Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 8 de 24

Páginas do PDF

Qualquer Outro Lugar

Capítulo 8

8

 

 

Asas Quebradas e Cavalos

sem Pernas

 

Morfeu e eu trocam os olhares enquanto papai vasculha a sacola. Quando ele abre o m apa, centelhas alaranj adas irrom pem de dentro dele e entram pela boca da sacola. Um leve espirro em erge lá de dentro. Papai dá um pulo para trás e Morfeu dá um passo para a frente, com um m eio sorriso entretido nos lábios.

Ele enfia a m ão dentro da sacola e tira um a bolinha do tam anho de um beij a-flor, listrada com pelos laranj a e cinza. O sorriso provocador de Chessie aparece quando ele desenrola o corpo e senta, balançando as patas da frente, na beira da m ão enluvada de Morfeu. Sua cauda fofa trem ula, um a indicação precisa de que ele está orgulhoso de si m esm o.

— Ora, ora, vej a quem deixou o gato entrar — Morfeu diz. — É bom vê-lo, velho am igo. — Ele afaga a cabecinha do felino intraterreno com o polegar.

Chessie arqueia as costas e em seguida volta os olhos travessos para m im .

— Danadinho. — Não consigo parar de sorrir, lem brando-m e daquele m om ento em que tio Bernie fechou a porta do Gravitron e centelhas laranj a se infiltraram na câm ara. Chessie estava planej ando pegar um a carona desde o com eço.

O pequeno intraterreno tenta voar, m as eu o detenho, fechando os dedos sobre a palm a da m ão de Morfeu.

— Espere. Existem regras aqui. Se usar sua m agia, vai acabar se m achucando. Você pode sofrer m utações... e até m orrer.

— A m aior parte é verdade — Morfeu corrige, levantando m inha m ão. — Mas lem bre-se de que nosso Chessie é de um a linhagem rara. Espírito e carne ao m esm o tem po. Ele pode usar m agia. É o único intraterreno puro que pode.

— Além de você, é o que quer dizer? — eu provoco.

Morfeu intencionalm ente evita m eu olhar e concentra-se em Chessie.

— Você deve evitar soltar a cabeça enquanto estiver aqui. Do j eito que a paisagem m uda, arriscaria perdê-la. Agora, você quer voar ou gostaria de pegar um a carona?

Chessie flutua até o único bolso que restou na roupa de Morfeu e deposita-se lá dentro, deixando som ente a cabeça para fora.

Antes que Morfeu possa se m over, coloco a m ão em sua lapela.

Esticando-m e na ponta dos pés, esfrego o nariz felpudo de Chessie no m eu.

— Obrigada por m e curar lá atrás — digo para ele — e por m anter m eu colar em segurança. — Quando estou prestes a beij ar sua cabeça, ele se agacha dentro do bolso.

Meus lábios pousam no m eio de um a das aberturas na cam isa de Morfeu, beij ando a pele quente e m acia.

— Me desculpe. — Corando, dou um pulo para trás e perco o equilíbrio quando o chão abaixo de m im trem e.

Morfeu m e pega pela cintura, a afeição tingindo suas j oias num tom rosáceo.

— Não precisa se desculpar.

Papai solta um pigarro. Eu engulo em seco, afastando-m e.

— Tem os que ir andando. — Papai pega a sacola de viagem e dá o m apa a Morfeu. — Onde está o Jeb, de acordo com esse m apa?

Ainda com a atenção voltada para m im , Morfeu em purra o pergam inho sem ao m enos olhar para ele.

— Esse frangalho não o levará a lugar algum . A paisagem é im previsível, caso não tenha notado. Quem lhe deu este m apa deveria ter dito isso. Talvez, com seu lim itado intelecto hum ano, eles não consigam assim ilar a m agnitude de tais alterações.

Papai franze a testa.

— Disseram que as posições dos portões nunca m udam . Eu posso ver o brilho deles, ali e ali. — Ele aponta as ondas verdes radioativas no horizonte a distância, à nossa direita e esquerda.

Suspirando, Morfeu volta a atenção para papai.

— Muito bem . Responda-m e um a coisa: onde é o norte e onde é o sul? Sabe de qual direção chegou? É im possível deixar de andar em círculos neste m undo sem um a bússola.

