Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 11 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 11

11

 

Máscaras

 

Vozes vindas da cozinha m e despertam um a segunda vez. Visto a calça de m oletom de Jeb, calço as botas plásticas e desço as escadas. Jeb e papai j á estão ali há algum tem po, a j ulgar pelas canecas vazias e pela travessa salpicada de m igalhas da flor de favo de m el.

Estou desorientada pela sensação distorcida de tem po aqui. Com o Jeb pintou o oceano com o um a cena noturna, ainda está escuro lá fora, m as deve ser de m anhã, porque papai parece descansado.

Jeb, no entanto, não.

Os círculos sob seus olhos estão m ais definidos, exagerados pelo brilho dentro das íris. Ele está usando j eans furado e um a cam iseta branca m anchada de tinta verm elha. Basta olhar para as m anchas de tinta da m esm a cor nas m ãos dele e sei que ele está criando algo novo. Im agino o que pode ser.

Quando estou no últim o degrau, Jeb levanta-se e afasta o cabelo que caía sobre sua testa. A ação beira a tim idez e o constrangim ento, m as não dem ora para sua fachada im pávida voltar ao lugar.

— Agora que você levantou, vam os arrum ar um as roupas para os dois. — Ele oferece um a m açã e um a garrafa de água de nossa sacola de m antim entos. Parece que a patrulha com o cavalo-m arinho foi bem -sucedida. — Café da m anhã — ele diz, esperando que eu pegue a com ida.

Eu m e detenho.

— Com o chegou aqui? O barco está com a gente.

— Eu andei sobre o oceano — ele responde de im ediato.

Sua declaração de ontem à noite, de que ele é um deus, m e atinge com toda a força.

— É m esm o?

O sorriso galanteador em sua boca é tão inesperado e adorável quanto um eclipse.

— Na verdade, eu pintei m ais de um barco.

— Ah, certo. — Sorrindo, pego a fruta e a água que ele oferece. Nossos dedos se tocam . Um m úsculo no queixo dele pulsa m ais forte, e em seguida ele se vira para papai e faz um sinal para que o sigam os.

Eu entro na fila, m astigando a m açã, esperançosa. Ontem , achei que tinha perdido Jeb. Entretanto, se ele ainda tem seu senso de hum or, posso tentar quebrar a barreira da raiva.

Quando term inam os de atravessar o oceano, ele nos conduz de volta ao estúdio-estufa. Visto do alto, m ariposas pretas e brancas encobrem a m aior parte do teto de vidro. Elas se em pilham e rastej am um as na direção das outras, form ando um cobertor vivo que parece um céu noturno salpicado de estrelas. Isso dim inui a luz da sala, reduzindo-a a som bras. Um a lâm ina de luz do dia atravessa o único painel de vidro vazio — criando a desnorteante ilusão de noite e dia ao m esm o tem po.

Um a paleta de várias cores aguarda em cim a da m esa. O cheiro fam iliar de tinta m e reconforta. Nem pergunto onde ele está conseguindo ingredientes para fabricá-las. Em bora o cheiro sej a norm al, as origens devem ser m ágicas.

O estúdio parece m aior esta m anhã, na ausência das paisagens, que são as obras-prim as de Jeb, e dos cavaletes. A única tela ainda ali é um lençol sobre um a parede, do teto ao chão. Há um espelho basculante em um canto da sala, e biom bos j aponeses escondem dois cantos. Os grous verm elhos em relevo nos painéis se m ovem com o se estivessem vivos. Um a m ariposa sai de seu lugar no teto e aterrissa na tela m ais distante, sendo engolida por um dos pássaros pintados com um a m ordida crocante.

Papai vê aquilo tudo com um a careta de perturbação.

Quanto a m im , estou fascinada. Na noite passada, eu estava desconfiada do trabalho de Jeb, m as hoj e um encanto m e aquece o sangue — o ressurgim ento da m inha loucura. As criações aberrantes de Jeb, sua extravagância e funções m acabras parecem alim entar m eu lado intraterreno.

— Prim eiro — Jeb diz, dirigindo-se a papai enquanto alinha os pincéis e lapiseiras sobre a m esa —, tem os que desenhar sua som bra.

Ele pede que papai tire a cam isa e os sapatos e enrole as calças até os j oelhos. Depois, ele o posiciona diante da tela e acende um abaj ur. A luz forte im prim e a form a de papai sobre o lençol.

— Não se m exa — Jeb fala enquanto desenha a im agem . Eu estava com saudade de vê-lo trabalhando e de testem unhar o poder que ferm enta sob sua pele enquanto ele confere vida às suas criações... isso acrescenta um a dim ensão que nunca poderíam os com partilhar no reino hum ano.

