Qualquer Outro Lugar
Capítulo 22
22
Paisagens de Sonho
Chessie e Nikki m e conduzem para a torre m ais alta, que tem vista para todo o reino da Marfim , e saem voando antes que eu possa agradecer.
Arfando para recuperar a respiração, eu aguardo diante da porta aberta e absorvo m inhas asas. A sala é grande e não tem j anelas. Janelas são desnecessárias em um palácio com paredes transparentes. Ao contrário da câm ara em que eu estava, não há gelo ou neve bloqueando a visão. A luz do dia é refletida na neve lá fora e ilum ina o entorno com o brilho do sol.
Finley está tirando telas dos cavaletes, de costas para m im . Não há sinal de Jeb.
Entro sem fazer barulho. Há pilhas e pilhas de telas no chão, todas pintadas com paisagens lindam ente bizarras. Eu reconheceria o estilo em qualquer lugar.
Olho para o m undo fora da torre de vidro, onde porções coloridas de terra no horizonte dão vida às pinturas de Jeb. A m etam orfose fluida m e faz m e lem brar de quando eu era pequena e fechava lascas de lápis de cera entre duas folhas de papel-m anteiga e, com um ferro quente, papai as derretia, form ando reluzentes “obras-prim as de vitral”. Nunca pensei que veria explosões de cores tão vibrantes e visionárias assim a não ser através de um caleidoscópio, e certam ente não nesta escala, cobrindo um m undo todo.
Fico extasiada.
Um m ovim ento no céu cham a m inha atenção. O arco gracioso de asas negras gigantes investe contra as nuvens, fazendo buracos que se fecham antes que eu possa piscar. Em bora estej a oculto pela névoa branca e m acia, eu sei que é Morfeu supervisionando o renascim ento de seu am ado lar. Um a parte de m im anseia por estar com ele. Subir até o alto desta torre e m ergulhar no ar para poderm os planar j untos, de m ãos dadas, sentindo o vento bater no rosto. Quero observar as j oias em sua face piscarem naquele excitante arco-íris de em oções.
Contudo, outra coisa m e cham a agora, um cham ado igualm ente forte...
Jeb se superou. Recuperou o esplendor excêntrico de nosso m undo, e o País das Maravilhas estará sem pre em débito com ele. Não perm itirei que se sacrifique m ais nada.
Finley para de trabalhar, preocupado com um espelho de chão num canto da sala. Seu corpo bloqueia o reflexo que ele observa.
Assim com o em m inha visão, ele está usando um uniform e de cavaleiro élfico: calças pretas com o caim ento de j eans bem usados, um a corrente de prata ligada a dois passadores de cinto e um a cruz de reluzentes diam antes brancos na parte superior da perna esquerda. A cam isa tem m angas com pridas e é feita de um tecido elástico que adere aos m úsculos — prateada com listras verticais pretas.
— Para onde foi o artista? — Minha pergunta sai m ais incisiva do que eu queria.
Finley se vira. Ao m e ver, ele olha para baixo e passa a m ão pelo cabelo loiro-escuro em um gesto constrangido, fazendo-m e lem brar que m eu vestido deve estar m uito transparente sob a luz do sol.
Fico ruborizada, m as não m e viro.
— Ele pegou a passagem do espelho. — Finley coloca de lado a tela que está segurando, revelando a superfície do vidro.
Eu m e aproxim o. Um a am plidão vazia se reflete nele, cheia de salgueiros-chorões cobertos de gelo. Um a variedade infinita de ursinhos e outros anim ais de pelúcia, palhaços de plástico e bonecas de porcelana está pendurada nas teias dos galhos pendentes.
As almas inquietas.
Falta-m e o ar quando a im agem desaparece.
Então Jeb está no cem itério, m ais além dos salgueiros m ortos e secos, no abrigo de hera onde um a espessa bainha de teia pulsa com luz e respiração. As raízes lum inosas talvez j á estej am conectadas à sua cabeça e ao seu peito, sugando sonhos e im aginação.