— E você tem essa bússola? — papai pergunta.

— Eu tenho a m inha bengala — Morfeu responde com ar de segredo.

Papai range os dentes.

— Então você espera que nós sim plesm ente o sigam os.

Os lábios de Morfeu se curvam em um sorriso largo e m alévolo.

— Aly ssa não terá problem as em m e acom panhar. Quanto a você, posso carregá-lo nos om bros m ais um a vez, se necessário.

É um a farpa m aldosa, e eu lanço um olhar de repreensão para Morfeu.

— Não será necessário — papai diz, inabalável. — Você nos levará até Jeb. Tenho form as de convencê-lo. — Ele bate na adaga em bainhada pendurada em seu braço esquerdo.

— De acordo — Morfeu revida. — Afinal, não tenho escolha. — Sua réplica é cheia de frustração. Deve haver um m otivo m ais forte do que a adaga de ferro de papai para persuadi-lo. Afinal, ele pode alçar voo a qualquer m om ento que queira.

Ele se vira sobre o calcanhar e com eça a escolher o cam inho através das ilhotas flutuantes, usando a bengala para uni-las sobre os fossos, com o fez antes. Papai e eu o seguim os.

O fato de term os de nos equilibrar sobre um terreno balouçante torna o cam inhar difícil, até que aprendem os onde pisar e pegam os o ritm o. Surtos m om entâneos de atividade pontuam a paisagem : bandos de coelhos fofinhos saltitando a distância que, olhando m ais de perto, têm o focinho e caninos afiados de lobos; criaturas parecidas com crocodilos levantando a cabeça por entre os fossos — m andíbulas gigantes bocej ando e revelando dentes m acios e brancos que lem bram vagam ente cerdas de escovas de dentes; e centopeias arrastando-se sob ervas daninhas espinhentas para proteger o corpo coberto por um a pele prateada e aveludada, e pernas cravej adas de pequeninas j oias verdes.

A m aioria dos anim ais e insetos nos ignora, e eu prefiro assim . Não consigo ouvi-los, nem às flores. Contudo, quando m inha túnica fica presa em um a planta com frutos que parecem xícaras de chá de couro verm elho penduradas de cabeça para baixo, penso em tocar nela.

— Eu não incom odaria essas aí, se fosse você — Morfeu grita da m inha frente, sem nem se dar ao trabalho de olhar.

Recolho a m ão.

— O fruto é venenoso?

— Não é um fruto — papai responde lá de trás. — São bolsas de ovos para um gênero anfíbio de m orcego aqui de Qualquer Outro Lugar.

Morcegos que vivem na terra e na água. Assustador.

Aum ento a distância entre m im e as plantas para não perturbar os receptáculos em form a de xícara. O poem a da história de Carroll ecoa em m inha m ente:

Pisca, pisca, morceguinho,

Aonde vais nem adivinho.

Lá no céu, como travessa

Para chá, voas depressa.

Pisca, pisca, morceguinho,

[1]

Aonde vais nem adivinho.

 

Enquanto tento lem brar o resto dos versos, tropeço em um grande arbusto. Um a confusa m iscelânea de borboletas-m onarcas revoa das folhas. Suas asas são finas com o papel, e m etálicas, com o um a m istura entre cobre forj ado e vitral. Estendo a m ão para capturar um a, m as m inha intuição intraterrena detém m inha m ão no ar.

— E as borboletas? — pergunto.

— Elas são nativas deste lugar — Morfeu responde alguns passos adiante, antes que papai possa responder. — E, por causa disso, pode contar que elas sej am o oposto do que você esperaria. Os dentes dos crocodilos eram de cerdas m acias de escovas de dentes, e seu tem peram ento era igual. Eles são com o gatinhos neste m undo. Mas as borboletas? Um a picada e você vira pedra. Ou então elas podem escolher cortar um a artéria com um a de suas asas afiadas com o navalhas. As m udanças constantes no cenário servem para m anter a fauna distraída. Ignore-os, e eles retribuirão com a m esm a cortesia.

