Qualquer Outro Lugar

A. G. Howard · Capítulo 13 de 24

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Qualquer Outro Lugar

Capítulo 13

13

 

Armadura

 

A porta final não contém enfeites ou design. É claro que Jeb criaria um a entrada sim ples para o quarto de Morfeu.

Corro para dentro e escondo o colar com o diário por baixo da cam iseta, j unto à chave e ao anel, certa de que as m ariposas de Jeb estarão de guarda. Em vez disso, sou invadida por um forte arom a de tabaco de narguilé, com toques de carvão e am eixa, espalhado por um a suave brisa. A distância, avisto um cogum elo ultravioleta do tam anho de um pneu de cam inhão. A nuvem de fum aça se assenta sobre ele com o neblina sobre um a cidade.

Árvores dispostas em círculo entrelaçam -se, form ando um a cúpula. Um céu lilás aparece por cim a das copas, lançando som bras que se m ovem . Pequeninas luzes penduram -se dos galhos.

O lar de Morfeu está exatam ente com o era quando Jeb e eu visitam os o País das Maravilhas e quando eu o visitei nos sonhos da infância, aprendendo a ser rainha.

Salpicado de m usgo verde-lim ão e líquens am arelo-vivos, o chão se afunda por baixo da sola de plástico dos m eus sapatos. Sou assolada por lem branças felizes de brincadeiras infantis com Morfeu, m isturadas às em oções adultas que ele despertou ao longo do últim o ano.

Fadas descem pelas árvores, lum inescentes e tem peram entais. Agitam os punhos para m im , intolerantes à m inha presença, assim com o a m aioria das criações de Jeb. Elas com eçam a se atirar contra m im com o pedras de granizo, usando tanta força que m e deixam m arcada. Nikki aparece e m e resgata, seguida por Chessie logo atrás. Eles cercam as outras e as enxotam na direção da névoa do narguilé. As fadas retiram -se soltando grunhidos que tilintam com o talheres de prata sendo j ogados em um a gaveta.

— Chapéu de festa! — Morfeu grita lá de dentro.

Chessie e Nikki disparam e desaparecem na direção das árvores, à procura do chapéu para Morfeu.

— Você os m andou atrás da coisa errada — protesto. — Não vam os com em orar nada.

— É um a pena. — A voz de Morfeu em ana da nuvem , abafada com o a fum aça que o envolve. — Você j á está até vestida para isso. Seu m ortal se superou. — Ele exala um anel de fum aça que flutua em m inha direção. — Suponho então, j á que não vam os exibir suas vestes estonteantes, que poderíam os encontrar um a cachoeira onde brincar. Eu gostaria de dar um a olhada nos presentes que m andei para você na noite passada.

Minha pele se arrepia por baixo da lingerie. Levanto o queixo, determ inada a não deixá-lo perceber o efeito que provoca em m im .

— Eu vi os quartos.

— Ah! — ele responde, sem o m enor traço de surpresa. — Bem , antes que você despej e as acusações de sem pre, gostaria de esclarecer que eu não perm itiria que você m atasse a Verm elha. Pelo m enos não até que a expulsem os de seu brinquedinho m ortal.

Finj o um a risada.

— Certo. Você a quer m orta tanto quanto a Jeb. Dois coelhos com um a só caj adada.

— Se isso fosse verdade, ele não estaria aqui agora. Quando aterrissam os, os pássaros trogloditas com eçaram a nos sobrevoar. Eles preferem alim ento vivo, então sim ulei que m atava Jebediah. Eu o escondi para protegê-lo, e é o que tenho feito desde então.

Aproxim o-m e um pouco m ais, m exo com o pé em um a pedra do tam anho de um a bola de beisebol. Apanho-a e rolo-a entre m inhas luvas rendadas.

— Você não está protegendo Jeb, está ocultando. Ele é a sua j oia da coroa. Com a m agia que ele concede a você, todos o tratam com o rei. — Contenho-m e, pois esse é um papel que Morfeu desem penhará de verdade se eu m e com prom eter eternam ente com ele, algum dia.

Sua risada profunda se enrosca em um filete de fum aça.

— Você se sente vulnerável, Aly ssa... pelo fato de poderm os ler os pensam entos um do outro? Eu m e sinto. — Seu tom de voz se am eniza com a confissão, um a faceta desprotegida raram ente utilizada por ele.

É claro que m e sinto vulnerável; tudo a respeito dele m e faz sentir assim . Passo a pedra de um a m ão para outra.

— Farinha do m esm o saco. Blá-blá-blá. Esse clichê m e deixa entediada.

— Prefiro pensar em nós com o m ariposas da m esm a cham a. E tentar adivinhar qual de nós dois vai se queim ar prim eiro está longe de ser entediante, am or.

Um a agitação percorre m eu corpo ante o desafio im plícito.

— Você percebeu que Jeb havia adquirido m agia. Por isso o salvou.

Outra risada engrossa a fum aça em volta do cogum elo.

— Eu vi um líquido carm im gotej ando da ponta da hera e a luz púrpura sob a m anga da cam isa dele. De algum a form a, a cúpula de ferro causou um a reação m agnética, incorporando a m inha m agia e a da Verm elha nele. Sim .

— Então, foi aí que vieram para a m ontanha? — insisto.

