Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 16 de 24

Páginas do PDF

Qualquer Outro Lugar

Capítulo 16

16

 

A Corrida Eleitoral

Mortífera

 

A paródia de Pisca, Pisca feita por Carroll m e vem à cabeça, m as as criaturas gigantes que voam direto para nós são a antítese de tudo o que é caprichoso e pequeno. E elas não se parecem em nada com bandej as de chá.

Voos rasantes cortam o ar e revolvem nosso cabelo. Eu m e engasgo com um a nuvem de areia. Jeb m e em purra no instante exato em que um m orcego m ergulha sobre nós. Lustrosa feito couro carm im , a criatura m utante ganha o ar, levando Jeb para o céu em suas garras.

Um pássaro troglodita com cara de águia abre a j anela de vidro de seu capacete e ri, sentado no dorso do m orcego.

— Fácil de pegar com o caram uj o ao sol.

— Seu bobo. Manti quer a garota! — um outro grita de seu poleiro alado. — E lem bre-se de que ela deve estar intacta!

— Então eu diria que chegam os aqui na hora certa — com enta um pássaro com bico de galinha. Seus com patriotas uivam de rir antes de apontarem as m ontarias aéreas para m im .

— Jeb! — eu grito.

— Vá para o farol! — ele responde lá do alto enquanto luta contra as garras que o envolvem .

Nada disso. Liberto m inhas asas. Ao m e lançar na direção de Jeb, três m orcegos m ergulham em m im vindos de direções diferentes. Tão absortos em seu alvo, os pilotos trogloditas não percebem uns aos outros. O m orcego m ais próxim o abaixa seu pescoço de cisne. O centro do focinho em form a de estrela se abre, em purrando para fora um am ontoado de tentáculos de quase dois m etros coalhados de presas afiadas. Um dos dentes arrebata m eu colar com o diário e corta o cordão.

Aos berros, estendo a m ão para puxar o cordão da língua cheia de presas do m orcego, m as ele engole o caderno. Os outros dois pássaros desviam no últim o segundo. Eu m ergulho na hora H. Os m orcegos colidem e desm oronam sobre o oceano com seus pilotos. Planando em um a corrente de vento, deslizo sobre a água e m e elevo.

Vej o a silhueta de Jeb contra o céu estrelado. Ele se liberta do captor e fica pendurado em um a garra ao m esm o tem po que convoca um a onda. A água se ergue o bastante para que ele se j ogue nela. Ele desliza sobre um a prancha de espum a na m inha direção, m e pega pela cintura e nos leva sobre ela até a entrada do farol.

Nós entram os correndo e batem os a porta, trancando-a.

Lá em cim a, papai ainda dorm e. Jeb e eu cam inham os com cuidado para a vigia. Em m eio a guinchos e asas gigantescas, nossa torre balança. Caem pedaços das paredes, form ando um a fenda larga. Mais m orcegos se reúnem na entrada, tentando cavar a rocha. O céu fica escuro quando eles com eçam a circular acim a de nós, revezando-se para atacar nosso santuário.

O farol pisca sobre eles em intervalos, ilum inando tentáculos terríveis e asas venosas. Mais e m ais buracos surgem na torre, e as paredes não conseguem suportar as colisões.

Raj adas de vento provocadas pelas asas gigantes entram pelas aberturas. As cortinas que cobrem a cam a de papai se agitam e m inha pele nua sente frio.

Outro m orcego m artela a torre. É difícil m anter o equilíbrio.

— São m uitos!

— Não tantos — Jeb responde calm am ente. Seus olhos reluzem de feitiçaria intraterrena. Com um m ovim ento de seus dedos através da vigia, ciclones de areia se form am no terreno que circunda o farol. — Tem os exércitos tão num erosos quanto os grãos de areia.

Inspirada pela sua engenhosidade, ergo a m ão.

— E arsenais tão incontáveis quanto as estrelas. — Usando o truque que Morfeu certa vez m e ensinou, dou um a nova m issão ao céu noturno de Jeb: m ísseis teleguiados.

As estrelas adernam na direção de nossos atacantes com o gigantescas pedras em cham as, arrebanhando-os para os funis de areia de Jeb. Vários pássaros trogloditas evitam os ciclones, m ergulhando sem os m orcegos. Eles agitam asas deterioradas sobre o oceano, na esperança de escapar. Meus m ísseis estelares os atingem , rasgando peitos em plum ados e ceifando cabeças com capacetes. No fim , só restam os cadáveres — blocos alaranj ados e cinzas negras surgem à tona entre a espum a das ondas.

Os ciclones de areia levam os m orcegos para longe através da saída da sala.

Quando a poeira baixa, avaliam os o caos à nossa volta.

Eu rio com ironia, um som perplexo e sem sentido que parece com pletam ente deslocado diante do que acaba de acontecer.

Jeb olha para m im e dá risada.

— Ainda form am os um a ótim a equipe — ele diz, o cabelo flutuando ao vento.

— Com o no País das Maravilhas, quando você não tinha nenhum a m agia.

Ele não responde, só fica m e olhando, pensativo. Desvia o olhar para fazer m ovim entos com as m ãos sobre o chão cheio de destroços. A torre se reconstitui, os buracos se fecham aos poucos, até restarem som ente alguns resíduos de poeira.

— Será que existem m ais desses m orcegos? — pergunto.

— Eles são indefesos sem os pilotos — Jeb responde. — Tenho que verificar com o eles conseguiram entrar. O exército de pichações deveria tê-los im pedido. Tam bém preciso ter certeza de que as outras salas estão bem .

