Qualquer Outro Lugar
Capítulo 9
9
O Olho da Mente
Quando em ergim os, um brilho purpúreo e tênue lança som bras por toda parte. O cavalo-m arinho curva a espinha para a frente e para trás, esprem endo o bolsão até nos expelir para a água rasa.
Eu tusso e caio apoiada nas m ãos e nos j oelhos. Nas costas, m inhas asas pendem , tão ensopadas e enlam eadas com o as roupas. O cavalo-m arinho bufa, solta espum a pelo nariz equino e volta a afundar nas profundezas.
Fraca devido ao extrem o esforço físico, eu m e forço a ficar de pé na água que bate em m eus tornozelos. Papai se levanta, oferece a m ão e nós cam inham os com dificuldade até um a barragem de cim ento para sentar e recuperar o fôlego.
— Algum a ideia de onde estam os? — eu pergunto, torcendo m inha túnica. — Você esteve aqui quando era criança? Lem bra de algum a coisa?
Sua testa se franze.
— Este m undo é tão diferente do que eu lem bro, Allie. Ele vive m udando. É com o se estivéssem os em um livro de ilustrações e as páginas virassem com o vento.
Quando viro a cabeça para trás para olhar m elhor o túnel escuro, m inha respiração para: pichações se estendem pelo que parecem ser quilôm etros — palavras com o amor, morte, anarquia, paz e im agens de corações partidos, estrelas e rostos pintados em cores fluorescentes.
É um a réplica do bueiro em que Jeb e eu quase nos afogam os há m ais de um m ês, no lugar ao qual costum ávam os ir quando crianças. Até o som parece o m esm o, com água pingando por todo lado. Mas há um a diferença enorm e: as im agens dessas paredes se m ovem .
Os corações partidos costuram a si m esm os, batem várias vezes e depois quebram e sangram . As estrelas correm de um a ponta à outra, deixando no rastro centelhas que pegam fogo e se desintegram com o arom a de folhas cham uscadas. E os rostos olham para nós, com o se estivessem zangados. Eu reprim o um gem ido.
— Está vendo isso? — pergunto a papai.
— Não é possível.
— Qualquer coisa é possível aqui — eu corrij o, e m e detenho, estudando as im agens ultravioleta. Minhas pernas trem em , m as dou um passo à frente. — Percebe o que isso significa?
Papai não responde.
É claro que ele não percebe. Não consegue ver m eu passado.
— Essas im agens são das m em órias de Jeb — eu explico. — Nossas m em órias. — A ideia de que estou prestes a vê-lo faz cada m úsculo do m eu corpo saltar. Saio correndo para a outra ponta do túnel.
— Allie, precisam os ter cuidado. — Papai m e alcança e segura m eu om bro.
Eu m e liberto.
— Nós tem os que encontrá-lo! — A cada passo, porém , o túnel encolhe e nós tam bém . Ou é isso, ou é um a ilusão, porque não m e sinto encolhendo. E j á encolhi vezes suficientes para ter m em orizado a sensação.
Não. Não estam os ficando m enores. As im agens estão crescendo, se alongando. Elas se erguem de seus lugares nas paredes e roçam nossa pele enquanto passam os. As estrelas cham uscam m inhas m angas; os corações j orram sangue. Os rostos m e m ordiscam — com dentes frios e afiados feito alfinetes.
Sinto arrepios à m edida que apressam os o passo.
Um desenho m onta guarda no fim do túnel — um a fada de néon laranj a cuj as asas se abrem em tons de rosa, azul e branco.
Sou eu. A figura que Jeb pintou na parede do túnel em nosso m undo. Mas esta não faz parte da parede. Ela está nos encarando, um a barricada nefasta...
— Fique atrás de m im . — Papai saca a adaga, m ovendo-a de um lado para o outro enquanto a encara. Cores vivas se refletem na lâm ina reluzente e o ferro trespassa suas linhas. Papai consegue passar sem problem as. — Vam os, borboleta. É só um a ilusão. — Ele estende a m ão.
Eu estendo a m ão para ele, m as algo vindo das som bras lá atrás puxa seu om bro. A adaga cai de sua m ão e atinge o chão, fazendo ruído.
— Corra, Allie! — ele berra enquanto é arrastado para fora de vista.
O terror gela m inha espinha.
— Pai!
Minha dublê fluorescente volta ao lugar, bloqueando o cam inho.
— Você deveria estar em pedaços, com o os outros — ela sussurra. Seu hálito cheira a tristeza, sonhos perdidos e esperanças abandonadas, com o suvenires m ofados e cobertos de poeira em algum sótão vazio.
Cerro os dentes, lutando contra a repulsa e o m edo. Papai passou através dela. Isso prova que ela não é real.
Jogo o corpo para a frente.
Meu corpo encontra um a barreira espinhenta, cada linha do desenho parecendo m e espetar feito um aram e farpado. Eu grito e m inha atacante faz eco. Eu m e liberto de suas farpas e despenco no chão. Meus ossos chacoalham m esm o com as asas am ortecendo o im pacto.