Com o disse ontem à noite, ele com preende o encanto exercido pela m agia agora, a paixão e a liberdade contidas em dar às nossas obras-prim as a habilidade de interagir com o m undo. A escuridão dentro de m im se enche de fascinação enquanto a hum ana dentro de m im m e cutuca, alertando — um apelo pequeno, m as poderoso... exigindo ser ouvido.

Para aceitar o poder, é preciso tam bém reconhecer quanto ele pode ser inebriante. Jeb tornou-se um viciado, assim com o seu pai. Eu m esm a estive em briagada de m agia e loucura. A única m aneira de encontrar a sobriedade é equilibrá-la com as m elhores partes de ser hum ano. Mas não será fácil lem brar alguém das virtudes hum anas quando essa pessoa foi m altratada tantas vezes, com o Jeb.

— Quando eu term inar o contorno — ele diz, desenhando a m etade inferior de papai —, vou preenchê-lo com tinta. Depois, vai precisar recuar e se j untar à pintura antes que ela seque. Ela tem que ficar unida à sua pele para poder segui-lo aonde for. Ela vai perm anecer intacta, desde que não se m olhe. Com o fui eu que m anipulei o tem po e as paisagens, isso não será problem a.

Ergo um a sobrancelha.

— Então, você basicam ente está fazendo o papel da Wendy.

Jeb se detém e olha para m im .

— Windy ?

— A Wendy, de Peter Pan. Você está costurando a som bra de papai no lugar. — Peter Pan era a história favorita dele quando criança. Sua m ãe lia para ele toda noite.

Mais um a vez, um a nuance j uvenil de rapaz tím ido em seu rosto — o olhar que ele costum ava m e dar quando eu o pegava de surpresa. Em seguida, o sorriso desaparece e ele volta a se concentrar no trabalho.

Seu afastam ento é com o um j ato de água fria. Papai dá um a piscadela sutil para m im , encoraj ando-m e a saborear a vitória, por m enor que ela sej a.

Jeb term ina o desenho sobre a tela e com eça a acrescentar asas.

— Ao contrário da Al — curvas e linhas florescem , im pecáveis, a um gracioso m ovim ento de sua m ão —, nós não tem os esse equipam ento em butido. A m aneira m ais segura de viaj ar é voando, então vai precisar de asas para nossa viagem ao portão do País das Maravilhas.

— Vam os para o portão hoj e? — Tenho sentim entos conflitantes acerca dessa notícia. Sei que, se eu for em bora sem enfrentar a Verm elha, ela vai voltar para assom brar o País das Maravilhas e aqueles que am o. Ela provou que não vai desaparecer até que eu a obrigue. Mas tam bém quero resgatar m am ãe o m ais depressa possível, e é im possível não ficar anim ada com o fato de Jeb ter decidido ir conosco. — Então você vai com a gente?

Papai m e observa com olhar pesaroso.

— Você entendeu m al — Jeb responde, fazendo furos na boia da m inha esperança, não som ente pela resposta lacônica, m as pelo tom indiferente da voz. Ele volta para a m esa e m istura tintas até obter um pigm ento preto com nuances de púrpura. — Só seu pai e eu vam os hoj e. Foi escolha dele.

Papai faz um a careta de quem pede desculpas.

— Nós planej am os levar os suprim entos para os guardas e sentir com o estão as coisas — ele explica. — Você fica aqui. Assim podem os ter certeza de que tudo está correndo bem antes de você e eu tentarm os partir j untos.

Você e eu. A sala fica m ais triste.

Fecho as m ãos com força.

— Não tem a m enor chance de eu ficar sentada aqui enquanto vocês dois enfrentam toda essa loucura aí fora. Eu vou j unto.

Quero acrescentar m ais um a coisa: que se Jeb acha, por um segundo, que vou deixá-lo para trás quando partirm os para o País das Maravilhas, ele está enganado. Lançarei m ão de m inha m agia para forçá-lo a voltar para casa, se necessário.

A ideia de enfrentar seu exército de pichações m e assola. Não tive poder sobre ele. Jeb agora é um rival à m inha altura, em todos os sentidos. Seria um a luta difícil de vencer.

— Allie, por favor — papai insiste.

— O quê? — eu retruco. — Acha que ainda não sei m e cuidar? Mesm o depois de tudo o que você viu?

— Não é isso. O que m e preocupa é a sua sede de sangue. Nenhum de nós sabe onde a Verm elha está. Mas é quase certo que ela saiba que você está aqui agora, depois do nosso encontro com aqueles pássaros. Não quero que você se depare com ela. Lem bra-se do nosso trato? Entram os, chegam os ao portão, saím os.

