Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 12 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 12

12

 

 

Salas

 

Jeb inspeciona a m ão enquanto tento avaliar a gravidade do ferim ento. Seu hum or m uda para o acusatório em um piscar de olhos.

— O que você tem dentro desse livro? Por que ele m e queim ou?

— Eu não sei — m urm uro a ele e tam bém a m im m esm a.

O diário m e protegeu pelo m enos duas vezes desde que estou dentro desta m ontanha. Será que ele acha que Jeb tam bém é um perigo para m im ?

Será que é?

— São só palavras — eu acrescento. — Palavras m ágicas. Não têm nada a ver com você. — Não posso ser m ais específica ou ele descobrirá que estou planej ando procurar a Verm elha enquanto ele e papai estiverem fora.

Jeb estreita os olhos, com o se não tivesse acreditado. Fico desnorteada, perguntando-m e m ais um a vez de onde vêm toda essa anim osidade e desconfiança.

Papai escolhe este instante para voltar para a sala. Ele percebe m eu estado sem ipintado e rapidam ente desvia o olhar.

— Está tudo bem com vocês dois?

— Não poderia estar m elhor — diz Jeb.

Papai pega a sacola e a coloca em cim a da m esa para olhar os suprim entos com as costas para nós, um truque óbvio para nos dar privacidade.

Não que precisem os de algum a. Jeb acrescenta algum as coisas — um a fita de renda na barra da cam iseta para cobrir m eu um bigo e a parte inferior das costas, e m eias-luvas com binando —, tão desligado de seus m ovim entos que m e sinto com o se fosse um a boneca unidim ensional e ele estivesse colocando roupas de papel em m im .

Quando term ina, ele m e conduz até o espelho basculante para que eu possa vê-lo tocar cada peça pintada com a ponta do pincel, agora aceso com m agia violeta.

O pigm ento dourado em m inhas pernas se torna um a m eia-calça cintilante sem pés que term ina nos tornozelos. Ele estica e dobra, feito Spandex. As duas cam adas em xadrez verm elho, m arfim e verde que ele pintou da cintura até o m eio da coxa form am as costuras dianteira e traseira de um a m inissaia, e a cam iseta preta se alarga, adquirindo um talhe confortável. O crânio m arfim e os ram os dourados na frente dela se inflam , com o se fossem um bordado com fios m etálicos.

Ele solta m eu cabelo e roça o pincel em m inhas ondas platinadas. Ergo a m ão para tocá-las e sinto um a bandana em form a de tiara com rosas brancas e rubis cintilantes que com binam com m inha m echa verm elha.

Pela prim eira vez em um m ês, sinto-m e eu novam ente. Parte intraterrena e parte hum ana — e um toque de m aj estade.

O reflexo de Jeb aparece atrás do m eu, com o queixo acim a da m inha cabeça. Ele coloca o diário e os cordões com as chaves no lugar, com cuidado para tocar som ente nos cordões.

— Vou repetir m ais um a vez — ele diz. — Não deixe as roupas se m olharem .

Eu m e viro para agradecer-lhe por m e dar essas coisas lindas, m as ele j á está do outro lado da sala, discutindo a m issão ao portão do País das Maravilhas com papai.

De volta para trás do biom bo, verifico sob as roupas. As bandagens se uniram à roupa pintada, deixando som ente os presentes rendados de Morfeu intactos. Coloco m inhas botas de Barbie sobre a m eia-calça. Decidim os que era m elhor eu ter sapatos à prova d’água. Assim que eu sair, papai e Jeb m e acom panharão até o farol.

Papai m e dá um abraço e instruções rigorosas para que eu não m e m exa até eles voltarem . Juntos, eles retornam ao barco. Eu m e regozij o em silêncio, rindo de com o eles esqueceram que posso voar, quando Jeb para no m eio das escadas de pedra, diz algum a coisa a papai e volta para perto de m im .

Ele apoia a m ão sobre o batente da porta acim a da m inha cabeça, inclinando-se sobre m im , com os traços fortes ilum inados pela lua.

— Eu sei que está planej ando sair — ele diz.

Reprim o um a negação, furiosa por ele ter previsto cada m ovim ento m eu quando eu nem consigo extrair um a m igalha dos pensam entos dele.