O desenho parte na m inha direção, com o corpo e o rosto se deform ando quando ela chega m ais perto. A boca se alarga num a caverna e ela guincha:
— Rasgue-a!
Seus dedos espinhosos arranham m eu pescoço. Eu protej o o rosto, tentando usar m agia para recrutar os outros desenhos nas paredes para aj udar. Ou estou m uito aterrorizada ou eles estão sob o feitiço de outra pessoa, porque se recusam a obedecer.
Eu rolo e arrebato a adaga que papai deixou cair na passagem ao lado. No m esm o m ovim ento, passo a lâm ina pelas linhas fluorescentes do desenho, m as não surte efeito. Ela ataca novam ente, j unto com outras pichações que agora saíram das paredes. Elas m e rodeiam : obras de arte brilhantes e cheias de farpas.
Jogo a adaga para longe e levo as m ãos para o alto da cabeça, com o fazíam os na escola durante o exercício de evacuação para tornados. O diário no m eu pescoço trem e e balança. Arrisco olhar para a sensação de calor no m eu peito. Um a luz irradia de debaixo de m inha túnica, com o se as palavras nas páginas fossem infraverm elhas.
Os desenhos estrem ecem e recuam , todos choram ingando, até o desenho da fada. Eles se reintegram às paredes e ficam no lugar, deixando o túnel vizinho desprotegido.
Recupero a adaga de papai e saio correndo atrás dele, usando o brilho verm elho do diário para m e guiar. É a prim eira vez que vej o o caderninho reagir dessa form a, com o se a m agia dentro dele estivesse queim ando de vontade de sair. Não sei ao certo o que causou aquilo, m as fico grata. Salvou m inha vida.
Absorvendo m inhas asas pesadas e m olhadas na pele, sigo m anobrando pelos corredores estreitos. O som de água pingando cessa. Minhas botas plásticas produzem um ruído de esguicho no chão de pedra. Cada nervo do m eu corpo estrem ece quando penso no que os desenhos planej avam fazer com igo e no que pode estar acontecendo com m eu pai.
Você deveria estar em pedaços como os outros... Rasgue-a!
O que a fada do desenho queria dizer com os outros? Eu m e retorço sob as roupas m olhadas.
O teto vai caindo gradualm ente, com o se eu estivesse crescendo outra vez. A sensação é estonteante, m as tam bém m e dá certa segurança. Quanto m aior fico, m ais forte m e sinto.
Vozes m asculinas ecoam pelo corredor e m e atraem para um a passagem à direita, onde tênues fachos de luz saem de trás de um a porta de aparência pesada que está entreaberta. De fininho, vou até ela na esperança de que um a das vozes pertença a papai.
— Você nem im agina o que fez, em seu desespero, para m e m anter sob seu dom ínio. — É Morfeu. — Não tem ideia do que m e fez deixar para trás.
— Não foi desespero — Jeb responde.
Um alívio total e com pleto m e tom a ao ouvir sua voz. Aproxim o-m e da porta.
— As fadas m e disseram que Manti estava atrás de você — Jeb continua a dizer do outro lado. — Que ele tinha m andado pássaros trogloditas no seu encalço. E é assim que você m e agradece por salvar você pela m ilésim a vez desde que estam os aqui.
— Eu um a ova — diz Morfeu. — Você é que está num a m aldita batalha pelo poder, com o sem pre. Mas passou dos lim ites. E, quando eu contar o que você fez, nunca vai se perdoar.
Jeb bufa.
— Ã-hã. Venha aqui para eu consertar sua orelha. Tenho que term inar um a pintura.
O tom dom éstico da interação deles é tão fascinante que m e faz parar. Pergunto-m e há quanto tem po eles estão escondidos aqui j untos. Por todo o tem po em que estão presos neste reino? Espio lá dentro.
Prendo a respiração quando vej o as costas de Jeb. Ele está sem cam isa, usando um a calça j eans desbotada e rasgada em um a sala ilum inada com um pôr do sol laranj a-rosado. A luz entra por um teto de vidro. É com o um a estufa — um a cópia exata do estúdio do reino hum ano em que ele ficou preso um m ês atrás. Novam ente, o m esm o padrão: tudo aqui nasceu e foi construído com base nas m em órias de Jeb.
A tinta brilha em pontos úm idos ao longo de seus braços torneados. Fico im óvel, desej ando poder ver seu rosto, m as ele não vira o corpo. O cabelo está m ais com prido agora, com as ondas escuras e descuidadas quase tocando os om bros.
Morfeu m e enganou. Jeb não m udou. Ele tem até as m esm as paixões.
Há cavaletes por toda parte. Alguns intocados, outros cheios de paisagens, alguns deles retratando as terras m utantes pelas quais passam os no m undo do espelho. Eu franzo a testa, tentando encontrar um sentido naquilo tudo.
