Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 14 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 14

14

 

 

Água e Pedra

 

Saím os correndo para o estúdio de arte. Estou um passo atrás dos rapazes, seguindo ao lado de Chessie e Nikki, que j ogam para Morfeu o chapéu que ele pediu enquanto percorrem os o corredor.

Ao chegarm os, gritos agonizantes nos recebem , e o terror aperta m eu peito. O estúdio está escuro. Um a luz azul nebulosa é filtrada pelo teto de vidro, rem anescente do crepúsculo. Um a figura está deitada na m esa, contorcendo-se de dor.

— Pai! — Eu em purro Morfeu, que ficou parado na soleira da porta, com o chapéu apertado contra o peito.

Jeb j á está perto da m esa, dando a papai a m ão para ele apertar.

As lágrim as m e estrangulam . Há sem anas m e preocupo com m am ãe, quando era papai que estava em perigo o tem po todo. Por que m inhas visões não m e m ostraram isso?

Aperto seu peito com a palm a da m ão. A fantasia de penas abafa as batidas de seu coração acelerado.

— O... o que... o que aconteceu? — pergunto.

Jeb concentra-se no rosto de papai.

— Eu não consegui detê-los.

— Deter quem ? — eu insisto.

Em vez de responder, Jeb solta um grunhido — um som gutural m isturado com raiva e rem orso. Quero confortá-lo, m as tam bém quero sacudi-lo. Por perm itir que m eu pai se ferisse, por ter ido sem m im .

Morfeu coloca-se entre nós.

— Paciência, am or. Nosso cavaleiro élfico finalm ente percebeu que ele não é o deus que pensava ser.

Minha cabeça é tom ada por m edos infantis.

— Papai. — Eu m e inclino sobre ele, fungando. — Papai, olhe para m im .

Seus olhos trem em , m as não se abrem .

— Nós seguim os o brilho, aterrissam os perto do abism o do nada — Jeb m urm ura com a voz trêm ula e rouca devido à explosão anterior. — Os cavaleiros do portão do País das Maravilhas nos viram . Eles usaram seu m edalhão e m andaram um túnel de vento. Nós estávam os esperando que nos recolhessem ... m as fom os atacados. Os guardas da rainha chacoalharam um a j aula cheia de m oscas-escorpião e libertaram um enxam e. Eu tentei tirar o m eu bloco de desenho, desenhar redes para capturá-las... com o as que eu faço para você. — Ele volta o olhar para Morfeu.

— Sua m agia falhou — Morfeu sugere.

— Eu falhei — Jeb diz, com os olhos novam ente em papai. — O som m e penetrou a cabeça. Mais alto do que um m ilhão de gafanhotos presos em um auditório.

Papai uiva, balançando a cabeça de um lado para o outro, tentando cobrir as orelhas.

— Faça parar!

— Do que ele está falando? — eu pergunto.

— Ele está dizendo isso desde que foi picado — Jeb responde. — É com o se ainda estivesse ouvindo o zunido delas.

— Ele foi picado? — Sou eu quem pergunta? Não tenho certeza. As vozes de todos estão tão distantes, e m eu corpo parece com prim ido, com o se estivesse nadando pelos sedim entos do fundo de um oceano.

— CC conseguiu m atar a m aioria delas, e eu capturei as outras... m as duas se soltaram . Eu sinto m uito, Al. — Jeb ainda não olha para m im .

Morfeu tira o casaco, arrasta um balde de debaixo da m esa e m olha um a esponj a.

— Onde elas o picaram ?

— Na perna esquerda, eu acho — Jeb m urm ura.

— Não. Não é verdade. — Eu m e interponho entre eles, apertando com força o bíceps de Morfeu.

— Você disse que essas coisas transform am as pessoas em pedra. Ele não virou pedra, está vendo?

Ele afasta m inha m ão.

— Precisam os tirá-lo dessa fantasia, para ter certeza de que ele só foi picado em um lugar.

— Isso não pode estar acontecendo! — eu grito.

Morfeu m e força a encará-lo.

— Se ele foi picado só em um a perna, terem os m ais tem po, pois é longe do coração. Agora vá buscar algo para m antê-lo aquecido. Ele vai ficar m uito m olhado.