Não posso deixar de notar que ele om itiu a parte que falava de salvar Jeb. A frustração queim a m eus olhos. Não há nada que eu possa fazer acerca de Jeb até ficar algum tem po sozinha com ele. Mas talvez eu possa usar a ausência dele e a de papai a m eu favor. Depois que eles saírem , irei sozinha à procura da Verm elha. Tenho um pressentim ento de que o diário m e levará diretam ente a ela.

Olho para as m ariposas no teto para m anter a cara de brava. Se Jeb desconfiar do m eu plano, pode pintar um a j aula dourada à m inha volta e eu ficarei presa.

— E o que eu vou fazer o dia todo enquanto vocês estão lá? Brincar com insetos?

Jeb se agacha para preencher a parte inferior do esboço com tinta. Seus lábios se curvam em um sorriso de escárnio.

— É o seu passatem po favorito, não? E você terá o príncipe das m ariposas para lhe fazer com panhia.

Mantenho a expressão inescrutável. É bom que Morfeu fique. Ele pode m e acom panhar na busca pela Verm elha. Ele conhece os cam inhos deste m undo e com preende seus ocupantes m elhor do que eu. A única desvantagem é o voto que fiz, e quanto ele está determ inado a cobrá-lo, e com o um a parte de m im está com eçando a ansiar por essas vinte e quatro horas ao lado dele no País das Maravilhas.

— Então... vocês não vão levar Morfeu? — consigo falar em tom indiferente.

— Ele ficaria perdido sem o seu grifo. — É im possível não sentir a presunção na voz de Jeb. — Não pode voar sem ele e precisa de seu brinquedinho para saber o rum o de volta, se quiser se virar para o outro lado.

— Então aquela era a bússola dele.

— Isso m esm o. Todas as m inhas pinturas têm a habilidade de encontrar o cam inho de volta para esta m ontanha, para m im , por m ais distantes que estej am .

— Mas Morfeu pode usar sua som bra — tento argum entar com ele.

— Eu a peguei de volta. Ela precisa de reparos — Jeb diz; um a resposta para tudo.

Incapaz de esconder m inha irritação, eu brado:

— Bom , essa parece um a m anobra bem idiota. Quanto m ais gente, m ais seguro, vocês sabem . — Mordo a língua para que eles não saibam que sou eu quem precisa de segurança.

— Vam os levar reservas. — Jeb aponta para um dos biom bos j aponeses no canto. O grou bate as asas e bica o painel ao qual está grudado.

— O quê? Os grous?

Concentrado e em silêncio, Jeb conduz papai de volta à pintura e em seguida sela os dois j untos com um passe de m ágica do pincel.

Papai se afasta e a pintura se destaca da tela — um rastro quiescente e fluido no chão —, parecendo um a som bra com um que ganhou asas.

Cam inho até o biom bo j aponês para o qual Jeb apontou, curiosa.

— Al, espere — ele alerta, largando o pincel em um pote de água e correndo na m inha direção.

Antes que possa m e alcançar, espio atrás do biom bo. Um tecido pesado cobre algum a coisa que tem a form a de um porta-chapéus. Eu puxo a coberta.

CC guincha e se debate, libertando-se e quase m e derrubando em sua pressa de escapar.

Eu grito.

— Ei! — Papai corre na direção da criatura.

Jeb o segura antes que ele chegue à porta.

— Tudo bem . Eu o proibi de tocar em vocês novam ente. — Ele dá um tapinha no om bro do sósia. — Mostre a eles, CC — ele instiga com voz suave, com o se falasse com um a criança ou um anim al de estim ação.

A criatura se vira e eu m e preparo para encarar as m acabras fissuras em seu rosto. Em vez disso, um rem endo verm elho em form a de coração cobre o olho e os buracos abertos que vi ontem . Há um a fenda no m eio para CC poder enxergar. O outro olho perfeito e a bochecha estão descobertos, e as m arcas de elfo cintilam sob a luz do dia. É m ais fácil agora distinguir as cores de porcelana da criatura — pouco m ais claras do que a tez m orena de Jeb. Com o coração sobre o olho, CC lem bra o arlequim de um a peça infantil. Só falta a fantasia com losangos em vez da calça j eans e da cam iseta.

Considerando-se as m anchas verm elhas nas roupas e nas m ãos de Jeb, era esse o proj eto em que ele estava trabalhando antes de ir até a ilha.

— Você fez um a m áscara para o CC hoj e de m anhã? — pergunto.