Morfeu está sentado em um a m esa diante de Jeb, com as asas negras pensas para a frente e arrastando no chão. Suas luvas estão no colo, e ele brinca com um dos buracos da perna da calça.
Sua pequenina fada de com panhia, Nikki, paira no ar entre os dois, com o se não soubesse onde se aninhar.
Jeb ergue um pincel até a orelha de Morfeu, acidentalm ente pisando na ponta de um a asa.
Morfeu se contrai e dá um tapa na m ão de Jeb.
— Ai! Onde estão seus m odos tranquilizadores, pseudoelfo?
Nikki paira na frente do nariz de Jeb, balançando um dedo. Depois de gentilm ente tirar a fada da frente, ele se inclina sobre Morfeu e ergue novam ente o pincel.
— Se você colocasse essas coisas em cim a da m esa, não teríam os problem as. Agora, fique quieto e pare de agir feito um a m enininha.
Um pulsar de luz violeta passa das cerdas úm idas para a orelha de Morfeu. Num passe de m ágica, a ferida se fecha. Tenho de colocar a m ão na boca para abafar um gem ido de surpresa.
Ainda de costas, Jeb se endireita para apreciar seu trabalho.
Morfeu sorri com ironia — um torcer m ordaz e ensaiado dos lábios.
— Então, eu o lem brei de algum a menina em particular?
Nikki flutua entre eles com as m ãos entrelaçadas e a cabeça inclinada, num a pose dram ática. Ela dá piscadelas rápidas e fortes.
— Tem razão, Nikki. — Depois de passar a ponta do dedo na tinta sobre o peito de Jeb, Morfeu esfrega o resto de tinta entre o indicador e o polegar. — Ele deve estar pensando na nam orada. Mas ouso dizer que, se eu fosse Aly ssa, os m odos dele m elhorariam trem endam ente.
Jeb j oga o pincel no chão e agarra Morfeu pela lapela esburacada, com cada m úsculo do corpo se retesando. Nikki paira sobre eles, a voz tilintante repreendendo-os.
— Ela é m inha ex-nam orada — Jeb diz. — E não quero ouvir o nom e dela. Não quero que ela atorm ente m eu subconsciente. — Ele afasta Morfeu. — Você se lem bra do que aconteceu quando o rosto dela apareceu em m inhas pinturas. Tem os que esquecê-la. Assim com o ela nos esqueceu.
Ex-namorada. Todo o entusiasm o dentro de m im se esvai. Ele nunca pareceu tão desanim ado, nem m esm o depois que brigava com seu pai. E tudo porque pensa que eu o abandonei.
Morfeu lim pa a tinta do polegar e do indicador em um trapo j ogado ao seu lado na m esa. O olhar que ele lança para Jeb é de m alvado deleite.
— Um a pena que você tenha tão pouca fé naquela que um dia alegou am ar. — Ele enfia os dedos no bolso do casaco e tira Chessie. O intraterreno peludo trem ula as asas e se ergue no ar. Ele sorri para Jeb, sinceram ente feliz por vê-lo.
Jeb dá dois passos para trás.
— Onde... com o ele veio parar aqui?
Morfeu encolhe os om bros.
— Você deveria perguntar quem o trouxe para cá. A resposta seria m uito m ais interessante.
Jeb balança a cabeça enquanto a fada pega as patas de Chessie nas m ãos e eles com eçam a dançar em pleno ar.
— A Al nunca viria...
— Viria, sim — Morfeu provoca. — Ela veio. E logo encontrará um m odo de entrar em nosso refúgio. A não ser que esta últim a vez que você m andou m e prender tenha feito com que ela fosse capturada. Nesse caso, ela está em perigo, e a culpa é sua.
— Não — Jeb insiste. — Ela não se im porta o suficiente para vir.
Quero entrar correndo e provar que ele está errado. Ele perdeu toda a fé em m im . E esse fato é m ais excruciante e inacreditável do que qualquer coisa que enfrentei desde que caí pela prim eira vez na toca do coelho.
Meus m em bros ficam inertes e a adaga de papai quase escorrega de m inhas m ãos suadas.
Papai! Com o pude m e esquecer dele?
Ouço um a confusão vinda da escuridão do fundo do corredor. Prendendo a respiração, ando na ponta dos pés pela passagem sinuosa. Ainda não cheguei longe quando algum a coisa gruda em m eu braço vinda de trás. Um a m ão m e tapa a boca e outra m e j oga contra a parede com força suficiente para m inhas costas rasparem na parede de pedra.
O corpo de m eu captor é m asculino. Ele agarra m eus pulsos com a m ão livre e os prende sobre m eu abdôm en. Meus dedos envolvem a adaga de papai, apontada para o chão.
Tento gritar, m as a m ão livre do atacante sela m eus lábios com força. Ele é m ais alto do que eu e inclina a cabeça feito um filhote curioso, tentando ver quem sou. Há algo m uito fam iliar em sua altura e físico. Quando m eus olhos se adaptam à escuridão, eu quase desm orono.
É Jeb, desde o piercing labret até o corpo que conheço tão bem ... só agora consigo ver seu rosto.