Chessie pousa no m eu om bro, dando tapinhas em m eu pescoço para confortar-m e. Nikki m e pega pelo dedo m indinho e m e conduz a um cabide onde está pendurado um pano grande. Eu o levanto. Não estou m ais debaixo da água. Estou flutuando em algum lugar distante, am arrada por um a corda elástica que fica m e j ogando de volta para algo de que não quero participar. A luz tênue do crepúsculo penetra pelo teto de vidro, am pliando a m inha desorientação.

Entrego o tecido a Jeb.

— Isso não pode estar acontecendo. Não pode.

Nenhum deles responde. Eles cobrem papai até os om bros e usam esponj as ensopadas para derreter sua fantasia.

Conj ecturas estranhas e idiotas m e enchem a cabeça. O tecido não está derretendo. E quanto à m esa? A água não a destruiria, e papai não cairia no chão? Talvez não sej a um a pintura; talvez sej a com o as flores de m el, o couro do m orcego, a carne do coelho e a água da chuva. Algo derivado dos recursos naturais deste lugar.

Todas as perguntas desaparecem quando vej o a expressão séria no rosto de Morfeu e de Jeb.

Vou até a m esa e roço o nariz no cabelo de papai, com os dedos envolvendo suas orelhas.

— Você vai ficar bem , papai. A m am ãe precisa que você fique bem . Nós duas precisam os de você. — O cheiro de xarope de bordo, sabão de lavar roupas e desinfetante de lim ão m e rodeia. Não faz sentido que ele estej a com esses cheiros. Minha m ente deve estar pregando peças porque ele sem pre foi m eu lar, m inha segurança e m eu conforto.

Papai bate a cabeça várias vezes na m esa, com o rosto retorcido de dor.

Coloco as m ãos em sua nuca para proteger o crânio da m adeira dura.

— Façam algum a coisa! — eu grito.

Jeb finalm ente olha para m im .

— Al, estam os tentando.

Pela prim eira vez, consigo olhar para seu rosto. Ele está igualzinho ao garotinho das fotos que tem em casa. Perdido, am argurado, assustado. As únicas diferenças são o sangue na bochecha e o piercing que cintila no lábio inferior.

Estou prestes a perguntar se ele tam bém se feriu, quando olho de relance para o tornozelo de m eu pai, que ficou para fora do tecido. A pele está branca, seca e em poeirada, com o cim ento. Os pelos caíram . Milhares de luzes m inúsculas lam pej am em sua pele, com o um a calçada sob um céu noturno.

Ele está virando pedra.

Minha traqueia quase se fecha.

— Use a sua m agia! — Minha voz parece um a chaleira avisando que a água ferveu: cheia de ar e assobiante. — O pincel. Cure-o com o fez com a orelha de Morfeu. — Seguro o braço de Jeb. — Por favor.

Ele e Morfeu trocam um olhar m isterioso.

— Só funciona com Morfeu porque com partilham os da m esm a m agia — Jeb responde com a expressão tão cheia de rem orso que ultrapassa seu estado encantado, fazendo com que ele pareça angustiado e hum ano. — Espere. — Ele franze a testa. — Sua m agia do sonho. Thom as é hum ano. Ele pode em barcar nos sonhos.

Morfeu aquiesce, entendendo algo que eu não capto.

— O veneno se espalha pela corrente sanguínea, estim ulado pela agitação da vítim a. Se puderm os induzi-lo ao estado REM, m andar sua m ente para onde ele não ouça o zunido, poderem os acalm á-lo e m anter o veneno controlado.

— A Rainha de Copas — Jeb retom a. — Ela tem um antídoto para isso. Caso contrário, seus guardas idiotas não estariam lidando com esses insetos.

Olho para um e para o outro.

— Sim . Façam isso. Por favor... — Não percebo que m eu rosto está m olhado até Chessie vir secar m inhas bochechas com a cauda.

Jeb com eça a tocar a cabeça de papai, m as Morfeu o detém .

— Você não sabe com o dom inar a m agia do sonho. Precisa de orientação.

Eu reteso o queixo, im aginando qual seria a verdadeira razão para a intervenção de Morfeu. Se ele perm itisse que Jeb libertasse todo o seu poder, um a parte da Verm elha tam bém penetraria em m eu pai. E quem sabe o resultado que isso teria?

Jeb dá de om bros e eu m e afasto, com pletam ente inútil, apesar de toda a m inha m agia.