— Jebediah fez um desenho na lam a a céu aberto. Sua criação ganhou vida. Então fizem os tintas e pincel im provisados. Com essas coisas, escavam os a m ontanha e dom am os o oceano e seus habitantes, m odificando o m undo j á existente. É assim que suas paisagens funcionam : ele redesenha a água em lagos e fossos... m olda a terra em m ontanhas, colinas ou vales. Cada vez que m e arrisco a sair, ele m odifica o entorno para confundir os seres daqui e apagar m inha traj etória. Mas essa habilidade tem lim ites em ocionais. Apesar de ele não ter problem a nenhum em redesenhar paisagens e inventar criaturas, quando se trata de pinturas m ais pessoais, ele é acom etido por um bloqueio artístico. E, quanto m enos satisfeito está com seus resultados, m ais cai em desespero, o que confere à m agia da Verm elha m ais poder sobre a inspiração dele.

Meus olhos lacrim ej am , tanto pela fum aça quanto pelo receio da sanidade de Jeb. O alerta que ele deu a Morfeu quando os vi j untos da prim eira vez agora faz todo o sentido: Você se lembra do que aconteceu quando o rosto dela apareceu em minhas pinturas.

— Algum a coisa deu errado quando ele tentou m e pintar.

— Ele não conseguia retratar você bem . Faltavam -lhe pernas e braços. Seu rosto tinha buracos. Com o o autorretrato que ele fez.

Meu estôm ago se em brulha.

— Mas eu pensei que as outras pinturas tinham atacado CC.

— Por vezes, as pinturas atacam um as às outras. Mas aquilo foi culpa de Jebediah. Ele não consegue ver além da im agem partida que seu pai o ensinou a ver. Então, não consegue pintar a si m esm o por inteiro. E é por isso que acabou se retratando com o um cavaleiro elfo, com o últim a tentativa. O m esm o aconteceu em relação a você. A confusão e a raiva dele não deixavam que ficasse perfeita. Ele se escondeu no quarto do salgueiro tentando pintá-la direito... tentando retratá-la à altura de sua m em ória. O único j eito que arrum ei de tirá-lo dali para que voltasse a viver novam ente foi sequestrar cada um a das suas cópias. Eu as conduzi até a água e fiquei observando enquanto se desm anchavam e desapareciam . Estavam desfiguradas a tal ponto que era desum ano m antê-las vivas, apesar de o criador delas não ter força suficiente para destruí-las. Então eu o fiz por ele. Eu o convenci de que a m elhor m aneira de se libertar era sair do quarto do salgueiro. Para evitar lem branças suas e assum ir a raiva que sentia.

Apoio-m e em um a árvore e pressiono a pedra fresca contra o anel pendurado por baixo da cam iseta para aliviar as pontadas no peito. Não é de espantar que a raiva e a violência tenham dom inado o coração de Jeb. Ele sobrevive à custa do poder extraído dos dois habitantes m ais potentes, m ais brilhantes e m ais m anipuladores do País das Maravilhas. Está em guerra consigo próprio tentando contê-lo. Assim com o eu fazia. Contudo, seu esforço é ainda m aior, j á que ele é dois terços intraterreno e um terço hum ano.

Cerro os olhos.

— Ele deve ter se sentido tão solitário.

Ouve-se um grunhido vindo da nuvem :

— Francam ente, Aly ssa. Você m e m agoa. Sou um a excelente com panhia.

Arregalo os olhos.

— Você mentiu para ele. Você não queria que ele soubesse que era a m agia da Verm elha que o fazia sentir raiva de m im . Com o você conseguiu isso? Ele teve que ver as m em órias na sala de pétalas de rosa.

— A despeito da m agia que ele exerce, sua porção m ortal está fora de seu elem ento natural aqui. Ele não tinha em quem confiar a não ser em m im . Ninguém exceto a origem de sua força. Então, quando eu disse a ele que as im agens no quarto de pétalas de rosa eram m em órias m inhas, do tem po que passei com a fam ília real, ele não teve por que duvidar da m inha sinceridade.

Aperto os dedos em volta da pedra.

— Sinceridade. Com o se você soubesse o que é isso. Você perm ite que ele sej a devorado pela raiva dela apenas para colocar um obstáculo entre nós dois.

Morfeu estala a língua dentro de seu véu de névoa.

— Se ele soubesse da Verm elha, teria voltado sua m agia contra m im . Teria m e m atado com um estalar de dedos. Foi autodefesa. O fato de isso ter afastado vocês dois foi sim plesm ente um bônus. — Um fiapo de fum aça se desprende, form ando corações, anéis, notas m usicais.

Solto um grunhido.

— Sim . Qualquer coisa que traga vantagem a você. — Abano um coração de fum aça, partindo-o ao m eio.

Um a asa grande e escura corta a fum aça e desaparece em seguida, envolvida pela névoa.

— Você m e levou a isso. Você colocava aquele rapaz em um pedestal. E lá é m uito escorregadio para alguém tão sem princípios com o um solitário ser m ágico. Não é que eu não tenha tentado trazê-lo para baixo. Olhei dentro da alm a dele. Esperava encontrar seus pontos fracos. Mas então percebi que até eles poderiam ser considerados pontos fortes em circunstâncias apropriadas.