Do lado direito, pontos com j oias verm elhas cintilam em um a linha curva que vai da têm pora até a m açã do rosto, da m esm a cor que o piercing verm elho. Um olhar m ais detalhado nas orelhas revela que elas são pontudas. Ele lem bra um cavaleiro élfico da corte da Marfim , exceto pelo queixo com barba por fazer. Até m esm o os olhos, vagos e distantes, são desprovidos de em oção.
Um grito luta para se libertar quando percebo m ais detalhes m acabros. A pele sob seu olho esquerdo ostenta um a fenda. Onde deveria haver tecido e ossos aparecendo, não há nada além do vazio.
Minha língua fica seca, asfixiada sob sua m ão.
— Ele não é o mesmo rapaz que você conheceu — Morfeu alertou. Era a isso que ele se referia. Jeb está sofrendo m utações. Por m inha causa.
Engasgo-m e com um soluço.
O m ovim ento cham a m inha atenção para o vazio onde lhe falta pele. Um globo ocular pula para a superfície, cheio de veias e invertido. Eu arfo, tentando em purrá-lo. Ele é forte dem ais e m e m antém grudada na parede por m inhas próprias m ãos.
Ele inclina o rosto para m ais perto. Um conj unto de dedos se desenrola de dentro da pele aberta acim a da m açã do rosto — um a m ão tentando se esticar e tocar-m e. Os dedos são brilhantes, de um verm elho profundo com o sangue. O globo ocular desconectado rola para olhar a ponta dos dedos enquanto os outros dois olhos de Jeb continuam a m e estudar.
Tento respirar sob a m ão im placável que cobre m inha boca. O calor escalda m eu peito — elétrico com o um raio — e o diário sob a túnica brilha m ais um a vez. Ele acorda m eu sentido de autopreservação. Mostro os dentes e m ordo seus dedos com força suficiente para cortar a pele.
Com um grito selvagem , Jeb m e solta. Eu cuspo seu sangue, vagam ente consciente de que tem gosto de tinta.
Busco desesperadam ente a adaga escorregadia em m eus dedos suados e a pego no últim o segundo, acidentalm ente cortando sua calça j eans e a coxa. Ele uiva — um som anim al e angustiante — quando a pele da perna se abre em um corte de quase um palm o.
— Me perdoe! — eu grito. — Eu sinto m uito, por tudo!
Olhos desconectados e m ãos sem corpo saem da abertura, subindo por galhos verm elhos e escorregadios com bocas que estalam feito plantas carnívoras.
Largo a adaga. Com as costas pressionadas contra a parede, escorrego para o chão. Meus gritos se unem aos uivos agonizantes. Os galhos viscosos rastej am à m inha volta e eu os chuto, afastando-os. A bile chega à m inha garganta quando vários deles envolvem m eu tornozelo.
A porta no final do corredor se abre. Morfeu sai correndo, com Nikki e Chessie logo atrás.
Lágrim as salgadas rolam pelo m eu rosto, cobrindo m eus lábios enquanto m urm uro desculpas sem sentido para tantas coisas. Tantas coisas irreversíveis.
Morfeu arranca os galhos e m e levanta, aninhando-m e em seu peito.
— Tire esse anim al horrendo daqui! — ele grita por sobre o om bro. Com o olhar em baçado, procuro ver a quem ele se dirige.
É o Jeb. O meu Jeb. Com quem Morfeu estava falando m inutos antes. E a única coisa de errado com seu rosto são alguns respingos de tinta.
O outro Jeb, o que m e atacou, está todo enrolado no chão, uivando — um dublê do rapaz hum ano que eu conheço e em quem confio.
— Por que ele está andando por aí sozinho? — Morfeu continua a repreender. — Eu disse a você... que nunca deveria ter dado certas liberdades a ele.
O olhar de Jeb se volta para m im , os olhos verdes m uito distantes do encarar sem em oção do cavaleiro élfico. Eles estão cheios de surpresa, am argura e agonia.
Sinto-m e arrepiar dos pés à cabeça. Preciso dizer a ele que vim para salvá-lo. Que ainda o am o. Que sinto m uito por tudo. Mas m inhas cordas vocais endurecem , com o se eu estivesse congelada.
Minha cabeça tam bém parece congelada. Pesada e entorpecida. Nem sei m ais se estou acordada ou não. Talvez tudo isso sej a um pesadelo. Envolvo a nuca de Morfeu com as m ãos, enterrando o rosto em seu casaco. Nikki e Chessie se enfiam no m eu cabelo. Eu inalo o perfum e de Morfeu. É a única coisa que reconheço, a única coisa que é segura.
Ele m e leva de volta à sala cheia de luz e m e acom oda com cuidado sobre a m esa. Não consigo parar de trem er. A garganta dói de tanto segurar soluços.
— Acalm e-se, Aly ssa. — Morfeu cobre m eus om bros com um tecido usado para cobrir as pinturas.