A aflição em sua voz m e com ove. Ele está preocupado com suas criações.

— Acho que seria bom vestirm os algum as roupas prim eiro — eu o recordo.

Ele para, com o olhar atravessando m eu corpo. Meus braços se cruzam instintivam ente, em bora tal m odéstia pareça desnecessária depois de tudo o que prom eti a ele. A chave em m eu pescoço esbarra na parte interna do pulso e eu m e lem bro do diário perdido.

Com o se percebesse m eus pensam entos, Jeb franze a testa.

— O que aconteceu com o caderno?

— Um dos m orcegos o engoliu. As m em órias da Verm elha se perderam .

Ele praguej a.

O terror e a náusea m e deixam zonza. Olho por sobre o om bro na direção da cam a. As cortinas estão enroscadas nos pilares, deixando à m ostra o rosto pacífico e adorm ecido de papai.

— Vai ficar tudo bem , m enina do skate. — A voz de Jeb é suave e carinhosa. Ele passa a ponta de um dedo por m inha asa esquerda, enviando m ilhares de centelhas excitantes que m e percorrem a espinha.

— Espero que sim .

Ele m e puxa para um abraço, acariciando m eu cabelo encrespado.

— Vai, sim . Porque você não é m ais só um a m enina. Você é poderosa e coraj osa. Um a rainha m elhor do que a Verm elha j am ais poderia pensar em ser. — O calor de seu torso nu penetra em m eu peito, aquecendo-m e até os dedos dos pés.

Um som sibilado surge através da vigia. Jeb separa nosso abraço para olhar a nuvem de poeira alaranj ada e cintilante que entra por ela.

Eu suspiro de alívio.

— Chessie.

Jeb estende a m ão para que ele pouse.

O pequeno intraterreno m ostra um sorriso que é, na verdade, um a careta, pois, quando ele se m aterializa na palm a da m ão de Jeb, está de cabeça para baixo, a cauda curvada form ando um ponto de interrogação. Am arrado à sua pata há um frasco com tam pa de cortiça. No rótulo está escrito Neutralizador de Empedramento, logo acim a de um desenho em preto e branco de um a m osca-escorpião.

— Você conseguiu a cura — Jeb diz, incrédulo.

— Obrigada! — Pego o frasco, tão aliviada que não consigo deixar de sorrir.

O intraterreno peludo dá saltos no ar, m as seus bigodes estão m urchos.

— O que foi? — Eu m e concentro em seus olhos rodopiantes. — Espere. Foi Morfeu quem pegou a cura? — traduzo para Jeb. — Ele foi até o castelo? Mas ele planej ava ir am anhã.

Ele nunca faria algo tão espontâneo. A m enos que estivesse realm ente convencido de que eu não sobreviveria a um confronto com a Verm elha. Sou a única pessoa por quem ele se arriscaria, porque sou um a rainha e o País das Maravilhas é a m aior prioridade dele. E, m ais do que isso... porque ele m e am a.

Minha alm a se encolhe, com plena consciência do quanto eu o m agoei esta noite. E ele nem sequer sabe.

— Onde ele está? — pergunto.

Quando a resposta surge dentro das pupilas de Chessie, eu caio de j oelhos.

— Al. — Jeb se aj oelha ao m eu lado e m e força a olhar para ele. — O que ele disse?

Rilho os dentes com força para não gritar.

— Morfeu foi capturado. Ele está program ado para ser o entretenim ento das festividades de am anhã. A rainha vai colher seu coração.

 

Nós fazem os papai engolir o antídoto e Jeb o liberta de seu estado de sonho. Depois, nós nos revezam os para tom ar banho, nos vestim os e explicam os a papai tudo o que aconteceu enquanto ele esteve adorm ecido. Nem Jeb nem eu m encionam os nosso com prom isso. Parece errado dar-lhe algum m otivo para com em orar enquanto a vida de Morfeu está por um fio.

Nosso plano volta a ser sair bem cedo pela m anhã, quando os portões serão abertos. Escolhem os nossas roupas com cautela. Seria um erro ter a vulnerabilidade da água — roupas solúveis em um a m issão tão arriscada.

Papai e eu usarem os a túnica e as calças do tio Bernie, enquanto Jeb se vestirá com o que sobrou de seu sm oking do baile: colete de veludo com estam pa azul-m arinho e calças azuis. Com binado com um a cam iseta da m esm a cor de seu guarda-roupa pintado, o traj e está com pleto.

Ainda tenho de contar a papai sobre o pequeno detalhe da possível possessão da Verm elha. Agora que perdi o diário, é a única form a de salvar o País das Maravilhas. Ele nunca concordaria com esse plano, se soubesse. Volto a m entir para seu próprio bem .

Enquanto Jeb e Chessie verificam as salas da m ontanha, papai fica de m olho em um a banheira quente. Em bora o antídoto tenha dissolvido a pedra, os m úsculos e ossos de sua perna ficaram um pouco danificados.

Ele sai m ancando do banheiro, j á com pletam ente vestido e esfregando um a toalha no cabelo m olhado.

— Tem algum a coisa para com er? Estou m orrendo de fom e.

Jeb m e disse que isso aconteceria. É um efeito colateral do estado de sonho. Faço um a travessa com flor de m el e carne-seca de coelho e pego alguns pedaços para m im . As lanternas flutuantes lançam um a luz âm bar e som bras em torno de nós enquanto eu o observo engolir todo o resto. Fico im aginando se estava tão fam into quando m am ãe o resgatou do País das Maravilhas. Afinal, ficou dorm indo durante anos daquela vez.