As graciosas borboletas se distanciam , flutuando em um a corrente de ar, e eu percebo um a agulha brilhante e afiada proj etando-se de seu tórax, curva e com um a ponta venenosa, feito o ferrão de um escorpião.

As coisas se acalm am à m edida que a fauna retom a sua rotina. Se é que se podem cham ar coisas com o ovos feito xícaras de chá e escorpiões com asas de m etal algo rotineiro...

Depois de falar de outras criaturas estranhas com papai, liberto m inhas asas e voo para alcançar Morfeu.

Ele olha para m im quando pouso ao seu lado. Um sorriso satisfeito m e saúda.

— O que foi? — pergunto.

— Você pode não estar vestida com o a realeza, m as é bom vê-la aceitar seu lado intraterreno tão abertam ente.

Olho para m inhas botas verm elhas, reprim indo um arroubo de orgulho. Ele nem desconfia de com o está ficando fácil soltar as rédeas da loucura.

— E então, vai m e dizer quem é esse tal de Manti? Ele é perigoso?

— Que nada. É um m anticórnio am bicioso que foi um hum ilde valete por tem po dem ais. Ele anseia por poder e prestígio. Nada com que você tenha que se preocupar.

O fato de haver um ser que é m etade hom em , m etade unicórnio de verdade correndo por aí j á é suficiente para m e preocupar, e a garantia de Morfeu parece, no m ínim o, forçada.

— Você não acha que chegaríam os m ais depressa se voássem os? — pergunto para apaziguar m eus nervos tensos. — Papai pode usar o seu grifo. Você poderia deixar que ele o levasse.

Morfeu volta a atenção para a paisagem . As j oias de seu perfil m udam de verm elho para preto.

— Não sinto m uita vontade de com partilhá-lo com seu pai. Tenho certeza que entenderá.

— Então, espere por nós e eu voltarei para pegar um a das som brinhas que os pássaros deixaram .

— Tam bém não tenho vontade de esperar.

Eu faço um a careta.

— Pare de ser tão m esquinho. — Olho para papai, que nos m antém sob sua vista, alguns passos atrás. — Coloque-se no lugar dele. Pode im aginar o que ele tem passado? O pesadelo que ele teve que reviver e aceitar com o realidade nas últim as horas?

Vários passos adiante de m im , Morfeu ergue a cabeça, deixando a brisa úm ida enrugar a franj a azul na aba do chapéu.

— Sim , pobre hom em . Deve ter sido insuportável perceber quanto a m ulher que ele adora tam bém o am a.

Batendo as asas, acom panho seu passo rápido.

— Você não está com parando o rom ance deles com ...

Ele estuda m eu rosto com um sorriso irônico e am argo.

— Com o de quem , Aly ssa?

Mordo a parte interna do lábio, irritada com igo m esm a por quase levantar a m ão.

— Espere. — Eu o estudo, dos pés à cabeça. Sim , ele ainda parece ser o m esm o Morfeu que eu conhecia. Mas há um a diferença discernível: suas asas o seguem feito rastros de tinta, enquanto as m inhas batem , levantando-m e um pouco do chão. — Essa não cola. Você está m udando de assunto. Está enrolando.

Morfeu faz ar de escárnio enquanto traz outro pedaço vagante de terra para poderm os pisar nele sem nos m olharm os.

— Ridículo. Por que eu faria isso?

Pulo com leveza na frente dele.

— Porque é você quem precisa do grifo. Você não pode voar sozinho, assim com o m eu pai.

Enquanto esperam os que papai nos alcance, Morfeu segura a ilha vizinha no lugar com a bengala. O único som é o dos gêiseres borbulhando à nossa volta. Seu silêncio é m uito significativo.

Coloco m inha m ão sobre a m ão que segura a bengala. Através da luva fina, sinto seus m úsculos tensos.

— Não vi você usar as asas nem um a vez desde que estou aqui. Aquela coisa-pássaro... ela disse que você precisa se recarregar, que sua m agia acabou. O que significa que você não é im une à cúpula. Vai m e contar o que está havendo?

Sua outra m ão se fecha sobre a m inha, tornando-m e cativa em vez de captora, enquanto ele sustenta m eu olhar.

— Naturalm ente. Assim que você m e disser o que há nesse pequenino diário que traz no pescoço.