— Só existem dois m odos de sair deste refúgio — ele continua. — O prim eiro é o cam inho que você usou para entrar. Eu ordenei às pichações que não a m achucassem , m as tam bém não a deixassem sair daquele túnel. E, se você tentar tirar água deste oceano, ele vai evaporar assim que você o retirar do cenário. O outro m odo é a passagem pela m ontanha e eu sou o único que a controla.

A intraterrena em m im está im pressionada pelo seu novo papel de m estre m anipulador. Mas o lado hum ano, o que sabe que este não é o verdadeiro Jeb, tem m edo do que ele se tornou.

— Aproveite esse tem po — ele insiste. — Descanse e preserve suas forças para o País das Maravilhas. Não vai ser um piquenique para você nem para o seu pai. — O velho Jeb aparece de relance quando ele hesita, e eu m e pergunto se pensou no que significará para nós o fato de ele perm anecer em Qualquer Outro Lugar. Será um adeus definitivo.

Ele baixa a m ão queim ada e olha com atenção para a cicatriz recente.

— Você não m e disse o que tem nesse caderno aí.

Eu aperto o diário entre os dedos.

— Eu disse que eram só palavras.

Ele bufa.

— Bem , então parece que são palavras que sem pre vão ficar entre nós, não é? — Depois de dizer isso, ele parte. A frase “Às vezes, as palavras falam m ais alto do que as ações” ecoa no ruído da sola de suas botas arranhando os degraus de pedra.

O que eu posso ter dito da últim a vez que estivem os j untos que pareceu tanta traição e destruiu a fé que ele tinha em nós dois?

Cerrando os dentes, eu bato a porta. Apesar do que Morfeu queria que eu acreditasse, existe algo m ais do que raiva, ciúm e e arrependim ento dilacerando o Jeb que eu conheço. Talvez a m agia intraterrena sej a dem ais para qualquer m ortal controlar sem ir à loucura.

Sento-m e na cam a da torre. Preocupada com a excursão de Jeb e papai e desorientada pela escuridão perpétua, deixo as cortinas em dossel abertas e deito-m e de lado para observar o céu estrelado através da vigia. Inalo o ar salgado e planej o m inha fuga: depois de algum tem po que Jeb e papai tiverem saído, vou procurar Morfeu nas salas de baixo. Ele deve conhecer algum a outra saída da m ontanha. Vam os usar o diário para nos conduzir até a Verm elha. Em bora eu não saiba ao certo com o encontrarem os o cam inho de volta depois disso.

As pálpebras com eçam a pesar e eu adorm eço...

Em algum lugar de m eus sonhos, vislum bro lam pej os de m am ãe. Seu cabelo está com prido agora, m uito abaixo dos om bros, e brilha em um tom suave de rosa. Ela parece saudável, radiante de m agia. Está com Grenadine no castelo Verm elho, substituindo as fitas sussurrantes da m inha rainha substituta na ausência de Bill, o Lagarto. Todos os dias, m am ãe gentilm ente recorda Grenadine das coisas de que ela precisa se lem brar. Por causa disso, ela é respeitada e reverenciada pelos súditos da corte.

Mas há algo som brio se infiltrando que não respeita ninguém ... um tem or obscuro que rastej a pelos m uros do castelo e penetra em suas frestas.

Antes que esse m al possa tom ar o palácio, chegam a Marfim e seus cavaleiros. A Marfim sopra um a névoa prateada que congela tudo o que toca, incluindo os guardas de cartas. Depois, ela leva m am ãe e Grenadine para um lugar seguro. Um lugar de luz e esperança radiantes.

O sonho term ina, deixando o local em que elas estão com o um m istério. Tudo o que sei é que m am ãe encontrou um refúgio.

Sem saber por quanto tem po dorm i, pulo correndo da cam a e atravesso a porta. No m om ento em que o ar m e atinge, liberto m inhas asas. Meio voando e m eio dorm indo, desço os degraus na direção da costa. Dou um salto no últim o segundo. Minhas botas raspam na água, e então alço voo.

Lem bro-m e de com o m am ãe voou ao m eu lado no baile de form atura. Morfeu certa vez m e disse que ela e eu tem os um a conexão incom um . Que ele era capaz de usar os sonhos dela com o veículo para os m eus. Talvez ela tenha encontrado algum a form a de reverter esse poder e se com unicar com igo. Talvez por eu estar aqui em Qualquer Outro Lugar, tão próxim o do País das Maravilhas, ela tenha conseguido se com unicar — porque o sonho que tive m e pareceu um a prem onição.

