Qualquer Outro Lugar
Capítulo 6
6
Camuflagem Curiosa
Enquanto papai vai coletar arm as e praticar m ais alguns m ovim entos e golpes com o tio Bernie, vagueio pelos corredores à procura de Chessie.
Tenho m edo de cham á-lo em voz alta, levando em conta a reação de Hubert e o fato de que vários intraterrenos com partilham de seu preconceito contra m im . Em vez disso, cham o por ele m entalm ente, esperando ter a m esm a habilidade de Morfeu. Esperando que sej a um talento intraterreno que eu possa dom inar.
Um a porta se abre e eu m e escondo. Um a funcionária sai, em purrando um carrinho de lim peza. No lugar de rodinhas, o carrinho desliza sobre pranchas de esqui que o im pulsionam suavem ente pelo chão acolchoado. Um a m istura de arom as apim entados e produtos de lim peza penetra m inhas narinas quando ela passa.
O perfil da funcionária de lim peza m e lem bra o de um buldogue — inclusive o focinho achatado e úm ido que faz com que ela ronque a cada respiração. Seu corpo parece o de um porco, à exceção das m ãos em form a de garras de lagosta. Tufos de cabelo despontam nas bochechas esverdeadas, nos cotovelos e nos j oelhos por baixo do avental do uniform e.
No carrinho, três m acacões transparentes com capuz estão am ontoados em um a pilha, revelando leves dobras e pregas que se destacam do entorno. Parece que Bill, o Lagarto, m andou suas roupas de sim ulacro para lavar.
“Conecta-se com a mente de quem a veste e reflete o que está em volta. Quem observa tem a ilusão de ver apenas as partes do corpo descobertas. Engana, não é? Você nem imagina o quanto é útil.”
Ah, im agino, sim , Hubert. Se eu e papai fôssem os invisíveis, seria m ais fácil nos esgueirarm os para dentro do portão do País das Maravilhas. E, j á que estam os nos encam inhando para um a zona de batalha, seria m uito útil poder usar um disfarce assim .
Com eço a perseguir a funcionária, esforçando-m e para encontrar um m odo de pegar as roupas. Talvez eu precise apelar para a m agia.
— Com licença — digo suavem ente.
Ela se vira, roncando. As letras em relevo reluzem em seu broche de m etal: Duquesa. Pensando bem , até que ela se parece com o desenho da duquesa do livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas de m inha m ãe. Não consigo entender por que um a duquesa estaria lim pando quartos em um a hospedaria. A não ser que eu a tenha retido aqui tam bém . Em todo caso, é m elhor não m e apresentar.
— O que você quer? — Sua pergunta soa m ais com o um grunhido. Os dentes m e lem bram espigas de m ilho, com o os daquela criatura suína que encontrei no Banquete das Bestas no ano passado: o filho da duquesa. Ele nos deu pim enta para acordar os convidados do chá. A sem elhança do parentesco é notável.
— Preciso de toalhas lim pas — eu digo. Enquanto ela se distrai na parte de baixo do carrinho, vou pegar os disfarces de cim a e correr.
— Estes são roupões aveludados, não toalhas. É um a cortesia para nossos hóspedes m ais im portantes. Meu chefe contabiliza as peças e, se faltar algum a, desconta do pagam ento. — Ela m e enxota com seu espanador.
Seguro as penas do espanador e ela agarra o cabo, form ando um cabo de guerra.
— Seu chefe não se im portaria se você m e desse um — insisto. — Som os m uito am igos. — A m entira soa batida, m as não m e im porto, pois por trás do om bro da funcionária avisto um a névoa alaranj ada e brilhante; silenciosa e furtiva. Antes m esm o de Chessie se m aterializar, sei que é ele.
Sorrio por dentro. Ele m e ouviu.
Envio-lhe um a explicação silenciosa do que estou tentando fazer e Chessie assente com a cabeça, dando aquele sorriso largo e m aroto. Ele sem pre topa tudo, sem questionar, só pela diversão. Não é à toa que Morfeu o considera um valioso aliado.
— E sobre o roupão — digo à funcionária —, só preciso m esm o de um . Você pode dizer ao Hubert que ele criou pernas e saiu correndo. — Faço um leve sinal afirm ativo com a cabeça para Chessie. Deixando um rastro de listras laranj a e cinza, ele se infiltra na pilha de roupões aveludados dobrados no canto do carrinho.
