voltam contra o grupo real e o palco.

A Copas dá um grito e Manti a arrasta para o castelo, protegendo-a.

A Verm elha berra dentro de m inha cabeça. O som atinge m eu ouvido interno com o um a serra descontrolada, fazendo-m e girar desordenadam ente com a vertigem .

Tudo à m inha volta fica borrado, com o se eu estivesse cavalgando um pião. Consigo ter alguns vislum bres: as gavinhas da Verm elha chicoteando Morfeu e Jeb e desequilibrando-os; Morfeu tropeçando em suas asas, batendo a cabeça e fechando os olhos; Jeb tropeçando na pedra atrás dele e em purrando-a para perto da borda.

As correntes presas à pedra arrastam seu corpo de cim a do palco. Ele cai no poço. Nikki se lança sobre ele, tentando puxar as correntes, e em seguida m ergulha na água atrás dele.

Minha visão distorcida se dissipa quando Jeb vem à tona, debatendo-se. As profundezas o puxam para baixo, engolindo-o — m eu m elhor am igo, m eu dedicado am or, o hom em que deixou tudo para trás por m im , m ais vezes do que eu poderia contar.

A água se agita com bolhas verm elhas, ácidas.

Eu viro a cabeça, soluçando, fraca dem ais para ver o que sobrou dele voltar à superfície. Fico ouvindo sua voz em m inha cabeça, um ano atrás, da prim eira vez que nos beij am os. Estávam os no País das Maravilhas e eu pedi a ele que não partisse m eu coração. E a resposta dele foi: “Eu arrancaria o m eu prim eiro”.

Ele não pode ter m orrido. Isso não pode ser real. Deve ser um pesadelo.

Tudo em torno de m im se m ove em câm era lenta: Morfeu inconsciente no chão do palco, os convidados ensandecidos fechando o cerco, dom inando os guardas e os pássaros trogloditas.

Tudo o que há de bom em m im m orre. Toda a com paixão e a m isericórdia afundam na parte m ais obscura de m inha alm a. A cor do sangue as substitui, um a m aré tortuosa na qual quero nadar para sem pre.

Os convidados tentam se aproxim ar do palco, e os guardas e os pássaros recuam .

Covardes...

Em um a explosão de obstinação cruel, os m utantes, babando, passam por cim a do corpo inconsciente de Morfeu sem tocar nele, com os olhos vidrados em m im , atraídos por m inha herança real.

— Você perdeu tudo — a Verm elha provoca de algum lugar dentro de m inha cabeça. — Suas memórias falharam porque você pertence a mim agora. Renda-se ao meu controle e eu salvarei a nós duas.

Entretanto, não eram som ente as m inhas lem branças que Morfeu queria que eu usasse.

— Acabem com ela! Arranquem o coração! — a turba de m utantes entoa enquanto se aproxim a. As gavinhas-tentáculos da Verm elha se m ultiplicam , m antendo-os afastados.

Deixo que ela nos defenda, deixo que sua distração sirva com o m inha oportunidade para entrar ainda m ais, buscar os m om entos m anchados de carm im que o diário m e aj udou a suprim ir. Eu os arrasto para a superfície: o rosto j ovem e corado da Verm elha ainda criança, quando tentou segurar o espírito de sua m ãe, o brilho rubi do cabelo de sua m eia-irm ã durante um a dolorosa aula de croqué, quando ela sentiu que o pai estava se distanciando, e o tom carm im profundo das fitas sussurrantes a anunciar o erro m ais devastador da Verm elha, quando ela atirou o m arido nos braços de outra m ulher por causa das próprias inseguranças egoístas.

A Verm elha guincha, sem defesa contra o choque de seus arrependim entos. Suas m em órias vingativas a esfaqueiam por dentro. Suas gavinhas se retraem para dentro de m im , m inha pele se fecha em volta delas com o se nunca tivessem existido. Meus pés tocam o palco.

Evoco m inha im aginação, pensando nela com o um a aranha presa pelo tórax com um alfinete, até que ela se encolha em m eu peito, indefesa com o um inseto preso a um quadro de gesso. A dor m e apunhala, dilacerando-m e enquanto ela sucum be ao próprio sofrim ento, e m eu coração com eça a se partir em dois. Eu m e engasgo com o gosto de cobre.

Mas não vou m orrer. Não até m e vingar.

Concentrando-m e nos letárgicos galhos dentro de m im , ordeno que eles apertem o órgão no lugar.

Ela não m e possui m ais. Eu a possuo.

A turba de m utantes m e subj uga em um ataque de pelos, baba e garras. Eles puxam m eu cabelo, grunhem em m eus ouvidos e am arram m eus braços nas costas. Então, m e levantam e m e levam para a beirada do palco de onde Jeb caiu.