Meu corpo fica m ais leve e eu voo m ais alto, com o se pensar nela tivesse aj udado a m e elevar. As ondas vão ficando m enores, cada vez m ais longínquas. Sua crista parece a espum a de um cappuccino, a água escura com o o café, só com o luar para ilum iná-la.

Quando chego aos corredores da m ontanha, absorvo m inhas asas e vou diretam ente ao estúdio de Jeb — a única porta entreaberta. O sol está brilhando, então talvez eu não tenha dorm ido por tanto tem po. Olho para a m esa e os pincéis. O que ele usou em m inhas roupas ainda brilha com a m agia violeta.

Pego o pincel e sigo a direção que Morfeu tom ou quando saiu escoltado pelas m ariposas. Cinco portas se alinham no corredor sinuoso. Mexo em cada m açaneta ao passar, sem m e surpreender por encontrá-las trancadas.

A prim eira porta é confeccionada inteiram ente de bolas de gude. A m adeira da seguinte está danificada por queim aduras de cigarro. Outra é feita de casca de árvore, cheia de nós, com folhas de salgueiro penduradas. Pétalas de rosa verm elhas e aveludadas form am a próxim a, ao lado da últim a. Eu acaricio as flores m acias e inalo a delicada fragrância, pensativa.

— Morfeu! — cham o em voz alta. Sem ouvir nada, decido abrir todas e encontrá-lo pelo processo de elim inação. Não há buracos para chave. Lem bro-m e então de que, cada vez que Jeb abre a porta de diam ante, ele sim plesm ente ordena que a m açaneta de rubi se abra.

— Abra — digo para a porta de bolas de gude, m as nada acontece. Ergo o pincel lum inescente e roço as cerdas na m açaneta. Nada. Então, percebo que o cordão com o diário está brilhando. Não só isso, está tentando alcançar a m açaneta, esticando o cordão com força em volta do m eu pescoço, com o se estivesse m agnetizado.

Franzindo a testa, inclino-m e para que ele possa tocar na m açaneta de m etal. Form a-se um a centelha e ouço um clique. Colocando o pincel de lado, abro a porta e adentro em um a réplica exata da porta de entrada da casa de Jenara e Jeb.

— Al? — Jenara cum prim enta.

Fico sem ar. Seus olhos são indiferentes e sem em oção, com o os da cópia de Jeb. O cabelo cor-de-rosa está preso em um coque e ela usa um a legging de xadrez branca e preta com um a túnica m etálica prateada.

— O que a traz aqui? — Ela age com o se m e ver fosse a coisa m ais natural do m undo.

A em oção fecha m inha garganta. Quero m e atirar em seus braços. Mas esta não é a Jen. Ela não é nada m ais do que um reflexo vazio da m inha m elhor am iga.

— Mãe! — Jen grita. — A Al está aqui! Faça uns biscoitos ou algum a coisa parecida para a gente. — De braços dados, ela m e conduz para a som bria sala de estar.

Minha pele se arrepia. Ela parece Jenara. Age com o Jenara. Contudo, pela m inha experiência com algum as das criações de Jeb, ela não m erece confiança.

— Olá, Aly ssa. — A voz de um hom em sai do canto m ais escuro da sala, de trás de um a plataform a de m adeira proj etada com rodas e polias. — O Jeb está com você?

— Hum ... — respondo, reconhecendo vagam ente a voz.

Jenara acende um a lum inária de chão, ilum inando a engenhoca de m adeira, que tem as palavras RATOEIRA DO LINGUARDARTE pintadas na frente.

— Não — m urm uro, incrédula. É o m esm o aparelho que estava no fundo da toca do coelho quando eu e Jeb caím os lá na prim eira vez e que abriu a porta para o j ardim de flores e a loucura.

E deu início a tudo...

O pai de Jeb está de pé atrás do labirinto de m adeira, brincando com um a das polias. Seu perfil parece j ovem e gentil — nada parecido com o hom em am argo e desgastado que ele era antes de m orrer.

Sinto náuseas. Jeb o trouxe de volta à vida nessa versão m ais gentil para reviver seus m om entos ideais em fam ília. É sentim ental, é triste, e é perturbador.