— Eu tenho pernas curtas, na sua opinião? — a duquesa pergunta.
— Não. Por quê?
— Porque dizem que a m entira tem pernas curtas. E, com o eu não tenho, não pretendo m entir. — Ela arranca o espanador da m inha m ão e rosna: — Agora caia fora.
Assim que o “caia fora” sai da boca no focinho am assado, o roupão aveludado sai correndo pelo chão, arrastando as m angas atrás dele. A funcionária solta um ganido e seus olhos alaranj ados m ovem -se do roupão para m im .
— Parece que você não vai ter que m entir, afinal — com ento.
Ela atira o espanador para o alto e com eça a perseguir o roupão que, com Chessie por baixo, flutua com o um tapete m ágico. A funcionária tem de usar as quatro patas para alcançá-lo.
Assim que eles fazem a curva no corredor, apanho os m acacões transparentes e corro no sentido contrário até chegar a um a intersecção entre três corredores. Penso em Chessie e envio-lhe um agradecim ento m udo. Não m e preocupo com ele; sei que não será capturado a não ser que queira.
Viro o corredor e dou de cara com papai.
— Calm a! — Segura m eus om bros. — Por onde você andou?
— Tentando... achar você — m into, ofegante. O tecido faz volum e em m eus braços, sem ser visto, apenas sentido.
Papai não aprovaria o roubo. Mas isso m udará um a vez que estiverm os em Qualquer Outro Lugar e sua consciência der lugar à autodefesa.
Jeb vem à m inha cabeça. Ele é com o papai em m uitos aspectos. Protetor, m oralista e gentil. Será que perdeu seu sentido estrito de preto e branco, de certo e errado, para se adaptar a um m undo de crim inosos intraterrenos? Ele deve ter precisado fazer isso. É um sobrevivente. Sua infância é a prova.
Espero apenas que ele não tenha esquecido com o perdoar. E espero que Morfeu m e perdoe tam bém .
Mesm o assim , as coisas ainda serão com plicadas por causa da visão que a Rainha de Marfim m e m ostrou antes de voltar pela toca do coelho no dia da form atura e por causa do que um a vida com Morfeu significaria para o País das Maravilhas.
Sinto um a pontada no peito, lem brando-m e novam ente da Verm elha. Do que é im portante agora. Qualquer decisão sobre m eu futuro terá de esperar até que a Verm elha tenha corrigido o que quer que tenha colocado errado em m im e eu a tenha destruído.
— Por aqui. — Papai segura m eu cotovelo. — Bernard está nos esperando na sala dos espelhos.
Ignorando a pontada no centro do peito, retiro a sacola de viagem do om bro de papai. Ele está tão ocupado olhando os núm eros nas portas que não m e percebe reorganizando garrafas de água, barras de proteína, m ix de cereais, frutas, prim eiros socorros, lanternas e sortim ento de arm as para colocar no m eio deles os tecidos roubados.
Tecidos emprestados. Quando retornar, devolverei as roupas encantadas com um pedido de desculpas.
Minha respiração fica suspensa ao perceber que não há “quando” em nossa situação a partir de agora. Antes que papai e eu possam os encarar o m undo do espelho e resgatar os rapazes, ou aj udar m am ãe e consertar o País das Maravilhas, precisam os passar pelo portal e pelo portão.
Tudo — nossa vida, nossos am ores, nosso futuro — depende de um a única palavra: SE.
Papai pega a sacola de viagem de volta e entram os no quarto 42.
Ele j á m e instruiu sobre o que acontecerá assim que passarm os pelo portão de Qualquer Outro Lugar: com o pularem os para dentro de um funil sobrenatural de cinzas e vento que leva os prisioneiros para o centro do reino, e os guardas de um reino para o outro.
Prim eiro, porém , precisam os levar o portal de espelho para a entrada.
Esperava que as paredes do salão fossem forradas de espelhos. Em vez disso, o lugar é forrado de alm ofadas. A circunferência é m aior do que nosso quarto e não há m obília, som ente um a engenhoca circular no centro do assoalho. É tão alta que quase encosta no teto.
Cores vivas reluzem no exterior de m etal e lâm padas redondas alinhadas separam cada painel — extinto e sem vida. Lem bra um a pequena versão do Gravitron, um brinquedo que havia no parque de diversões. Era sem pre a prim eira atração que Jenara, Jeb e eu procurávam os quando o parque vinha para nossa cidade.