— Eu a fiz para você. Ontem à noite. Não queria que a aparência grotesca dele a assustasse de novo.

A gentileza do gesto m e com ove. Não adm ira que as olheiras de Jeb pareçam tão m ais escuras hoj e. Pergunto-m e se ele chegou a dorm ir.

Ele m anda a criatura em bora e evita olhar para m im .

— Farei sua som bra aparecer quando chegar o m om ento de voar — ele diz para papai.

Papai assente e observa a form a escura m over-se com ele pelo chão.

— Agora vêm as roupas — Jeb continua, lim pando o pincel. — Elas serão rem ovíveis quando estiverem secas, e você pode usá-las várias vezes. Mas a tinta tem que tocar o m áxim o possível de sua pele nua.

Papai se detém .

— O m áxim o possível?

— Você vai usar um tapa-sexo. É assim que eu faço as roupas do baratão.

Im aginar Jeb e Morfeu em posição tão íntim a é, ao m esm o tem po, sexy e côm ico. Vaidoso do j eito que Morfeu é, deve ter havido m uita discussão sobre as escolhas de estilo.

— E quanto à Allie? — papai pergunta com um a defesa paternal, elevando o tom da voz.

Jeb se concentra na m istura de tintas.

— A m enos que ela queira usar m inhas roupas, não terem os nenhum a outra opção.

Eu dou de om bros, acentuando o tam anho de sua cam isa.

— Estas aqui estão quase caindo. Não vão servir para viaj ar.

— Ela não vai usar só um a tanguinha enquanto você a pinta — papai insiste.

— É claro que não. — Jeb j oga dois rolos de bandagens elásticas para m im . — Encontrei isso em sua sacola. Elas vão aderir à tinta para se tornar parte de sua roupa. Cubra suas roupas de baixo. Deixe os braços, barriga e pernas de fora. Não será pior do que usar um biquíni. E tem um a fivela para você prender o cabelo.

A aspereza da fala m achuca. Quatro sem anas atrás, ele não teria sugerido que eu usasse algo assim sem expectativa no olhar. Na verdade, antes de todo o País das Maravilhas escapar no baile de form atura, estávam os discutindo o próxim o passo físico de nosso relacionam ento. O m aior passo. É excruciante saber que perdi o poder de tocá-lo em um nível hum ano.

Enfio-m e atrás do biom bo m ais próxim o e tiro a roupa, em seguida prendendo o cabelo no alto da cabeça.

Papai sai prim eiro de seu biom bo. Enquanto Jeb trabalha em suas roupas, vou bem devagar para não ter de ver m eu pai de tanga. De todas as coisas horripilantes que j á testem unhei, esta seria a pior.

Envolvo as bandagens em torno da lingerie que Morfeu m e deu e confecciono um m aiô do qual qualquer m ãe teria orgulho. Depois de m e certificar de que papai e Jeb term inaram , saio usando a cam isa de flanela com o um roupão.

Papai dá um a olhada rápida e parece satisfeito que eu estej a adequadam ente coberta.

Meu queixo cai. Ele está envolto em plum as, tem quatro asas e m e faz lem brar os pássaros trogloditas que encontram os ontem .

— O que é isso?

— Vam os passar despercebidos se parecerm os com a gangue de Manti — Jeb explica, lavando o pincel. — Eles m ontam guarda pelo céu. Tenho um a fantasia de pássaro tam bém . É a cam uflagem perfeita.

A palavra camuflagem m e recorda o sim ulacro.

— Será que a m elhor cam uflagem não seria a invisibilidade? — Aj oelho ao lado da sacola de viagem no chão.

— Jeb e eu procuram os os disfarces — papai responde. — Não estavam aí dentro.

Eu franzo a testa e checo os outros itens. O pom bo m ensageiro aparece, m as, quando aperto o botão em sua garganta, o bico não brilha m ais. Volto a procurar os sim ulacros.

— Não faz sentido — digo para m im m esm a depois de desistir. — Todo o resto está aqui.

Jeb dá de om bros.

— Talvez a seda encantada não sej a à prova d’água.

Papai dirige-se para a porta.

— Acho que vou até ao farol lim par a cozinha. Preciso praticar com o m e m ovim entar com estas penas.

Ou ele se sente constrangido m e vendo sem inua com o eu m e senti ao vê-lo, ou está m e dando algum tem po a sós com Jeb. Sej a qual for o m otivo, fico grata.

— Obrigada, papai.

Ele faz um sinal com a cabeça e fecha a porta. Só faz dois m inutos que ele saiu quando a porta volta a se abrir e Morfeu entra, retum bante, dando de cara com Jeb na m esa, sem saber que estou no canto oposto.

