Qualquer Outro Lugar
Capítulo 15
15
Marés do Destino
Quando chegam os ao farol, Jeb leva papai para a torre. Ele o veste e m e cham a. Cubro o corpo adorm ecido de papai com cobertores e em seguida m e sento na beirada do colchão ao seu lado, tirando as botas.
Faz pouco m ais de um dia que cheguei ao m undo do espelho, m as parecem sem anas. Não consigo acom panhar a passagem do tem po aqui. E esta noite prom ete ser a m ais longa de todas, pois estam os todos ansiosos para ver se conseguirem os pegar a cura para papai, ou se terem os de enfrentar a corrida eleitoral m ortífera da Rainha de Copas.
Afago a cabeça de papai, na esperança de que Jeb tente m e desencoraj ar de levar adiante o plano de Morfeu. Em vez disso, ele m e observa em silêncio enquanto o luar e a luz do farol se revezam para ilum inar as paredes.
— Eu verifiquei a perna dele e o veneno não se espalhou — Jeb finalm ente diz com sua voz profunda e aveludada, com o se estivesse no reino hum ano, antes de a m agia da Verm elha ter se infiltrado nele. Com o é irônico que m eu coração não sej a o único que ela contam inou. Isso só m e faz odiá-la ainda m ais.
— Ele vai ficar bem — Jeb continua. — É o hom em m ais forte que j á conheci.
Um vislum bre do m enino do passado torna-se tão vivo que eu caio nos velhos hábitos e abro m inha alm a.
— Eu tive um a visão da m inha m ãe, que ela está viva e em segurança. Acho que ela está m andando m ensagens através dos m eus sonhos.
Jeb se recosta na parece, sem fazer perguntas. A esta altura, ele j á viu e fez m agia suficiente para acreditar no inacreditável.
— O que vou dizer a ela se...? — Minha voz em udece.
— Não, Al. Ele vai sair dessa porque é ele que está sonhando agora.
Com um sinal de cabeça, concordo.
— Espero que ele estej a sonhando que vai ficar bem . Com coisas que o deixam feliz.
— Ele deve estar pescando — Jeb acrescenta, de pé ao lado da vigia. — Com o nas vezes que ele nos levava j unto. — Ele força um riso breve, m ais de pesar do que de alegria. — Lem bra aquela vez que você deixou cair um a caixa cheia de iscas?
Eu quase sorrio. Foi no verão antes da oitava série. Papai com prou grilos na loj a de pesca.
— Eles estavam gritando, pedindo aj uda.
Ouço um som surdo, e nem preciso olhar para saber que é o punho de Jeb contra a parede de pedra.
— Foi aí que eu com ecei a gostar de você.
Olho para ele por sobre o om bro. Com o cabelo desgrenhado coroado por raios prateados de luar, ele está m ais lindo que qualquer visão m ística que eu j á tive.
— Você nunca tinha m e contado isso.
Ele se vira e olha para fora.
— Você estava tão preocupada com aqueles insetos. A m esm a m enina que os espetava com alfinetes todos os dias para fazer m osaicos não conseguia enfiar um anzol neles para pegar um peixe.
— Porque eles j á estavam m ortos quando eu os usava para os m osaicos. Eu não tinha que ouvir seu sofrim ento.
— Eu não sabia disso. Só sabia que você guardava m uitos m istérios. Então com ecei a desenhá-la, tentando fazer com que eles viessem à tona, ler as entrelinhas.
Ele sem pre m e desenhou com o um a fada, com o se realm ente estivesse decifrando m eus segredos. Corta m eu coração que ele tenha perdido a habilidade de m e pintar enquanto esteve aqui, que quase enlouqueceu tentando.
— E seu pai — Jeb continua — não ficou bravo por você ter soltado os insetos. Ele só tirou as iscas de alum ínio e com eçou a usá-las desde aquele dia. Eu não sabia que um pai podia agir daquele j eito. Perdoar. Ser gentil. Ele é o m elhor hom em que eu j á conheci. Tenho certeza de que ele deve ter salvado a m inha vida algum as vezes.
Eu fungo e lim po o nariz com as costas da m ão, em seguida enfiando o cobertor por baixo do queixo de papai, estudando seu rosto sereno.
— Era para ele ser cavaleiro. — Minhas cordas vocais endurecem . — Mas, quando a m am ãe foi internada, ele teve que ser pai e m ãe. Eu o achava chato por causa disso. Mas isso fez dele o m aior herói de todos. — Para não chorar, enfio o rosto no om bro de papai, acalm ando-m e com o ar que ele exala sobre m inha têm pora. Sua pele ainda tem o cheiro da tinta que até instantes atrás cobria o corpo.
Quase não percebo o peso que se acom oda ao m eu lado na beira da cam a.
— Al — Jeb sussurra, m ais próxim o de m im do que j am ais esteve desde que cheguei à m ontanha. Seus dedos percorrem o contorno de m inhas asas.
— Eu quero a m inha fam ília de volta. Quero você e Morfeu em segurança, e quero consertar o País das Maravilhas.