Um a nostalgia aguda ecoa em m im com gosto de algodão-doce e cheiro de cachorro-quente. Era com o m ágica, nós nos posicionávam os no interior de um cilindro e o brinquedo com eçava a girar tão rápido que o chão abaixava e nós continuávam os encostados à parede. Hoj e sei que não era m agia o que nos m antinha presos; era a força centrífuga. Hoj e sei tam bém o que é m agia de fato — e que ela tem um preço.
A saudade dos tem pos sim plórios com m eus dois m elhores am igos é tão aguda que dou um passo adiante e percorro com os dedos os painéis lisos e gelados para m e distrair. Um zum bido alto dispara ao m esm o tem po que o m otor liga e luzes com eçam a piscar — brilhantes e espalhafatosas. Papai m e em purra para trás.
— O que foi que eu fiz? — pergunto.
— Nada. Está tudo bem . Absolutam ente correto. — Ele sorri com um a expressão distante. Seus olhos brilham com o os de um m enino m aravilhado com as luzes que piscam .
— Papai, você nunca m e contou... Com o você foi parar no portão para o País das Maravilhas?
A ponta de seus dedos assum e onde os m eus haviam parado, e ele alisa os painéis de m etal.
— O tio William estava m e ensinando com o abri-lo, apenas nós dois, e de repente ele caiu de j oelhos. Não conseguia respirar. Eu era pequeno dem ais para conseguir arrastá-lo para o funil de vento e sabia que, se fosse em busca de aj uda, ele estaria m orto quando eu voltasse com alguém . — Papai com prim e os lábios, com o se a confissão tivesse um gosto distinto: azedo e cortante. — Ele com eçou a ficar roxo. Entrei em pânico. Eu tinha ouvido histórias sobre o País das Maravilhas. Que as criaturas tinham poderes curativos. Eu m e enfiei pelo portão... pensando que assim conseguiria aj uda m ais rapidam ente. Eu sabia que elas poderiam ser m alignas, m as tam bém tinha ouvido falar que algum as eram boas. Infelizm ente, encontrei prim eiro as m ás. — Ele pressiona a testa contra a m áquina. As luzes piscam e se refletem em seu rosto enquanto ele fecha os olhos com força.
Ponho a m ão em seu om bro, assom brada pela im agem dele preso na toca da Irm ã Dois, em aranhado na teia de raízes cintilantes presas em sua cabeça e seu peito. Seus sonhos estavam sendo sugados para alim entar os m ortos inquietos. Por dez anos ele foi o estim ado m enino sonhador da Irm ã Dois, até que m am ãe o resgatou. Não era o m om ento de contar-lhe que talvez ele enfrentasse o m esm o m al quando chegássem os ao País das Maravilhas. Nem que a Irm ã Dois talvez estivesse com m am ãe presa em suas garras pegaj osas, a m enos que de algum m odo ela tenha conseguido escapar.
— Papai, você era apenas um m enino. Tom ou a única decisão possível. Estava certo tam bém . Se seu tio estava com eçando a ficar roxo, ele não teria sobrevivido a tem po de você voltar com alguém .
Papai suspira e levanta a cabeça.
— Ele teve um derram e. Bernie m e contou que o encontraram m orto perto do portão em que eu havia desaparecido. — Estreitando os olhos, ele leva o polegar até um a fresta entre dois painéis e a pressiona. Dá um passo para trás, um a porta se abre e um a escada com degraus m otorizados se estende até o chão.
Tio Bernie coloca a cabeça para fora de um a das entradas da engenhoca. Está usando um uniform e novo de cavaleiro Branco.
— Vej o que você se lem bra de com o entrar. É um bom sinal.
E de repente a tristeza de papai desaparece. Ele dá um m eio sorriso e passa a sacola para tio Bernie.
Encaro-o incrédula. Prim eiro, vej o-o lutar com o um especialista. Agora ele dom ina a arte das passagens secretas. Com o este pode ser o m esm o hom em que m e criou? O hom em que lia os livros de figuras fazendo vozes engraçadas, preparava m inha m erenda e nunca esquecia que eu gostava de biscoito com recheio de m açã?
Eu o achava tão norm al. No entanto, ele levava um a vida extraordinária antes de se perder no País das Maravilhas.