— Bom , ele deve estar a cam inho — diz o Sr. Holt, e m e encara. Eu reprim o um gem ido. Seus olhos são laranj a, trem eluzindo feito a ponta acesa de um cigarro. Quando ele pisca, caem cinzas sobre seu rosto, deixando rastros. — Este é o j ogo favorito dele. — Ele j oga bolas de gude em um a das ram pas. — E ele m e deve um a revanche.

— Você está esperando que ele o deixe ganhar desta vez, papai. — Jenara dá risada. Ele pisca para ela, fazendo caírem brasas por seu rosto.

Eu estrem eço.

— Olha, eu tenho que ir. — Afasto-m e, com Jen e seu pai m e seguindo.

— Mas você acabou de chegar — ela diz com voz m ais am eaçadora do que am istosa.

Eu esbarro em algo m acio e giro no calcanhar.

— Biscoitos? — A rechonchuda m ãe de Jeb sorri para m im e oferece um a travessa cheia de guloseim as. Biscoitos de chocolate, lâm inas de barbear suj as de sangue e vidro quebrado parecem ser o sabor do dia.

— Este não é o m eu lugar — eu sussurro, incapaz de tirar os olhos dos petiscos m ortais.

— Não é m esm o — concorda o Sr. Holt. — Porque estam os aqui para fazê-lo feliz. E você o deixou triste. Mas nós vam os consertar isso. Com a um biscoito.

Sinto um nó no estôm ago. Vou de lado até o centro da sala, e eles m e rodeiam , com o pedido tornando-se um sibilo:

— Ssssssim m m , nósss inssssissstim osss. Ssssó um bissscoitinho...

O diário em m eu pescoço lança um a luz verm elha escaldante. A pseudofam ília de Jeb recua, gritando. Eles caem no chão, num em aranhado de m em bros. Com o coração aos pulos, saio da sala e os tranco lá dentro, dando graças a Deus que Jeb os tenha pintado em seu próprio cenário, para que não possam passar pela porta.

Apoio as costas na porta. Sua frieza vítrea entra pelas fendas de m inha cam iseta. As bolas de gude devem representar um a das lem branças m ais felizes de Jeb, que era fazer ram pas para elas com seu pai. Se essa é um a cena agradável, fico horrorizada só de pensar no que há por trás da porta com queim aduras de cigarro depois da próxim a curva.

Não tenho certeza se é a determ inação para encontrar Morfeu ou um desej o do m eu lado obscuro de m ergulhar m ais fundo na m ente de Jeb, m as sigo adiante.

Usando o diário para abrir a fechadura, espio lá dentro. Um ginásio com pesos, um a bicicleta ergom étrica e um a esteira aguardam lá dentro sob fracas luzes fluorescentes. Não há ocupantes, então eu entro. Um saco de pancada em form a de ovo está pendurado perto de um a parede com espelhos quebrados. A parte da frente m e encara com olhos pintados, rosto redondo e um a boca — um a versão assustadora da rim a de Hum pty Dum pty.

Ouço um sibilo saindo de trás do saco. Trem endo, eu o observo virar-se lentam ente e assum ir o que parece ser seu lugar, apesar das cordas torcidas que esperam ser desenroladas.

O ar m e falta. É o rosto do Sr. Holt do outro lado. Não é um desenho plano, m as um rosto tridim ensional de carne e osso, rosnando. Esse é o Sr. Holt que eu conheci: as feições, antes bonitas, agora aguçadas pelo ódio e pela discórdia, as bochechas cavadas pelo grande consum o de álcool e pela falta de um a alim entação adequada.

Os olhos, com o os do outro Sr. Holt, são feitos de bitucas de cigarro acesas.

Ele vocifera:

— Me faça tropeçar de novo. Vam os lá, seu pirralho inútil. Me faça derrubar a cervej a. É isso que você vai receber em troca. Pare de chorar, m aldito. É isso que acontece quando você deixa os brinquedos pela casa. Não! Sua m ãe não tem que recolher os brinquedos pra você. Assim ela vai ter que ser punida tam bém . E, se ela está sangrando, a culpa é sua. Toda sua.

As im agens de infância que vi com o olhar de agonia de Jeb m e vêm à cabeça. Era isso que ele vivia todos os dias. Estou surpresa que tenha sobrevivido. Não é de adm irar que ele sem pre tenha culpado a si m esm o pelo que aconteceu com a m ãe e a irm ã.