— Acabem com ela! Arranquem o coração! — O coro m órbido fica m ais frenético.

Sou passada por cim a das cabeças, de criatura em criatura, surfando pela m ultidão na direção do poço do m edo. O ódio dentro de m im vai crescendo, fervendo. Ele retira a cor do m eu cabelo e o retorce em dreadlocks platinados, reavivados por pura m agia — alim entando m eu próprio e som brio poder.

A esfera flam ej ante na pista atrai m inha atenção. Visualizo a plataform a esquelética com o um a centopeia, a pista tornando-se o exoesqueleto e a estrutura de apoio, as pernas. Com um pouco de persuasão, ela refaz sua posição. As ram pas se abrem e libertam o grandioso inferno de vidro. Ele vem rolando pela pista virada, dá um salto e voa na direção do poço. Ele pousa no lugar e bloqueia a abertura, im pedindo que as criaturas m e j oguem lá dentro.

A pista continua a se m over, feito um a serpente, em aranhando as cordas e a cobertura am arrada na estaca ao centro do palco. A cobertura se rasga ao m eio e as cordas se apertam cada vez m ais até que as paredes externas do castelo desm oronem para dentro, soterrando m etade da m ultidão. Cinzas enchem o ar quando as pedras atingem o pátio.

Os que sobraram da turba m e largam , com o se estivessem estarrecidos pela m inha m agia. Eles grunhem , rosnam e resm ungam entre si. Conseguindo m e orientar, fico de pé, com os braços ainda am arrados às costas.

— Cubram os olhos dela! — berra um a besta sím ia. — A m agia dela está na visão! — Um deles cobre m inha cabeça com o saco que cobria a de Jeb, o am arra e m e em purra para o chão, tirando o ar de m eus pulm ões.

— Agora queim em ! Que ela vire cinzas!

Eu inspiro, louca por ar, confusa pelos cheiros de tinta e sabonete cítrico. O arom a de Jeb.

Minha m ente repassa sua m orte. Ele nunca m ais verá sua fam ília, nunca m e abraçará, nunca m ais m e cham ará de m enina do skate. Sua linda arte perm anecerá no reino hum ano, m as ele nunca poderá ver com o ela tocará a vida das pessoas, nem poderá perceber que j á era o hom em que sem pre tentou tanto ser.

As criaturas rosnam e dão patadas no m eu corpo curvado — respiração quente e garras afiadas — enquanto m e conduzem para o inferno dentro da bola.

Estou m uito absorvida no lam açal de em oções para pensar em um a saída, chocada com a ideia do coração de Jeb boiando no poço, em algum lugar em baixo da esfera em cham as.

A desolação m e assola, m ais dura que os socos que sacodem m eus ossos enquanto sou arrastada para m orrer no fogo. Eu m e curvo em posição fetal.

Lágrim as crestam m eus olhos e eu grito até os pulm ões se encolherem dentro de m im feito botões de rosa ressecados, pequenos e inúteis.

Então, por baixo do eco de m eu desespero, o delicado tilintar de asas de borboleta m e faz lem brar: a arm adura de Morfeu.

Eu tenho de viver... eu vou viver. Pelas pessoas que am o e pelo País das Maravilhas. E para vingar a m orte de Jeb.

Só é preciso um pensam ento e a franj a protetora se solta das cam adas afiadas de m eu vestido. Muitas garras m e forçam para baixo, então eu m e contorço feito um a m inhoca. Algo úm ido e quente respinga em m inha pele, seguido do cheiro de sangue à m edida que as lâm inas aladas cortam m eus captores, um a um . Mesm o sem enxergar, posso senti-los recuando, em bora sem desistir, excitados dem ais pela possibilidade de assistir à m utilação uns dos outros.

No instante em que se abre espaço, rolo várias vezes. Gritos de agonia se alternam com risos sinistros, pois as criaturas continuam atrás de m im .

Rolando cada vez m ais depressa, invoco o vento para que m e pegue e m e erga em um ciclone. Cegam ente, ceifo todos à m inha volta, deixando tudo em pedaços.

Eu sou o vento.

Eu sou a fúria.

Eu sou o pandemônio.

Eu giro, giro e giro com o o Gravitron até não ouvir m ais nenhum ruído. Até que silencie o últim o grito e a últim a risada doentia.

Quando m inhas revoluções dim inuem , pouso levem ente sobre os pés, com a cabeça ainda coberta e os braços am arrados. Fico de pé no lugar e ouço o som de passos cam inhando sobre o sedim ento atrás de m im . Sei quem é, antes que as m ãos suaves, agora sem luvas, com ecem a desatar os nós em m eus pulsos e a tirar o saco de m inha cabeça.