— Espere. O quê? — Olho em direção à nuvem , desej ando que ele saia dela e m e encare. — O que você quer dizer com olhar dentro da alm a dele?

— Peguei o trem da m em ória alguns m eses depois de você deixar o País das Maravilhas. Antes de você e Jebediah nos visitarem no dia da form atura. Que tal m inha sinceridade?

A fúria transparece em m eu rosto.

— Você espionou as m em órias perdidas dele? Você não tinha o direito! — Os galhos acim a de m inha cabeça trem ulam , com o se provocados pela m inha explosão. O diário se aquece por baixo da roupa, resplandecendo.

— Ah, por favor — Morfeu debocha. — Guarde a sua j usta indignação para alguém que não conheça de perto seu lado m anipulador. Você não fica para trás, espionando as m em órias de sua m ãe. De seu pai. Da Verm elha. Menos ainda usando um diário encantado pela m agia am orosa de um a criança para m anter as m em órias repudiadas a um a distância segura... um a ideia brilhante. Se eu j á não estivesse louco por você, essa artim anha j á teria m e puxado o tapete e m e derrubado de costas no chão.

Agarro o diário por baixo da roupa.

— Com o você sabia que eram as m em órias esquecidas que estavam aqui?

— Da m esm a m aneira que você sabe que a Verm elha envenenou a inspiração do seu brinquedinho m ortal. Intuição intraterrena e raciocínio superior. Provando m ais um a vez que você e eu som os m ais parecidos do que você gosta de adm itir.

— Não som os nem um pouco parecidos. — Mentira, sei disso. E o pior é que ele tam bém . — Minha m otivação foi honrada. Roubei as m em órias da Verm elha para que ela parasse de arruinar a vida de todos.

— Um a iniciativa de rainha, é verdade. Mas tudo se resum e a um a única coisa: você é um a dam a de ação e eu, um hom em da m esm a estirpe. Som os peritos em riscos e truques e não hesitarem os em usá-los para preservar aquilo que am am os. E é por isso que, não obstante m eus deslizes éticos, quando com parado ao seu príncipe de cartolina, você escolherá a mim.

Sua assertividade invade m inha m ente, zom bando de m inha própria indecisão.

— É m ais do que isso. É escolher qual lado m eu assum ir e a qual dar as costas. Eu vou consertar o País das Maravilhas. E estarei lá cada vez que o reino intraterreno precisar de m im . — Sinto-m e estonteada com a ardência no coração, com o se tivesse sido talhado ao m eio com um a faca. A m arca da Verm elha vai se acentuando a cada hora que passa. — Mas ainda não consigo escolher. — Não sem cair de joelhos de tanta dor.

— E aí, m inha flor, é onde seu egoísm o com pleta o círculo e fica confirm ado, sem som bra de dúvida, que você é um a rainha m aliciosa da Corte Verm elha, sem tirar nem pôr.

— Chega! — Perdendo o controle, atiro a pedra em direção à nuvem do narguilé. Ela a atravessa sem encontrar obstáculos, caindo no chão do outro lado, próxim o ao cogum elo. A risada zom beteira de Morfeu m e incita a atirar m ais um a, m as dois buracos na nuvem não m e satisfazem . Quero lançar cada pedra que encontrar com o se fosse um m íssil até que Morfeu fique igual a um pedaço de queij o suíço.

Minha m agia dem onstrou ser inútil contra as criações de Jeb, m as as m em órias da Verm elha podem afetá-las. Talvez eu possa persuadir o poder das páginas do diário, atiçá-lo contra m inha m agia. Com o o Gravitron, usar as duas forças, um a contra a outra, para obter um a reação violenta.

Quanto m ais m e concentro, m ais esquenta o livro em m inha pele. O brilho averm elhado em ana pelo centro do peito e pelas veias. Incorporo-o até que m eu sangue ferva e transborde, e então redireciono a força para levantar as pedras do chão. Acim a, os galhos das árvores estalam e caem , atingindo m inha m unição im provisada, fazendo grande ruído e lançando-a em direção à névoa, abrindo rasgos. A nuvem com eça a se dissipar.

— Finalmente — Morfeu fala em um tom de voz exausto. — Será preciso sem pre provocá-la para que você perceba que não tem lim itações além daquelas que você m esm a se im põe?

Ainda não posso vê-lo, m as as fadas estão lá, pairando no ar e dando risadinhas. Mostram a língua e saem em disparada, rodopiando na m esm a direção que Chessie e Nikki tom aram .

Os vestígios de fum aça se dissolvem com o fiapos de algodão no céu, expondo o cogum elo com pletam ente. Equilibrada e aberta em cim a dele pousa um a grande m ariposa, balançando vagarosam ente as asas negras. A trom ba aspira o tubo do narguilé e solta no ar m ais anéis em form a de estrelas e corações.

— Espere — digo, a raiva dando lugar à confusão. — Você não pode estar com form a de m ariposa. Você não pode usar sua m agia. É tudo ilusão.

— Isso m esm o, m inha Rainha. — A voz dele faz cócegas na ponta da m inha orelha direita, apesar de vê-lo no cogum elo. — Assim com o você, usando as m em órias repudiadas da Verm elha para dar a ilusão de poder contra as pinturas de nosso pseudoelfo. Bom trabalho, aliás.