Morfeu coloca as m ãos em concha sobre as têm poras de papai, e Jeb afasta um a asa para conseguir ficar om bro a om bro com ele, com as m ãos sobre as de Morfeu. Em bora a tatuagem de Jeb cintile em púrpura, a luz que ela irradia é de um azul im aculado — estritam ente de Morfeu —, com o se eles tivessem praticado transm itir a m agia da Verm elha m uitas vezes antes. Morfeu olha para Jeb, incrédulo, parecendo surpreso com a pureza daquela força.

A luz pulsa pelo corpo de papai, da cabeça aos pés, igual a quando Morfeu lançou sobre Jeb a m agia do sonho no dia do baile de form atura.

O corpo de papai fica m ole e os m úsculos de seu rosto relaxam .

Eu desm orono sobre a m esa, exausta, em bora não tenha feito nada.

— Agora vam os cuidar de você — Morfeu avisa Jeb, fazendo sinal para que se sente. Ele volta a m olhar a esponj a. — Você está sangrando.

Jeb apoia-se na beirada da m esa.

— Não. — Ele passa a m ão nas m anchas verm elhas em sua fantasia. — É tinta — explica, parecendo delirar. — Um resíduo do CC. As m ãos dele foram cortadas quando ele seguiu m inha ordem de im pedir que os guardas sequestrassem o funil.

Morfeu faz um a careta e para de secar o rosto de Jeb.

— Onde está CC agora?

— Ele estava dando cobertura para eu poder fugir com Thom as — Jeb responde. — Os guardas o capturaram .

Blasfem ando baixinho, Morfeu j oga a esponj a dentro do balde. Depois de secar as m ãos no tecido que cobre papai, ele veste o casaco e cam inha na direção da entrada, onde deixou o chapéu. Ele o acerta sobre a cabeça, com as asas caídas sobre as costas.

— Precisam os de um plano para pegar o antídoto. — Ele veste as luvas com cuidado. — Qualquer esperança de ter o elem ento surpresa está descartada. A Verm elha sabe que Aly ssa está em Qualquer Outro Lugar. Agora eles estão com CC, que sabe o cam inho para a nossa m ontanha.

Jeb cerra as m ãos e dá um soco na m esa.

— Eu vou esta noite, antes que eles nos encontrem . Vou trazer CC de volta, com o antídoto. Vam os curar Thom as e fazer com que ele e Al atravessem o portão antes que aconteça m ais algum a coisa.

Balanço a cabeça, discordando.

— Não vam os sair daqui sem vocês dois. Entenderam ?

— E com o você entraria, pode m e dizer? — Morfeu contradiz. — Sua m agia é lim itada ao terreno natural. Coisas construídas pelas m ãos de outros estão além de sua capacidade de alteração. — Ele arrum a o chapéu e as m ariposas laranj a pousadas na aba balançam . Ele olha para m im . — A Copas m arcou um a corrida eleitoral para am anhã a fim de eleger um rei oficial. Podem os usar o sim ulacro... ir de m anhã bem cedinho, quando os portões estiverem abertos.

— Todos os prisioneiros ficarão preocupados — eu raciocino, afagando a m ão de papai.

Jeb inclina a cabeça, pensativo.

— Aj udaria se tivéssem os um a planta do lugar. Saberíam os exatam ente aonde ir para pegar a cura, sem desvios.

Morfeu concorda.

— Podem os enviar alguém esta noite, alguém pequeno o suficiente para passar pelos buracos do m uro. Enquanto eles exploram , podem os descansar, nos preparar e planej ar.

Nikki olha para nós do outro lado da sala, onde ela e Chessie estavam provocando os grous que ocupam os biom bos j aponeses. Ela voa até nós.

— Mandem a m im — ela insiste, a voz tilintando enquanto aponta para si m esm a.

Fico com ovida com sua bravura.

— Nikki é forte. Ela pode trazer o antídoto sozinha, caso o encontre.

— Eu não sei — Jeb diz. — Ela é tão pequenina. E se...

— Nikki é ideal — Morfeu retruca. — Você a desenhou para que ela corresse livrem ente por este m undo. Ela é pequena e veloz. E se dá bem com suas pinturas. Se fizerem o CC trazer os guardas até aqui, ela pode distraí-lo. Chessie e eu podem os acom panhá-la até os portões do castelo, esperar escondidos que ela term ine a expedição.

Jeb passa a m ão pelo cabelo, deixando-o desgrenhado. Obviam ente, ele está preocupado com sua fada.

— Está bem . Mas fui eu quem estragou tudo. Se ela não conseguir pegar a cura, eu é que vou a essa corrida am anhã. Não será você nem a Al.