Chessie sai do m eu om bro e pula no m eu colo, os olhos arregalados indagando se estou bem . Nikki voa, agitada, de um lado para o outro do m eu rosto, dando tapinhas em m inha têm pora com as m ãozinhas de j oaninha — m aternal e carinhosa.
Meu sangue dispara, quente e frio.
— Você está pálida — Morfeu diz, envolvendo o tecido com m ais cuidado em torno de m eus om bros. — Vai precisar de um balde?
Eu balanço a cabeça em negativa, resistindo ao em brulho que tenho no estôm ago.
— Ca... cadê o Jeb? O que era aquela coisa...? — Um ataque de tosse estrem ece todo o m eu corpo.
— Shhh. — Morfeu coloca as m ãos nos m eus quadris sobre a m esa. Suas asas nos envolvem . — Jebediah está afastando a coisa. Ele vai voltar logo. Respire fundo e concentre-se em m im . Você está segura.
Eu respiro, m as m e engasgo com o ar.
— Olhe para m im — Morfeu insiste. Concentro-m e no rosto dele, na cor das som bras claras por baixo do eclipse de suas asas, e ele com eça a cantar. Não dentro da m inha m ente, pois a cúpula de ferro o im pede, m as em voz alta... um a canção de ninar sim ples, doce, entoada por sua linda voz.
— Florzinha, cheia de temor, tire do peito essa dor. Cantarei este acalanto, para assim secar seu pranto.
Ele costum ava cantar esses m esm os versos quando virou criança para m e levar ao País das Maravilhas em m eus sonhos. Eu puxava um a de suas asas acetinadas sobre m im com o um cobertor, e o arom a de alcaçuz e m el com binava com a linda canção de ninar, m e aquietando, m e relaxando. Enquanto ele canta, suas j oias piscam num azul sereno com o a superfície de um oceano.
Inspirando profundam ente m ais algum as vezes, consigo superar o acesso de tosse.
— Obrigada — digo.
Morfeu aperta m eus om bros sobre o tecido pesado.
— A criatura lá fora não ia m achucá-la. Ela estava sim plesm ente intrigada. Já viu seu rosto antes. Todas as criações daqui j á viram .
Lem brando-m e dos desenhos de aram e farpado, eu balanço a cabeça.
— Não. As pichações agiram com o se eu estivesse infectada com um a doença contagiosa. Elas tentaram m e m atar.
Ele ergue um a sobrancelha e passa a ponta de um dedo em m eu pescoço.
— Foi assim que você ganhou esses arranhões?
Eu faço que sim .
Ele estuda os rasgos em m inhas m angas e as queim aduras das estrelas cadentes.
— Que curioso.
— São m onstros. — Envolvo-m e no tecido com m ais força.
— Nem todos são — Morfeu corrige. — A pequena Nikki teve o m esm o criador e ela é bem agradável. — Com o se quisesse provar o que ele disse, Nikki pousa ao lado de sua m ão sobre m eu om bro e afaga m eu cabelo.
O mesmo criador. O sangue na barra da m inha túnica deixado pelos corações partidos... as m anchas parecem tinta. Assim com o o sósia de Jeb tinha gosto de tinta.
Um a triste percepção aperta m inha traqueia. A fada fluorescente e as pichações, o elfo desfigurado parecido com Jeb e as paisagens nos cavaletes — tudo isso m e faz recordar a prim eira vez que descobri m eus poderes... o m om ento em que eu, inadvertidam ente, fiz um m osaico ganhar vida. Eu o anim ei na parede da m inha casa — grilos m ortos e frutas verm elhas dançando e pingando dentro de sua m oldura de gesso.
— Ah, não — digo com a voz quase irreal. — Não é que a Nikki sej a im une às consequências de usar sua m agia aqui. Ela é feita de m agia. O Jeb a pintou. Ele pintou seu sósia tam bém . Suas obras estão ganhando vida. — A explicação parece ficção, em bora m inhas entranhas sintam que é verdade.
Um a centelha de orgulho é refletida no fundo dos olhos negros de Morfeu.
— Esplêndida dedução. Sim , Jebediah adquiriu dons intraterrenos. Mas não é som ente isso.
Com o se satisfeito por ver que estou bem , Chessie pula de m inha coxa, saindo de debaixo da tenda form ada pelas asas de Morfeu. Nikki o segue.
Quando os dois se foram , volto-m e para Morfeu.
— O que você quer dizer com isso?
— Hum . — Seus dedos dirigem -se novam ente para o m eu pescoço, m as desta vez ele encontra o cordão ali pendurado e retira o diário e a chave antes que eu possa detê-lo. — Prim eiro, conte-m e sobre este pequenino tesouro. — Um brilho verm elho ilum ina seu rosto. Ele tenta abrir o caderno, m as a m agia é m uito poderosa e a chave, m uito grande.
Arranco o cordão dele, enfiando-o debaixo da túnica novam ente.
Morfeu m e analisa.
— O que está escondendo nessas pequenas páginas, Aly ssa? E por quê?