— Eu sei.
Sua em patia m e despe de m inhas defesas e eu levanto o rosto para expressar m eu m aior tem or.
— Mas estou apavorada de deixar a Verm elha entrar em m im novam ente. — Eu m e detenho quando estou prestes a revelar a razão (que m eu coração parece que está se partindo, literalm ente) porque ele desvia o olhar.
O colchão balança quando ele se levanta.
— Eu tenho que vigiar as entradas.
Em bora eu não estivesse esperando um a palavra de estím ulo nem um abraço reconfortante, procuro não ficar desapontada.
Ele se dirige para a porta.
— Tente dorm ir, está bem ?
Eu concordo. Meu corpo, pesado de exaustão, quer fazer som ente um a coisa: aninhar-se ao lado de papai. Contudo, enquanto ouço as botas de Jeb descendo os degraus da escada, com eço a perceber por que ele não tentou m e dissuadir de seguir os planos de Morfeu. Jeb se sente responsável pelo estado de papai. Ele acha que pode pegar a cura sozinho para que eu não tenha de enfrentar a possessão da Verm elha.
Consertar o País das Maravilhas não é a prioridade de Jeb. Ele só pensa em garantir a segurança de m eu pai, de m inha m ãe e de m im . Entretanto, se for capturado no castelo, eles o usarão com o um recipiente para a m agia até que não sobre nada, com o Morfeu disse...
Fecho as cortinas em volta de papai e desço as escadas correndo. Quando atravesso a cozinha deserta, sinto o terror ferver em m inhas veias.
Disparo pela porta.
— Jeb!
Ele j á está na últim a parte das escadas sinuosas, com a silhueta realçada pelas som bras e indo na direção da costa e do barco a rem o.
— Jeb, espere!
Estim ulo m inhas asas a voar e pouso no m esm o instante em que ele pisa no últim o degrau. A areia parece um a lixa na sola de m eus pés quando m e coloco entre ele e o barco, fora do alcance da luz do farol.
— Não faça isso.
Ele fica tenso, a cam iseta apertando seus m úsculos.
— É o m eu dever.
— Não é culpa sua.
— Não se trata de culpa. Tem a ver com destino. Quem tem a m elhor chance de derrotar a Verm elha sou eu.
Faço um a careta.
— Do que você está falando?
— Me dê o devido crédito. Som os artistas. Conhecem os as cores, com o elas se com binam . A m agia da Verm elha e a de Morfeu. — Ele ergue o pulso, onde brilha a tatuagem . — Deve haver um a razão para a m inha ser púrpura.
Fico de queixo caído.
— Você sabia? — Fico tão atordoada que nem m e m exo quando ele passa por m im .
— Eu sem pre soube. Quando você descobriu? — ele pergunta, desam arrando a corda da âncora do pilar.
— Quando eu vi suas salas por dentro.
Ele para. Exalando o ar com força, senta-se na proa do barco. Com os cotovelos apoiados nos j oelhos, enrola a corda entre os dedos.
— Então você com preende por que não posso ir em bora agora. Minhas criações precisam de m im . — Sua devoção m al dirigida m e dói. — Além disso, este... ódio. Ele ficou grande dem ais para o m undo hum ano. Eu poderia ferir alguém . A Jen, a m am ãe. Você. Eu seria igual ao m eu pai.
Digo a m im m esm a que m eus olhos ardem por causa da m aresia.
— Não. Você nunca será igual ao seu pai. Você decidiu conscientem ente não ser. Mesm o com o veneno da Verm elha alim entando sua alm a, você ainda é gentil com igo.
— De acordo com Morfeu, eu quase estrangulei você um m ês atrás em nosso m undo. Quando fiquei louco por causa do suco de Tum tum no ateliê. Você ficou tão desesperada para escondê-lo de m im que fez um trato irrevogável com o diabo.
Fico tom ada pela raiva. Então Morfeu contou a ele. Tudo porque não tive habilidade suficiente para fazê-lo j urar que não contaria a Jeb. Bom , j á chega de ser ingênua e descuidada com as m inhas palavras. De agora em diante, só farei votos pela m agia da m inha vida que sej am vantaj osos para m im .
É por isso que Jeb não conseguia pintar m eu retrato. Não era o ódio da Verm elha, m as sua própria culpa por ter quase m e estrangulado. Minhas entranhas se encolhem , m as é a em patia que faz com que m e sinta assim , e não um frasco m ágico dentro de um a toca de coelho.
Observo a corda escorregar pelos dedos de Jeb em m ovim entos graciosos, apesar da form a m asculina de suas m ãos.
— Eu não queria que você tivesse que lutar com o que aconteceu — digo. — Eu estava errada.
Ele dá de om bros.
— Não tenho tanta certeza, a j ulgar pelas coisas que criei.
— Não. É este lugar. A influência da Verm elha. Só precisam os que você passe pelo portão. Que se liberte do poder dela. Aí você voltará a ser você m esm o.
Ele balança a cabeça.