Papai m e aj uda a subir as escadas atrás dele. Do lado de dentro, deparam o-nos com inúm eras im agens de nós m esm os entre quadrados pretos e brancos refletidos no chão. Espelhos e m ais espelhos distribuídos pelo interior arredondado cobrem as paredes e o teto abobadado, form ando reflexos que refletem outros reflexos até que não exista m ais com eço ou fim . A ilusão do infinito.
Cavalos de carrossel — em cores vivas e poses estranhas — parecem brotar do chão xadrez, captados nos reflexos, apesar de não haver nenhum onde nós estam os.
— O carrossel... está pintado nos espelhos? — Assim que pergunto, percebo que são com o os espíritos de m ariposa no corredor espelhado da casa de Morfeu no País das Maravilhas, exceto pelo fato de que os cavalos não estão presos nos reflexos. Estão por trás deles, de algum a m aneira.
— Você vê o carrossel? — papai pergunta. Ele e tio Bernie trocam olhares de surpresa.
— Parece que sua m enina herdou algo m ais do que o senso de hum or dos Skeffingtons — tio Bernie brinca, dando um tapinha no alto da m inha cabeça enquanto nos encam inha para o corredor estreito.
Papai segura m inha m ão e m e conduz através do espaço arredondado.
— O que você enxerga é o outro lado do portal, Allie. Nenhum a das m ulheres de nossa fam ília dem onstrou essa habilidade.
Tio Bernie concorda, abanando a cabeça.
— Pode ser da linhagem da Alison.
Com o se adivinhasse que vou estrem ecer ao ouvir o nom e de m am ãe, papai aperta m inha m ão.
— Os reflexos refletidos... — Ele faz um gesto, indicando tudo à nossa volta. — O labirinto de im agens sem fim ... são com o um a ilusão de óptica. Som ente aqueles que têm o gene podem decifrar o efeito duplo do espelho. O carrossel está do lado de fora da entrada para o m undo do espelho. A cavalaria o m ontou décadas atrás, peça por peça, porque a área ao redor do portão é árida. Precisávam os de algo para m irarm os do outro lado. Agora, assim que discernirm os qual cavalo é real e qual é apenas reflexo, saltam os e m ontam os neles através do portal.
— Certo — eu digo com cautela —, m as por que vocês não podem usar um a sala com espelhos com o ponto de partida? Por que um Gravitron?
— Bem , não foi sem pre assim — tio Bernie responde enquanto abre um painel de circuitos e aciona algum as chaves. — Anos atrás, antes de essas geringonças serem aperfeiçoadas, nossos ancestrais costum avam ir a parques de diversões em busca de atrações com o as casas de espelhos. Era perigoso. Eles corriam o risco de ser vistos por outros caçadores de em oções. Então, com eçaram a construir suas próprias salas de espelhos infinitos. Mas é difícil ter im pulso suficiente para saltar pelo portal. Lá pelos idos de 1950, com eçam os a ver algum as atrações nos parques de diversões que nos inspiraram a usar a força centrípeta em nosso favor.
— Pensei que era centrífuga. — Sinto-m e zonza, e a m áquina ainda nem foi acionada.
— A força centrífuga é reativa — m eu tio explica. — Existe apenas por causa da centrípeta. Se você com eçar a rodopiar e esticar o braço segurando um m artelo, estará exercendo a força centrípeta para fazer o obj eto seguir um a traj etória curva. Mas vai sentir que o m artelo está puxando sua m ão. Essa é a força centrífuga: um a coerção na direção oposta. Nossa m áquina foi elaborada para usar am bas as forças um a contra a outra, de m odo que, quando o chão se destacar, seu corpo será lançado para a frente, com o o que aconteceria com o m artelo se você o largasse. Isso torna a entrada m ais sim ples.
Suspiro, bufando.
— Nossa, parece tudo... m enos sim ples. — Nem paro para pensar em com o aterrissarem os em cim a dos cavalos de carrossel sem m achucar partes im portantes de nosso corpo. As leis da natureza são diferentes do outro lado e, de algum m odo, isso deve influenciar. Entretanto, ainda sinto vergonha ao m e lem brar de com o m e espatifei contra o espelho na noite da form atura. De com o o vidro se estilhaçou e cortou m inha pele. — Se m irarm os m al, deve ser bem dolorido.