Eu reprim o um gem ido. Cada nervo em m eu corpo ferve de ódio.
— Visualize aonde você desej a ir — sussurro, e im agino o covil da Irm ã Dois: a parte m ais profunda, onde ela guarda seu sonhador, o que fornece entretenim ento àquelas alm as m iseráveis e inquietas para m antê-las em paz.
O vidro estala e Jeb aparece no reflexo. Ele ainda não está envolto em teias nem conectado às raízes das árvores, m as a guardiã de túm ulos está em cim a dele, suas oito pernas a fixá-lo no lugar. O tecido listrado de sua saia form a um a bolha larga com o um a argola em volta das fiandeiras. A parte superior do torso, enganosam ente hum ana, se retesa por baixo de um corpete do m esm o tecido. A m ão esquerda, form ada por tesouras de poda no lugar de dedos, prepara-se para atacar, prestes a torná-lo um vegetal.
Num surto de adrenalina, ergo m inha chave para abrir o vidro do espelho.
Finley segura m inha m ão.
— Não posso deixá-la fazer isso, senhorita. A Marfim pediu que eles não fossem interrom pidos.
Com um puxão, solto m inha m ão. Com um olhar para a sala, invoco um a pilha de tecidos que está no canto para que se levantem e pairem sobre ele feito fantasm as furiosos. Dois deles estendem m ãos cheias de garras e prendem seus braços. Os outros lançam som bras azuis sobre seu rosto, aguardando m eu com ando. Fico surpresa ao ver com o foi fácil fazer surgir m eu lado selvagem . Surpresa e satisfeita.
— A Marfim abriria um a exceção para a Rainha Verm elha — digo num rugido.
Mesm o com os fantasm as a segurá-lo, Finley não recua. A percepção surge em seu rosto. Ele obviam ente não tinha ideia. Não posso culpá-lo. Minha aparência neste m om ento não está digna da realeza.
— Me perdoe, Maj estade. Estarei aqui para abrir o espelho deste lado quando term inar.
Perm ito que os tecidos caiam no chão enquanto insiro a chave no buraco form ado pelo vidro quebrado. O reflexo form a um a onda, com o um líquido, e eu entro. Um a névoa sépia rodopia em torno de m im e um a com ichão m e percorre toda a pele.
Procuro m e orientar e então a cena se abre para a realidade. Um a friagem com cheiro de ranço paira no ar e a neve cobre o chão. Os gritos e lam entos dos brinquedos inquietos m e perfuram os tím panos.
Acim a de todos, os gritos agonizantes de Jeb m e cortam a alm a.
Correndo na direção do som , detenho-m e a alguns passos da Irm ã Dois. Ela ergue a m ão de tesoura, escorregadia de sangue. A pele translúcida e o cabelo da cor de grafite têm respingos verm elhos.
Jeb segura o próprio pulso direito. Fios verm elhos e brilhantes saem de sua tatuagem e entram nas fendas entre os dedos, respingando sobre a neve e sobre a túnica m anchada de tinta, deixando pingos frescos e reluzentes.
Ele cai de j oelhos, gem endo.
— Jeb!
Ele recua, uivando de dor.
Antes que a Irm ã Dois possa reagir, convoco o invólucro de teia que ela preparou para ele. Os fios pegaj osos se enroscam nela, aprisionando-a dentro da própria arm adilha.
Ela luta, m as tudo, das m últiplas pernas aos braços com pridos, fica envolto pelo casulo. Suas lâm inas nem podem se abrir para cortar as am arras.
— Com o ousas pisar neste solo sagrado!