Viro-m e, m as não vej o ninguém à m inha volta.

— Isto não é real.

— É tão real quanto desej ar que sej a. — Seu sussurro roça a orelha esquerda agora, provocando um calor irresistível em m eu pescoço.

Olho em volta, m as ele não está em lugar nenhum .

A m ariposa abana as asas, devagar e lânguida em seu poleiro. Ao m esm o tem po, sinto o toque de lábios m acios descendo pela m inha nuca. À m inha revelia, sinto desabrochar o prazer quando ele m e toca.

— Com o você está em dois lugares ao m esm o tem po?

— Ilusão de óptica — responde sua voz atrás de m im . Ele m e puxa para m ais perto com m ãos invisíveis em m inha cintura.

Mãos invisíveis...

— O sim ulacro. — Percorro seus braços invisíveis com os dedos. — Por isso é que os traj es não estavam na sacola de viagem . Você os roubou.

— E você tornou isso possível roubando-os prim eiro. Sua garota esperta e m alvada.

Por m ais que eu resista, m eu lado intraterreno satisfaz-se com o elogio. Minha pele brilha com o a luz das estrelas, refletida em pequenos prism as no chão e nas árvores.

Morfeu m e incita a encará-lo e retira o capuz do sim ulacro. Seu cabelo se agita com a brisa, as j oias nos olhos reluzem num púrpura ardente e o sorriso com que m e cum prim enta é ao m esm o tem po selvagem e brincalhão. O resto de seu corpo torna-se visível à m edida que a realidade se infiltra pela m iragem do disfarce — j aqueta prateada por cim a de um a cam iseta, calças pretas, gravata azul e m agníficas asas recolhidas nas costas.

Coloco a m ão em seu tórax para ter certeza de que ele não é um a alucinação.

— Você pegou os disfarces para poderm os passar pelos guardas de pichação depois que Jeb saísse.

Ele dá um passo para trás, retira o tecido encantado, faz um a reverência e um floreio.

— Foi um bom plano — adm ito, enquanto ele aj eita as roupas e recom põe as asas. — Mas não tem os m eios de fazê-lo voar ou de encontrar o cam inho de volta.

Ele sorri novam ente.

— É claro que tem os, sua tola. Você não sabe que eu sem pre penso em tudo? — Ele coloca as m ãos em m eus om bros e vira-m e, apontando a m ariposa gigante que descansa no cogum elo. — Olhe com seus olhos intraterrenos.

Aj usto o foco e percebo que não é um a única m ariposa. São centenas ou m ais, reunidas, com pondo um a grande. São as m ariposas que acom panharam Morfeu até aqui sob as instruções de Jeb. E o cogum elo tam bém não é com um . Seu interior é oco, com um a pequena porta na lateral e um arreio ligado à m ariposa.

— Essa seria sua m ontaria? — pergunto, sussurrando.

— Nossa m ontaria. — Morfeu bate palm as. As asas gigantes provocam raj adas de vento à nossa volta conform e a m ariposa suspende o cogum elo do chão. Elevam -se j untos, com o um balão de ar quente e seu cesto, graciosos e m aj estosos. Os galhos das árvores se afastam , abrindo passagem para que o aparato suba cada vez m ais alto no céu.

Fico pasm a assistindo à subida.

— E tem os serviço de chá planej ado para a viagem — Morfeu diz. — As fadas foram buscar alguns víveres.

— Mas... com o? O cogum elo não pode existir fora deste cenário criado por Jeb. Não é?

Morfeu retira as elegantes luvas azuis das m ãos.

— Pode, agora que o reprogram ei.

— O quê?

— As criações de Jebediah são m etade m agia e m etade visão artística. Portanto, em bora eu não possa m odificar suas form as, elas podem ser convencidas, desde que im aginem os seu novo propósito. É verdade que funciona m elhor com as pinturas que não obedecem a um com ando específico dele. A única função dos cogum elos aqui é serem belos. E a instrução que ele deu às m ariposas para m e m anterem ocupado é suj eita a várias interpretações. Elas aceitam qualquer cenário que eu im agine, contanto que eu estej a ocupado.

Balanço a cabeça. O m estre das m anipulações acertou m ais um a vez.

O transporte de m ariposa balança acim a das correntes de ar, levando m inha curiosidade às alturas.

— Mas você é um intraterreno puro. Você não sabe usar a im aginação.

— Muito pelo contrário. Sei, sim . Graças a você. Segui seu exem plo na infância. Eu o absorvi m esm o sem perceber. Então, quando eu estava preso aqui, desprovido de m agia, precisei encontrar o que fazer durante m uitas sem anas e horas. Talvez esse tenha sido o lado bom de todo esse fiasco. A falta de m agia é o que leva os hum anos a fantasiar, em prim eiro lugar. E, Aly ssa, que força m aravilhosa e cheia de poder a im aginação pode ser.

A expressão dele é de assom bro, exatam ente do j eito que ficava em nossas escapadas na infância. É inconcebível que eu tenha sido sua professora tam bém . Um a vez ele m e disse isso, m as eu nunca tinha entendido o que queria dizer até agora.