Olho bem dentro dos olhos dele.
— Finalm ente, eu tenho um segredo só m eu. Não é tão divertido ficar do outro lado, hein?
O lento arder da curiosidade aquece sua expressão. Ele se aproxim a e sussurra:
— Pelo contrário, m inha Rainha. Não consigo im aginar nada m ais delicioso do que despi-la de suas defesas, cam ada por cam ada, e desnudar seu precioso... segredo.
Um calor m e sobe ao peito e corre para m eu pescoço e m inhas bochechas. É para lá de inquietante a rapidez com que ele pode passar de confortador a atorm entador.
Ele observa m inha pele ruborizar-se, obviam ente adorando a provocação.
— Na verdade, estou disposto a apostar que desm ascaro seu segredo antes de você desm ascarar o m eu. É com o eu sem pre disse: a lógica intraterrena reside entre o bom senso e a falta dele. Quando você der as costas a tudo o que pensava ser real, encontrará a ilum inação. — Ele solta as asas.
O calor do pôr do sol atravessa o teto de vidro.
— Suponho que vam os constatar quanto você aprendeu a confiar em seu lado do País das Maravilhas. — Ele separa a m echa verm elha de cabelo da m inha trança e a segura contra a luz, em seguida enfiando-a atrás de m inha orelha. — A intuição intraterrena pode decifrar a ilógica de tudo o que você encontrar enquanto estiver aqui, o que a aj udará em sua grandiosa busca.
Tenho a im pressão de que essa “grandiosa busca” a que ele se refere é m ais do que só a m inha tentativa e a de papai de recuperarm os a m am ãe.
Papai... m e esqueci dele novam ente!
— Meu pai!
— É bom saber que você se preocupa — Jeb diz da porta, e eu m e pergunto há quanto tem po ele estava ali. — Fique fria. Estive com ele agora há pouco, e ele está bem .
Um a cam isa preta de seda e m angas com pridas cobre os om bros largos e os braços de Jeb, desabotoada e esvoaçante. Seus olhos brilham com um a luz desorientada que confirm a que há algo de outro m undo correndo dentro dele. Em bora aliviada por ele não ter se transform ado fisicam ente, fico aterrorizada ao pensar no que está acontecendo em seu interior.
Seu labret cintila em verm elho sob a luz que se esvai, lem brando-m e de com o os cavaleiros élficos espetam a própria pele para m arcar o rosto com j oias feitas de sangue cristalizado. Com o cabelo longo e ondulado, Jeb realm ente lem bra os que eu conheci no País das Maravilhas. A expressão petrificada — sem dem onstrar em oção — só am plifica a ilusão.
— Poderia m e levar até ele? — peço, sentindo-m e com o se falasse com um estranho.
— Prim eiro, m e responda a um a pergunta — Jeb diz. — Se você se im porta tanto com ele, por que o colocou no m eio de tudo isso?
O tom acusatório de Jeb m agoa. Eu não o vej o há sem anas e acabo de ser atacada por suas criaturas, m as, em vez de m e confortar ou de m e dar as boas-vindas, ele m e j oga na fogueira.
— Meu pai faz parte deste conto de fadas distorcido tanto quanto o resto de nós.
Jeb e Morfeu se entreolham .
— Certo. O m eleca de inseto m e contou sobre o passado do Thom as. Mas por que você o faria reviver todo esse sofrim ento? É m elhor que ele não se recorde.
— Eu... eu tive que fazê-lo recuperar as m em órias — respondo, gaguej ando, abalada pela ideia de Jeb e Morfeu terem trocado confidências. — Acha que seria m elhor se você não tivesse as suas?
Jeb olha para o chão, com um a ruga de reflexão na testa.
— Acho que seria m elhor não ter nem criado essas m em órias, para com eço de conversa.
Eu luto para não chorar. Com um a confissão tão lancinante, eu choraria sangue.
— Eu precisava da aj uda do m eu pai para encontrar o cam inho para o m undo do espelho. Ele queria que você e m am ãe voltassem . Já era hora de ele saber a verdade.
— A verdade. — Jeb esfrega as m anchas verm elhas na palm a das m ãos. — Me surpreende que você ainda saiba o que é isso.
Com eço a choram ingar antes m esm o de perceber.
— Não é o que você acha que é — Jeb diz sem levantar os olhos. Ele exibe as m ãos, com o se fossem elas que m e fizeram reagir. — É tinta, não sangue.
Balanço a cabeça.
— Não m e im porta o que você tem nas m ãos. Por favor, olhe para m im . Eu senti sua falta. Fiquei m uito preocupada com você.
— É m esm o? De qual de nós você está falando? — A atenção dele se volta para Morfeu, que sorri de lado com ar de conspiração.
Ainda m ais inquietante do que ver esses hom ens do m esm o lado é vê-los unidos contra m im . Aquela dor aguda m e rasga o interior do coração novam ente, com o se a Verm elha estivesse aqui, antagonizando, chafurdando no m eu infortúnio.