— Eu reprim i m inha raiva durante anos. Vir para cá e m e esconder nesta m ontanha m e deu um a válvula de escape, trouxe tudo à tona. Agora que eu soltei as rédeas, não sei se consigo m ais m e controlar.
Seu rosto volta a se transform ar no rosto daquele m enino m agoado. Morfeu estava errado. Não foi de m im que Jeb desistiu. Foi de si m esm o.
Eu m e aproxim o, a areia escoando sob m eus pés, e percebo outra verdade.
— Espere... se você sem pre soube da m agia da Verm elha, estava fingindo para Morfeu, deixando que ele pensasse que estava enganando você.
— É. — Ele dá um sorriso sarcástico. — Enganei o enganador. Irônico, não? — Um quê de orgulho fica à m ostra, fazendo seus olhos brilharem com a cor das folhas de outono.
— Você podia ter usado o poder dela contra ele. Podia feri-lo. Mas não fez isso. Por quê?
— Porque feri-lo seria ferir você.
A confissão faz m eus j oelhos am olecerem . Sento-m e ao lado dele na proa. Minhas asas descansam , flácidas, dentro do casco do barco, e a areia quente preenche o espaço entre os dedos dos pés.
— Não entendo com o você não vê.
— Ver o quê?
— Eu sou a prioridade, acim a de seus próprios sentim entos. Você tem controle com pleto sobre a sua raiva. Tanto que escolheu não ferir Morfeu porque ele é m eu am igo.
A coluna de Jeb se retesa.
— É m ais do que isso. Você quer ficar com ele. Viver com ele no País das Maravilhas. Para sem pre. — Ele bate com a corda na própria coxa de um a m aneira j ovial, m as não tem com o esconder o peso em seus om bros.
Sinto um nó na garganta.
— Do que você está falando? O voto que eu fiz foi só por vinte e quatro horas.
— Na noite do baile — Jeb diz, levantando-se. — Depois que eu aj udei a sua m ãe com seu pai. Quando voltei para o seu quarto. — Ele m e conduz para fora do barco.
Eu m e ponho de pé e esfrego os braços, sentindo frio com o rum o que a conversa está tom ando.
— Jeb, aquele beij o não deveria ter acontecido. Não era m inha intenção.
— Mas, quando eu voltei hoj e, você estava no quarto dele. Suas roupas estavam am assadas e você corou.
Minhas bochechas pegam fogo. Então ele percebeu.
— Eu sinto m uito. — E estou tão cansada de desculpas esfarrapadas. — Não consigo equilibrar m uito bem o que sinto. Meus dois lados... estão sem pre brigando. Não estou tentando m anipular você. Nem a ele.
A testa de Jeb se franze ainda m ais.
— Eu sei que você não está brincando conosco. Tam bém sei que não é o tipo de garota que beij a um cara de graça.
— Você está certo. Da prim eira vez foi para pegar m eu desej o de volta. E a segunda... era para ser um beij inho no rosto. Ele transform ou em algo m ais.
— Ora, por favor! — Jeb grita, fazendo-m e recuar. — É isso que m e deixa m aluco. Que você não possa adm itir para m im nem para você m esm a. Você o beij ou porque sente algum a coisa por ele.
Sentir... um a palavra tão sim ples, exceto a um a rainha intraterrena m estiça para quem não só a vida está se desfazendo, m as o coração tam bém . Aperto os lábios.
Meu silêncio provoca um a expressão perturbadora no rosto de Jeb... com o um a tem pestade form ando-se lentam ente.
O barco atrás dele com eça a trem er, um a m anifestação física de sua agitação em ocional. Dou um pulo quando um ruído alto parte as em endas da m adeira. Os painéis se abrem , deixando nada m ais do que um esqueleto em aciado.
— Eu tentei falar para você — ele diz em tom m onótono e inquietante. — Não posso confiar em m im m esm o.
Levanto os om bros.
— A raiva não foi dirigida a m im . E nunca será.
— Não im porta. Porque está acabado.
— Não acredito em você. — Procuro debaixo da cam iseta e tiro o anel que ele pintou na sala do salgueiro. — Eu vi todos os sonhos lindos que você tem para nós.
Cerrando a m andíbula, ele pega m eus om bros — com cuidado, com o se eu fosse feita de vidro — e m e m anobra de m odo que eu fique a alguns centím etros do barco, perto o bastante do oceano para que a m aré cálida lam ba m eus dedos.
— Tinha — ele corrige. — No passado.
Com o olhar fixo no chão, ele agita a m ão sobre a areia. Cada grão cintila com luz verm elha e dois buracos de abrem , sugando-m e até os tornozelos. Eles se fecham sobre m eus pés. Tento m e m over, m as estou presa.
Fico totalm ente confusa.
— Jeb?
— Outra coisa que seu príncipe das m ariposas não sabe. Aprendi a separar as duas linhas de m agia. Eu coloquei seu pai em transe para dorm ir antes. Morfeu foi só um adereço. Pena que não controlei os poderes dele na noite do baile. Talvez você tivesse escolhido a m im . Aí eu poderia dar todas as coisas que queria a você, em vez de só sonhar com elas. — Ele desliza o cordão com o anel pela m inha cabeça e o m ergulha na água até a linda faixa de diam antes se desintegrar em um a poça de tinta. Só resta a chave do diário.