Eu com eço a obj etar, m as Morfeu se adianta.

— Você é necessário aqui. Você é quem com anda as criações. Está m ais bem equipado para proteger Thom as caso a m ontanha sej a atacada. Chessie será nosso m ensageiro caso algo dê errado na nossa parte.

Jeb concorda, resignado.

Morfeu envolve papai no tecido e o ergue, deixando-o sentado.

— Ele precisa ir para um lugar seguro, caso a m ontanha sej a invadida.

— Vou levá-lo para o farol — Jeb sugere. — Al, você pode passar a noite com ele.

— Está bem — eu sussurro. Tenho m edo de ficar sozinha, em bora sej a m eu próprio pai. Não sei o que farei se ele piorar. — E se ele acordar?

— Ele não vai acordar. O feitiço que colocam os vai durar até que Jebediah e eu o retirem os.

Procuro lem brar a m im m esm a que um a rainha deve ser coraj osa, e concordo.

Jeb coloca papai sobre o om bro. Ao m e afastar para deixá-lo passar, Morfeu pega no m eu braço antes que eu possa segui-lo para o corredor.

Ele aguarda até Jeb se distanciar o suficiente para que não ouça e olha para m im .

— Jebediah não pode ir para aquele castelo, sob circunstância nenhum a. — Ele vigia a porta. — É perigoso dem ais para ele.

Não sei se acredito em sua preocupação.

— Por quê?

— Ele é um recipiente em que todos nós podem os colocar nossa m agia. Em um a terra de seres m ágicos sem poderes, essa capacidade é inestim ável. Um a arm a a ser tem ida e cobiçada por todos. Ele quase m orreu tentando controlar som ente o m eu poder e o da Verm elha. Os habitantes deste lugar, a Rainha de Copas, Manti e seus pássaros, são todos desalm ados e im piedosos. Se eles perceberem o que ele é, o encherão com sua m agia até as orelhas. Isso o com erá vivo feito um câncer até que não sobre nada. Não haverá com o recuperar o seu m ortal depois que eles term inarem .

A lógica de suas palavras pesa ainda m ais na m inha cabeça j á m uito pesada.

— Então, quer dizer que você o protegeu m esm o durante todo esse tem po? Mantendo-o enfiado neste buraco?

Sua m ão escorrega até o m eu pulso, num a confirm ação silenciosa.

— Obrigada. — Eu aperto seus dedos nos m eus.

Morfeu faz um gesto para que Chessie e Nikki vão para o corredor a fim de vigiar Jeb.

— Não fique sentim ental. Não fiz isso por ele. Eu fiz porque não aguentaria ver você torturada pela culpa, caso ele tivesse esse fim . Você culparia suas próprias escolhas na noite do baile por essa tragédia. Isso arruinaria sua fé em sua capacidade de reinar. Você seria um a rainha im prestável se não confiasse no próprio j ulgam ento.

A explicação cansada se alinha com o raciocínio de um ser m ágico solitário. É óbvio que é para o bem m aior do reino que ele am a. Mas, m esm o assim , ele fez a coisa certa e Jeb está vivo por causa disso. Não vou esquecer.

— Então, o que sugere que façam os? Que contem os a Jeb que um a parte da m agia dele vem da Verm elha?

— De m odo algum . Ele vai inventar algum plano esdrúxulo para enfrentá-la se fizerm os isso. Vam os ter que tirá-lo deste reino antes que o descubram .

— Mas ele não quer ir em bora — eu m urm uro, incapaz de esconder a derrota na voz. — Com o vam os proteger alguém que não quer ser protegido?

— Ele irá em bora se você tirar a fonte de seu poder. Vam os fazer um trato com a Verm elha em troca do antídoto. Ela abom ina este lugar. Então podem os oferecer a ela um plano de fuga. Ela pode com partilhar do corpo da Copas, m as a Verm elha é m ais astuta, não tenha dúvida. Pegam os a cura para seu pai e, em troca, tiram os a Verm elha de Qualquer Outro Lugar. Jebediah será forçado a nos seguir, para ficar ligado à m agia da qual se tornou dependente. Ele sentirá o cham ado instintivam ente. Assim com o sente com relação a m im . Quando estiverm os no País das Maravilhas, o efeito m agnético do ferro se reverterá. A m agia voltará para seus próprios recipientes. E Jebediah voltará a ser hum ano.