Fecho os olhos com força, expulsando as lágrim as que querem sair. Aguente, Alyssa. Você é uma rainha. Aja como uma. Enrij eço os om bros e abro os olhos.
— Eu encontro m eu pai sozinha. — Livro-m e do tecido que m e cobre e com eço a descer da m esa.
Morfeu coloca a palm a da m ão na m inha clavícula.
— Você não está pronta para correr nenhum a m aratona, am or. Ainda está abalada.
— Eu tenho que encontrá-lo.
— Ele j á foi encontrado, eu disse — Jeb responde, com a atenção voltada para a m ão sobre m eu pescoço. Ele estreita os olhos e, com um estalar de dedos, a som bra de Morfeu se ergue do chão e o afasta de m im .
Grunhindo, Morfeu em purra a silhueta escura para o lado e olha para Jeb.
— Am ador. Truques de salão.
Jeb responde com um sorriso m alvado:
— Um aluno só é tão bom quanto seu professor.
Olho fixam ente para os dois, pasm a.
Jeb vira-se para m im .
— Seu pai só precisa dorm ir. Ele está cansado.
A som bra rastej ante de Morfeu cheira m eu cabelo em aranhado, com o um cão. Eu a afasto, e Morfeu a força a ficar atrás dele.
— Quero ver com m eus próprios olhos — eu digo a Jeb.
Ele estreita os olhos.
— Por quê? Não confia em m im ? Acha m esm o que eu m achucaria o Thom as? Ele é o único pai de verdade que eu tive na vida. O único da sua fam ília que não m e apunhalou pelas costas.
Recuso-m e a deixar que ele perceba quanto está m e m agoando.
— Não é em você que eu não confio. É naquela... coisa que você pintou.
Ele cam inha até o outro lado da sala com a cabeça abaixada.
— Você contou a ela.
Seu olhar de acusação é dirigido a Morfeu, m as quem responde sou eu.
— Meu pai foi capturado e arrastado para longe de m im . Tenho certeza de que isso foi feito pela m esm a coisa que m e atacou no corredor. A coisa m ostrou a você para onde o levou? Ela tinha que m ostrar, não é? Você é o criador.
Os cílios de Jeb se levantam em m inha direção, e naquele m om ento consigo ver m eu m elhor am igo novam ente. Marcas escuras de cansaço sob seus olhos revelam a vulnerabilidade do que ele está tentando esconder. Ele é hum ano e desprotegido. Só preciso descer, andar até ele e dim inuir o espaço entre nós. Mas ele logo desvia o olhar, e sou golpeada pela realidade, percebendo que o núm ero de passos entre m im e ele não é nada com parado às paredes que terei de escalar para alcançar seu coração.
— Com o é que ela sabe de tudo isso? — Jeb pergunta a Morfeu. — O que andou dizendo para ela?
Morfeu faz um a careta.
— Guarde sua pequena invenção e então nós conversarem os.
Jeb faz um sinal com a cabeça e a som bra afunda novam ente no chão, deixando som ente um a form a escura aos pés de Morfeu.
Morfeu apoia o quadril na beira da m esa e, com um a ponta do tecido que m e cobria, envolve Chessie e Nikki, que dorm em a sono solto.
— Com o sem pre, você subestim ou a engenhosidade de Aly ssa. Ela descobriu tudo sozinha depois de ser atacada por seu exército de pichações na entrada do túnel.
Jeb olha para m im .
— Eles atacaram você? — Por um instante, eu poderia j urar que há preocupação em seus olhos. Em seguida, ela se foi. — Não costum am ser violentos com seres vivos.
Morfeu franze os lábios.
— Bem , com o a m aioria de suas criações não é capaz de sair desta m ontanha, e com o nunca tivem os visitantes vivos por aqui, não chegam os a testar essa teoria. Adem ais, ela não é um a visitante qualquer. Aly ssa é o obj eto de sua raiva.
— Isso não é verdade — Jeb m urm ura, desviando o olhar.
Morfeu suspira.
— Por m ais que tente negar, é óbvio que suas criações acabaram perpetuando a raiva que sente dela. Alim entando-se com esses sentim entos negativos.
— Jeb? — eu pergunto num sussurro.
Ele não responde.
— Talvez tenha chegado o m om ento de você passar um a borracha em tudo e com eçar novam ente. — Morfeu fala suavem ente, de m odo atencioso e com bom senso, em bora sej a óbvio que ele estej a procurando encoraj ar Jeb.
Jeb o encara.
— Acho que chegou o m om ento de você parar de falar.
— Por quê? Aly ssa vai descobrir tudo em breve.
Com eço a m e sentir enj oada novam ente.
— Quero que vocês dois parem de falar sobre m im com o se eu não estivesse aqui. O que aconteceu com você, Jeb? Foi quando você passou pelo portal? Sofreu algum a m utação?
Morfeu ri.
— “Mutação.” A palavra que você está procurando é “evolução”, am or. Ele abandonou seu estado m ortal de m acaco e vestiu o m anto da im ortalidade intraterrena. É um degrau acim a, não abaixo.