Enraizada com o um a erva daninha, não posso fazer nada além de assistir.
Ele recoloca o cordão em m eu pescoço e faz o barco voltar à sua glória anterior com um floreio das m ãos.
Eu recupero a voz.
— Mas eu escolhi você!
De costas, ele lim pa o banco. Um a brisa faz seu cabelo esvoaçar, tornando-o ainda m ais desgrenhado.
Estico o braço e seguro o bolso traseiro de sua calça j eans.
— Jeb, não faça isso.
Ele tira m eus dedos e sai do m eu alcance.
— Fazer o quê? Aj udar você a conseguir o que quer? — Ele recolhe a corda para o casco. — Quando seu am iguinho m ágico estava com as asas em volta de você no seu quarto, você disse a ele que estava só pedindo m ais um pouco de tem po. Você disse que a eternidade valia esse preço.
Só consigo soltar um suspiro.
Eu não fazia ideia de que ele estava ouvindo no corredor antes do beij o. Eu tinha tocado o rosto de Morfeu com os lábios, um beij o inocente. Jeb não viu isso, porque as asas de Morfeu m e envolveram som ente quando ele transform ou o beij o em algo m ais. Jeb viu o que Morfeu queria que ele visse. Mas pior do que o que Jeb viu foi o que ele ouviu. O que saiu da m inha boca.
Às vezes, as palavras falam m ais alto do que as ações.
A com preensão m e açoita a m ente, feroz e cortante com o um a lâm ina.
— Você precisava de tem po para term inar com igo — Jeb diz. — E eu tinha acabado de pedir você em casam ento. Eu esperava a eternidade, m as você j á a tinha planej ado com ele. — Jeb lança o barco na água e pula rapidam ente para dentro a fim de não m olhar as roupas. Ele se senta, encarando-m e, com o rem o na m ão.
A espum a da m aré bate em m eus tornozelos, derretendo m inha m eia-calça até expor as canelas. Tensiono os m úsculos da coxa e torço as panturrilhas. Mas a areia m e prende com o se fosse cim ento. Ele está prestes a acabar com a própria vida, abdicar de tudo, e tudo pelo que ele acha que eu quero.
O diário no m eu peito brilha, m as não consigo desacelerar os pensam entos o bastante para usá-lo. Minha m ente está tão inútil quanto o corpo.
— Espere! — Tento alcançar a proa, m as ela escorrega sob m eus dedos conform e a m aré puxa o barco para o oceano. — Está tudo fora de contexto, entende? Eu não disse que queria term inar com você!
Jeb desliza para fora do m eu alcance.
— Por que outro m otivo você estaria pedindo tem po se não fosse para m e dispensar? Eu entendo. Eu tentei estrangular você. Não sou digno de confiança. — Ele arrasta os rem os na água até estar a vários m etros de distância.
Não. Não posso perm itir que ele acredite nisso. O único arsenal que tenho é a verdade. Meu voto para com a Marfim dizia que eu não poderia contar a ninguém sobre a visão de um filho m eu e de Morfeu. Mas a perspectiva da m inha im ortalidade não contraria nenhum a regra.
— Eu posso ter dois futuros. Um com você no reino m ortal. Depois, m ais tarde, com o rainha intraterrena. O que você ouviu na noite do baile era eu pedindo a Morfeu que desse espaço a m im e você. Que esperasse que m inha vida hum ana term inar.
Jeb para de rem ar. A água bate no casco, levando o barco para m ais longe. O farol faísca sobre ele, e seu piercing reluz enquanto ele m e observa.
— Com o isso pode ser possível?
Tento explicar que vou envelhecer no reino m ortal, m as não m orrerei. Que, quando estiver velha e frágil, posso falsear m inha m orte e ir para o País das Maravilhas. Que, um a vez que a coroa sej a colocada em m inha cabeça, retornarei à idade que tinha quando m e tornei rainha.
O que não digo é quanto dói pensar em sobreviver às pessoas que am o, deixar m inha fam ília hum ana para trás. Não posso dizer isso porque a dor de Jeb m e preocupa m ais um a vez.
— Então, depois que todo m undo m orrer, você vai para o País das Maravilhas e terá dezesseis anos para sem pre? — O tom am argo de sua voz m e fere com o um espinho. — Eu estarei m orto. E você passará a eternidade com ele. O que é que eu devo achar disso, Al?
Eu cerro os dedos, preocupada que ele possa partir o barco novam ente e cair na água.
— Não sei.
— Mas eu sei. Eu vou ao castelo, pego a cura para seu pai e m ando você e Morfeu para sua vida de felicidade. Aí você pode pular a parte chata do m undo real e ser eternam ente j ovem agora m esm o. Quem é que não gostaria disso, não é?
— Jeb, não! — Tenho de forçar m inhas cordas vocais e isso m ostra quanto ele está longe da m argem . Estam os gritando um para o outro e nem percebem os.