— Dolorido, m as suportável. — Tio Bernie fecha a porta da engenhoca. Raios alaranj ados penetram pelas frestas entre os painéis, vindos do lado de fora. — É assim que se adquire sabedoria. Levando um a pancada no coco ou no nariz. Aprendem os pelos nossos erros, não é verdade?
Sinto o diário em m eu pescoço. A menos que, como a Vermelha, você escolha esquecer seus erros e, nesse caso, nunca aprender.
— Tem um truque — papai acrescenta. — Se olhar bem de perto, alguns cavalos têm som bras provocadas pelas luzes do carrossel. Outros, não. Os que têm som bras são os reais.
Foco no carrossel, assustada por ter de escolher tão rapidam ente os que são reais. Só de pensar que serei atirada em direção a um painel de vidro em alta velocidade m inha pulsação se acelera tanto que sinto o sangue correr pelas veias. Posso j á ter saltado de um a borboleta no m eio de um a noite de tem pestade, m as isso aqui não é o m esm o que voar. Não terei vento nenhum para planar. Não terei controle sobre nada.
Agora sei o que Morfeu sentia quando tinha m edo de andar de carro, e não é m uito engraçado quando se está do lado de cá.
O m otor do Gravitron ronca debaixo de m eus pés.
Papai aperta seus dedos entre os m eus.
— Esse é o único j eito de entrar e salvar sua m ãe e Jeb. Segure em m im e salte quando eu saltar. É m inha vez de criar asas.
Um sorriso nervoso se esboça no canto de m inha boca.
— E, por falar em asas — Tio Bernie aponta m inhas costas —, você deveria recolhê-las por enquanto. O portal é m uito pequeno. Não querem os que fique presa.
Fico contrariada. Já tinha m e acostum ado a deixá-las expostas — ao poder que m e conferem . Reabsorvê-las é algo fácil, depois de tanta prática no sanatório, em bora eu estranhe a falta de peso no m esm o instante em que se vão.
Agarro a m ão de papai e não a solto enquanto nos posicionam os contra a parede de espelho. Tio Bernie segura a sacola de viagem de papai, j á que ele e eu som os novatos. Ou m elhor, o corpo adulto de papai é iniciante nisso tudo.
O zum bido do m otor fica m ais alto à m edida que vai girando m ais e m ais, até que nossas costas estão totalm ente coladas ao espelho e ficam os im obilizados no lugar, com o os insetos que eu costum ava colecionar. Meus pulm ões se esprem em com o se estivessem encolhendo. Estou tão desorientada que não consigo distinguir nada a não ser um borrão nos reflexos. Reprim o a bile que vai subindo pelo esôfago.
No m om ento em que penso que vou devolver os ovos beneditinos, papai grita:
— Agora!
Ouve-se o barulho de um a alavanca sendo acionada. O chão se retrai e som os ej etados para a frente, papai e eu unidos por um a corrente de m ãos e dedos, com o naquela vez no País das Maravilhas que Jeb e eu navegam os pelo abism o em carrinhos de chá.
O vidro vem em nossa direção. Solto um grito e o espelho se afunda com o um a bolha que estica e nos envolve, estourando em seguida, quando som os lançados no outro reino.
Papai solta m inha m ão. Por um instante, flutuo e pouso em cim a de um cavalo do carrossel que se m ove sincronizado com o Gravitron do outro lado.
Um odor fétido e úm ido nos envolve, com o o de um brej o estagnado. Papai não exagerou quando disse que tudo era árido por aqui. As únicas luzes vêm do carrossel. Olhando de perto, são na verdade insetos biolum inescentes dentro de globos de vidro. Um firm am ento plúm beo paira acim a de nossa cabeça — um a névoa do nada.
Um a brum a negra encobre tudo ao nosso redor, tão espessa que não distingo nada além da plataform a da m áquina. Não há som algum ; até a engrenagem do carrossel se m ove em silêncio.
Papai e tio Bernie pegam suas m ontarias à m inha frente. Phillip, o prim o de papai, vestindo um uniform e de cavaleiro Verm elho, j á está sentado em um banco ao lado do cavalo do tio Bernie. Agarro-m e à barra de latão que segura m inha m ontaria no lugar. Pequeninos espelhos a cobrem . Através deles enxergo o interior do Gravitron. É por onde saím os e por onde os cavaleiros devem , de algum m odo, voltar para lá. Parece fisicam ente im possível, considerando nosso tam anho em contraste com os pequenos cacos de vidro brilhante.