Ao lado de um de seus cavaletes, Jeb solta um grunhido.
— Cale a boca, Morfeu. Eu é que vou decidir quanto ela precisa saber e quando devo contar.
— Bem , esperam os que você decida antes que ela vire picadinho, está bem ?
Engulo em seco.
Jeb cobre um a pintura com um pedaço de tecido e segue adiante para cobrir outra.
— Seu pai está preocupado com você. — Ele fala com igo sem olhar na m inha direção. — Vou levar você até ele... para descansarem j untos.
É com Jeb que eu preciso ficar a sós, m esm o que sej a som ente o tem po que levam os para percorrer o corredor.
— Obrigada.
Morfeu acom oda a fada e Chessie num canto e atravessa a sala. Ele para à porta, com as asas e as costas voltadas para nós.
— Durm a tranquila, Aly ssa. Quando acordar, eu a aj udarei a criar um a estratégia para seus planos de batalha. Tenha em m ente que eu não esqueci a prom essa que m e fez. Nem pretendo deixá-la esquecer.
Fico olhando para o corredor vazio depois que saím os. Aj udar a criar estratégias para m eus planos de batalha? Ele sabe que estou indo atrás da Vermelha. Sua fascinação pelo diário... de algum a m aneira, descobriu que planej o usar o que está dentro daquelas páginas para destruí-la. A guerra nem está vencida e ele j á está recolhendo os despoj os.
— Então, você vai m e dizer que tipo de acordo fez com o Baratão? — Jeb m e observa enquanto abotoa a cam isa preta, cobrindo as cicatrizes circulares antes que eu consiga contá-las. Fico tentada a usar m inha m agia para im pedir seu avanço, para expor sua pele à luz do fim da tarde que nos envolve. Meus dedos anseiam buscar suas partes defeituosas... os lugares feridos e autênticos que provam que ele é real; que é o rapaz em quem eu confio desde o verão da quinta série. Que o hum ano que eu am o ainda está em algum lugar lá dentro.
Depois de m eu encontro com seu sósia e das acusações de Morfeu sobre sua raiva reprim ida, preciso ter cautela.
— Al.
Meu nom e dito por ele faz com que eu o encare. O que não daria para ouvi-lo m e cham ar de “m enina do skate”.
— Do que Morfeu estava falando? — ele pergunta, pressionando.
— Eu prom eti um a coisa a ele — respondo com calm a. Não quero adm itir o que ele j á sabe. Que há m uito m ais acontecendo entre m im e Morfeu do que eu j am ais dem onstrei.
— Um a prom essa, é? Que rom ântico. — Suas palavras cortam com o facas. Ele se tornou m estre em m anej ar m ais do que um pincel desde que está aqui. — Então, foi por isso que você veio parar aqui no nosso pequeno paraíso? Para cum prir a promessa que fez a Morfeu.
Eu m e retraio.
— Não. Eu vim para cá resgatar vocês dois. Você tem todo o direito de não acreditar em m im ... de estar bravo com igo. Eu sei que deve ter sido um inferno. Este lugar... acabou com você.
— Eu j á estava acabado antes disso. — Sua expressão atorm entada confirm a a alegação (graças a você e ao caruncho de inseto)m elhor do que sua voz poderia fazê-lo. — Mas eu retom ei m inha vida. Aqui, quem tem poderes sou eu. Tenho a habilidade de fazer o m undo com o ele deveria ser. Com o sempre deveria ter sido.
Ele ergue a m ão direita e enrola a m anga da cam isa de m odo que a tatuagem na parte interna do pulso fique aparecendo. As palavras em latim Vivat Musa não estão m ais em preto. Elas brilham com a m esm a m agia violeta que seu pincel tinha antes, dando novo significado à tradução: Vida longa à musa.
— Agora eu com preendo — ele m urm ura — por que o poder seduziu você. Com um gesto de m ão eu posso criar, m atar, m utilar e curar. — Há um a qualidade onírica em seus m ovim entos e palavras, com o se ele estivesse em transe. Piscando, solta o braço ao longo do corpo. — Ninguém pode m e fazer de vítim a novam ente, nem a ninguém de que gosto. Este lugar não é o inferno. É o paraíso. E eu... sou um deus.
A nefasta declaração paira no ar entre nós. Meu peito se contrai, com o se alguém tivesse m e dado um soco.
O olhar trem eluzente de Jeb percorre m eu rosto, e em seguida ele sai pela porta.
A lua aparece através do teto de vidro, conferindo um a aura prateada a tudo o que nos cerca. Algo se m exe debaixo dos tecidos cobrindo os quadros. São as pinturas com eçando a se m over. Elas dão socos na pesada coberta, com o se tentassem se libertar.
Mordendo a língua para não gritar, eu pulo da m esa e vou atrás do hom em responsável por esses m onstros... o hom em que está perigosam ente perto de se tornar um m onstro tam bém .