Na verdade, ele está se distanciando sem ter de rem ar.
Um brilho verm elho ondula a água, ilum inando as profundezas com pulsações, com o se houvesse um coração vivo lá em baixo. A cada vibração, o barco de Jeb fica um a onda m ais perto da m argem oposta e da saída. Ele está controlando o oceano do m esm o m odo com o controla tudo o m ais aqui.
— As areias vão soltá-la quando eu tiver partido, e você pode ir ficar com seu pai — ele grita a distância. — Am anhã de m anhã, você estará a cam inho do País das Maravilhas com Morfeu.
Lágrim as de frustração salpicam m eus cílios. Aqui estam os nós novam ente, em um m undo m ístico e hostil, brigando um com o outro em vez de enfrentarm os os perigos que nos aguardam .
— Você não tem ideia do que eles podem fazer com você!
Sim ultaneam ente, puxo as pernas e bato as asas até m eus ligam entos parecerem prestes a se rom per. Quanto m ais m e esforço, m ais quente fica o diário. Determ inada a detê-lo, relem bro passo a passo com o usei o pequeno caderno com o um a catapulta para m eus poderes no quarto de Morfeu.
Quando o brilho carm im penetra em m inhas veias, eu redireciono o fluxo, lançando-o ao oceano. Dá certo, produzindo um a onda que reverte a direção do barco para m im . O farol pisca, ilum inando Jeb de pé no barco. Equilibrando-se graciosam ente, com o um surfista, ele j oga os rem os de lado. Apesar da distância entre nós, posso j urar que vej o um sorriso de escárnio.
Isso atiça m inha m etade obscura. Ela aprecia o desafio.
— Quer brincar, não é? — eu sussurro.
Seu cabelo chicoteia a cabeça. Ele ergue o punho tatuado — que brilha em púrpura, feito um farol — e com pele outra onda, m ais alta do que a m inha. A água o arrem essa na direção da m argem oposta. Em resposta, faço o m esm o, atraindo-o de volta para m im . Nosso cabo de guerra aquático vai ficando m ais violento, nossa determ inação dançando em algum nível consciente até que o oceano vocifera e o cospe.
Jorros fortes açoitam nosso cabelo e nossas roupas. Um borrifo derrete m inha m eia até a m etade da coxa e deixa a barra da saia em frangalhos. Um a onda perdida quebra sobre as costas de Jeb, deixando-o sem inu.
Um a centelha de eletricidade percorre o ar entre nós — não visível, m as visceral, com o em todas as vezes que j ogávam os xadrez e lutávam os contra nossos sentim entos um pelo outro. É isso que entra em colisão e provoca a fúria do oceano num rugir de espum as — m ais ainda do que nossa m agia.
Percebo a bolha verm elha gigante nas profundezas tarde dem ais para detê-la, um acúm ulo de nosso poder que incha até explodir em um a onda im ensa. Jeb é arrem essado na água. Sua cabeça vem à tona por um instante sob o brilho do farol antes de o barco em borcar e bater nele, fazendo-o desaparecer na onda.
Eu o matei.
— Jeb! — eu grito. A m uralha de água vem na m inha direção, bloqueando o céu estrelado. O chão trem e e m e puxa para baixo até a areia engolir m eus j oelhos, incrustando-m e ainda m ais fundo.
Eu m e curvo na cintura, cavando até m eus dedos doerem e sangrarem . É inútil. A onda se curva e se arqueia — dois andares acim a de m im . Envolvo m eu corpo com as asas, os braços sobre a cabeça, e m e preparo para o im pacto.
A água arrebenta — cobrindo-m e e expulsando o ar de m eus pulm ões. Um grito silencioso irrom pe da m inha boca em bolhas. Minhas asas se abrem e se debatem , arranhando o corpo. Tento controlar a vontade de respirar enquanto m inha espinha se contorce e se curva.
A água turva m e cega. A salm oura penetra as narinas e entra pelos lábios. Debatendo-m e para segurar o diário e a chave no pescoço, fico aliviada de ainda encontrá-los ali, em bora não consiga m e lem brar da razão. Meus braços, pernas e asas ficam m oles e eu m e dobro.
Um a pressão quente m e pega pela cintura, colocando-m e em alerta. A areia solta m inhas pernas. Jeb m e segura em seus braços e nós em ergim os j untos. Busco desesperadam ente respirar e m e engasgo com a água salgada.
Depois de m e arrastar para a m argem , Jeb desm orona ao m eu lado, cuspindo água. O oceano se dobra gentilm ente sob seu com ando, com o se não estivesse tentando nos separar alguns segundos antes.
Minhas asas se enrugam nas costas e eu as absorvo, a pele pinicando na areia. Todas as m inhas roupas sum iram — tudo, exceto a lingerie, ensopada e grudada no corpo. Minha pulsação chega ao pico quando percebo que as roupas de Jeb tam bém sum iram , exceto pela cueca sam ba-canção lilás ensopada que parece m uito com o tecido da cam isa de seu sm oking.