As palavras da Marfim sobre o País das Maravilhas, sem anas atrás, vêm à tona e pairam no ar com o o aparato de Morfeu: Por muito tempo, a inocência e a imaginação não tiveram lugar aqui... Morfeu vivenciou essas coisas com você... por intermédio de seu filho... nossas proles se tornarão crianças novamente; aprenderão mais uma vez a sonhar. E tudo ficará bem em nosso mundo.

Morfeu sem pre dom inou a m anipulação de sonhos; nesse quesito, ele é diferente de qualquer outro intraterreno. Agora que aprendeu a utilizar a im aginação tam bém , isso faz dele o único intraterreno com pleto capaz de gerar um a criança que sonha.

O diário se aquece em m eu peito. Um a criança assim seria perfeita para os planos da Verm elha. Sinto um desconforto pinicar a garganta quando m e dou conta: ela teve m uitos peões alinhados em seu tabuleiro de xadrez. Seu m arido, sua irm ã. O Rábido Branco, Carroll, Alice, m am ãe e eu. E Morfeu. Acim a de tudo, Morfeu.

— Você a quer para si? — As palavras de Rainha Verm elha ressurgem em m inha m em ória daquele agonizante m om ento há m ais de um ano, quando a Verm elha habitava m eu corpo e tentou fazer com que Morfeu a aj udasse a dom inar m inha vontade.

— Muito — ele disse.

— Então faça como eu mando. Ela será sua fisicamente, e depois o coração e a alma virão a seu tempo. Com romance, você pode conquistar suas graças. Terá a eternidade para ganhá-la.

Até nesse m om ento a Verm elha estava usando Morfeu. Ela tinha todas as cartas na m ão. Àquela altura, ele não sabia da criança. Não até ver a visão da Marfim alguns m eses atrás. A Marfim foi específica quanto a isso e, entre todos os intraterrenos, é ela a m ais honesta.

Mas com o um a criança que Morfeu e eu com partilhássem os poderia dar à Vermelha m ais poder?

— Aly ssa?

Devo ter ficado de boca aberta novam ente, pois ele segura m eu queixo, fechando-a.

— Por onde sua cabeça vagueava agora? — ele pergunta.

Preciso dizer a ele que tive um a visão de nosso filho. Preciso saber com o ele acha que isso pode estar ligado à vingança da Verm elha. Mas tenho de analisar as palavras que usei em m eu voto para a Marfim . Deve haver um j eito... algum j eito de contar a Morfeu sem contar a ele...

As fadas tilintantes retornam e deixam cair um pano de seda sobre m inha cabeça. Morfeu o tira de cim a de m im . Parece ser um saco próprio para roupas. Ele faz cara feia para as fadas. Elas aplaudem e rodopiam no ar, com o se tivessem descoberto um tesouro escondido.

— Fadinhas m alandras — Morfeu adverte. — Não foi isto que pedi que vocês buscassem . Pedi um a cesta de piquenique, não?

Elas voam à m inha volta, apontando em m inha direção com as bochechas inchadas e verm elhas e fazendo gestos de birra no ar.

— Bom , suponho que agora seja a hora de dá-lo a ela — ele adm ite. — Mas sou eu quem deve abri-lo.

As fadas unem -se em um a onda e apontam para m im .

— Está bem — Morfeu suspira e m e passa a sacola.

— O que é isto? — pergunto.

— Apenas tenha cuidado — ele adverte.

Solto o cordão e m ilhares de asas de borboletas-m onarcas cintilantes saem em m assa pela abertura. É um a revoada de m oscas-escorpião!

Um grito se desprende de m inha garganta.

Morfeu pega a bolsa de volta enquanto os risinhos das fadas ecoam em m eus ouvidos — um tilintar de sinos debochando de m im .

— Eu avisei para você ter cuidado — ele repreende, retirando a bolsa. As asas não estão presas a insetos; são parte de um vestido em que cada asa foi m eticulosam ente costurada em cam adas. Pernas de centopeia cravej adas de j oias foram bordadas ao longo das bordas afiadas para deixá-las seguras ao toque. A franj a acrescenta um brilho verde deslum brante ao conj unto laranj a e preto. O corpo é sem m angas e j usto, enquanto a saia se abre até a barra, na altura dos j oelhos.

As cam adas agitam -se com a brisa, produzindo um ruído m etálico com o se fossem centenas de m inúsculas correntes.

Mal acredito em m eus olhos.

— Você fez isso? Para m im ?

Morfeu passa a m ão pelos cabelos, deixando vários fios azuis apontando para cim a, com o os galhos de árvore à nossa volta.

— Eu sabia que você viria para dar um fim à Verm elha. Espero que você vista isso quando for enfrentá-la. É a única arm adura digna de sua perigosa beleza.

— Arm adura? — Não consigo tirar os olhos de seu cabelo desalinhado. — Isso é incrível. Quantas vezes teve que arriscar a vida para fazê-la?

— Ora, vam os, Aly ssa. Você sabe que eu sei lidar com agulha e linha. Costurar não m ata ninguém .

Dou risada, lem brando-m e de nossa infância, quando enfiávam os m ariposas m ortas em um a linha com agulha, prendendo os m órbidos fios aos chapéus dele para decorá-los. Um hábito excêntrico que ele pratica até os dias de hoj e.

— Sério. Você poderia ter virado um a estátua de pedra. Ou acabar fatiado. De quantas asas precisou?