A voz que um dia m e percorreu a espinha feito galhos sobre um a vidraça não tem m ais poder sobre m im . Em vez de evocar o terror, ela deflagra m inha ira, fazendo-m e lem brar tudo o que ela fez com as pessoas que am o: planos para tirar todo o sangue de m eu pai e deixá-lo m orrer, aprisionar m inha m ãe aqui, ferroar Morfeu e caçar Jeb com o intuito de prendê-lo neste lugar para sem pre.
— Eu sou m estiça, bruxa — declaro, fervendo de raiva. — Meus poderes não são afetados por este lugar. Então vai ter que estender o capacho de boas-vindas. Seus dias sem responder a ninguém acabaram . E Jeb não vai ser seu sonhador. — Eu anim o outra tira de teia para tapar seus lábios cor de lavanda, silenciando qualquer resposta com eficácia. Os olhos azuis endurecem .
Jeb ainda está agachado, segurando o pulso.
— Não há com o reverter o que j á foi feito. — Sua voz está rouca e apertada.
O que pensei serem gotículas de sangue verm elho sobre a neve se funde em um a luz pulsante. Ela cava por baixo da teia que cerca a guardiã de túm ulos. E não para ali. Serpenteando, fios brilhantes se separam e entram nas raízes por baixo do solo que levam a cada árvore. A luz penetra nos brinquedos que se contorcem , alim entando-os. Um a um , eles se acalm am e ficam perturbadoram ente serenos.
Jeb fica de pé. Sua tatuagem , que antes brilhava com poder e m agia — e sangrava m om entos atrás —, está da cor da pele, curada e saliente feito um a cicatriz. Não há nenhum resquício de luz por baixo dela.
Seus olhos tam bém estão diferentes — de um verde m ais escuro, com o m usgo nas som bras. Algum a parte integral dele foi transform ada.
— Jeb. — Cerro os punhos. — Eu fiz um a prom essa para você. De um a vida j untos.
Ele balança a cabeça.
— Eu liberto você de seu voto, Al.
Diante dessas palavras, sinto a diferença... o elo que eu construí se quebrou.
— Não! — Pulo no pescoço da Irm ã Dois. — O que você fez com ele?
Jeb tira gentilm ente m inhas m ãos da m ulher-aranha.
— O que eu pedi para ela fazer. A Marfim não contou a você?
— Que você se ofereceu para ser o sonhador? Com o m eu pai foi? É por isso que você está m e liberando de m inha prom essa. Para eu não ficar presa a um cadáver. — Minha voz é aguda e desesperada. Nada parecida com o que a voz de um a rainha deveria ser.
Jeb franze a testa.
— Você não deixou a Marfim explicar, não é? Saiu voando do castelo sem inua para vir m e encontrar aqui sem deixar que ela term inasse.
Reteso a m andíbula.
Ele m e vira para encará-lo. O rosto dele fica verm elho, e ele parece forte e saudável novam ente. A careta se transform a em um sorriso com aquelas covinhas. Um a visão adorável dem ais para descrever com palavras.
— É bem a sua cara.
— Não tem graça. O que você fez... nós tem os que desfazer. Existe outro m odo de dar sonhos ao País das Maravilhas.
Ele estreita os olhos.
— Ter um filho com Morfeu? Está pronta para isso hoj e?
Minha garganta se contrai. Finalm ente, sei quem eu sou sem nenhum a dúvida, m as ainda estou aprendendo quem Morfeu e eu som os j untos. Não quero trazer nosso filho ao m undo antes de term os tem po para crescer, para trabalharm os j untos e nos aceitarm os.
Quero fazer tudo em seu devido tem po para nunca m ais fazer m al ao País das Maravilhas.
Jeb pega as m inhas m ãos nas dele.