Papai j á se serviu três vezes quando Chessie e Jeb retornam .

Jeb está com a sacola de viagem de papai e o saco que contém m eu vestido de asas de escorpião. Não consigo parar de m e lem brar da reação de Morfeu quando abri a em balagem . Com o ele m e provocou e brincou, fazendo pouco de um gesto tão incrivelm ente terno. Com o esqueceu todos os cortes das beiradas afiadíssim as que deve ter aguentado até finalm ente costurar todas as pernas da centopeia no lugar com o um a borda protetora.

— As roupas de sim ulacro estão na sacola? — pergunto, tentando esconder o trem or em m inha voz.

— Só encontram os duas. — Jeb lim pa a tinta das m ãos em um a toalha. — O quarto de Morfeu estava em ruínas. Todas as salas estavam . Havia alguns m orcegos presos nas pichações. Foi assim que os trogloditas passaram pela entrada. Eles vieram pelo oceano e sacrificaram alguns para despistar. Não sei ao certo com o eles acharam o cam inho para a m ontanha, para com eçar. Eu não vi sinais do CC. Tam bém não sei bem com o eles sabiam que podiam usar a água da chuva para derreter as portas e todo o resto. — Ele procura parecer despreocupado, m as seu rosto está pálido.

Sei m uito bem com o é ver algo que você criou m orrer. Um m ês atrás, dei vida às cham as e depois tive de extingui-las para salvar m eus com panheiros de escola. Doeu com o se tivesse perdido um pedaço de m im m esm a.

Talvez tenha sido m elhor assim . Talvez as partes obscuras e m achucadas da alm a de Jeb finalm ente sej am deixadas de lado e ele possa abandonar este m undo e toda a am argura e as dúvidas... deixar tudo para trás sem pensar duas vezes. Com a exceção dos sonhos da sala do salgueiro. Espero que ele os conserve.

— A única coisa que restou no quarto de Morfeu foi este cabide de roupa — Jeb diz, despertando-m e dos pensam entos. — Sabe o que é esta roupa dentro dele?

— Um a arm adura — eu sussurro, sentindo-m e paralisada quando as palavras de Morfeu voltam a m e provocar: Espero que você vista isso quando for enfrentá-la. É a única armadura digna de sua perigosa beleza.

Minha intuição intraterrena desperta, e um a teoria ganha form a. Não é coincidência que som ente um disfarce de invisibilidade tenha sum ido, que os pássaros trogloditas soubessem com o destruir o trabalho de Jeb, ou que, quando tudo derreteu, a sacola e o cabide de roupas tenham sido as duas coisas que restaram ... porque são reais, não pintadas. Tam bém não é coincidência que os pássaros tivessem ordens de capturar som ente a m im .

Mordo o lábio.

— Al, no que está pensando? — Jeb insiste.

Papai levanta-se da m esa, com a perna esquerda à frente.

Passo a m ão no cabelo m olhado para esconder que m eus dedos trem em .

— Morfeu sem pre tem um plano de fuga. Foi por isso que ele levou um sim ulacro. Para ser capturado, ele teve que deixar que o capturassem . Algum a coisa fez com que ele m udasse o plano original. Talvez tenha até revelado algum as coisas de propósito. Tudo o que aconteceu nesta m ontanha esta noite foi um a j ogada estratégica para nos forçar a ir buscá-lo. Por algum a razão, é im portante que cheguem os ao castelo am anhã, e que um de nós... eu... estej a totalm ente visível.

Papai bate o punho na m esa, fazendo a travessa balançar.

— Isso é suicídio! Tem os que ir direto para o portão do País das Maravilhas enquanto todos estão preocupados com essa festa m onstruosa.

— Eu irei. — Agarro o cabide de roupas. — Não im porta por que o capturaram . Se foi intencional ou não, ele foi capturado, o que significa que seu disfarce tam bém foi confiscado. Ele se colocou em perigo real. Não vou deixá-lo lá. E ele está contando com isso.

Não term ino de explicar... que preciso salvá-lo porque m eu lado intraterreno se apaixonou por ele. Não tenho tem po para lidar com os efeitos de adm itir isso em voz alta.

Papai bate em sua coxa.

— Devíam os pelo m enos tentar buscar reforços. Sem um disfarce, sou inútil. Não conseguim os enviar a pom ba de volta, então o Bernard deve estar a m eio cam inho daqui, procurando por nós. Podem os encontrá-lo e pedir sua aj uda.

— Isso pode levar um dia inteiro — Jeb diz.

Eu balanço a cabeça.

— Morfeu não tem todo esse tem po.

A pálpebra de papai trem e.

— Você não vai arriscar seu pescoço por causa daquele m anipulador...

— Pai! — Tento fazer vista grossa ao seu preconceito. Papai não viu com o Morfeu o aj udou quando ele foi picado e nenhum a das outras coisas coraj osas que Morfeu fez no passado; todos feitos incríveis para um ser m ágico solitário e egoísta.

Ele tam bém não pode ver que bem lá no fundo m eus instintos intraterrenos m e dizem que a razão pela qual Morfeu arquitetou isso está, de algum a form a, relacionada ao bem do País das Maravilhas. Em bora eu ainda não confie plenam ente em seus m étodos, com preendo os m otivos. E se existe algo de que eu nunca duvidaria é de sua lealdade para com seu adorado lar.

Nosso lar.