Apoiado nos cotovelos, ele m e vira para encará-lo e afasta cachos úm idos do m eu rosto. Ele vira o diário e a chave, aj eitando-os atrás do m eu pescoço para que não se interponham m ais entre nós.
A água escorre por seu queixo barbado, acum ulando-se na ponta do piercing.
— Eu não disse para você nunca m ais m e assustar desse j eito?
Minha m ente clareia instantaneam ente: foi isso que ele disse quando enfrentam os o oceano de lágrim as original no País das Maravilhas.
— Você voltou por m inha causa. — Eu m e aperto a ele, encho as palavras com o m áxim o de respeito e gratidão com que respondi um ano atrás.
Suas m ãos seguram m inha cabeça.
— Eu sem pre vou voltar por sua causa, Al — ele sussurra.
Seguro seus pulsos e as batidas de nossos corações são só o que nos separa.
— E é por isso que você será sem pre m elhor do que seu pai.
Suas feições ficam m ais ternas, um a expressão pungente, e ele se aproxim a para roçar a boca na m inha, deixando um traço quente de sal, tão ilusório quanto um a lágrim a. No m om ento em que com eço a responder, ele quebra o contato e se afasta.
Eu contenho um suspiro.
Ele se senta apoiado nos j oelhos, parecendo pensativo dem ais para o m eu gosto. Já vi essa cara antes. Ele está prestes a m e repreender por correr riscos.
— Não vou m e desculpar por ter sido im prudente. — Minha réplica defensiva sai antes que ele consiga abrir a boca. — Quanto m ais penso com o um a intraterrena, m ais conivente e forte eu fico. Isso é ruim num lugar com o este?
— Está certa. — Sua confissão m e choca. — Seguir seus instintos m ais obscuros é a única m aneira de sobreviver e dom inar esses m undos. Agora eu entendo.
É claro que ele entende. Ele m e conhece desde que eu era um a m enina esquisita no ensino m édio. Conhece m eu lado hum ano m elhor do que qualquer pessoa. E agora, depois de se tornar tam bém um intraterreno, ele tem outra percepção do m eu lado que pertence ao País das Maravilhas.
Meu corpo fica todo arrepiado quando um a brisa nos envolve.
Ele fica de pé. Sua pele nua brilha sob a luz das estrelas, cada contorno lavado pela água e salpicado pela areia.
— Você está com frio. Vam os arranj ar um as roupas.
Quando vou pegar a m ão dele, seus olhos passeiam lentam ente sobre m inha lingerie.
— Onde foi que você arranj ou isso? — Ele obviam ente reconhece o tecido. — Com o é que aquele baratão sabe as suas m edidas, hein?
Franzo a testa e baixo o braço.
— Eu poderia perguntar a m esm a coisa sobre a sua cueca. Você não sabe nem pregar um botão. Sem pre dependeu da Jen para fazer essas coisas.
Ele para, de m andíbula tensa. Por sorte, o diário no m eu pescoço pisca e o distrai. Ele pega o cordão.
— Este caderno... tem algum a coisa a ver com a sua tataravó, não tem ?
— Com o sabe disso?
— Você o usou contra a m agia dela dentro de m im . Eu o vi brilhar com um a luz verm elha do outro lado do oceano. Foi isso que provocou a onda. Eu até... m e sinto diferente.
— Sente? — Viro seu pulso para ver onde sua tatuagem brilha.
— É. Ainda sinto o poder dela. Só que está... dom ado.
Eu fecho a cara.
— São m em órias que ela se forçou a esquecer. Elas são encantadas. Elas a odeiam e querem vingança.
Nós dois olham os para a palm a da m ão dele, onde o diário deixou sua im pressão. Ele larga o cordão e o pequenino caderno volta a balançar em m eu pescoço.
— Al, você percebe o que isso significa? Não tem que deixar a Verm elha entrar em você para consertar o País das Maravilhas. Talvez Morfeu ainda não tenha percebido, ou talvez ele sej a cretino dem ais para se im portar, m as você tem a chave para reverter a destruição dela bem aqui. E você j á aprendeu a dom iná-la.
Eu respiro fundo. Por que não pensei nisso? Posso atiçar suas m em órias contra o feitiço destruidor que ela colocou no País das Maravilhas, usá-las para fazer tudo voltar a ser com o era.
Sinto um a pressão no peito, um lem brete de que tenho de enfrentar a Verm elha, reparar m eu coração e dar um fim a essa coisa entre nós. Mas m inha m aior prioridade é curar papai e levá-lo, com Morfeu e Jeb, ao País das Maravilhas para aj udar m am ãe. Vou reverter o feitiço da Verm elha sobre as paisagens, e depois voltar e term inar as coisas por aqui.
— Muito bem . — Delineio o novo plano em voz alta: — Só tem os que pegar a cura para o m eu pai e em seguida podem os sair daqui.
Jeb olha para m im .
— Vocês podem sair daqui.
— Jeb, por favor.
— Não tenho razão para voltar.
Quero gritar EU!, m as não faria diferença.
— Você vai conseguir esquecer sua m ãe e Jen? Elas precisam de você.