— Você j á fez m uitos sacrifícios. Seu coração estava se partindo ao m eio, tentando apaziguar a todos e a tudo que você am a. Você não pôde escolher onde viver. A escolha foi feita para você. Então, a partir de agora, tudo o que acontecer entre m im e você, ou entre você e o isca de coruj a, será um a escolha sua. Não por causa de algum a prom essa m ágica que você fez quando estava desesperada por salvar m inha pele naquela terra de ninguém . Não por causa de um a criança sonhadora que um a visão previu que você traria ao m undo um dia. Nenhum a dessas coisas deve ter im portância agora. Tudo j á foi arranj ado. Então você pode escolher qual papel nós terem os em suas duas vidas, nas suas condições. Sem lim ite de tem po. Sem pressão.
Aperto os dedos dele.
— Eu posso escolher? Com o, se você vai ficar aqui neste cem itério?
— Não é bem assim . A Irm ã Dois tem o poder de tirar os espíritos intraterrenos de um corpo possuído. Ela usou o m esm o processo para isolar m inha inspiração e retirá-la de m im , porque ela é um a entidade agora... feita dos m eus sonhos, pesadelos e im aginação, que ganhou vida graças à m agia da Verm elha. É ela que vai tom ar o lugar das crianças hum anas. — Ele está tentando m e confortar, m as suas palavras são tudo, m enos reconfortantes. — Ela vai m anter o cem itério do País das Maravilhas equilibrado e suprido pelo tem po que eu viver.
Respiro fundo, trem endo. Estou aliviada por ele não ter desistido de sua vida. Contudo, ao im aginá-lo sem sua habilidade de pintar, fico receosa.
— Por que você teria que consertar o m eu m undo? Você j á o pintou e o ressuscitou. Já basta.
— É o m eu m undo tam bém , porque ele é parte da garota que eu am o. Foi por isso que eu fiz o que fiz, Al. O.k.?
— Mas nós podíam os ter encontrado outra form a.
— Não havia outra m aneira de eu voltar a ser hum ano. Estou pronto para voltar... cuidar da m inha fam ília. Ser quem eu nasci para ser.
Minha garganta incha.
— Por duas vezes eu vi você abdicar de sua vida por m inha causa. Não posso deixar que você perca seu dom . — Minha voz é severa, escondendo quanto m e sinto indefesa.
— Abdicar da m agia é a única m aneira de eu seguir adiante. — Ele larga m inha m ão e a Irm ã Dois se solta da j aula pegaj osa. — A decisão é m inha. E está tom ada.
A Irm ã Dois m e olha furiosam ente enquanto se liberta, chutando neve com as oito pernas.
— Não serás bem -vinda no j ardim das alm as, m estiça, a m enos que tragas um a alm a para cuidar. Rainha ou não, com poder ou não, existem regras e costum es que precisas seguir se desej as viver em nosso m undo.
A fúria m e tom a, fazendo-m e ferver novam ente. Minha pele cintila, lançando pequeninos pontos de luz na direção das teias e árvores.
— Muito bem . Mas existe um a nova regra para você tam bém , guardiã de túm ulos. Me disseram que está cansada de sair em busca de sonhadores. Bom , o problem a está resolvido. Agora que você tem um vasto suprim ento, não tem m otivo para voltar ao reino hum ano. Seu lugar é aqui, cum prindo suas tarefas. Os portais do País das Maravilhas estarão fortem ente guardados. Se eu encontrá-la m ais um a vez perto deles, vou atá-la em sua teia e deixá-la pendurada pelo resto da eternidade.
Ficam os olhando um a para a outra. Ela sibila, m as m antém distância, tem erosa de m inha m agia. Jeb pega m inha m ão e m e puxa na direção da im agem de Finley, que aguarda do outro lado do espelho para poderm os entrar no castelo.
No instante em que atravessam os, o vidro estala e torna se sólido novam ente. Nele, só resta um reflexo de m im em m inha cam isola transparente. Jeb pega um dos tecidos aos pés de Finley e m e cobre com ele.
— Obrigada por ficar de olho — ele diz, apertando a m ão de Finley.
Finley dá um a chave do espelho a Jeb e faz um a reverência para m im . Há serenidade em seu olhar âm bar quando ele diz:
— Espero ver am bos no banquete esta noite.