— Concordo com a Al — Jeb diz, surpreendendo a am bos. — Você sabe que eu sou a últim a pessoa a defender o insetão. — Ele m e lança um olhar carrancudo, assegurando-m e de seu infinito desdém por Morfeu. — Não gosto das táticas dele, m as ele m e protegeu enquanto estive aqui. Ele poderia ter m e explorado para ter prestígio e poder. Por algum a razão, ele fez o que era certo. E, por causa disso, nós devem os levá-lo para o País das Maravilhas.

Antes, eu havia explicado a Jeb o que Morfeu disse sobre ele ser um recipiente, e m esm o assim ele não se intim ida. Ele confia na m inha força e no m eu j ulgam ento a esse ponto.

— Obrigada — sussurro.

Algum a coisa reluz em seus olhos antes de ele desviar seu olhar do m eu: angústia. Ela corta com a destreza de um a lâm ina. Sei que é por causa de m eus sentim entos não expressos por Morfeu. Mesm o com tudo o que foi acertado entre nós, estou com eçando a com preender que pedir para Jeb viver um a vida com igo sabendo que terei um futuro com outro pode ser dem ais para qualquer m ortal suportar. Só espero que isso não o im peça de atravessar o portão do País das Maravilhas quando chegar a hora, não im porta o que isso signifique para nós.

Aquela sensação intensa e dilacerante cava m ais fundo em m eu coração. Viro as costas para m ascarar m inha reação e pressionar o polegar contra o esterno, indo na direção das escadas.

— Não pode estar falando sério — papai diz lá de trás.

Eu respiro superficialm ente algum as vezes.

— Chegou a hora de eu enfrentar a Verm elha. Não posso m ais m e esconder. — Estou resignada quanto à batalha que m e aguarda, sabendo que ela é a única que pode consertar tudo o que está errado, em m im e no País das Maravilhas. Dá certo alívio reconhecer isso.

— É um a arm adilha! — papai grita. Ouço-o m ovendo-se desaj eitadam ente sobre sua perna ferida. — Que vantagem você teria em ser capturada?

Eu m e viro para encará-lo. Jeb ressuscitou a som bra de papai. A som bria criatura segura os cotovelos dele por trás para aj udá-lo a equilibrar-se.

— A nossa vantagem — respondo — é que Jeb, Chessie e eu som os os únicos três seres neste m undo que podem usar m agia. E, por essa m esm a razão, você não pode m e deter. Então, ou vem conosco e se esconde fora do castelo para nos dar cobertura ou espera aqui até tudo term inar. Eu am o você, papai, m as é o m eu reino que está em risco, e esse é m eu dever com o rainha.

Jeb baixa o olhar. Papai cerra os dentes com tanta força que eu poderia j urar que o veneno da m osca-escorpião passou para o seu queixo. Mas ele não diz nem um a palavra sequer.

Na torre, desem brulho o vestido e adm iro com o as fileiras de asas reluzem sob a suave luz da lua — laranj a, verm elho e preto contrastando feito som bras e cham as. Parece quase um sacrilégio afrouxar as pernas verdes cintilantes das centopeias, tão m eticulosam ente costuradas no lugar, para enfraquecer cada franj a. Mas Morfeu aplaudiria a escolha. Na verdade, sinto que estou fazendo exatam ente o que ele espera que eu faça.

Quando term ino, tiro a chave do diário do pescoço. Ela é inútil agora. Cuidadosam ente, visto o traj e deslizando-o sobre m inha pele. Ele m e serve com o se tivesse sido pintado em m eu corpo, abraçando m inhas curvas e alargando-se nos j oelhos. O forro é feito de pele de coelho. Estou em brulhada em um a concha de conforto enquanto, por fora, só preciso usar m inha m agia para levantar as barras de centopeias e expor as bordas cortantes das asas, o que m e deixa intocável.

Não consigo pensar em um a arm adura m elhor. Não ficarei diante da presença da Verm elha ou da Copas usando um a túnica de cavaleiro e calças largas. Neste vestido, farei o papel de Medusa, transform ando m inhas cruéis ancestrais em pedra ao revelar o lado terrível dessa beleza. Se os ferrões não tivessem sido rem ovidos, eu poderia transform ar a Copas literalm ente em um a estátua, o que a faria abdicar do espírito da Verm elha com m ais facilidade. Em vez disso, tenho um vestido perigoso o bastante para fazer a rainha sem coração pensar duas vezes antes de ignorar a m im e m inhas exigências.

Coloco os protetores de om bros feitos de couro verm elho para preservar m eus braços e em seguida visto a legging e calço as botas — que, é claro, têm o talhe perfeito. Perfeito para m e levar direto à teia do guardião da sabedoria.

Não estou entrando nessa às cegas. Sei que Morfeu tem seus interesses. Só espero que sej a por um bem m aior, e que o plano sej a infalível desta vez.

Do contrário, serei a m aior de todas as idiotas por conduzir os dois hum anos que m ais am o para a m orte.

 

Decidim os que algum as horas de sono são m ais im portantes do que Jeb alterar a paisagem em nosso benefício. Quando a m anhã chega, está nublada e fria, m as pelo m enos estam os descansados e prontos para a batalha.

Voam os na direção do castelo — Jeb e papai carregados por suas som bras e eu planando lá no alto em um a corrente ascendente de vento frio. A som bra de Morfeu segue atrás de nós sob as ordens de Jeb para que todos tenham os um m eio de escapar quando nosso assunto no castelo estiver resolvido.