Por que Morfeu faria tal sacrifício? Arrastar não som ente a Verm elha de volta para seu am ado m undo, m as outra rainha inclinada à destruição, só para salvar dois m ortais?

Mudo o apoio dos pés e controlo m inhas suspeitas, tentando pegá-lo pelas palavras.

— Os guardas... não deixarão a Rainha de Copas passar pelo portão. Mesm o que m eu pai estej a recuperado, ele não conseguirá convencê-los. A Verm elha está dentro dela, e a Rainha de Copas é prisioneira. As duas devem ficar aqui.

Morfeu dá um tapinha no diário em m eu pescoço.

— E é por isso que a Rainha de Copas deve ficar para trás. Vam os contrabandear a Verm elha debaixo do nariz dos guardas.

— Mas não podem os vesti-la com o sim ulacro. Ela é um espírito... — O horror m e tom a antes m esm o que eu term ine de verbalizar a frase. A afirm ação críptica de Morfeu m ais cedo, quando perguntei com o tiraríam os a Verm elha do corpo de Jeb: “Isso, amor, exigirá o maior sacrifício de todos. E só você poderá fazê-lo”.

Era essa a intenção dele o tem po todo. Quando construiu um a m agnífica m ariposa para nos levar, quando disse que m e aj udaria a traçar um a estratégia para m eu plano.

O plano nunca foi m eu. Foi dele. Para que eu entrasse no castelo, deixasse o espírito da Verm elha m e possuir e a levasse para fora deste reino.

— Não — digo, o coração m artelando com tanta força em m eus pulsos que consigo ver o m ovim ento da pele sob a luz fraca. — Eu vim aqui para acabar com ela. Não para dar-lhe acesso ao m eu... — Não posso dizer em voz alta. Ela j á fez algo ao m eu coração que precisa ser reparado. Não perm itirei que entre em m im novam ente.

Tudo o que aconteceu hoj e... as salas, m inhas epifanias, a sedução de Morfeu, o estado letal de papai — tudo isso m e sufoca feito fum aça, e respirar fica difícil. Enj oada e com m uito calor, m eu corpo trem e. Morfeu m e recosta na m esa.

— Agora j á basta disso. — Ele m e puxa para um abraço e afaga m eu cabelo, um gesto terno que parece deslocado j unto de suas palavras de repreensão. — Este plano é perfeito. — A voz ecoa em seu peito j unto ao m eu ouvido, suave e m elódica. — É o m enos perigoso para todos, principalm ente para Jebediah. — Fecho os olhos, perm itindo-m e sentir as batidas firm es de seu coração contra m eu rosto. — A parte m ais difícil será convencer a Copas a deixar o espírito da Verm elha sair. Mas, quanto à Verm elha, nem vam os precisar barganhar. É tudo o que ela sem pre quis, ser parte de você.

Ser parte de você. A bile queim a o fundo da m inha garganta. E se foi a Verm elha que a Marfim vislum brou em sua visão... a Verm elha vivendo através do m eu corpo? E se foi o futuro dela com Morfeu, e não o m eu? Se isso for verdade, m eu filho com Morfeu pertencerá a ela. Ela será a m ãe dele.

Agarro-m e à lapela do casaco de Morfeu. Será que ele não percebe o que acontecerá se eu não conseguir derrotá-la depois que ela estiver dentro de m im ? Será que não com preende o perigo? Não som ente para ele, m as para nosso futuro filho?

— Não vou deixar que ela m e use com o recipiente — digo j unto a ele. — Mais um a vez, não.

Ele recua um pouco e arrasta o polegar enluvado por m inha têm pora.

— Nem m esm o pelo seu m ortal? E pelo pai que precisa de você? Você tem as m em órias dela para derrotá-la no instante em que atravessarm os a fronteira e Jebediah ficar livre do poder dela.

Seguro com força o pequenino diário com o se ele fosse m inha tábua de salvação, m as ainda m e sentindo afundar.

— Não pode ser a única form a.

— Mas é. A única form a de resgatar o que nós am am os.

Meus nervos form igam .

— Nós am am os? Você nem se im porta com Jeb. Você m esm o disse.

Seus lábios se apertam .

— Ele tem seus m éritos. Suficientes para ele m erecer viver. Assim com o seu pai, tantos anos atrás. — Ele quase parece sincero. Mas a variação na cor de suas j oias o delata. Finalm ente aprendi a entendê-lo.

Reúno m inhas forças.