A língua do Sr. Holt continua a se agitar, com palavras degradantes e cheias de ódio.

Algum a coisa irrom pe de dentro de m im — a parte que desej a vingança por tudo o que ele fez para o rapaz que eu am o. Eu o ataco, atingindo seus lábios com tanta força que o som faz um eco agudo e m inha m ão dói.

O saco gira lentam ente.

— Ah! Ah! Ah! Eu deveria ter sentido isso? Sua irm ãzinha bate com m ais força que você. — O Sr. Holt cospe um dente, um pouco de sangue e um a torrente de obscenidades.

Não consigo m e m exer. Eu deixei um a m arca nele de verdade... cortei seus lábios e quebrei um dente. Quantas vezes o Jeb esteve aqui, socando o rosto do pai? A j ulgar pelos danos e cortes no saco, ele deve ter perdido a conta. Se ele se sentia tão im potente quanto eu m e sinto agora, não deve ter lhe feito nada bem .

Saio correndo da sala, com a alm a pesada e tristonha, e tranco os insultos cruéis do Sr. Holt lá dentro.

Jeb, o que você fez consigo mesmo? Ele caiu num desespero e am argura tão grandes que é com o se estivesse m orto. Um a desesperança im ensa se aloj a em m inha alm a e estrangula toda a esperança.

Com as pernas pesadas, vou aos tropeços para outra curva do túnel e chego à terceira porta.

— Morfeu! — grito novam ente, a voz falhando. Não quero ver m ais isso. Jeb não é o garoto que eu conhecia, e não sei com o trazê-lo de volta...

E, o que é pior, não tenho tem po de descobrir.

Um som de m otor m e atrai para a porta feita de casca de árvore e folhas de salgueiro.

Eu hesito. Se cada porta sim boliza o que está por trás dela, esta deve ter algo a ver com o salgueiro que une o quintal de m inha casa ao da casa de Jeb. Nós j ogávam os xadrez debaixo dessa árvore quando éram os crianças. Depois, quando nos tornam os um casal, íam os lá para ficar a sós um com o outro.

Não faz sentido ele colocar Morfeu aqui, m as o som de vibração não parou.

— Morfeu? — O ruído fica m ais forte. Respiro bem fundo, bato de leve com o diário na m açaneta e espio lá dentro.

Flocos de neve caem das vigas. O cheiro é de neve real, em bora não se sinta o frio na pele, só o brilho. Luzes negras e neblina com plem entam a atm osfera onírica. Ao contrário das outras duas salas, esta não é insana nem perturbadora.

É linda.

Entro com cuidado. A m etade da frente está decorada com o um a cena de baile de form atura: colunas adornadas com folhagens, um arco envolto em veludo púrpura, e tule branco guarnecendo um banco de vim e. Máscaras reluzentes de carnaval estão penduradas em vigas, com um a variedade de tam anhos de cordões — púrpuras, pretos e pratas.

Há um a réplica do vestido que Jenara fez para eu usar no baile em cim a do banco — renda branca, pérolas e som bras feitas com aerógrafo. Eu m e aproxim o, intrigada com o buquê de pulso dentro de um a caixa plástica branca. Ao perceber o anel aninhado dentro de um a das rosas — pequeninos diam antes form ando um coração com asas —, despenco sobre a cadeira, m eu corpo subitam ente fraco. Ele é exatam ente igual ao que Jeb m e deu quando m e pediu em casam ento. O que usei no pescoço e se fundiu com m inha chave do País das Maravilhas e o m edalhão de coração sob a pressão da m agia de Morfeu.

Corro o dedo pela tam pa da caixa, am arrada com um a fita dourada. Com um puxão, o laço se transform a em um a chuva de letras brilhantes que form am um a m ensagem em pleno ar:

 

Coisas que um dia esperei dar a você:

 

1. Uma festa de casamento mágica...

Engasgada com as lágrim as, tiro o anel e o am arro no cordão, j unto à chave do diário no m eu pescoço, enfiando-o debaixo da cam iseta para ficar m ais seguro.