Meu coração dispara j unto ao dim inuto caderno que descansa sobre m eu esterno. Ainda está sob a túnica, então ele não poderia tê-lo visto.

— Com o é que você...?

— Chessie fala com os olhos. Você só tem que olhar e ouvir.

A cauda de Chessie escorrega para fora do bolso de Morfeu e se contorce, com o se zom basse de m im .

— Na verdade — eu digo quase para m im m esm a —, estam os aprendendo a nos com unicar ultim am ente.

— Bom . — Morfeu balança a cabeça. — A m aior prioridade de um a rainha deve ser um a com unicação aberta com os súditos. Agora, de volta à m inha pergunta.

Aperto os lábios. Ainda não estou pronta para com partilhar o segredo do diário. Trazer à baila m eu plano para derrotar a Verm elha vai abrir o assunto do voto pela m agia da m inha vida que fiz para Morfeu um m ês atrás, que eu passaria vinte e quatro horas com ele depois que a derrotasse. Agora não é a hora nem o lugar de discutir isso.

Papai cruza o fosso que o separa de nós, obviam ente atraído por nossas m ãos unidas.

— Por que param os?

Morfeu faz cara feia.

— Só esperando que o hum ano nos alcance, em bora saibam os que ele nunca realm ente nos alcançará — ele gracej a, frio com o sem pre. Mas há um a ruga de preocupação entre suas sobrancelhas, um tique inconsciente que ele não consegue esconder de m im . Não respondeu à m inha pergunta sobre as asas. O invencível Morfeu está aleij ado. E isso m e entristece.

Voltam os a cam inhar, com papai nos seguindo de perto. Quero pressionar Morfeu sobre sua fraqueza aqui, m as seu orgulho não o deixará responder. Então, m udo de assunto.

— Voltei a ficar curiosa.

Ele rodopia a bengala.

— Mas é claro. Esta é sua qualidade m ais encantadora.

Balanço a cabeça em resposta à provocação.

— Os pássaros m encionaram um a Rainha de Copas. É o pseudônim o da Verm elha aqui?

Morfeu entorta o queixo.

— A Rainha de Copas não é a Rainha Verm elha. Sua m ãe sem pre as confundia, m as eu tentei explicar. A Copas era um a rainha da Corte Verm elha séculos atrás. Ela é um a parenta sua, m as distante. Ela tinha tendências à barbárie, assassinando os súditos pelos m otivos m ais inanes. Pegar um pedaço de torta e deixá-lo no prato, ou derram ar seu esm alte de unhas. Por isso, ela herdou a alcunha de Sem Coração. Em um a m anobra distorcida para ganhar respeito, com eçou a colecionar a única coisa que os súditos diziam faltar a ela.

— Corações? — eu pergunto, quase engasgando com a ideia. — Era a isso que o pássaro troglodita se referia quando disse que aqueles que não vencerem a corrida perderão seu coração pulsante?

— Precisam ente. Os corações intraterrenos são únicos. Eles podem ser colhidos e continuar a bater para sem pre depois que sua prisão corpórea desaparece. A rainha se aprim orou nessa técnica. Ela tam bém pode sentir a qualidade de um coração. Ela usa esses órgãos para tudo: desde acessórios para suas roupas até pesos de papel. Ela foi banida do reino por essa prática e enviada para cá depois que se tornou um a assassina dem asiadam ente violenta para ser contida. Infelizm ente, agora ela está abrigando o espírito da Verm elha. Duas rainhas pelo preço de um a. É um a pechincha e tanto.

Minha garganta se fecha.

— Mas você disse que os espíritos não podem possuir outros corpos aqui...

— Exceto se esse “corpo” for adequado e tiver a m esm a linhagem . Na ausência de m agia, a linhagem se torna o elo m ais forte. A fada-flor em que a Verm elha chegou estava acabada. De fato, da últim a vez que a vi, achei que ela estava m orta; forragem para os pássaros trogloditas. Mas ela os convenceu a carregá-la até o castelo da Copas e ofereceu algum a barganha à sua ancestral para com partilhar o corpo. Em bora eu ainda desconheça quais foram os term os.