Morfeu fica atrás de m im , com o se m e desse tem po para absorver a destruição que m inha loucura deflagrou.

Um a névoa suave perm eia o ar, precursora de um a tem pestade. Eu pisco sob a luz cinza. Não há nada nem ninguém de pé no pátio. Nem paredes, nem palco, nem m esm o a pista esquelética. Morfeu deve ter acordado a tem po de buscar abrigo em um a das torres durante m eu ataque de fúria, porque som ente o próprio castelo ainda está de pé, assim com o o pórtico coberto que se abre para a ponte levadiça. Reduzi tudo o m ais a cinzas e poeira.

A Copas espia de um a das j anelas m ais altas da torre.

Olho para ela.

— Eu sou a Rainha Verm elha agora! — grito. — Você está acabada. E estará m orta, se eu voltar a vê-la! — É um a prom essa e um desafio.

Ela larga a cortina, retirando-se para trás de suas pregas negras.

Manti, os guardas e os pássaros trogloditas observam de outras aberturas para avaliar os estragos, m as é óbvio que não querem nada com igo nem com a m inha fúria.

Quando Morfeu m e vira para encará-lo, a poeira dos restos dos m eus atacantes engole m inhas botas e se revolve ao vento. Filam entos de um verm elho vívido cobrem m eus braços, m as não é o sangue de m inhas vítim as. É o m eu.

Percebo agora por que ele perguntou onde estavam m inhas luvas antes. Ele sabia que tudo acabaria assim .

Tantas em oções brilham nele — perplexidade, preocupação, rem orso... e a sem pre presente adoração. Ergo a m ão na direção de seu rosto e ele se retrai, com o se previsse um tapa. Em vez disso, eu o afago e àquelas j oias lindam ente expressivas sob seus olhos, e em seguida fico na ponta dos pés e toco seus lábios com os m eus. Seu sabor e calor m e envolvem . Ele gem e e pega m eu rosto nas m ãos, beij ando-m e com m ais ardor, m as eu m e afasto.

— Am o você — eu sussurro, porque ele tem o direito de saber a verdade antes que eu o m ate.

Sua m andíbula se afrouxa, as feições delicadas cintilando com a névoa e o reflexo do suave brilho azul do cabelo. Os penetrantes olhos se abrem , turbilhões de paixão, esperança e felicidade desenfreada. Neles, vej o os confins do País das Maravilhas... um a visão panorâm ica do reino que nasci para governar. Em outro m om ento, eu teria sido atraída para dentro daquelas fascinantes profundezas, m e perdido nelas. Agora, essas em oções delicadas estão fora do m eu alcance.

Quando ele abre a boca para falar, coloco um dedo sobre seus lábios.

— É o m eu am or por você que faz isso ser tão doloroso — digo com voz forte e resoluta. — Eu confiei em você e você m e traiu.

Sua expressão desm orona e a indignação m e percorre o corpo todo, tão poderosa que não consigo contê-la. Extraio a Verm elha de seu estado dorm ente, conj urando suas gavinhas a brotar de m inha pele, com andando que obedeçam a mim agora.

Estendo um tentáculo e apanho Morfeu pela garganta, erguendo-o bem alto. Suas pernas balançam e as asas batem inutilm ente.

— Eu fui ingênua o bastante para contar a você onde ele estava.

— Aly ssa, espere — ele diz num sibilo, lutando para se soltar do galho enroscado em sua traqueia e sua carótida.

— Você o entregou. Você sabia que não podia confiar neles. Você brincou com a vida dele, depois de ele ter arriscado a dele para salvar você. — Minhas lágrim as retornam , de raiva e de angústia. Com o se m ostrasse com paixão, o céu se abre e um a chuva fina com eça a cair, para lavar o sal quente de m eu rosto. Lam bo os lábios e sinto o sabor.

Eu vacilo, desequilibrada pelo peso de Morfeu. Minha pulsação se separa em duas tensões diferentes, e fica difícil respirar. O controle tem porário da Verm elha sob m eu coração duplo está tão frágil quanto ela agora, os fios se esticando porque estou usurpando seu poder.

Ignoro os alertas físicos e aperto o laço até a garganta de Morfeu inchar. Ele enterra as unhas na hera que o estrangula, desesperado por respirar. Vej o nosso filho em seus olhos e m inha com paixão vem à tona, am eaçando m e am olecer, m as a rainha j á provou da vingança e está em briagada.

— Nada que você disser poderá m udar isso — m urm uro em tom som brio. — Nada pode m erecer m inha m isericórdia.

As unhas de Morfeu se enterram na gavinha e ele inala ar suficiente para esganiçar algum as palavras:

— Você... é... o País das Maravilhas.