A adrenalina que pulsa dentro de m im vai desacelerando à m edida que a m áquina para. Papai pega a sacola de tio Bernie e m e aj uda a descer. Minhas pernas oscilam , com o se precisassem reaprender a andar.
Juntos, nós quatro nos afastam os das luzes e penetram os no nada. Minhas botas deslizam com o se estivessem no ar. Parte de m im esperava por um lam açal debaixo dos pés. A brum a esquisita borbulha na altura de nossos j oelhos e, perto dos calcanhares, se assem elha a um caldo fervente fum egando, em bora nada estej a m olhado. A névoa tem a qualidade de absorver os sons, engolindo o ruído de qualquer suspiro, respiração, m ovim ento de roupas ou passos.
Um portão branco e brilhante sobressai a distância. Por trás dele se avista a cúpula de ferro, escura e am eaçadora com o um gigantesco caldeirão de bruxa virado para baixo.
Detenho-m e. O plano que m eu tio e seu prim o arm aram — distrair o olho do portão enquanto papai e eu nos infiltram os — é perigoso dem ais. Com as roupas de sim ulacro, tem os passagem garantida. Mas precisam os vesti-las antes de chegarm os perto o suficiente para o olho do portão nos ver.
Seguro na sacola que está no om bro de papai, fazendo-o parar.
— Preciso m ostrar um a coisa a você — tento dizer, m as o som é absorvido antes m esm o que deixe m inha boca. Tio Bernie disse que a com unicação seria difícil aqui. Eu j am ais im aginaria que nossas palavras seriam tragadas pelo vazio.
Pego a sacola e visto o sim ulacro sobre a roupa. O tecido transparente aj usta-se sobre m eus om bros e m inha cintura. Aj eito o tecido excedente nas pernas e am arro-o para que cubra as botas.
Então, concentro-m e no que está à m inha volta e estico os braços. O tecido se encolhe, aj ustando-se sobre m inhas roupas com perfeição. Mantenho-m e concentrada na paisagem que m e cerca e ela com eça a se transferir para m im . Apenas as m ãos podem ser vistas para fora dos punhos encantados. O resto do corpo desapareceu. Coloco as m ãos para dentro dos punhos e, exceto pela cabeça flutuante, m e transform o em um nada.
Phillip e tio Bernie aprovam , fazendo um gesto com a cabeça.
Em poucos m inutos, papai tam bém está com seu disfarce e invisível. Por não poder falar, tam bém não pode m e interrogar sobre onde arrum ei essa cam uflagem e m uito m enos brigar com igo pelo m odo com o a obtive. Ele enfia a sacola debaixo do braço por dentro do m acacão para escondê-la. O capuz esconde nosso rosto de m odo que podem os enxergar sem serm os vistos.
Nossos acom panhantes se dirigem para o portão. Nós os seguim os, m antendo certa distância para não esbarrarm os acidentalm ente nos cotovelos e nos pés um do outro. À m edida que nos aproxim am os, aquilo que pensei serem barras são na verdade tentáculos escam osos e brancos, contorcendo-se com o cobras albinas. Sou tom ada de um a súbita em oção. Nenhum m edo. Nenhum trem or.
Apenas um sentim ento avassalador de solidão, tão vasto quanto o nada que nos rodeia.
Em algum lugar daquele portão estão m eus dois cavaleiros — a luz e a som bra. Morfeu deve estar decepcionado com igo por m inha falha colossal quando destruí as entradas e saídas para seu am ado País das Maravilhas. E ainda há Jeb, que acredita que rej eitei o am or m ais puro e devoto que j á conheci.
Nas últim as sem anas, estive concentrada no bem -estar deles. Mas o que dizer de seu estado em ocional? Jeb pensa que o traí. E Morfeu fará tudo para reforçar esse engano a cada chance que tiver.
Talvez não sej a com os prisioneiros assassinos ou as criaturas selvagens que eu deva m e preocupar. Seria quase engraçado pensar que Morfeu se apiedou de Jeb e o aj udou. Tudo o que espero é que, por algum m ilagre, cada um tenha tom ado seu rum o sem m atar um ao outro.