Um arrepio de terror gela m eus ossos. Se a Verm elha está dentro do corpo de outra rainha, tão m aliciosa e selvagem quanto ela, as m em órias do m eu diário podem se m ostrar inúteis. Preciso de m ais algum a coisa para poder barganhar. Se eu descobrisse o grande plano da Verm elha...

— Fiquei sabendo de um a coisa, por parte de um am igo do Hum phrey, o Hubert. Nós ficam os na estalagem dele.

Morfeu fica radiante.

— Ah, o Hubert. Com o está aquele velho bebum ?

— Esplêndido. — Eu franzo as sobrancelhas. — E rabugento.

Um riso profundo irrom pe do peito de Morfeu.

— Eu sem pre gostei da com panhia dele.

— É — eu digo, zom bando. — Ele é um ovo m uito legal.

Morfeu ri novam ente, e não consigo conter um sorriso em resposta.

— Enfim — continuo —, ele disse algo inacreditável sobre a Verm elha e Lewis Carroll. Que eles se conheceram antes de Alice entrar na história. — Morfeu parece genuinam ente surpreso, m as aguarda que eu term ine. — A Verm elha queria que Lewis encontrasse o País das Maravilhas, de acordo com o cabeça de ovo. Você sabe algo sobre isso?

Morfeu não tem tem po de responder, porque repentinam ente o sol aparece por entre as nuvens do céu, um flash ofuscante que nos faz cobrir os olhos. O céu desvanece em um brilho cor de pêssego e o chão trem e. Morfeu segura m eu cotovelo. Água j orra dos fossos e as peças do quebra-cabeça voltam a se encaixar. As árvores ressecadas à nossa volta ganham folhas de um verde tím ido e flores brancas; no m esm o instante, nossos pés ficam rodeados de gram a.

Quando tudo se estabiliza, incluindo o chão, Morfeu m e solta e papai nos alcança. Eu estreito os olhos. Fica tudo tão claro que nós até lançam os som bras, e as form as altas e frondosas da folhagem salpicam m atizes sobre a terra. Até os cheiros m udaram , de estagnados e fum acentos para fragrantes e florais, trazidos por um a brisa tem perada. É com o a prim avera no Texas. Um a pontada de saudade de casa acom panha esse pensam ento. Estou prestes a m encionar isso para papai quando um a luz verde — não m aior do que um gafanhoto — cintila no céu e cai.

Ao descerm os, podem os ver m elhor o ser de pele verde-viva com escam as brilhantes curvadas sobre os seios e o torso, e orelhas pontudas. As asas da fada trem ulam , de um branco leitoso e cobertas por um a penugem , e seu cabelo brilha com o algodão-doce feito de açúcar m ascavo. Ela pousa sobre o om bro de Morfeu, escondendo-se sob o chapéu. Quando ele ergue o dedo m indinho para afagar seu pé, ela espia por trás da cortina de cabelo azul dele, com os olhos m etálicos trem eluzindo, com o se usasse óculos escuros m arrons.

— Olá, m inha pequena e adorável Nikki — Morfeu diz a ela carinhosam ente. — Suponho que estej a aqui para m e avisar que m inha carona está a cam inho.

Ela fala baixinho no ouvido dele, e só consigo ouvir um tilintar parecido com sinos de vento.

— Espere — eu digo. — Por que ela pode voar sem sofrer m utações? Não faz sentido.

— Você terá todas as respostas que procura m uito em breve. — Morfeu m e passa a bengala. O gesto é m ecânico, quase resignado. — E reencontrará Jebediah tam bém . Mas estou avisando. Ele não é o m esm o rapaz que você conheceu.

— Hum ? — eu indago.

— É só pedir à bengala que voe — Morfeu diz, evitando m inha pergunta. — Aconteça o que for, não a deixe ficar m olhada. — Em seguida, dá as costas para m im .

Os pelos de m inha nuca se arrepiam quando percebo que sua som bra não se vira com ele. Em vez disso, ela o encara, m ais com o um reflexo borrado do que com o um contorno eclipsado no chão. Suspirando, Morfeu dá as m ãos para a silhueta escura e é erguido no ar ao som dos ecos fantasm agóricos das próprias asas. A pequenina fada olha para m im m ais um a vez antes de segui-los.