Um a cesta de piquenique está aos m eus pés, debaixo do banco. Lá, outra fita, e, quando a desam arro, m ais letras form am um desfile no ar:

 

2. Piqueniques no lago com sua mãe e seu pai...

 

Com eço a fungar e vou até o m eio da sala, onde reproduções de m eus m osaicos flutuam ao lado de avisos de Vendido. Puxo um a fita e liberto outra m ensagem :

3. Compartilhar toda uma vida de vitórias e risos...

 

Tom ada pela em oção, eu m e viro na direção do ruído de m otor que vem da parede dos fundos. Um a m otocicleta está parada no alto das vigas, em m eio a cordões de luzes de Natal. Há um laço am arrado no guidão. Liberto m inhas asas e ergo-m e. Flocos de neve e um a brisa suave serpenteiam à m inha volta enquanto eu m e acom odo no assento, voltando aos tem pos em que andava na garupa de Jeb, os braços envolvendo seu corpo forte. Com pletam ente à vontade, m as tão sem equilíbrio. Tão perfeita e erroneam ente hum ana.

Reteso o queixo ao sentir um trem or e puxo a fita do guidão:

 

4. Passear de moto pelas estrelas...

 

As palavras lindas voam à m inha volta, alim entando m inha necessidade de m ais. Há tantas fitas e obj etos para contar. Voo de um para o outro, deflagrando m ais desej os: por garotinhas com m eu cabelo e olhos, e m eninos que têm o tem peram ento teim oso da m ãe; pela segurança dos braços um do outro todas as noites; por envelhecerm os j untos e curtirm os cada ruga, cada m ancha de velhice e cada cabelo branco, para sem pre.

Meu peito incha — tanto que poderia estourar. A sala é um tem plo dedicado a tudo o que eu esperava ter. Coisas que Jeb queria m e dar. Seu coração brilha em tudo o que criou aqui; seu altruísm o, sua nobreza e devoção, o desej o de fazer os outros felizes. Seu verdadeiro caráter não foi destruído. Ele foi guardado, reprim ido.

O m eu Jeb está vivo.

Eu voo até o chão e reabsorvo as asas. Não quero sair. Todavia, antes que possa aj udar a recuperar Jeb, encontrar m am ãe e consertar o País das Maravilhas, tenho de achar Morfeu e enfrentar a Verm elha.

— Eu voltarei — sussurro, e olho para a porta atrás de m im .

Restam duas salas a explorar.

Paro diante da porta de pétalas de rosas. Desta vez, nem hesito. Um a batidinha do diário, e eu entro.

As paredes, tam bém cobertas de rosas verm elhas, se curvam no teto e se encontram no m eio, form ando um a cúpula. Pequeninos globos transparentes flutuam acim a de m im , tilintando ao baterem uns nos outros. Cada um deles abriga cenas vivas — com o film es m udos em m iniatura.

Um , em particular, cham a m inha atenção. Dentro dele, um funil cinzento cai do céu. Dele sai a Rainha Verm elha em sua form a de flor zum bi gigante, ao lado de Jeb e Morfeu. É o m om ento em que eles chegaram a Qualquer Outro Lugar. Os m eninos ainda estão usando as roupas do baile de form atura, e Jeb está com sua m áscara.

Eu seguro o globo para ver a cena se desenrolar m ais de perto. A Verm elha aproxim a-se de Jeb e Morfeu, lançando um a longa som bra azul. Um a boca torta que rosna se alarga no m eio de sua cabeça de flor, e fileiras de olhos piscam em cada pétala. Sua hera se enrosca nos rapazes, e eles se debatem , tentando escapar. Jeb liberta um braço e enfia a m ão no bolso, tirando um a faca. Morfeu distrai a Verm elha — fazendo queda de braço com a hera até que ela com ande várias outras para paralisá-lo. Jeb serra suas am arras — com o fez quando enfrentam os o j ardim de flores m onstruosas em nossa viagem ao País das Maravilhas.

Um a vez livre, ele agarra a hera cortada, usando-a para am arrar os outros m em bros da Verm elha e aj udar Morfeu.

A Verm elha perde o equilíbrio e vai ao chão, indefesa.

Quando a poeira abaixa, Jeb e Morfeu se entreolham . Ainda segurando um a vinha, Jeb arranca a m áscara do baile, grita algum a coisa e vira-se para ir em bora. Morfeu pula em suas costas. Eles lutam no chão e Morfeu term ina por cim a, com as asas envolvendo os dois com o um a tenda. Posso ver o contorno do rosto de Jeb pressionado contra a m em brana acetinada do outro lado. Ele está sendo asfixiado. A raiva ferve dentro de m im .