Para um j ovem tão atorm entado e suicida no m undo hum ano, ele parece em paz e sob controle. O tem po todo pensei que ele fosse um refém , m as, ao am á-lo e designá-lo para um a posição em seu exército, a Marfim deu-lhe um propósito... um a razão para viver.
A Verm elha tinha um propósito construtivo tam bém . Se ela não tivesse se distanciado dele, talvez tivesse encontrado a paz. O nó na base de m eu crânio não incom oda desta vez. Seu arrependim ento a consum iu e a incapacitou.
E se acontecer o m esm o com Jeb? Por tanto tem po sua identidade dependeu de sua arte. Qual será seu propósito agora?
Quando Finley sai da sala, Jeb m e puxa para um abraço silencioso. Eu m e aninho j unto a ele, saboreando seu cheiro de tinta. Um cheiro que em breve se esvanecerá para sem pre. Os únicos sons entre nós são nossa pulsação e nossa respiração reprim ida. Estou tão arrasada que não consigo falar.
Ele m e abraça m ais forte, até seu peito com prim ir o m eu. Meu coração é atraído para o dele, quase com o um ím ã. É um a inervação ofegante, intensa, quente e m aravilhosa, com o se explodissem estrelas dentro do órgão. Essa sensação deve ser causada pela ponte de m agia que ele e Morfeu construíram dentro de m im , e eu m e pergunto se será sem pre assim quando um deles m e tiver nos braços.
Jeb apoia m inhas costas em um a parede transparente e sussurra:
— Olhe para o seu m undo, linda rainha.
Eu viro a cabeça e vej o as estonteantes m ontanhas lá em baixo, a gênese do País das Maravilhas florescendo em todo lugar. Os brotos de m inhas asas coçam , ansiando por voar.
Jeb segura gentilm ente o tecido em torno de m inha clavícula.
— Tudo se encaixa. Que m eu desej o de saber quem você era tenha inspirado m inhas prim eiras pinturas. E que saber disso tenha inspirado até a últim a. — Seu olhar está m uito estranho, alerta e renovado, com o se tivesse acabado de acordar de um sono tranquilizador. Ele não parece estar desistindo de nada. Parece estar com eçando algum a coisa.
— É tão fácil assim dizer adeus a essa parte de você? Vai se distanciar de m im tam bém ?
O m undo lá fora explode em transform ação incontrolável de cores e luz, refletindo-se em padrões na pele m orena de Jeb.
Ele inclina a cabeça, estudando-m e, pensativo.
— Dizer adeus à m inha arte é... assustador, Al. A Marfim ofereceu um a poção de esquecim ento, se eu quisesse, para eu não ter que viver com essa dor. Mas eu recusei. Não quero esquecer nada, porque foram essas experiências, essas perdas, que m e aj udaram a ver que posso fazer m uito m ais do que só usar um pincel e tintas. Outras partes que ainda não foram anuladas. — Por trás de seus cílios negros e longos os olhos brilham com um a potência que nada tem a ver com m agia. Ele m e puxa para perto, sua respiração quente dançando j unto aos m eus lábios. — Podem os descobrir isso j untos.
Seu polegar toca a covinha em m eu queixo, arrasta-se para m inha boca, enviando sensações provocantes desde m eus lábios até o peito e o ventre.
— E, para que fique bem claro, eu nunca m e afastarei de você, a m enos que m e peça. Eu quase fiz isso um a vez, m as só porque pensei que tinha m agoado você. — Ele com eça a tirar um colar de dentro da cam isa.
Eu não havia notado a corrente que brilhava na curva de seu pescoço. Aj udo-o a tirá-la, revelando o anel de noivado que ele derreteu no oceano, o que Morfeu fundiu em um torrão de m etal. Ele foi pintado de novo. É indestrutível.
— Oh, Jeb...