Fico boquiaberta, im óvel.

Papai coloca a m ão nas m inhas costas.

— Tem os que ir. Ele é nossa única chance para encontrar Jeb e sair daqui. — Sua voz está trêm ula, e eu sei que ele está tão apavorado quanto eu.

Dou-lhe o bastão do grifo.

Arrum ando a sacola no om bro sobre a adaga, ele sobe na bengala com o um a criança sobe em seu cavalo de m adeira.

— Voa — ele sussurra baixinho, e, com um rufar de asas e pelos, a criatura ganha vida. Ela abre o bico com um rugido. Suas asas de águia se agitam , fazendo m eu cabelo esvoaçar, e o grifo alça voo com papai segurando firm e em sua j uba.

Reprim o as perguntas que rodopiam em m inha m ente, abro as asas e m e lanço ao céu, m antendo papai e Morfeu à vista enquanto cortam os nuvens m acias, na direção das ondas espum antes de um oceano que brilha a distância.

 

Um a m ontanha surge da água quando estam os descendo, com o se estivesse nos aguardando. A fada e Morfeu, j unto a sua som bra, m ergulham na direção das pedras na encosta. A m ontanha se abre e os engole, em seguida fechando a entrada.

No m om ento em que papai toca no solo, o grifo se transform a na bengala. Eu pouso ao lado deles. Minhas asas fazem m uito peso sobre os om bros, cansadas do esforço. Eu lim po o suor da testa.

— E agora? — papai pergunta.

Tento encontrar um a fresta ou buraco que possa ser a chave para abrir a m ontanha.

— Poderia m e em prestar isso? — Pego a bengala de Morfeu e uso as garras para cavar algum as pedrinhas. Com o nada acontece, cutuco algum as saliências com o pé.

— Pare! — Um a voz, áspera com o pedras raspando um a na outra. — Pare j á com isso!

Fico boquiaberta.

— Isso não é m aneira de dar um a boa prim eira im pressão — a voz fala novam ente.

— Sim , para dar um a boa im pressão você deveria estar segurando um cinzel — um a segunda voz, m enos rabugenta, acrescenta.

Dois rostos aparecem na encosta da m ontanha, um deles feito de terra, o outro de pedra. O rosto de pedra é o rabugento e tem olhos arregalados e grandes. O outro — o de terra — tem olhos estreitos e um j eito quase engraçado.

Papai larga a sacola de viagem e senta sobre ela. Sua pálpebra esquerda está trem endo tanto que parece o ponteiro de segundos de um relógio.

— Tudo bem , papai. Eu cuido disso.

Concordando, ele passa a m ão pelo cabelo.

Pisando sobre algum as pedras soltas, chego m ais perto do rosto sim pático.

— Precisam os entrar.

— Aaaahhh, sinto m uito — diz a voz rabugenta e em pedrada por trás de m im . — Só o m estre pode abrir a porta.

— É, sim . Lam ento. — Olhos quase fechados m e encaram com sim patia. — Sinto m uito m esm o. Meu coração fica triste por você.

O solo abaixo de nós trem e, e com eçam os a afundar no oceano. Papai pega a sacola e, j untos, subim os a m ontanha com a m esm a velocidade com que o oceano sobe à nossa volta. Todas as vezes que fiz escalada com Jeb m e voltam à m ente, e tenho a vantagem das asas. Papai tam bém , com a bengala de grifo.

— Vam os ter que voar! — eu grito. — Antes que o pico fique subm erso!

Papai se desequilibra quando a sacola e a adaga escorregam de seu om bro. Ele as segura no últim o instante, m as perde a bengala. Ela cai m ontanha abaixo e é engolida pelas ondas que crescem . Quando em erge, é o grifo. Ele guincha, batendo as asas, e vai derretendo aos pouquinhos até tornar-se um a m ancha oleosa e colorida que flutua.

Papai e eu olham os estarrecidos, alheios às ondas que j á tocam nossos tornozelos.

— Allie, vá! — papai grita, o prim eiro a lem brar que a m ontanha está encolhendo.

Escalando j unto a ele, tento invocar m inha m agia. Minha m ente está tão acelerada que m inha im aginação não consegue acom panhá-la. Estou em um branco total.