Ele encolhe os om bros.

— Perdi a conta depois de m il setecentas e vinte e duas. — Um sorrisinho de lado levanta seus lábios.

Sorrio. Ainda há algo dentro da bolsa. Retiro um par de botas carm im que vão até os j oelhos, feitas de um m aterial parecido com couro, além de luvas que chegam até os om bros e um a legging com binando.

— São pintadas?

— Ah, são de verdade. Feitas inteiram ente de pele de m orcego. As criaturas ficam enorm es quando crescem . Pedi a m eu grifo que capturasse um para m im . — Ele guarda tudo e então fecha a sacola e a entrega às fadas.

Passo as m ãos pela m inha m inissaia e as fadas desaparecem pelas árvores m ais um a vez.

— Você sem pre m e surpreende.

Ele m e pega pela cintura.

— Então terei que repensar m inha estratégia. Minha intenção era arrebatá-la.

E, antes que eu possa reagir, ele m e suspende até m inhas botas tocarem suas canelas. Ele nos rodopia, envolvendo-m e em suas asas até que fico tonta e com eço a rir.

— Gostaria de erguê-la acim a de m im e rodopiá-la em círculos até estarm os am bos tontos e gargalhando — ele m urm ura perto de m eu pescoço e caím os ao chão, presos por baixo de suas asas.

Meu corpo dói com a queda — m as é um a dor deliciosa. Mal posso respirar com o peso das costelas dele em cim a das m inhas, com o arom a de tabaco m e asfixiando e m e intoxicando. A curva de seu sorriso roça em m eu colo e eu arquej o com seu toque aveludado. Levanto seu rosto para olhá-lo... quebrar o encanto.

Ele retira a faixa com enfeites do m eu cabelo, afastando os fios do m eu rosto. A m aciez das luvas roça as m arcas em m eus olhos.

— Gostaria de beij ar seus lábios e sentir seu hálito — ele fala suavem ente enquanto se aproxim a.

Percebo que está realizando os desej os listados no bilhete que enviou com a lingerie.

Recordo-m e do últim o beij o que dem os — o gosto de sua língua, o j eito com o elevou m eu espírito, m as fez o de Jeb despencar ao chão.

Jeb — que está lá fora com papai, tentando preparar tudo para que possam os pegar a m am ãe. Mesm o com a raiva da Verm elha atuando dentro dele, ainda é capaz de arriscar a vida para m e aj udar.

Seguro os om bros de Morfeu, afastando-o.

— Eu... não estou pronta.

Ele ergue m inhas m ãos acim a da cabeça, segurando-as por cim a da gram a pontiaguda e fosforescente, prendendo-m e ao solo. Seu toque é sutil, deixando-m e livre para eu sair, se quiser.

— Você veio aqui para destruir a Verm elha — ele fala. — Isso quer dizer que você está pronta... pronta para reivindicar seu trono porque assum iu seu am or pelo País das Maravilhas. E, antes que você esqueça, eu sou o País das Maravilhas. Assim com o você. — Mesm o eclipsada sob as asas, o brilho em m eu rosto ilum ina o dele. Ele m e desarm a com esses olhos negros em oldurados pelos cílios longos, deixando-m e sem chão com sua loucura e beleza.

Ele continua:

— Jebediah desistiu de você, m as eu nunca farei isso. Posso lhe oferecer a segurança que desej a. Se você for som ente m inha, seu coração estará sem pre sob m inha proteção e m eu cuidado. Sim , terem os discussões sem fim e lutarem os por poder. E, sim , terem os arroubos de paixão, m as tam bém suavidade e calm aria. É assim que som os quando estam os j untos. Você nunca precisará duvidar da reciprocidade de seu am or. Pois, em bora você tenha m e feito sentir coisas que não são da m inha natureza... não consigo parar de senti-las. — Seu queixo trem e. — Você abriu a caixa de Pandora dentro de m im . Libertou a im aginação e as em oções de um hom em m ortal. E não há com o voltar atrás. — As j oias em torno de seus olhos brilham em tons alternados de púrpura e azul. — Por m ais que eu rej eite qualquer característica hum ana, Aly ssa, não ousaria m e fechar para isso. Pois significaria perder você.

A confissão é encantadora e brutal — arrem atada por um a honestidade que não apenas ouço no tom rascante de sua voz, m as tam bém sinto em seus m úsculos trêm ulos ao segurar m inhas m ãos acim a da cabeça.

— Você pensa que sou egocêntrico e incapaz de ser sincero — ele continua, entrelaçando nossos dedos de m odo que as cicatrizes por baixo de m inha luva de renda ficam j unto às suas m ãos enluvadas. — É verdade. O seu cavaleiro m ortal estava disposto a m orrer por você sem hesitar, altruísta ao extrem o. Eu tinha a espada vorpal quando deixei o bandersnatch m e levar em seu lugar; eu sabia que poderia escapar. Talvez isso tenha feito o sacrifício de Jebediah parecer m ais grandioso. Mas eu tam bém fiz sacrifícios. Mantive-m e distante por tantos anos após nossa infância, depois que sua m ãe foi para o sanatório, para que você pudesse viver a sua vida.