Ele está com roupas novas hoj e: um a j aqueta acetinada na cor prata sobre cam iseta branca e calças pretas elegantes. Sem um chapéu para contê-las, as ondas sedosas do cabelo com binam perfeitam ente com a gravata de seda azul pendurada frouxam ente no pescoço. Contudo, apesar da m udança de guarda-roupa, suas asas ainda estão caídas, um sinal claro de que ele está triste.

— Sabe que você está sendo totalm ente insensato — ele grunhe para Jeb. Com o este não responde, Morfeu bate a palm a da m ão ao lado dos pinceis, fazendo-os pular. — Estou som ente pedindo outra bengala... — A voz dele em udece quando Jeb olha para m im . Morfeu se vira.

Um rubor invade m eu rosto. Fecho a abertura da cam isa para esconder o diário em m iniatura em m eu pescoço e m exo-m e para cobrir a tatuagem no tornozelo esquerdo antes que ele possa caçoar dela. Depois, lem brando que estou nua das coxas para baixo, volto para trás do biom bo e fico espiando.

Morfeu diz com voz brava:

— Aly ssa, o que é isso debaixo do roupão? — Ele se vira para Jeb. — Essa é nossa rainha. E você a veste com bandagens?

Jeb nem tira os olhos de seus preparativos.

— O que ela usa debaixo das roupas não é da sua conta.

— Bah! — Morfeu rouba um pincel. — Ela deveria estar vestida com o brilho das estrelas e nuvens, com renda e m aciez. Nada m enos delicado deveria tocar sua pele. — Ele aponta as cerdas para Jeb. — Eu vi no que você m eteu o Thom as. Você não vai pintar um a dessas fantasias de pássaro troglodita para ela. Ela faz parte da realeza. Vista-a com o a realeza. Dê-lhe algum brilho... um pouco de pom pa. E um a coroa.

— Volte para o seu quarto, Morfeu. — Jeb pega o pincel. — Os adultos têm m ais o que fazer.

Morfeu inclina a cabeça para encontrar m eu olhar por detrás do biom bo.

— Ah, m inha florzinha. Você deveria ter visto as atrocidades com que ele queria m e vestir nos prim eiros dias. Ele não m e deixou dar nenhum a opinião até eu andar por aí pelado por algum as horas. Se você decidir em pregar essa estratégia, eu estarei totalm ente do seu lado. Ou na sua frente. A dam a escolhe. — Ele pisca.

Um a inesperada centelha de diversão m e invade. Aguardo que sua provocação sugestiva cause um ataque de ciúm e em Jeb. Em vez disso, porém , ele continua calm am ente organizando suas tintas.

— Jeb não estaria aqui para ver m esm o — eu m urm uro a Morfeu. Um im plícito E ele nem perceberia mesmo ecoa em m inha cabeça. — As fantasias de pássaro são para a expedição dele com papai. Não fui convidada, nem você. Estam os em prisão dom iciliar.

Morfeu percebe m inha expressão austera e volta-se para Jeb.

— Ora essa! Você está deixando Aly ssa aos meus cuidados? Que m aduro e confiante de sua parte, pseudoelfo. — Ele segura o om bro de Jeb. — Se quiser ir logo, pode abster-se das novas roupas. Ela não vai usar nada depois que você partir. Considere essa a m inha contribuição para a causa.

Jeb j oga Morfeu contra a parede com tanta rapidez que quase não percebo o m ovim ento.

Provocadas pela atividade, as m ariposas no teto descem feito pedaços de cinzas caindo do céu. Elas grudam na parede próxim a às asas de Morfeu, delineando seu contorno. Fortes raios de sol entram pelos painéis de vidro abandonados.

Jeb e Morfeu se encaram — olhos nos olhos. Um a luz púrpura pulsa entre seus corpos.

— O que você tem que se perguntar, Aly ssa — Morfeu se dirige a m im , m as continua focado em Jeb —, é de quem ele tem m ais ciúm e. — Ele corre os dedos pelo cabelo ondulado de Jeb. — De m im ou de você.

Jeb não m ove um m úsculo.

— Acho que nunca vão saber. — Ele estuda a expressão im utável de Morfeu e seus m úsculos com eçam a relaxar. — E boa tentativa. Mas não vou entrar nesse j oguinho. Vocês dois ficam por aqui.

Ele solta Morfeu, que m e lança um olhar pesaroso.