Não há com o m ascarar a tristeza em seus olhos quando eu m enciono sua fam ília.
— Elas estão m elhor com igo aqui. Ainda posso cuidar delas... ser um a ligação para os guardas nos portões, proteger o reino hum ano do lado de dentro.
— Então, seu plano é ficar e desviar a m agia da Verm elha para sem pre?
Um m úsculo em seu queixo tem um espasm o.
— Pelo m enos assim eu posso ter a eternidade. — Ele estende a m ão, insistindo para que cam inhem os para o farol.
Um a sensação de enorm idade m e assola: papai estava absolutam ente certo. Sou a única que pode convencer Jeb a deixar este lugar. Tenho de m ostrar a ele que a vida vale a pena fora destas terras horríveis, m esm o com as lim itações m ortais.
Entrelaço m eus dedos nos dele e o puxo para baixo, para ficarm os cara a cara. O terreno arenoso espeta m eus j oelhos nus.
Ele enfia um punho na areia.
— O que está fazendo?
— Lem brando a você que ainda sou hum ana o bastante para precisar de você. — Passo as m ãos em seus bíceps e peitorais. Água e areia se m isturam , form ando trilhas granulares nos cabelos de seu peito. Ao m eu toque, sua respiração relaxa e os cílios longos e negros se fecham num a bela agonia.
Estico os dedos e abro a m ão para com parar suas m arcas de cigarro com m inhas cicatrizes. Seus m úsculos respondem com pequenas contrações, sua constituição forte onde a m inha é suave.
— Jeb.
Ele abre os olhos e nosso olhar se encontra.
— É por isso que nós com binam os. Porque som os am bos m achucados, de um a m aneira que não pode ser curada. Nem m esm o pela m agia.
Seu olhar continua firm e.
— Eu te am o — sussurro. — Você ainda m e am a?
Ele se inclina para m ais perto, firm ando o punho no chão ao lado dos m eus quadris.
— Nunca vou parar.
Meu estôm ago dá um salto m ortal.
— Então venha para casa.
— De que adiantaria? — A boca dele está a poucos centím etros e a pergunta escalda m eus lábios. — As coisas nunca voltarão a ser com o eram .
Meu queixo fica tenso.
— Tem razão. Porque nós dois crescem os e m udam os. Porque agora com preendem os um ao outro em todos os níveis. Eu vi os seus segredos. Você viu os m eus. Podem os viver o presente. Sem pensar na eternidade.
Ele ergue a m ão coberta de areia e toca m inha m echa verm elha.
— Você está sendo ingênua. Morfeu não vai deixar. Ele vai acenar com sua eternidade m ágica diante de m im , sabendo que é algo que eu nunca poderei dar a você. Sabendo, com o hum ano, que não tenho nada a oferecer que se com pare a isso.
Ele com eça a se afastar, m as agarro sua cintura pela cueca perto do abdôm en. Ouço seu respirar rouco quando ele olha para a m inha m ão, e depois para o m eu rosto.
— Você está errado. Tem um a coisa que você já ofereceu que é tão m ágica e rara quanto a eternidade. Você ofereceu envelhecer com igo. Isso é algo que Morfeu não pode fazer. — Corro os dedos por seu queixo com barba por fazer. — Eu não tive a oportunidade de dizer que sim , quero m e casar com você.
Por um instante, os olhos de Jeb brilham com a luz da esperança.
— Você ainda quer? — pergunto.
Ele passa os dedos pelo m eu cabelo, tão forte que tocam m eu couro cabeludo.
— Não existe outra pessoa com quem eu queira passar a vida. Criar um a fam ília. Mas você fez um voto para Morfeu. Vinte e quatro horas sozinhos. Ele vai fazer de tudo para im pedi-la de voltar para o reino hum ano. — Ele pressiona a testa contra a m inha. — Eu lutaria por você, Al. Até m orrer. Só não sei m ais com bater m agia sem usar m agia.
Então, sou eu a razão pela qual Jeb não quer ir em bora nem abdicar de seu poder. Sem pre fui eu.
Sua expressão angustiada m arca m inhas entranhas a fogo. A prom essa de Morfeu no dia em que fiz aquele voto dança no lim ite da m inha alm a: Eu lhe mostrarei os encantos do País das Maravilhas, e, quando estiver embriagada com a beleza e o caos pelos quais o seu coração tanto anseia, eu a acolherei sob as minhas asas e farei com que esqueça que o reino humano um dia existiu. Você nunca mais desejará deixar o País das Maravilhas, nem a mim.
Não é que Jeb não confie em m im . É que ele sabe o que pode acontecer. Morfeu sem pre encontra um a form a de vencer. Ele é o m ais m anipulador e o m ais brilhante estrategista que j á conheci.
Mas ele encontrou um a adversária à altura. Ou m elhor, ele a criou.
— Você não precisa lutar por nós. — Afago o pulso tatuado de Jeb. — Posso arranj ar para que Morfeu nos deixe em paz.
Jeb faz um a careta.
— Está brincando, certo?