O nascer do sol estria o horizonte em ram os verm elho-sangue espalhados pelo céu cinzento; tento convencer a m im m esm a que não é um presságio. Nosso destino é um penhasco bem distante do castelo para evitar que sej am os vistos pelos pássaros trogloditas e seus m orcegos, que patrulham as torres de tiro, m as próxim o o suficiente para m onitorar a entrada.

Chegam os a um afloram ento de rochas que form am um a caverna. Eu aterrisso suavem ente atrás de algum as árvores, querendo que Morfeu estivesse aqui para ver.

— O segredo está nos calcanhares — eu m urm uro.

Chessie se enfia debaixo de m eu coque frouxo, cutucando m inha nuca. Jeb e papai pousam ao m eu lado e nós espiam os por entre os troncos grossos. No lugar de água, o fosso que circunda as m uralhas externas contém cinzas — os restos dos m ortos. Um cardum e de enguias gigantes de aparência pré-histórica, com saliências ossudas saindo das costas, com o barbatanas de tubarão, nada em m eio ao pó resultante dos m assacres.

Não se parecem nada com as m ascotes de casa.

Um a m ultidão heterogênea de m utantes está reunida nas m argens externas do fosso, aguardando, com o nós, que a ponte levadiça sej a abaixada e os convide a entrar.

Em bora convidar não sej a a palavra correta. Não há nada convidativo neste lugar. Crânios gigantes cheios de presas descansam no alto das torres de vigia, com o um a efígie, j unto a caudas de esqueletos que circundam as torres em espirais. É com o se um a legião de dragões tivesse sido presa ali para m orrer, e depois se petrificado. As m uralhas externas são inclinadas para dentro em um ângulo anorm al, dando a im pressão de que podem cair e esm agar todos que estão lá dentro a qualquer m om ento.

Um rangido alto acom panha o baixar da ponte e m e revira o estôm ago.

— Precisam os ir até lá — Jeb diz.

Eu m e viro para papai.

— Por favor, não fique bravo.

Ele suspira.

— Com o eu poderia ficar? Sua m ãe teria feito a m esm a coisa. Sacrificado tudo para salvar alguém de quem gosta. Na verdade, foi o que ela fez.

Eu o abraço, inalando todos os cheiros de casa. Quando era pequena, aninhada em seu om bro, sem pre m e sentia segura. Isso nunca vai m udar.

— Obrigada, papai.

— Tudo bem — ele m urm ura j unto à m inha cabeça. — Eu com preendo. Mas não gosto.

Ele vai gostar ainda m enos quando vir quem trarei de volta, além de Morfeu.

— Eu te am o, Borboleta — ele sussurra.

— Tam bém am o você. — Ele m e abraça por tanto tem po que preciso m e afastar.

Suspirando, ele se volta para Jeb, para bater em seu om bro e entregar-lhe a adaga de ferro.

— Tom e conta da m inha m enina.

Jeb segura a arm a.

— É ela quem tem todos os recursos. Espero que ela tom e conta de m im .

Antes que papai nos atrase m ais um segundo, nós seguim os cam inho.

Contornam os as árvores até o final do penhasco e descem os acom panhando um afloram ento escarpado. Jeb m anda sua som bra voltar para ficar com papai.

Enquanto esperam os para entrar na fila, Jeb estuda m eu rosto, com o se quisesse m em orizar cada traço. Deslizo m eus dedos enluvados por seu queixo, afastando alguns cachos ondulados e escuros.

Seu olhar fica m ais intenso, cheio de em oções inom ináveis.

— Vam os preparar você, gata.

Consigo dar um sorriso enquanto ele pega um a m áscara peluda parecida com um a raposa de dentro do casaco e a coloca sobre m eus olhos. Ele a pintou para m im , desenhando as fendas dos olhos sob m edida e o focinho para encaixar na m etade superior do rosto. Penas form am as orelhas, e ele até acrescentou antenas de borboleta. Com m inhas asas e m eu vestido, fico quase parecida com os insetos que um dia m atei tão im pensadam ente.

Eu aj usto o traj e de sim ulacro sobre o sm oking e a cam iseta dele. O outro disfarce está com os itens de pintura dentro da sacola de viagem que ele tem no om bro, pronto para Morfeu usar assim que o encontrarm os. Sei que, lá no fundo, ele espera encontrar seu sósia tam bém , em bora não tenha dito nada.

— Hora de nos m isturarm os — Jeb diz, escondendo a cauda pendurada de Chessie dentro do m eu coque.

Balanço a cabeça, concordando, m as ainda não estou pronta para tirar os olhos dele. É a única coisa que dá às m inhas pernas a força para ficarem de pé.

— Lem bre-se — ele continua. — Vam os seguir o plano. Fique a sós com a Copas, convença-a a entregar a Verm elha enquanto eu vou procurar na m asm orra. Depois que pegar a Verm elha, corra para fora. Não se preocupe conosco. Estarem os invisíveis, e você pode voar. Vai dar tudo certo. Mande Chessie se algum a coisa der errado e nós encontrarem os você.

Balanço a cabeça novam ente. Tenho tanta coisa para dizer a ele: Obrigada por ter fé em mim, por sempre se arriscar por esta louca vida dividida que eu tenho — eu te amo e não quero perder você... Mas tudo o que consigo dizer é:

— Tenha cuidado.

— Até j á. — Ele enfia a sacola debaixo do braço para m antê-la escondida sob o disfarce e com eça a colocar o capuz na cabeça.

Com o se tivesse repensado algo, ele para e entrelaça os dedos na m inha m ão enluvada, puxando-m e para perto.