— Lam ento, am or. Agora que tem a perspicácia intraterrena, ele não é tão fácil de m anipular. Eu decidi achar isso charm oso. Mas não se preocupe. Você e eu vam os pensar em algum a coisa para nos m anter ocupados. — Ele lança as asas para cim a e as m ariposas flutuam à sua volta em pequenos tornados.

Com um m ovim ento de m ão, Jeb cham a os insetos. Eles pairam no ar diante dele, construindo um a form a hum ana, com o se espelhassem sua im agem .

— Escoltem o m ariposão de volta ao quarto dele — Jeb as com anda. — E m antenham -no ocupado enquanto eu estiver fora.

Morfeu sorri com desdém e cam inha na direção da porta, com o guarda-m ariposa forçando-o a avançar.

A porta se fecha sozinha.

Eu saio de trás do biom bo e faço um a careta para Jeb.

— Por que fez isso?

— Porque tem os que com eçar, e, se eu deixasse a porta aberta, teríam os m ais distrações. — Enfiando o polegar no buraco da paleta, ele indica que eu m e coloque na posição em que papai estava, para tom ar as m edidas.

Não m e m exo.

— Você sabe que não estou falando da porta. Não suporto o m odo com o você o está tratando. Sem m encionar o fato de ele estar sem poderes... e que você detém toda a m agia.

— Ah, está certo. Com o se ele nunca tivesse feito isso com igo.

Olho para m eus pés descalços. Segurando o pincel entre os dentes, Jeb pega m eu cotovelo e m e posiciona sobre um quadrado de tecido.

Ele levanta m eu queixo com a ponta de um dedo e em seguida pega o pincel da boca.

— Olhe direto para a frente.

Meu corpo perm anece estático, m as m inha opinião dá pulos para ser ouvida.

— Sabe que eu esperava esse tipo de crueldade vindo do Morfeu, não de você. A ideia de certo e errado que ele tem é distorcida. — Estudo o rosto de Jeb. — Mas a sua não é. Intim idação? Eu achei que isso tinha ficado na infância. Você é um hom em agora. E não é esse tipo de hom em . Você não é com o o seu... — Eu paro bruscam ente e m ordo a língua com força suficiente para tirar sangue.

A expressão de Jeb endurece.

— Meu pai? Pode apostar que não sou com o ele. Sou m ais forte do que ele j am ais foi. — Sua voz é baixa e controlada. — Sou m ais do que ele achava que eu poderia ser. Fiz m ais do que ele disse que eu era capaz. Você sabe o que ele pensava da m inha arte. Im agine o que diria se m e visse agora.

Ele sustenta m eu olhar por tem po suficiente para registrar m inhas desculpas não verbalizadas. Depois, sem m e tocar, ele abre m inha cam isa. Minha pele reage à proxim idade de suas m ãos — lem brando com o é ser afagada por elas. A cam isa escorrega de m eus om bros, livre de m inhas m ãos, e cai no chão atrás de m im , desnudando os seios e a cintura cobertos por bandagens e o estôm ago nu. Sinto-m e exposta, em todos os níveis.

Jeb respira fundo. Ficam os ali, piscando um para o outro sob a luz forte. Sua pele exala cheiro de tinta e sabonete cítrico. Manchas de tinta fresca brilham nos braços e no pescoço, cham ando atenção para os m úsculos firm es.

Respondendo a um im pulso, passo o indicador pela m ancha azul próxim a de sua clavícula.

Ele franze o rosto e se afasta. Baixo a m ão, derrotada.

Com a atenção em sua paleta, Jeb passa o pincel na tinta preta. Ele o desliza sobre m eu braço esquerdo, do om bro ao alto do bíceps. Linhas definidas form am um a m anga curta. As cerdas pinicam e a tinta é fria, m as é a habilidade de Jeb em desligar suas em oções que m e dá calafrios. Não o conheço m ais.

Ele dá um passo para trás e recarrega o pincel, em seguida passando para o braço direito. Com o se estivesse ausente, passa a língua pelo lábio inferior, cutucando seu piercing.

— Lem bra quando eu coloquei isto?

A pergunta inesperada m e desequilibra. Eu m e m antenho inerte, apesar do calor que brota por baixo da m inha pele.

— Duas horas depois do funeral do seu pai — respondo secam ente.

— E sabe há quanto tem po eu vinha querendo fazer isso, m as toda vez que tocava no assunto... — Ele vira o antebraço para baixo.

A tatuagem brilha, m as são as m arcas de cigarro que cham am m inha atenção.

— É.