— Pare! — eu grito para a m ontanha, de puro desespero.

O m ovim ento cessa. A espum a branca toca m eus calcanhares.

— Seu m estre gostaria que vocês nos aj udassem — eu digo, na esperança de persuadir os rostos a se m ostrarem .

— É m esm o? — O rosto de terra aparece no topo da m ontanha. — Bem , existe outro m odo de entrar.

Arfando, papai e eu trocam os olhares esperançosos.

— Muito bem . E qual é? — eu pergunto.

— Um cavalo. Um cavalo especial. Ele pode fazer vocês entrarem . Só precisam gritar o nom e dele a plenos pulm ões.

Algo m e diz que vou m e arrepender de perguntar, m as pergunto m esm o assim .

— Então... qual é o nom e dele?

— Não posso dizer para você, m agricela bobinha.

Eu olho desconfiada, segurando o desej o de pisar nos torrões de poeira que form am os lábios do rosto.

— Então m e dê um a pista. As letras do nom e... um anagram a. Qualquer coisa!

— Só posso dizer que é um cavalo.

O outro rosto aparece na beira de um a pedra do tam anho de um a bola de golfe, com os traços com prim idos para caber em um a superfície m enor.

— Um cavalo sem pernas que pode se m over para cim a e para baixo, para a frente e para trás... Um cavalo sem sela que pode acom odar o cavaleiro m ais frágil... Um cavalo sem asas que pode deslizar com a graça de um pássaro.

Eu passo a m ão no rosto.

— Está brincando com igo? Mais um a charada idiota?

O falante de pedra entorta a boca num a careta.

— Eu prefiro dar um m ergulho a ficar ouvindo suas lam úrias. Você tem um a chance som ente, então tenha certeza do que vai dizer! — Em seguida, balançando-se para a frente e para trás até que a pedra se solte, ele rola para dentro da água com um tibum.

O de olhos estreitos olha para m im e enruga os brotos de gram a que form am seu nariz.

— É m elhor você descobrir depressa. Porque sua ingratidão m e fez sentir m uito m al.

A m ontanha com eça a encolher novam ente. Em questão de m om entos, as ondas j á lam bem nossas coxas.

Solto um gem ido.

— Papai, o que você acha?

Ele esfrega a pálpebra que trem e.

— Não sei. Talvez um cavalo de balanço?

Penso nas dicas. Parece com binar mais ou menos.

— E quanto à parte de deslizar? Cavalos de balanço não deslizam . Talvez um cavalo de carrossel. Eles são suspensos em um poste, e isso pode contar. Eles se m ovem para cim a e para baixo. Mas não se m ovem para a frente e para trás, na verdade. E têm pernas...

A água chega ao abdôm en de papai.

— Allie. — Sua expressão é aquela que ele faz quando está prestes a estabelecer as regras. Não quero ouvir o que ele está pensando, porque j á sei. — Você vai ter que voar — ele diz quando a água bate no m eu esterno. — Vá enquanto ainda tem os onde pisar.

— Não! Não vou deixar que você se m achuque! — Não como fiz com mamãe.

O rosto dela volta à m inha m ente, o desespero no olhar quando os m om irratos a arrancaram e a arrastaram para a toca do coelho que desm oronava, j unto com a Irm ã Dois e seus brinquedos recheados de alm as. Eu não conseguia m ais aguentar, por m ais que tentasse. Lágrim as brotam do canto de m eus olhos.

— Pai, fui eu quem cham ou as criaturas que levaram m am ãe em bora. Sou responsável pelo perigo que ela está correndo agora. Se ela desaparecer para sem pre...

— Aly ssa Victoria Gardner. — Papai pega m inha m ão. — Nem diga isso. Sej a o que for, você o fez porque teve que fazer. Sua m ãe sabe disso. Ela é forte e está bem . E nós vam os encontrá-la.

Nós. Internam ente, hesito, com as em oções m e arrasando.

— Prom ete que vai ficar com igo?

— Até o fim . Você vai nos tirar desta.

— Com o? — Se pelo m enos eu fosse forte o bastante para carregá-lo.