— Caso eu não tenha outra oportunidade de dizer... Prim eiro, você está m aravilhosa. — Ele passa o dedo sobre as m arcas em m eus olhos no ponto onde elas se m ostram sob as bordas felpudas da m inha m áscara. — Segundo... — Ele vira m inha m ão e beij a a palm a coberta. — Você vai conseguir, m inha rainha.

Respirando fundo, passo os braços em volta de seu pescoço. Ele m e abraça forte, aperta os lábios contra o alto da m inha cabeça e se afasta, colocando o capuz e desaparecendo.

Seus dedos invisíveis tocam m eus dedos cobertos de couro, conduzindo-m e para j unto da corrente de criaturas grandes e pequenas. Com a reconfortante pressão de sua m ão m e dirigindo, entro no fim da fila.

Meu vestido vibra suavem ente ao m archarm os pela ponte de m adeira, um a m elíflua subcorrente que nada com bina com o nefasto ruído das enguias a dez m etros abaixo de nós. Um arrepio m e percorre a espinha quando Chessie se afunda ainda m ais no m eu cabelo.

Os convidados produzem gorgolej os, resfôlegos e zum bidos, desviando m inha atenção do que está lá em baixo para o que se encontra adiante. Na aparência, eles se assem elham com os intraterrenos que encontrei no Banquete das Bestas do País das Maravilhas, um ano atrás... m ais bestiais do que hum anoides, alguns com plantas vivas crescendo na pele. Essas criaturas, porém , são distorcidas e nodosas e sofreram m utações por terem usado sua m agia.

É um hábito difícil de largar, com o provou a luta de Jeb para abdicar de seu poder. Talvez esta sej a um a vantagem de deixar a Verm elha m e possuir. Dará a Jeb m ais estím ulo para partir, caso m inha prom essa para o futuro não sej a suficiente.

Ao sairm os da ponte, passam os por um pequeno pórtico coberto que se abre para o pátio, que tem cerca de três acres de largura. Elevando-se no centro, há duas estruturas esqueléticas de vinte andares, sinistram ente parecidas com os restos petrificados dos dragões nas torres de vigia do castelo. Fico tão im pressionada com essa visão que quase tropeço em um a cauda de réptil na m inha frente. Um a boca arreganhada escorrega por suas escam as, indo da cara da criatura até o final da cauda, e late para m im feito um filhote irritado.

Peço desculpas e recuo alguns passos.

Jeb m e firm a por trás e eu volto a m e concentrar em nosso entorno.

Quando eu tinha dez anos, papai e eu fom os a um circo no reino hum ano. Cenário ultravioleta, inquietantes fantasias fluorescentes — um pesadelo sob a luz negra, tão rico em sua atm osfera e personagens que criavam vida própria. Na época, não entendi por que m e senti tão confortável em m eio à grandiosidade bizarra de tudo aquilo. Só fui entender no ano passado, quando com ecei a m e lem brar de que as paisagens do País das Maravilhas têm as m esm as qualidades e de quantos sonhos passei lá j unto a Morfeu.

Agora, cercada por habitantes de Qualquer Outro Lugar dentro deste pátio, não consigo deixar de recordar essas cenas. Com o céu encoberto e as m uralhas baixas nos envolvendo, o pano de fundo escuro am plia o esquem a de cores fluorescentes das fontes, das barracas m ontadas para a festa e das estátuas.

Jeb aperta m inha m ão três vezes, o nosso sinal. Com o não posso vê-lo partir, olho para o lado, onde vários guardas reptilianos escoltam um m utante com cabeça de urso e corpo de m acaco preso por algem as. Eles descem alguns degraus encravados na m uralha do castelo. Posso apostar que estão se dirigindo à m asm orra.

— Tenha cuidado — eu sussurro, em bora saiba que ele j á se foi. O calor de Chessie sob m eu cabelo oferece um pouco de conforto.

Passo por um aglom erado de fontes. Um estranho sortim ento de criaturas toca instrum entos m usicais artesanais, com pondo canções assom brosas com tam bores de abóboras, violões de aipo e flautas feitas de j uncos de rio. Fadas reluzentes rodopiam no ar e encenam um balé aéreo usando a água das fontes para propeli-las para cim a. Elas guincham quando a água se transform a em um j ato de vapor que queim a sua pele desnuda. Saindo dali, correm para a beira das fontes e ficam gem endo enquanto cuidam de suas bolhas. Os espectadores bestiais ao m eu lado riem e gritam palavras ofensivas, com o se estivessem intoxicados pela violência. O vapor volta a seu estado líquido e as fadas cavalgam os j atos de água m ais um a vez. As pequeninas intraterrenas devem ser m ovidas por um a com pulsão à dor, pois continuam até seu corpo ficar tão ferido que elas m orrem e viram m ontes de cinzas.

Controlo m inha fascinação e viro o rosto.

Por toda parte que olho, esportes cruéis e j ogos sádicos do m esm o tipo acontecem . Em um canto, dentro de um a barraca aberta, criaturas felinas cobertas por escam as, com cara de serpente e língua bifurcada, cam inham nas quatro patas em cim a de aram es esticados bem no alto sobre um buraco em cham as. As patas m acias fritam ao contato com o m etal causticante e o cheiro nocivo de escam as cham uscadas enche o ar. Mais um a vez, noto pilhas de cinzas onde m orreram participantes anteriores.

— Mais depressa! — um a criatura lanosa com m usgo saindo das orelhas berra lá de baixo. — Chega de andar com o gatinhos! Querem os um show! — Os participantes uivam e gritam , m as, m esm o m ancando, voltam ao aram e assim que pulam dele.