— Não. — Minha voz é resoluta e forte, quase tão forte quanto a de Morfeu quando ele m e contou o segredo para ter o controle: Quando você conhece a fraqueza das pessoas, é fácil manipulá-las.
Jeb toca m eu rosto, com o se tivesse ficado abalado pela seriedade do m eu tom .
Eu poderia argum entar que Morfeu causou isso para si m esm o ao forçar Jeb a viver sabendo que quase m e estrangulou, apesar de nosso trato... ao sem pre m anipular toda e qualquer palavra, ação e prom essa em seu benefício. Eu poderia dizer que ele foi um bom professor e que, enfim , estou pensando com o um a intraterrena. Como ele.
Mas não se trata de vingança. Trata-se de influência. Morfeu e eu tem os a eternidade para acertar as coisas entre nós, m as Jeb tem som ente um a vida. Ele j á teve sua parcela de tristezas. Sou eu quem o faz feliz, e ele faz o m esm o por m im . Então, devem os passar a vida de Jeb j untos.
— Jebediah Holt — digo, com a palm a da m ão cobrindo o peito, num a prom essa. — Eu j uro, pela m agia da m inha vida, que você será m eu prim eiro de todas as m aneiras... no casam ento e em tudo o que ele im plica.
Seu rosto se abre em surpresa e espanto, com o se eu lhe tivesse oferecido a Via Láctea e todas as galáxias ainda desconhecidas.
— Espera, você acaba de...?
Antes que ele term ine, sinto um espasm o atrás do esterno que m e deixa sem ar. Meu coração vacila por um instante, com o um peixe pulando por trás das m inhas costelas. Eu gem o e aproxim o os j oelhos do peito.
Jeb esfrega m eus braços.
— Al, você está bem ?
Encolhida, com eço a desenrolar o corpo lentam ente. Meus dedos se enterram na areia para resistir à terrível ferroada.
— Estou bem . É... é só um a câim bra. — A m entira tem gosto am argo com o sangue.
E se a Verm elha colocou um feitiço em m eu coração para m e controlar? Para m e dobrar à sua vontade? Toda vez que eu m e afasto do cam inho dela para o País das Maravilhas, sou punida com um a dor agonizante. Do m esm o m odo com o ela usou m inhas veias com o cordões de m arionete quando com partilhou m eu corpo no ano passado.
Não posso deixar que ela vença. O am anhã chegará logo e tenho de convencer Jeb a partir conosco. Se eu não conseguir, ele vai m orrer.
Aperto a m ão dele, ignorando a dor.
— Só você pode m e libertar das am arras desta prom essa. Morfeu nunca m e pedirá para quebrá-la. Preciso da m inha m agia para ser a rainha que ele sem pre m e treinou para ser. O bem do País das Maravilhas é a única coisa neste m undo que ele colocaria acim a dos próprios desej os.
Jeb fica de queixo caído. Ele dá um a m eia risada.
— Usar seu papel com o Rainha Verm elha para barganhar. É bem engenhoso.
Afasto sua franj a escura.
— Tenho grande potencial com o diplom ata, não? — A provocação é um estratagem a para ele não perceber que estou lutando para poder respirar sem que m eu peito doa. Tenho de chegar à Verm elha. Forçá-la a desfazer tudo o que fez.
Jeb sorri — um genuíno sorriso de Jebediah Holt, com pleto, com covinhas e tudo. Que linda distração.
— Eu te am o, m enina do skate.
O apelido abre cam inho em m im , doce e reconfortante.
— Diga de novo.
— Eu te am o.
— Não... a outra parte — im ploro.
Ele puxa m eu corpo para j unto do seu de m odo que as bocas se unem num beij o terno e quente.
— Menina do skate — ele sussurra j unto de m im , tirando o cabelo do m eu rosto.
Nós nos beij am os novam ente — seu toque não m ais ilusório, m as confiante e urgente. Ele m e deita, cobrindo m eu corpo com seu delicioso peso enquanto m e provoca até eu abrir a boca. Seguro seu rosto para saborear os m ovim entos de sua m andíbula, o sabor da pele represado nas gotículas deixadas pelo oceano, a sensação causada pelo dente incisivo j unto à m inha língua, reconhecendo m inhas partes favoritas dele.
— Senti saudade, Al. — Seus beij os percorrem m eu queixo e pescoço e descem até o centro da clavícula, seguindo os traços da água seca. O fogo que queim a atrás de m eu esterno torna-se tolerável j unto aos seus lábios. Eu suspiro e arqueio o corpo j unto a ele, m as ele para subitam ente.
— Shhhh. Ouviu isso? — ele m urm ura.
Um a cacofonia surge de algum lugar a distância, abafada pela m aré tem pestuosa: asas batendo e guinchos agudos. Levanto a cabeça e vej o um bando de anim ais do tam anho de condores voando na nossa direção. Pássaros trogloditas estão m ontados em suas costas, usando capacetes de m ergulho que parecem m áquinas de chiclete feitas de latão com visores de vidro.
— Morcegos! — Jeb grita, rolando para o lado. — Corra para o farol agora!