— Bem , foi m ais do que para provar que o reinado de terror dele tinha acabado. — A voz de Jeb é distante, com o se estivesse lendo a história da vida de outra pessoa. — Foi um lem brete. Que agora eu estava no controle das m inhas escolhas, do m eu corpo e da m inha vida. Que podia dar m inha opinião quanto ao que acontecia com m inha m ãe e m inha irm ã. — Ele dá a volta e vai para as m inhas costas, deixando m eu peito e m inha barriga sem pintar. Depois que term ina as costas das m inhas m angas, as cerdas traçam um a linha que desce pela m inha espinha e para alguns centím etros acim a da cintura, fazendo um a listra de um lado ao outro das m inhas costelas.

Eu controlo qualquer reação à sensação de cócegas.

— Engraçado — Jeb continua — com o eu pensei que algo tão insignificante pudesse colocar um a pedra no que aquele bêbado m iserável fez. — Ele ri. Não a risada cálida que costum ava dar. Essa é profunda, frágil e sem alegria. — Agora... agora eu posso pintar um piercing em qualquer lugar do m eu corpo, ou um a tatuagem , e eles se tornam reais. Vivos. Poderosos. — Ele passa o líquido frio e crem oso nas m inhas costas, criando um a cam iseta cortada. — Tudo o que eu criar lutará por m im . Meu labret poderia ser tão m ortal com o a espada de um sam urai. Eu só preciso pintar e dar a ordem . Se eu tivesse isso no nosso m undo, poderia ter im pedido que ele m achucasse m inha m ãe e a Jen. Eu poderia ter m elhorado a vida delas. Aqui, eu posso fazer isso. — Ele faz um a pausa. — Eu tenho feito isso, sabe. Aquelas cenas agora acontecem com o deveriam ter acontecido. Todas as vezes, é m eu velho que apanha até rachar. E a m am ãe e a Jen ficam intocadas e felizes.

Eu trem o, aterrorizada ao ver quanto ele se afastou de nossa realidade.

— Jeb, elas não são a sua irm ã e a sua m ãe. São só pinturas. Você sabe disso, não é?

O pincel retom a a viagem pelas m inhas costas, m as ele não diz nada.

— Você tem que se livrar dessa culpa — eu continuo. — Você era só um m enino. Se perm itir que isso o envenene, vai m atar tudo de bom dentro de você. Você não é com o ele. Mesm o quando ele o m achucava, você não era violento. É isso que fez de você um a pessoa m elhor. Não o poder para revidar, m as o poder de se elevar e aj udar sua irm ã e sua m ãe a ter um a vida boa, apesar disso. Você encontrou um a m aneira de fazer isso de m odo pacífico, por m eio da sua arte.

— Encontrei um a m aneira m elhor agora. — O perigo que perm eia sua voz faz com que os cabelos do m eu pescoço se ericem .

Lágrim as crestam m eus olhos. Algum as se libertam e correm pelo rosto. Elas ficam penduradas no queixo antes de cair e rebentar sobre m eu peito.

Jeb term ina as costas da cam iseta — deixando aberturas nos om bros para as asas — e passa para a frente. Ele estuda m eu rosto.

— Você tem que parar de chorar. Vai borrar a tinta.

— Jeb, por favor.

— Não vale a pena chorar — ele m e garante, m as sua voz estrem ece quando percebe que m eu peito está m olhado. Ele arrasta um a faixa de tinta no sentido horizontal ao longo da m inha caixa torácica e acim a do m eu um bigo para form ar a barra frontal da cam iseta. — Você está olhando pelo lado errado. Ser capaz de criar as próprias cenas e paisagens significa que você reina sobre elas. Poxa, eu m e dei asas com a m inha som bra. Agora posso voar. Juntos, poderíam os dirigir este m undo e construir nossos próprios finais felizes. Posso oferecer a você tudo o que Morfeu tem . — Ele levanta o queixo, pensando. — Tinha — corrige com um sorriso sarcástico.

Meus pulm ões doem , com o se ele tivesse m e arrancado o ar.

— Não quero essas coisas de você. Eu am o seus defeitos e im perfeições. Seu coração bondoso. As cicatrizes que com binam com as m inhas, e as lutas que tivem os para encontrar a nós m esm os. Eu quero a sua hum anidade. Nada m ais.

Ele franze a testa. O que eu não daria para ver seus lábios se abrindo em um sorriso genuíno. Aquele com as covinhas que eu am o. Minha garganta arde, obstruída por em oções que tem o libertar.

— Eu teria seguido você para qualquer lugar — ele m urm ura com a voz árida de agonia. — Eu só queria passar a vida toda com a m inha m elhor am iga. Com a garota que deu vida às m inhas pinturas. Mas não fui eu quem inspirou seus m osaicos, fui? Foi sem pre o País das Maravilhas. Foi por isso que você o escolheu.