— Eu sei nadar — ele responde. — Posso nadar de costas por tem po suficiente para você ir pegar um a daquelas som brinhas que os pássaros deixaram , ou até um pedaço de m adeira em que eu possa m e segurar.

A cena é igual à do ano passado no País das Maravilhas, quando não consegui carregar Jeb na travessia do abism o. Eu deveria encontrar um a m aneira de voltar para ele, m as falhei, com o falhei com m am ãe.

Cerro os dentes com força. Não posso deixar m inhas dúvidas vencerem .

Faço um sinal de cabeça para papai, concordando.

Ele larga a sacola para poder deitar-se na água. A sacola subm erge, soltando bolhas de ar. Vasculho a distância, incapaz de ver terra em lugar algum . Não tenho ideia se andam os m uito ou se as som brinhas desapareceram na últim a m udança de paisagem .

Mesm o assim , preciso tentar.

Abraçando papai com força, dou-lhe um beij o apertado no rosto, que tem gosto de sal por causa dos borrifos do m ar.

— Não vou desapontar você.

— Eu sei — ele diz, e roça o nariz no alto da m inha cabeça.

Ele trança os dedos das m ãos para eu pisar e m e erguer da água. Respirando fundo, eu tom o im pulso e abro as asas, e veios de água escoam delas quando eu m e levanto.

— Quando estiver pronta, eu dou um im pulso. — Papai faz força e seus lábios se curvam , form ando aquele m eio sorriso à la Elvis. Sua confiança encenada tem o efeito oposto, fazendo-m e lem brar de todas as vezes que ele fingia que estava tudo bem quando m am ãe estava no sanatório, e durante essas últim as sem anas em que ela está desaparecida. Ele está fazendo a m esm a coisa, em bora estej a tão confuso e assustado quanto eu.

Chegou a hora de eu ser forte.

Preparando-m e para decolar, sacudo as asas. Elas estão pesadas sobre m inhas costas, não só por estarem m olhadas, m as devido ao m usgo enrolado nelas, com o criaturas do m ar.

Criaturas do mar.

As ondas atingem o queixo de papai.

— Allie, depressa. — A água j á entra em sua boca. Seus dedos se retesam sob a sola das m inhas botas.

— Espere — eu im ploro. Um cavalo sem pernas que pode se mover para cima e para baixo, para a frente e para trás... Um cavalo sem sela que pode acomodar o cavaleiro mais frágil... Um cavalo sem asas que pode deslizar com a graça de um pássaro.

— Um cavalo-marinho... — eu sussurro. Eles usam as caudas para m anobrar em qualquer direção, carregam seus bebês em bolsas e deslizam graciosam ente pela água, com o se navegassem .

— Não dá m ais tem po! — papai grita, e m e im pele rum o ao céu. Logo sua cabeça desaparece debaixo d’água.

— Cavalo-m arinho! — eu grito tão alto que m eus pulm ões doem , abrindo as asas e batendo-as de m odo a pairar no lugar.

Papai em erge e com eça a nadar de costas. A água se avolum a com o se algum a coisa enorm e fosse surgir atrás dele. Um a corcova blindada em erge, coberta por placas de ossos claros com o vidro. A água escorre, revelando a curva de um a espinha por baixo da arm adura transparente. O gracioso pescoço de um cavalo-m arinho — grande com o o m onstro do Lago Ness — vem à tona. O sol cintila sobre a criatura. Ela é linda e parece m ais um a estátua de vidro do que um ser vivente: o corpo de um cavalo-m arinho com a cabeça de um garanhão selvagem .

Sua barriga se abre e um funil de água arrasta papai em sua direção. Eu m ergulho para unir-m e a ele. Escorregam os para dentro de um bolsão translúcido. A abertura se fecha novam ente antes que a criatura volte a subm ergir. A cavidade é úm ida, m as confortável. Papai e eu sentam os e ficam os abraçados, observando plantas subm arinas e peixes confusos passarem depressa por nós enquanto descem os na direção da m ontanha que afundou. Surge um a entrada — com o aconteceu com Morfeu — e, seguros dentro de nosso subm arino vivo, entram os em um túnel escuro enquanto a m ontanha envolve tudo à nossa volta, bloqueando a luz.