— Porque você fez para ela um voto pela m agia de sua vida; você não teve escolha... — Quase conto a ele que sei m uito bem quanto esses votos podem nos prender.

— Sim . Mas deixei você partir de novo, no ano passado, após ser coroada. E todas as noites em que eu a trouxe de volta ao País das Maravilhas em seus sonhos, em bora m e fosse doloroso ver que você abandonava nossas paisagens de sonho e retornava ao reino m ortal, perm iti que você partisse pela m anhã para viver sua realidade lá. Pode não parecer m uito, com parado aos galanteios do seu m ortal. Mas, para m im , suj eito interesseiro e arrogante que sou, é a form a m ais sincera de sacrifício. Deixar você partir. Você não vê isso?

Sinto-m e tom ada pela em patia. Esforço-m e para encontrar um a palavra de gratidão ou de desculpa, m as nada m e parece suficiente. Tudo o que consigo fazer é um gesto com a cabeça, concordando.

Com o se esperasse por esse gesto, ele solta m inhas m ãos, segura m eu rosto e sussurra em m eu ouvido.

— Minha preciosa Aly ssa, com partilhe a realidade com igo. Dê-m e a eternidade. Juntos causarem os os m ais belos estragos.

A tentação ilum ina m eu sangue, com gosto de poder eterno e loucura. Seus lábios m acios deslizam em m eu rosto. Fico extasiada quando ele m e toca, drogada por suas prom essas, cada vez m ais envolvida por ele. Antes que ele chegue à m inha boca, seguro suas m ãos e o viro, deixando-o de costas no chão, sem as asas a nos esconder, agora voltadas para baixo.

Coloco m eu tronco sobre o dele, assum indo o controle.

— Não consigo raciocinar — sussurro. — Você está m e deixando louca.

— A insanidade é a m ais pura clareza. — Ele passa a perna sobre m eu quadril e m e aj eita em cim a dele. — Deixe a loucura entrar. Deixe-a ser sua guia. — Um dos cantos de sua boca se eleva em um sorriso m alicioso.

Apoio-m e nos cotovelos. Não o via relaxado assim desde que brincávam os j untos: pedaços de gram a no m eio dos cabelos, roupas desalinhadas e am assadas. Até a cam iseta está para fora da calça. Ele se espreguiça languidam ente sob m eu corpo e a cicatriz prateada em sua barriga cintila, a m arca reveladora causada pela Irm ã Dois quando ele a enfrentou dentro da Fios de Borboleta, sem anas atrás. Ele quase m orreu para aj udar Jeb e a m im a escapar. Mas não perm iti que m orresse porque não poderia conceber o m undo sem ele.

Da m esm a m aneira que tam bém não im agino o futuro sem ele. Não m ais.

Seguindo um instinto obscuro e um desej o m ais obscuro ainda, toco a cicatriz. Sua pele reage ao toque e ele se sobressalta.

Retiro a m ão.

Ele agarra m eu braço e m e puxa de volta, os narizes se tocando.

— É bonita — ele diz, seu hálito perfum ado e frutado. — A m arca deixada por seu am or quando você salvou m inha vida. Com bina com as m arcas na palm a das suas m ãos, da prim eira vez que você m e salvou. Um a após a outra, suas ações denunciam seus verdadeiros sentim entos. Mas quero ouvir as palavras. — Os lábios dele acariciam m eu rosto e param ao m eu ouvido. — Diga-as.

Sua voz baixa e rouca eletrifica m inha pele. A rainha do País das Maravilhas ganha vida. Ela dá vazão ao sentim ento escondido nos cantos m ais obscuros do m eu coração, até que eu não tenha m ais com o negá-los.

Procuro seus olhos, extasiada pela profunda em oção neles.

— Eu gosto de você... — É um a resposta superficial e inapropriada. A verdade m ais profunda se congela em m inha boca: Meu lado intraterreno ama você loucamente.

Essas palavras são assustadoras, vulneráveis e extraordinariam ente únicas para serem proferidas; podem se desm anchar com o flocos de neve quando expostas ao calor da realidade antes da hora.

Morfeu, porém , está farto de esperar. Ele m e puxa para m ais perto, aperta m eus lábios com os seus e m e beij a quente e prim orosam ente.

Acontece rápido dem ais. Mal vi quando se aproxim ava.

Ah, m as a m inha parte intraterrena viu e colocou m inhas defesas de lado.

Ela guia m inhas m ãos, corre m eus dedos entre os cabelos dele, brinca com a língua dele. Ela não deixa que eu m e afaste, pois quer voltar para lá, para o País das Maravilhas, aonde seus beij os com gosto de tabaco sem pre nos levam ...

Porque as coisas que eu abom ino nele são as coisas que ela adora: o sarcasm o, a condescendência irritante. Seu dom ínio am eaçador das m eias verdades e dos enigm as. O m odo com o ele m e em purra para o perigo, m e força a olhar para além dos m eus m edos e a alcançar m eu potencial com pleto.

Acim a de tudo, porque m e encoraj a a acreditar na loucura... nela... m eu lado m ais obscuro: a rainha que nasceu para reinar no reino Verm elho e dar ao País das Maravilhas um legado de sonhos e im aginação.