Mais um a vez, m eu coração está dividido entre duas direções — um a sensação ardente, física e real. Cerro os dentes por baixo do véu invisível e m e esforço para seguir nossos acom panhantes.
Chegam os perto do portão, da altura de um prédio de três andares. Tio Bernie alisa os tentáculos serpenteantes. Nem m esm o um ninho de anacondas equivaleria a seu tam anho. As escam as m urcham e relaxam por cim a dos m úsculos ondulantes. Não há dúvida quanto à form a com o o portão m ata suas presas. Um a sim ples esprem ida esm agaria qualquer um que violasse a passagem .
Esses tentáculos poderiam aniquilar exércitos inteiros. E provavelm ente j á o fizeram .
A im agem é tão m edonha que solto um gem ido — e agradeço pela névoa engolidora de sons. Ao centro do portão, um apêndice ofídio se destaca dos outros. Um a protuberância alongada, sem elhante a um a planta carnívora, tom ba na frente de m eu tio e de Phillip. Ela tem a m etade do tam anho de um hum ano. As bordas dentadas se abrem , virando longos cílios, e de dentro espia um único globo ocular prateado, com a pupila negra fendida com o um olho de cobra. Contenho um arrepio.
As pestanas piscam , lenta e cautelosam ente.
Tio Bernie e Phillip estão à nossa frente. A criatura escam osa analisa-os de perto, dos pés à cabeça. Quando ela se ergue para olhar sobre seus om bros, prendo a respiração, receosa de que perceba m inha presença ou a de papai.
O olho aperta-se e cerra as pestanas, depois se m istura aos dem ais tentáculos. Então, eles se agrupam para o lado, com o cortinas sendo abertas. Avançam os j untos com o um só corpo. Meus cabelos se eriçam quando recolho o cotovelo para não esbarrar nas escam as.
Não ouso respirar até o portão se fechar atrás de nós.
Papai e eu retiram os o capuz e dam os um suspiro de alívio. Seu irm ão e o prim o m e dão um tapinha nas costas e direcionam -se para o alto da plataform a de pedra nas laterais do portal, j unto aos cavaleiros a quem vão substituir. Avisto, m ais à frente, um redem oinho de cinzas e vento parecido com os tornados brancos dos program as de m eteorologia.
A névoa de nada se prolonga entre a plataform a onde estam os e a paisagem de Qualquer Outro Lugar. O vapor brilha esverdeado, com o se fosse radioativo. De acordo com o que tio Bernie explicou anteriorm ente, em vez de absorver ruídos, suga tudo o que tente atravessá-lo.
Am bos os portões destacam -se do solo de certa m aneira. O sorvedouro verde brilhante retém os prisioneiros, tornando im possível que ataquem o portão. Eles teriam de controlar os funis de vento para atravessar. O outro olho, aquele que costum ava tom ar conta do lado de cá do portão, era m entalm ente conectado aos funis. Os cavaleiros m oldaram m edalhões com os restos da criatura e agora se aproveitam dessa força para trafegar em segurança, entrando e saindo de Qualquer Outro Lugar.
Após um a breve conferência com os cavaleiros, tio Bernie desce e oferece a papai um pom bo m ecânico.
— Aperte o botão abaixo da garganta dele — ele diz, dem onstrando. — Quando o bico se acender, grave a m ensagem . Assim que encontrarem o garoto e chegarem ao País das Maravilhas com os suprim entos, enviem -nos um a m ensagem para saberm os que está tudo certo. O pom bo nos encontrará. Ele é banhado em ferro para evitar que algum prisioneiro o detecte. Vocês têm um dia. Se não tiverm os notícias em vinte e quatro horas, seguirem os o sinal do pom bo e os encontrarem os.
Papai pega o pássaro de ferro, enfia-o na sacola e tenta falar. Nenhum som .
Tio Bernie explica:
— Você ainda não desenvolveu tolerância à névoa negra que inalou. — Sua voz vai aum entando à m edida que o redem oinho se aproxim a. — Suas cordas vocais perm anecerão desse j eito por m eia hora ou m ais. — Ele gesticula apontando para trás, e vem os o funil chegando cada vez m ais perto. Raj adas de vento j ogam m inhas tranças contra o rosto e o pescoço.
— Lem bra-se de com o fazer isso? — m eu tio grita para papai.
Ele assente com a cabeça.