— Não posso dar a você todas as coisas que esperava dar — ele diz. — Mas posso lhe dar um a fam ília e um lar. Am o você, Al. Só espero que você consiga am ar um reles m ecânico.
Passo os dedos pelo cabelo ondulado em seu pescoço. Esse é o lado dele que eu m ais adm iro... sua fragilidade, suas falhas. Sua força, apesar delas. E agora ele vê essa força com a clareza e a confiança com que eu sem pre vi.
— Nunca vai haver nada reles em você — eu sussurro. — E eu j á te am o.
Ele m e ergue até eu ficar da sua altura, com os pés balançando no ar, e m e aperta contra a parede de vidro com seu corpo. Meu coração reage m ais um a vez — vibrando de vida. Sua boca e o piercing passam pela m inha testa, descendo lentos e persistentes pelo m eu rosto.
Minha m ente se derrete em um a onda de prazer quando seus lábios m acios e cheios fazem contato com os m eus. Ele com eça a aprofundar o beij o, m as se detém ao olhar para o vidro atrás de m im .
— Só pode ser brincadeira.
Olho para trás. Lá fora, Morfeu está pendurado no vidro, em form a de m ariposa, no nível da m inha cabeça, encarando-nos com seu olhar bulboso. Mesm o sem um rosto, sua soberba fica aparente. Seu passatem po predileto é interrom per os m om entos rom ânticos de Jeb. Tento não rir, m as não consigo evitar.
— Que inseto m ais petulante. — Jeb m e desce ao chão e arrum a o tecido em torno de m im .
Um a coruj a m ergulha do céu e roça o vidro. Com um chilique, Morfeu alça voo e tenta ser m ais rápido do que o pássaro. Agora é Jeb quem ri.
Dou um tapinha em seu om bro.
— Não tem graça nenhum a.
— Ah, ele vai ficar bem . — Jeb ergue um a sobrancelha, assistindo à perseguição aérea que acontece do outro lado do vidro. — É um a nova espécie de coruj a vegetariana. Elas só gostam da perseguição. E, além disso, o Morfeuzinho pode m udar de form a a hora que quiser.
Eu sorrio.
— Aquela coruj a é um a de suas criações?
O sorriso de Jeb se alarga.
— Foi para o próprio bem do caca de inseto. O cara é antigo... precisa ficar em form a.
Dou outra risada. É tão m aravilhoso ver seu lado brincalhão novam ente.
O sorriso de Jeb fica m ais terno, e sua expressão torna-se séria.
— Você, finalm ente, consegue adm itir seus sentim entos por ele?
Minha euforia se evapora, virando um a espiral nauseante no estôm ago.
— Eu sem pre terei dois lados diferentes. E cada um deles am a você e Morfeu de form as diferentes. — Olho nos olhos dele, sem constrangim ento de confessar, por causa da sinceridade que m e m ove. — Eu sei que não é j usto pedir a nenhum de vocês que aceite isso.
Jeb vira m eu queixo com a ponta de um dedo.
— Você não pediu. E não quero nada j usto. E nada fácil tam bém . Quero um a vida com você, com todas as com plicações que isso trouxer. Já fom os ao inferno e voltam os, j untos. Já provei que sou m ais qualificado do que qualquer outro hum ano para lidar com o que o destino nos deu. Sej a m ágico ou não. Além disso, com o você tendo duas vidas é diferente de qualquer m ulher que se case depois que o m arido m orre?
— Porque Morfeu virá m e visitar em m eus sonhos todas as noites. Você confia nele?
— Confio em você. Você é tão forte... não, mais forte do que ele. Ele sabe disso tam bém . É por isso que ele gosta de testar você. Você só precisa provar para si m esm a, com o eu tive que provar as coisas para m im m esm o. E está prestes a passar vinte e quatro horas sozinha com ele para fazer isso.