Suas m ãos enluvadas tateiam buscando a curva de m inha cintura e a inclinação dos quadris. Ele m e coloca por cim a de seu corpo, tão perto que entre nós não há espaço para nem sequer um a folha de gram a. Seus beij os ficam m ais insistentes e desesperados. Seu sabor penetra em m im , frutas, fum aça, terra e outras coisas provenientes das som bras e tem pestades... coisas que nem sei nom ear.

Sou levada a um lugar distante onde cham as incendeiam m inha pele, ofuscando-m e com tons de laranj a, am arelo e branco. O calor faz arder m inhas narinas.

Estou no sol. Não o sol terrestre, m as o do País das Maravilhas. Morfeu está com igo, usando um a coroa de rubi. Juntos, dançam os descalços no interior flam ej ante, sem que o inferno ao redor nos afete, atentos apenas à nossa dança. Brasas cintilantes douram nossas asas. Meu vestido verm elho, feito de rosas e renda, atrai um a faísca e queim a-se por inteiro. O m esm o acontece com seu belo terno carm im , dispersando-se com o cinzas. Nosso espírito reflete nossa carne, todos os segredos e desej os despidos. Estam os livres, face a face, em igualdade... sem lugar algum para nos esconder a não ser dentro um do outro. Ele abre os braços e m e entrego a ele sem reservas.

A im agem enfraquece. Estou por cim a de Morfeu novam ente, vestidos e sobre a gram a. Deve ter sido um a visão, com o aquela que a Marfim teve de um banquete com um a criança, um lam pej o do futuro transm itido a m im pela m agia da m inha coroa.

As profundezas fluem através de m im , no entanto não posso esquecer m inha hum anidade e m eu am or pelo hom em m ortal que pintou um quarto repleto de lindos sonhos, um hom em que se perdeu e precisa de m im , m ais do que nunca.

A pressão que sinto no coração explode pelo peito e rouba m eu fôlego. Desvencilho-m e e procuro respirar, tentando ficar de pé.

— Jeb — m urm uro.

Morfeu resm unga e põe-se de pé, colocando a cam isa para dentro da calça. Retira a gram a das pernas e aj eita a gravata ao pescoço.

— Essa foi um a declaração de am or extrem am ente decepcionante. Talvez fosse m elhor se você escrevesse um soneto, de preferência om itindo as letras J, E e B.

— Eu sinto m uito. — Massageio o centro do peito para aliviar a sensação de ardência. — Tenho que fazer a coisa certa, por todos. Eu só não sei o que é. Tudo o que sei é que todos precisam de algo diferente. Você, Jeb, m eus pais, o País das Maravilhas. Quero m e partir em duas... ser duas ao m esm o tem po.

Morfeu franze a testa.

— Nunca diga isso, Aly ssa. É perigoso desej ar tais coisas.

— Por quê? Não posso m udar o fato de que m eu coração tem dois lados. Por m ais que eu queira.

— Você nunca deveria pensar isso. O único j eito de você encontrar a paz é se seus dois lados aprenderem a conviver. Você não seria a garota com quem com partilhei a infância sem esses dois lados.

Sua adm issão tocante faz-m e considerar algo em que até então não tinha pensado.

— A garota que você aj udou a form ar com o rainha. — Olho para o teto de céu, enredando-m e em m inha própria indecisão. — Você sem pre m e disse que eu era a m elhor de dois m undos. Ensinou-m e a assum ir m inha m agia e m inha im aginação. Agora, tenho duas vozes em m eu interior para seguir. Cada um a é atraída por um a vida diferente, em um m undo diferente. Estou m achucando a todos porque estou confusa. E odeio isso. — Volto-m e para ele. — Talvez sej a isso que m e faz querer odiar você.

Ele exam ina m eu rosto, silencioso e estoico. Im agino que finalm ente está se arrependendo de ter m e ensinado tudo, de tudo em que m e envolveu.

Roço os dedos nas j oias que brilham em tons m elancólicos em seu rosto.

— Mas ódio é o que há de m ais distante do que sinto por você. O m ais distante de tudo.

Ele pega em m inha m ão e pressiona a palm a coberta de renda contra seu peito, passando o polegar sobre m eus dedos.

Rej eito o m om ento de ternura para perm itir que as engrenagens de m inha m ente estej am livres para funcionar.

— Você disse que vam os expulsar a Rainha Verm elha de Jeb para que eu possa destruí-la para sem pre. Com o podem os fazer isso sem feri-lo?

Morfeu abaixa-se para pegar m inha tiara, colocando-a de volta em m eu cabelo e alisando os fios.

— Isso, am or, exigirá o m aior sacrifício de todos. — Seus dedos percorrem o cordão em m eu pescoço. — E só você poderá fazê-lo.

Ele não tem tem po de explicar, pois a porta se abre de repente, revelando Jeb. Em bora ele tenha insistido que term inam os, m inha consciência tem um déjà vu, com o se eu tivesse sido pega traindo-o novam ente.

Minha preocupação desaparece à m edida que percebo sua aparência: sangue gotej ando, cabelos em desalinho, rosto pálido e expressão ansiosa. Faltam penas em seu traj e — um pássaro que quase não sobreviveu a um ciclone. E, o pior de tudo, papai não está com ele.

— Jeb, onde...?

Seu olhar nos penetra com um a luz sobrenatural.

— Vocês dois. Venham com igo. Depressa.