— Entrem e agarrem -se bem firm e — tio Bernie avisa. Ele pega um m edalhão do pescoço e o segura, erguido. Um a pedra oval esbranquiçada reluz no centro do pingente e raios verm elhos finíssim os correm através dela, com o veias de sangue. Um a arm ação de m etal fosco envolve a estranha pedra. — Daríam os a vocês um m edalhão com o este, m as não podem os arriscar que caia em m ãos erradas. Já que vocês têm que encontrar um a pessoa, vou fazer com que o funil os largue no local onde deixam os os prisioneiros. Mas fiquem atentos. As terras têm estado im previsíveis ultim am ente e, j á que os ciclones estão atrelados a ela, tornaram -se indom áveis. É por isso que não tem os certeza de onde vocês cairão. Providenciam os um m apa. Procurem os dois portões verdes brilhantes onde estiverem . São o norte e o sul. Usem -nos com o referência ao m apa. E, acim a de tudo, perm aneçam j untos.
Papai concorda, fazendo um gesto com a cabeça. Tio Bernie nos abraça e nos direciona ao funil que se aproxim a. Vej o a m ão de papai desaparecer por dentro do disfarce e ele segura a sacola contra o corpo. Lança-m e um olhar bem profundo. Quero pular em seu colo e m e esconder, com o fazia quando era criança.
Agora, porém , além de m oça, sou rainha. E sou a única responsável por tudo isso. Não há com o esconder-m e. Levanto o queixo. Estou pronta.
Colocam os o capuz para nos proteger das cinzas e entram os, segurando firm e enquanto nossos pés são suspensos e o corpo rodopia. Em questão de m inutos, o funil se abre, revelando um a colina coberta de neve que se aproxim a rapidam ente abaixo de nossos pés. Árvores esparsas e sem folhas pontilham a paisagem . Não avisto m ais a cúpula de ferro acim a da cabeça. Apenas um falso firm am ento entre a cúpula e o chão, parecendo um céu alaranj ado. Um arom a de fum aça chega às m inhas narinas por baixo do tecido, com o se houvesse um incêndio por perto.
Som os ej etados para o topo da colina e, com o baque da queda, nos separam os. Papai tenta m e segurar, m as rola para baixo na direção oposta. Seu capuz abaixa e vej o o rosto e o pescoço. É um a im agem terrível, com o se ele estivesse decapitado. Cravo as unhas através do tecido, tentando agarrar-m e na neve. Mas não é neve. A colina está recoberta de cinzas, com o o funil por onde chegam os. O solo se desfaz sob m eus dedos, fazendo-m e deslizar e perder papai de vista.
Lem bro a m im m esm a que ele esteve aqui quando era criança e sobreviveu, e que desta vez, tem a vantagem da invisibilidade e de um a sacola cheia de arm as.
Meu corpo gira lateralm ente e o capuz se aperta m ais enquanto escorrego pela encosta em poeirada. Meus ossos chacoalham na descida áspera e, chegando ao pé da colina, sou atingida no estôm ago por um a pedra do tam anho de um a bola de futebol. O im pacto deixa-m e sem ar.
Esforço-m e para respirar.
— Ora, ora! O que tem os aqui? — O forte sotaque britânico ressoa com o veludo em m eus ouvidos.
Espio através do capuz. Morfeu está de pé do outro lado, olhando em m inha direção. Ele resplandece sob a luz alaranj ada; um halo azul irradia de seus cabelos. A cam iseta lilás por baixo do casaco de tapeçaria azul-m arinho harm oniza com sua pele alva. Calças listradas definem a silhueta alongada. Sobre a cabeça, um chapéu m eio de lado. E, em bora eu não vej a as m ariposas dispostas em volta da tira do chapéu, sei que estão ali.
Ele segura um a bengala. A parte de cim a ostenta um a águia tão real que poderia estar num a loj a de taxiderm ia. Asas e penas recobrem a haste e quatro patas despontam da base, recobertas de um a pelagem dourada com o a dos leões. Garras enorm es sobressaem .
Morfeu continua estiloso e excêntrico com o eu m e recordava. De algum m odo, este lugar não o alterou. Estou tão feliz que quero abraçá-lo — até notar as j oias verm elhas brilhando nas bordas de seus olhos.
Ele coloca a bengala sob o braço e se aproxim a, baixando as asas. A raiva endurece suas feições delicadas.
— Esperava nunca m ais ver sua cara por aqui.