Dentro de outra barraca, os com petidores se revezam para rastej ar por um fosso cheio de besouros cuj os exoesqueletos são reluzentes, prateados e cortantes com o lâm inas de barbear. Em bora todos saiam cortados e sangrando, não hesitam em retornar para outra rodada.

Cerrando os dentes para tentar resistir a um desej o inquietante de andar descalça pelo fosso, cam inho na direção do centro do pátio, onde guardas reptilianos rolam em duas bolas de vidro transparente — grandes o suficiente para abrigar um barracão de ferram entas — e as içam com cordas e polias para cim a das estruturas esqueléticas de m ontanha-russa que vi pouco antes. Os guardas os fixam em declives íngrem es que lançarão as esferas para a queda de trinta andares. A im agem m e faz lem brar as corridas de bolas de gude que Jeb costum ava fazer com seu pai, só que estas eram m iniaturas.

Um a m ultidão se reúne e grunhe im paciente pelo próxim o evento. Fico atrás, curiosa, m as m antenho os olhos abertos para qualquer sinal da Rainha de Copas. Depois de verificar se ninguém está olhando, cutuco a cauda de Chessie, o sinal para que ele com ece a procurar Nikki. Ele deve encontrá-la e trazê-la de volta para m im . Sai voando, usando as som bras com o cobertura.

Um hom em alto com o porte de um deus grego e usando som ente calças de cetim preto que colam em seus m úsculos sobe um a escada até o alto da ram pa de m adeira. Ele para na beirada da gigantesca m oldura. Em vez de pés descalços, tem cascos prateados, em bora as m ãos sej am hum anoides.

Sua pele lisa brilha feito cobre — um contraste enorm e com seus olhos de um pálido azul. O cabelo branco cresce a partir da cabeça, correndo ao longo da nuca, e vai até as escápulas, com o a crina de um cavalo. Um chifre espiralado de uns trinta centím etros desponta do dorso de seu nariz aquilino, centralizado entre as sobrancelhas.

Ele é deslum brante. E, obviam ente, está no com ando.

Manti. Eu m e aproxim o da m ultidão barulhenta. Ele é a m elhor pista para encontrar a Copas e a Verm elha.

— Se algum de vocês desej a m e desafiar pelo trono do rei... — Sua voz profunda e m elódica silencia o burburinho. — Esta é sua chance. — Ele ergue um a coroa dourada e sorri, m ostrando dentes afiados com o os de um cão e ofuscantes de tão brancos.

Alguém se m exe na m ultidão. Um ser leonino, andando em duas pernas com o um hom em , levanta a pata no ar.

— Eu o desafio! — ele ruge. O pelo dourado cintila sob a luz suave enquanto dois guardas portando lanternas o escoltam na direção da escada.

Quando chegam ao alto, os guardas abrem portas transparentes nas bolas de vidro para que Manti e seu oponente possam subir nas esferas. Cada guarda solta na esfera um a criaturinha peluda de dentro de um a caixa.

Em bora os anim ais pareçam adoráveis e bonzinhos com o filhotinhos de lulu da Pom erânia, o m anticórnio e o leão eriçam o pelo e recuam , de olho nos com panheiros.

— Que com ece a corrida eleitoral! — um dos guardas grita quando as portas se fecham .

A m ultidão uiva no instante em que as ram pas se abrem , lançando as esferas no j ogo ao longo da pista distorcida com um som alto com o o de um trovão. Não dem oro para perceber por que Manti e seu oponente tem iam a adição dos anim aizinhos. As criaturas têm a habilidade de virar-se do avesso e tornar-se nada além de dentes. Respingos de sangue surgem na parte interna da esfera, m anchando-a, à m edida que os ocupantes tentam evitar a tortura cortante. Eles estão presos na com panhia de piranhas peludas dentro de um aquário que gira.

Minha sensibilidade intraterrena m e dom ina e m e provoca o desej o de assistir. Cada participante tenta se equilibrar o bastante — apesar de estar sendo com ido vivo e escorregando no próprio sangue — para aum entar o im pulso de sua bola e ser o prim eiro a term inar a corrida.

O globo de Manti chega à linha final e ele é rapidam ente libertado enquanto o bichinho cortante lá dentro — ensopado de sangue — é enfiado novam ente em sua caixa. Dois guardas aj udam Manti a ficar de pé, derram ando o conteúdo de um frasco em sua garganta. Os buracos em sua pele são m ilagrosam ente curados sem deixar cicatrizes.

A esfera do leão finalm ente para e outros dois guardas o arrastam para fora. Ele foi tão m astigado que sua pelagem não existe m ais — deixando no corpo inteiro um a enorm e ferida aberta.

Os espectadores com eçam a entoar:

— Acabem com ele! Arranquem o coração!

Com passo fluido, Manti vai na frente. Os guardas arrastam a inconsciente criatura leonina até um poço de água redondo e profundo no solo, rodeado por pedras lisas.

— Para o poço do m edo! — Manti grita.

Os guardas largam o leão lá dentro. Ele acorda e com eça a se debater, uivando de terror, enquanto bolhas em ergem e a água se torna verm elha. O que resta de sua pele é com ido por um a reação ácida, até que algum a coisa o puxa para as profundezas. Alguns segundos depois, um obj eto carnudo aparece na superfície. Manti o recolhe com cuidado e o coloca sobre um a alm ofada de cetim dourado, exibindo o coração que ainda bate para que todos vej am .