A cena term ina. A Marfim m e disse, sem anas atrás, que é nas ações de Morfeu que está a verdade. No ano passado, quando ele usou aquele truque para asfixiar Jeb, queria deixá-lo inconsciente para ficar a sós com igo. Então, precisava ter um m otivo para querer Jeb inconsciente desta vez. E só há um a m aneira de descobrir qual era.

No m om ento em que m e viro para ir em bora, os globos restantes descem para perto, insistindo em que eu olhe dentro deles. Um trem or de desconforto m e envolve a cada vez que espio. Um é um a im agem da m ãe da Rainha Verm elha quando esta era j ovem ; tam bém há m om entos entre a Verm elha e seus pais — bebendo chá, rindo... plantando flores; e dançando com o pai enquanto a m ãe aplaude a distância.

Jeb não poderia saber todas essas coisas. São coisas que som ente a Vermelha saberia.

Antes que eu consiga j untar todas as peças para saber seu significado, um a im agem de Charles Dodgson tom a form a dentro de um globo que flutua para longe. Eu m e estico e o pego.

Ele está andando em um cam inho ladeado por flores j unto de um distinto cavalheiro m ais velho. Quando eles penetram na som bra de algum as árvores, a aparência do hom em m ais velho se transform a e eu vej o, m uito claram ente, a Verm elha usando o disfarce do professor. Assim com o Hubert disse na hospedaria.

Meu coração acelera.

Charles leva um diário cheio de equações escritas à m ão e indicações de latitude e longitude. Juntos, Charles e o disfarce de professor da Verm elha atravessam alguns arbustos, parando na estátua do m enino com o relógio de sol — o portal para a toca do coelho — que um dia escondeu a entrada para o País das Maravilhas antes de eu destruir tudo.

A im agem escurece. Estou prestes a soltar o globo quando ele se ilum ina m ais um a vez, m ostrando outra cena em que um grupo de pessoas faz um piquenique. Várias crianças, um a m ãe, um pai e Charles. O rosto de Alice Liddell aparece. Sua aparência é igual à da m enina de sete anos na fotografia que m am ãe tinha escondido na poltrona reclinável de papai. Esta deve ser a fam ília dela... os Liddells, am igos íntim os de Charles.

O rosto de Alice está radiante de anim ação enquanto ela corre sozinha por entre vários espectadores. Bolinhos, xícaras de chá sobre toalhinhas de crochê e som brinhas são abundantes. Ela dá voltas em um a m oita fam iliar. Com os olhos cheios de encanto, ela para ao lado da estátua com o relógio de sol. Ela foi afastada para o lado, deixando à m ostra o buraco abaixo.

Duas orelhas brancas e peludas surgem lá de dentro, e aparece um a cara de coelho com pleta, com o nariz agitado e adoráveis bigodes. Alice fica boquiaberta e o coelho faz um sinal com a pata rosada e alm ofadada para que ela o siga. O que ela não vê é o outro lado do disfarce de coelho: a m ão ossuda do Rábido Branco, o rosto do hom em velho de antenas brancas.

O coelho branco desaparece dentro do buraco. Olhando em volta, Alice hesita. Mas a luz curiosa em seus olhos brilha m ais do que o m edo, e ela m ergulha. A Rainha Verm elha sai rastej ando de trás de um a touceira de rosas e em purra a estátua do relógio de volta para cim a do buraco, tapando-o. Ela vai em bora antes que Charles e o pai de Alice apareçam , procurando a criança que sum iu.

Nenhum deles sabe que há um buraco debaixo da estátua, a j ulgar pelo espanto no rosto deles. Charles havia encontrado o portal, m as nunca descobriu com o abri-lo.

Conheço o resto da história de cor: Alice ficou desaparecida por dias. Depois que ela retornou, Charles, tam bém conhecido com o Lewis Carroll, colocou a história dela no papel. Mas não foi Alice quem retornou. Foi a Verm elha.

O globo escurece novam ente, e eu o solto.

Fico parada no lugar, entorpecida.