— Não. Você está m entindo. Essa não é a única form a de salvar Jeb.

Morfeu posiciona as duas m ãos na m esa atrás de m im , encurralando-m e.

— Com o você m esm a disse. Ele não tem vontade de partir.

Eu o em purro para longe.

— Posso convencê-lo.

— O quê? Seduzindo-o? — Morfeu ri com ironia. — Sou capaz de deixar você tentar. Qualquer coisa que tire esse rapaz da sua vida de um a vez por todas.

Um a corrente de raiva pulsa em m inhas têm poras.

— Tem razão. Você só é capaz quando acha que o seu “deixar” vai lhe trazer algum a vantagem .

Seu sorriso arrogante dá a resposta.

— Então vá em frente. Vou apagar da m em ória que ele a tocou. E não precisarei da poção do esquecim ento para fazer isso. Tenho m uita fé nas m inhas habilidades de eclipsar qualquer coisa que um m ortal possa fazer por você, ou com você. — Ele arrasta a ponta do dedo pela m inha cintura, fazendo-m e recordar o que aconteceu entre nós em sua sala antes. — Por que estam os discutindo, hum ? — ele cantarola. — É um a questão polêm ica. Vocês passaram a m anhã j untos. Ele a pintou sem inua, suj eito de sorte. Se fosse m eu trabalho, suas lindas roupas nunca teriam sido confeccionadas. Ele não a quer m ais.

Essa verdade m e dilacera. Mas não deixarei um ego ferido afetar m inha decisão.

— Tem m ais algum a coisa nessa história da Verm elha. E, se você não m e contar, vou usar o sim ulacro e ir sozinha esta noite pegar a cura para o m eu pai e acabar com ela de um a vez por todas.

Sua tez alva fica m ais pálida.

— Não sej a boba. Entrar naquele castelo exige um trabalho de equipe. Tem os que ir m unidos de um plano de fuga. O m ais im portante agora é que você precisa dorm ir. Mal consegue ficar de pé.

Eu m e afasto dele e da m esa, avançando devagar na direção da porta.

— Por que eu precisaria ficar de pé? Posso voar. E nem você nem Jeb podem m e deter. — Com um m ovim ento das escápulas, m inhas asas se libertam , lançando m ais um a torrente de poder em m inhas veias.

O olhar de Morfeu segue m inhas asas. Filam entos de luar caem do alto, ilum inando sua expressão em bevecida.

— É um a dem onstração im pressionante, am or. Mas não ouse confundir m inha veneração com rendição.

Ele vem na m inha direção, a expressão transform ando-se num a carranca. Eu deflagrei um de seus hum ores obscuros e com bativos. Não im porta, porque m inha im aginação é m ais refinada que a dele, e ele m e contou o segredo da m anipulação das pinturas de Jeb.

Antes que ele passe pelo biom bo j aponês, convoco m entalm ente os grous. Eles param de bicar sua prisão de papel-arroz e voltam a atenção para m im . Eu lhes dou um a nova tarefa: tecer um a rede usando a luz da lua com o fio.

Guinchos que soam com o trom betas irrom pem da garganta deles quando saem do biom bo e surgem diante de Morfeu em form a tridim ensional.

Cam baleando sobre as pernas cinza escam osas, a dupla estala e escorrega sobre o piso, aprendendo a se equilibrar pela prim eira vez. Depois, com as asas abertas, levantam totalm ente o elegante pescoço, alcançando o queixo de Morfeu.

Ele recua, suas j oias piscando em verde-am arelo — fascinação cautelosa.

Os grous capturam o luar no bico com o se fossem fios tangíveis. Esticando-o a partir do teto, eles o tecem , form ando um a rede de renda com velocidade estonteante. Num piscar de olhos, o painel j á está na altura do peito de Morfeu.

Ele tenta passar por baixo, m as os pássaros aj ustam sua traj etória, dando laços, torcendo e trançando a m alha até ela alcançar a altura das canelas dele. Ele m al tem tem po de recuar antes que a barreira o confine ao canto nos fundos da sala... um a cerca de gaze do teto até o chão. Assim que term inam o prim eiro painel, eles com eçam outro, os bicos estrepitando.

— Bem pensado — Morfeu diz do outro lado, enrolando os dedos nos fios inquebráveis. A adm iração fulgura em seus olhos negros. — Eu sou seu prisioneiro. Mas sem pre fui.