Eu deveria estar petrificada. Mas estou é furiosa. Pensar que a rainha planej a fazer o m esm o com o coração de Morfeu deflagra um a com pulsão assassina dentro de m im . O País das Maravilhas é violento e bizarro, m as tem seu charm e. Qualquer Outro Lugar está em outro nível de crueldade. Um hospício descontrolado.

Os apupos crescem , ensurdecedores, quando um a m ulher requintada entra com graça na cena. Seu cabelo está repartido no m eio, um lado cor de vinho escuro e o outro, carm im ardente. Seu vestido é, ao m esm o tem po, espantoso e lindo, assim com o ela. Babados verm elhos e vinho cascateiam sobre um a anágua de tule preto. Isso produz um efeito de listras de zebra que se alarga para um a form a cheia e adorável que se arrasta no chão. Contas pulsantes e trem eluzentes do tam anho de feij ões decoram as m angas que chegam até os cotovelos. Mas não são contas, na verdade. Ela está usando os corações dos seres m ágicos em suas m angas.

Suas asas se parecem com as m inhas: opacas e cravej adas de j oias. Isso, m ais as m arcas nos olhos, a pele brilhante e um a pequena tiara de ouro, não deixa dúvida sobre sua identidade. Ela pode ter séculos de idade, m as parece j ovem o bastante para ser a irm ã de m inha m ãe.

Manti ergue a alm ofada para a Copas e aj oelha-se.

— Para ti, ó Maj estade.

Ela coloca um a coroa dourada na cabeça dele e pega o coração. O sangue j orra entre seus dedos quando ela ergue o órgão ainda palpitante.

— Algum outro desafiador se sentindo um leão hoj e? — ela pergunta, a voz m elodiosa um a m escla de duas oitavas, com o se estivesse cantando um dueto consigo m esm a. Ou talvez sej a a voz dela unida à da Verm elha.

Eu vacilo, lem brando-m e de com o a Verm elha m e usou com o recipiente um ano atrás, de com o m e senti ao ter suas gavinhas enterradas em m inhas veias e ser m anipulada com o um fantoche.

— Algum de vocês desej a desafiar o rei? — a rainha provoca um a vez m ais.

Minha garganta fica seca. É agora ou nunca. Fazendo um a careta, tiro a m áscara de raposa e a largo. Bato as asas para m e elevar acim a da m ultidão, alto o bastante para ser vista à luz das lanternas, m as fora do alcance de garras e m ãos.

— Eu desej o desafiar a rainha! — eu grito.

A Rainha de Copas coloca o prêm io sangrento e m acabro na alm ofada, franzindo a testa para m im enquanto lim pa o sangue das m ãos na crina branca de Manti. Vários dos guardas afastam os espectadores abaixo de m im e apontam flechas para m inhas asas.

O lado cor de vinho do cabelo da rainha com eça a tornar-se carm im , fio por fio.

— Abaixem as armas! Eu ordeno. — A voz da Verm elha irrom pe da boca da Copas em um a raj ada de ar. Um apêndice sem elhante a um a trepadeira se desenrola do antebraço da rainha, um a m anifestação física da possessão da Verm elha. A hera bate nos guardas. — Eu mandei abaixarem as armas!

Eles abaixam os arcos e recuam .

— Não! Quem está no com ando sou eu — grita a Copas, com a voz um a oitava acim a. Ela luta contra a protuberância tentacular da Verm elha, os cachos cor de vinho voltando a aparecer. — Capturem a garota e tragam -m e seu relógio da vida! Ele é especial. Será o orgulho da m inha coleção.

Confusa com sua ordem , bato as asas com m ais força para perm anecer no ar e fora de alcance.

A rainha faz um sinal para os guardas. Dois novos apêndices de hera se libertam de suas m angas e trancam os dois pulsos.

— A garota deve ficar intacta — sibila a Verm elha, enroscando as gavinhas nos braços da Copas até eles ficarem presos na cintura.

A rainha luta com as vinhas e seu cabelo pisca — de verm elho-vivo a cor de vinho. Os guardas se rem exem , sem saber a qual rainha devem obedecer. Até Manti parece confuso. É com o se eles tivessem aprendido a duras penas que devem ser leais à rainha que ganhar o controle do corpo.

— A garota veio por vontade própria — a Verm elha argum enta —, como Morfeu previu que viria. Seu corpo não deve ser ferido. Ela está aqui para a cerimônia, e esta plateia deprimente servirá de testemunha. — Com isso, todo o cabelo da rainha assum e a cor carm im .

Cerimônia. Morfeu deve ter explicado nossa proposta para que a Verm elha habite m eu corpo e saia deste m undo. Presum o que eles, de algum a m aneira, tenham convencido a Copas.

Mas o que um a cerim ônia tem a ver com isso?

— Eu não estava ciente de que precisaríam os de testem unhas — grito, pairando m ais alto ainda.

Algo se m exe atrás da rainha. Seus súditos e criados se afastam para abrir cam inho e Morfeu aparece. À prim eira vista, fico em ocionada por vê-lo solto e ileso. Então, percebo com o está vestido e à vontade ali, parado em plena festa real.

Olhando para m im , ele tira um a cartola xadrez verm elha e vinho que com plem enta seu terno com listras vinho, cam isa preta e gravata verm elha. As j oias em seus olhos piscam num púrpura m uito escuro e ele m e oferece seu sorriso m ais cintilante.

— Desça, am or. Não se intim ide. Toda cerim ônia de casam ento precisa de testem unhas. Por que a nossa seria diferente?