Todo esse tem po eu pensava que Alice havia descoberto o País das Maravilhas por acidente. Entretanto, a Verm elha fabricou a possibilidade do reino intraterreno na m ente de Charles Dodgson fazendo-se passar por seu colega. Quando Charles descobriu a estátua com o relógio de sol e nada m ais, pensou que seus cálculos estivessem errados. Então a história floresceu com o ficção dentro da im aginação de seu contador. Ele encheu a cabeça de Alice e a de seus irm ãos com ideias fantasiosas e tentações de contos de fadas, com eteu o erro de m encionar a estátua e até levou a fam ília para vê-la durante um piquenique, sem nunca perceber a repercussão disso.

A Verm elha queria que Alice entrasse na toca do coelho. Ela preparou tudo.

Um calor desconfortável latej a no m eu crânio — m inha intuição intraterrena acordando... cutucando. Sej a porque o espírito da Verm elha um dia com partilhou m eu corpo, sej a porque suas m em órias ainda estão em algum canto obscuro de m inha m ente, eu sei que esta epifania é fato, não especulação.

Hubert disse que a Verm elha queria m elhorar a linhagem intraterrena. Que ela achava que os hum anos eram m elhores, de algum a m aneira.

O que torna as crianças hum anas m elhores? Por que a Irm ã Dois as rouba e as am arra no j ardim das alm as?

Sonhos e im aginação...

O diário se m exe em m eu pescoço, um a prova ainda m aior. As m em órias esquecidas nestas páginas m oldaram as m otivações da Verm elha m uito antes de ela escolher esquecê-las. Mas o problem a é que ela escolheu esquecer. Esqueceu porque queria levar sonhos para o País das Maravilhas.

“Um dia, vou trazer sonhos para nossa espécie, pai. Eles serão abundantes em todo lugar, não só no cemitério. Um dia, vou libertar os espíritos para que possam dormir em nossos jardins, roçando nossas janelas à noite e tropeçando em nossos pés de dia. Vou trazer imaginação ao nosso mundo para que todos possam sempre estar com aqueles que amam.”

As únicas coisas que a Verm elha continuou lem brando depois de m atar suas m em órias eram que ela queria levar sonhos para o reino intraterreno e queria poder e vingança. De algum a form a, essas coisas se fundiram em sua m ente. Depois que o m arido a traiu, ela não tinha nada a perder fazendo o papel de rainha negligente, banindo a si m esm a do reino para que ninguém percebesse quando ela sum isse no reino hum ano.

Ela aprisionou um a criança hum ana no País das Maravilhas e usou um a cópia dela com o cam uflagem para poder procriar com um m ortal e levar de volta herdeiros m estiços. Esses descendentes deveriam introduzir sonhos e im aginação no m undo intraterreno. Mas com o m elhorar as coisas no País das Maravilhas poderia satisfazer sua necessidade de vingança e poder?

Sinto a cabeça confusa e enorm e. Ainda há algo que não percebi. Um a parte crucial do plano dela.

Olho em volta buscando m ais cenas. No centro do teto abobadado, os globos estão sendo confeccionados por um a hera verde e folhosa, igual à que Jeb tinha na m ão quando Morfeu o atacou depois que eles escaparam da Verm elha. A hera está suspensa no ar sem ninguém que a controle, dando vida a cada cena com um cintilar de m agia carm im que gotej a de sua extrem idade.

Magia carm im . Essa era a cor da m agia da Verm elha em suas m em órias. A de Morfeu é azul. A de Jeb é púrpura.

Encosto-m e na parede, com falta de ar por causa do opressivo arom a de rosas.

Com o é que não percebi? Quando Jeb caiu neste m undo enrolado nessa hera, ele absorveu parte da m agia da Verm elha, j unto a um a parte da m agia de Morfeu — que tam bém estava preso. E eu aposto m inha vida que Morfeu j á sabe. Isso explica por que as im agens nesta sala pertencem à Verm elha e por que as pichações m e atacaram . Explica por que Jeb parece outra pessoa... e por que as m em órias esquecidas da Verm elha o queim aram por m eio do diário.

As palavras do besouro de tapete ecoam em m inha m ente: Memórias repudiadas... querem vingança contra quem as criou e as repudiou.

As m em órias nas páginas do diário sentiram os fragm entos da Verm elha dentro de Jeb e de suas criações e queriam vingança. O intuito não era m e proteger.

Quase tropeçando nas próprias botas, recuo e saio pela porta. Ela bate atrás de m im .

A Verm elha é um a parte de Jeb. Então, com o posso destruir o espírito da Verm elha e acabar com ela sem m atá-lo tam bém ?