Observam os um ao outro em silêncio. Um a coisa inata em nós dois é o nosso m edo de ficarm os presos. Lem bro-m e de sua linda e agonizante confissão sem anas atrás: Nada pode quebrar as correntes com que você amarrou meu coração. Na visão que tive, quando dançam os sobre o sol, éram os livres e iguais de todas as m aneiras. É isso que desej o para ele. Para nós dois.

— Eu nunca desej ei que você fosse m eu prisioneiro — insisto.

Ele faz um floreio com os braços, num a grande m esura.

— No entanto, aqui estou, em um a j aula feita por você.

— Se você aprendesse a ser sincero, as paredes viriam abaixo.

Ele cerra a m andíbula.

— Você está usando Jeb para influenciar m inhas escolhas. De novo. Mas, desta vez, não vou cair. Por que quer libertar a Verm elha? Existe algo entre vocês dois? — Eu paro na soleira, aguardando.

— Não! Eu odeio aquela m iserável. — Seu rosto, entrecortado pelas som bras da renda, torna-se obscuro. — Eu a odeio com a m esm a paixão im utável com que am o você.

A confissão é terna em sua sim plicidade, recordando-m e de que as em oções que sente são estranhas para ele; sendo um a criatura solitária, não com preende quanto o am or é perm eado com a confiança.

— Quer que eu acredite no seu am or? Então, chega de segredos. Se vam os ser iguais, tem os que trabalhar j untos. Você está tão acostum ado a ser sozinho que não sabe com o confiar em ninguém a não ser em si m esm o. Isso tem que m udar. A hum ana em m im precisa de confiança. Confie que vou com preender você sem j ulgam entos. Que posso encontrar um a m aneira de aj udá-lo. Talvez um a m aneira m elhor.

Seu silêncio resoluto zom ba de m im , então eu m e viro para sair.

— Não existe m aneira m elhor! — O desespero em sua voz m e faz dar m eia-volta e encará-lo. — Se houvesse, eu nunca lhe pediria isso. A Verm elha colocou o feitiço sobre o território do País das Maravilhas. Som ente a m agia dela pode reverter sua decadência e trazer de volta seu esplendor original. Sem ela, o reino interior ficará em ruínas, e nada poderá recuperar nosso m undo. Nosso lar. O seu reino. É por isso que tem os que levá-la daqui... e a única saída é dentro de você. Você é da m esm a linhagem , e a única forte o bastante para dom inar a m agia dela e usá-la para sem pre depois que atravessarm os a fronteira.

Espirais de gelo se concentram em m inha espinha.

— Você espera que ela viva dentro de m im para sem pre?

Ele volta a segurar a renda.

— É claro que não. Só até que os reparos sej am feitos. Depois, nós nos livrarem os de sua vil existência de um a vez por todas.

Chessie e Nikki adentram a sala, provocando pequenas lufadas de vento que esvoaçam m eu cabelo ao se dirigirem para a prisão de renda. Eles se precipitam contra os grous num a tentativa de distraí-los.

Jeb esbarra em m im ao passar pela porta. Seu braço toca na m inha asa, e um a com ichão irradia da ponta dela até m inha espinha. Ele deve ter percorrido todo o cam inho até a porta de diam antes antes de perceber que eu não o acom panhei. Antes que eu possa perguntar, ele faz um sinal para o corredor, onde papai está apoiado, sentado — dorm indo profundam ente.

Jeb estuda o espetáculo dos grous sibilantes, Chessie e Nikki, todos em aranhados na rede. Ele se vira para m im .

Eu m eio que dou de om bros.

Ele ergue a m ão e a parede de gaze se dissipa, voltando a ser fios de luar e libertando todos os seus prisioneiros. Jeb ordena que os pássaros voltem ao seu lugar no biom bo. Eles guincham , entram e voltam a ser enfeites planos.

Nikki paira no ar e se enfia no cabelo de Jeb, oferecendo um tilintante agradecim ento e enrolando as ondas sedosas em torno dela feito um vestido.

Chessie se aninha no om bro de Morfeu enquanto ele cam inha na m inha direção.

— Aly ssa, você tem que perceber quanto isso é crucial.

Jeb o detém , colocando a palm a da m ão no peito de Morfeu.

— Alto lá, coxinha de m ariposa. Quando eu estava vindo pelo corredor, ouvi que você espera que a Al deixe aquele m onstro possuí-la outra vez. Mas isso não vai acontecer m esm o.

Morfeu grunhe.