— Escolhi? Foi só um beij o, só isso...

— Não é o beij o. Às vezes, as palavras falam m ais alto do que as ações.

— Palavras...? Que palavras?

— A prom essa que fez a ele, e que não pôde fazer para m im .

Solto um grunhido para não chorar novam ente.

— Você está falando coisas sem sentido. Por favor, m e explique o que quer dizer. — Talvez Morfeu tenha contado a ele sobre o m eu voto. Se ele vem provocando Jeb esse tem po todo sobre nosso dia j untos, isso explicaria um a parte dessa anim osidade. Mas não toda.

— Chega de conversa. Preciso m e concentrar. — Jeb preenche a m etade inferior da m inha cam iseta. Ele coloca cam adas de tinta sobre a pele por baixo da linha do busto, evitando o ponto onde estão m eus colares. Eu deveria tê-los tirado... tê-los afastado, m as não posso m e m exer porque o pincel está fazendo a curva do m eu seio direito, pintando-o para que a bandagem não apareça.

A respiração de Jeb está no m esm o ritm o da m inha. Conheço sua linguagem corporal, com o os m úsculos do queixo se com portam quando ele está se esforçando para m anter o controle.

O pincel se torna um a extensão da m ão dele. Não im porta que as cerdas e o cabo estej am entre nós. Mesm o através das bandagens, posso sentir nossa conexão. Não há calor, nem entusiasm o, nem pressão. É um elo m ais profundo, nascido da am izade e da confiança conquistada a duras penas: um cham ado por baixo da pele, com o se m eu espírito convidasse o dele.

Engulo o ar aos poucos, com cada m ovim ento do pincel... tem endo respirar m uito alto, tem endo m over-m e. Tem endo que, se eu perturbar a atm osfera de algum a form a, quebrarei o encanto que o envolve. Talvez eu possa trazê-lo de volta, aj udá-lo a lem brar-se das coisas boas de sua vida hum ana. Se puder fazê-lo m e abraçar, talvez isso o faça se recordar de tudo o que significam os um para o outro.

A m ão dele com eça a trem er no m om ento em que term ina de pintar m eu seio esquerdo.

— Jeb. — Eu arrisco um apelo sussurrado. — Todas essas sem anas eu estava em um sanatório. Eu cedi à m inha loucura, encarei m eus m edos. Mas nunca m e esqueci de você. De nós. Por favor, m e m ostre que você tam bém se lem bra.

Seu olhar se intensifica dentro do m eu. Meu corpo dói de desej o, reconhecendo aquele olhar do passado.

A paleta e o pincel caem aos m eus pés quando ele segura m eu rosto com cuidado para não borrar a tinta em m eu peito. Seu polegar percorre o curso das lágrim as sobre m eu rosto e então ele toca a covinha em m eu queixo. Sua respiração envolve m eu rosto, quente e adoçada pelas flores de m el que ele com eu antes.

Passo a palm a da m ão por seu peito e m ais abaixo, buscando as cicatrizes através do tecido fino da cam iseta. Buscando o Jeb com quem cresci. Minha rocha, apesar de suas próprias fraquezas.

Ele gem e. Seus dedos entram no cabelo preso na base do m eu pescoço. Eu agarro sua cam iseta, viro o rosto para beij ar o piercing na beira de seu lábio inferior.

Com um som de surpresa, ele m e larga e dá um pulo para trás. Um a luz verm elha é refletida em seu rosto. Nós olham os para o m eu pescoço sim ultaneam ente. As páginas do diário estão brilhando.

— O que é essa coisa? — A voz dele está carregada de em oção. A luz verm elha pisca dentro dos olhos dele feito cham a de velas. A expressão m uda de curiosidade para fascínio. Ele usa o dedo m indinho para levantar os dois cordões que tocam m inha clavícula, conseguindo não tocar no vão entre m eus seios.

— Essas páginas são de verdade? — ele pergunta.

Em purro o coração que pulou até m inha garganta, engolindo em seco.

— Não é nada. — Passo o pequeno caderno e a chave pela cabeça e os escondo no punho.

Não escape novamente... Por favor, fique comigo... Me abrace, me abrace, me abrace.

Meu m antra silencioso se espatifa quando ele pega m eu pulso e o vira para que eu deixe cair os colares na palm a de sua m ão. No m om ento em que isso acontece, ele xinga e j oga-os para o outro lado da sala. Com os olhos arregalados, abre os dedos.

O diário deixou um a im pressão — um a m arca verm elha da cor de fogo — no centro de sua m ão.