— Isso não lhe diz respeito. Você preferiria partir o coração de Aly ssa a abdicar do poder que tanto desej a e encarar o m undo real. Então, sua opinião não conta. A escolha é dela. É o reino dela que está em j ogo. — Ele olha enfaticam ente para m im . — Mais do que o reino dela.

Jeb o em purra e a disputa fica m ais acirrada. Nikki voa em torno dos dois, tentando arbitrar.

Olho à m inha volta: a m agia distorcida está em todo lugar, salas cheias de pesadelos, m eu pai recostado em um a parede, em com a induzido para não virar pedra.

Jeb quer ficar aqui?

Não. Este lugar é venenoso. Tem os que sair. Todos nós; m esm o que a única m aneira de convencer Jeb sej a capitalizar seu vício no poder...

Chessie cham a m inha atenção, flutuando sobre a discussão entre Morfeu e Jeb com o um a bola laranj a cintilante e cinza. Seus olhos grandes e sábios falam com igo, forçando-m e a encarar o que será dele, dos extravagantes e estranhos intraterrenos enfiados dentro do trem da m em ória no reino hum ano, dos que estão no País das Maravilhas. Forçando-m e a reconhecer o que acontecerá com todos eles depois que seu lar lindam ente bizarro se transform ar em ruínas. Quão perdidos eles ficarão.

Um a lâm ina aguda desliza pela couraça gelada que envolve m inha coragem , cortando-a com precisão. Não há dúvida sobre o que tem de ser feito.

— Eu vou fazer isso. — Em bora m inha voz soe m ais parecida com um grasnido, ela abafa a gritaria de Morfeu e Jeb.

Os dois se voltam para m im , num silêncio m ortal.

Ergo os om bros para que m inhas asas se elevem .

— Farei qualquer coisa para salvar o País das Maravilhas — para salvar todos aqueles que amo — porque eu sou responsável. Eu fui fraca. Não voltarei a ser.

Batendo m ãos e patas, Chessie e Nikki se lançam ao ar dando giros de celebração.

— Aly ssa... — A atitude de Morfeu é de pura reverência. — Eu sem pre soube que você tem um coração de rainha.

Jeb segura a cam iseta de Morfeu, rangendo os dentes.

— Se você a am a tanto quanto diz, deveria deixar aquela bruxa possuir você.

Morfeu crava os olhos nele.

— Não som os da m esm a linhagem . E, m esm o que eu pudesse, som ente Aly ssa j á conseguiu superar o poder da Verm elha. É seu destino tirá-la daqui e derrotá-la de um a vez por todas.

— Jeb, por favor. Já tom ei m inha decisão. — Minha garganta dói, em bora eu estej a quase sussurrando. Estou tão cansada. — Papai precisa de roupas e de um lugar para se deitar.

Jeb solta Morfeu e dirige-se ao corredor. Sua expressão é de fúria contida quando ele ergue papai e o coloca no om bro.

— Presum o que venha desta vez — ele grunhe, e com eça a percorrer o longo corredor m ais um a vez.

Trem endo ao atravessar a soleira, olho de relance na direção de Morfeu.

— Ela quase m e estripou um a vez. Sua m arca ainda está lá. Posso senti-la. — Não lhe digo o resto: que é com o se os fios do m eu coração estivessem se partindo, que estou convencida de que é um efeito m ágico de sua possessão e de que cada dia parece rom per-se um pouco m ais. — Não sei se tenho a força necessária para expulsá-la novam ente. Não sem m atar a nós duas.

A expressão dele m uda para algo tão próxim o do arrependim ento que congela m inha respiração. Ele olha para o diário.

— Agora você tem um a arm a. As m em órias lhe dão um a vantagem que ela não espera. Isso a enfraquecerá.

— Nós nem sabem os se isso vai funcionar — eu sussurro.

— Vai, sim — ele diz. — Tem que funcionar. — A preocupação que ecoa na im perscrutável profundeza de seus olhos trai a confiança de suas palavras. Pela prim eira vez na vida, com partilham os as m esm as dúvidas.

Ficam os assim por incontáveis segundos, olhando fixam ente um para o outro.

Quando ele se adianta para m e confortar, recuo para o corredor. Sem m ais um a palavra, sigo atrás de Jeb, incapaz de m e livrar do terror que carrego no pescoço em form a de diário: um brinquedo de criança que salvará m inha vida ou a levará rapidam ente ao fim .