Meus om bros desabam . O tecido se enruga entre a parede e as m inhas costas. Eu tinha m e esquecido do voto que fiz para Morfeu.
— Assim que eu m e livrar da Verm elha.
Jeb guarda o colar com o anel debaixo da túnica novam ente.
— Vou ficar com isto até você m e dizer que está pronta. É um grande sacrifício construir um a fam ília hum ana e se afastar dela um dia. Se for dem ais, ou se depois do tem po que vocês passarem j untos você decidir que quer ficar com ele agora, vou m udar para algum outro lugar para que a gente nunca m ais se vej a. Você precisa de tem po no reino m ortal para se curar, e não vou correr o risco de rasgar você ao m eio m ais um a vez. — Seus olhos são sinceros e intensos; o queixo está tenso, num esforço para ser forte, em bora eu perceba que é a coisa m ais difícil que ele j á disse na vida.
Sua força m e im pressiona. Eu o puxo para um abraço. Só de pensar em viver um a vida hum ana sem ele j á provoca dor em m eu coração recém -consertado. Não é um a dor aguda, m as um peso, com o se ele estivesse cheio de pedras. Eu m e aconchego em seu peito, puxando-o para m ais perto a fim de poder sentir a corrente m ágica entre nós m ais um a vez... a fim de aliviar esse peso.
Ele afaga m eu cabelo.
— Sobre a Verm elha. Você não pode deixá-la adorm ecida aí dentro para sem pre. Qual é o seu plano?
Balanço a cabeça, grata por ele ter m udado de assunto.
— Eu ia libertar o espírito dela. Deixá-la definhar. Mas quero fazer outra coisa. Algo... significativo.
Ele nos separa e estreita os olhos.
— Algo que ela m ereça, eu espero.
Traço as m anchas de tinta seca e de sangue em sua túnica.
— Ela am ou o País das Maravilhas um dia. Antes de se distanciar das boas intenções, ela queria m elhorá-lo. Com o você disse, a Irm ã Dois divide os espíritos em zonas e os extrai. Com o a sua inspiração tem resíduos da Verm elha, talvez o espírito dela possa se unir a essa inspiração. Então a Verm elha poderia aj udar a fornecer sonhos. Ela ficará presa, sem nunca poder escapar, m as pelo m enos estará contribuindo com algum a coisa. Isso am pliará a vida da sua inspiração. E m andará um a m ensagem aos m eus súditos, que, se eles saírem da linha, encontrarei um a form a de fazê-los servir ao País das Maravilhas para sem pre. E, acim a de tudo, isso trará paz à Verm elha.
Os olhos de Jeb se ilum inam com algo sem elhante ao orgulho.
— Você vai dar um a rainha e tanto, sabia?
Um a descarga de satisfação aquece m inhas bochechas.
— Vou fazer o m elhor que puder.
Ele beij a m inha testa.
— Muito bem . Vou ficar de guarda aqui... para deixar você passar quando tiver term inado.
Dirij o-m e para o espelho, m as Jeb m e detém . Olho para seu rosto preocupado, convencida de que ele m udou de ideia e quer vir com igo, j á que ele e a Irm ã Dois se entenderam . Estou preparada para discutir, m as ele só levanta um a das m inhas m ãos e fecha m eus dedos num punho.
— Você consegue — ele diz, e bate os dedos nos m eus. — Faz um ano que ela quer a Verm elha de volta. Você dá as cartas.
— Foi exatam ente o que pensei. — Sorrio para ele.
Ele retribui o sorriso.
— E m ais um a coisa...
— Sim ?
— Já é hora de você ficar em paz tam bém . O que era ruim j á passou.
Eu afago seu rosto e m e volto para o espelho. Deixando o tecido escorregar dos om bros e cair no chão aos m eus pés, liberto as asas e visualizo o cem itério no vidro. Meu reflexo m e olha enquanto aguardo que m eu destino apareça: m arcas intraterrenas nos olhos, pele reluzente, cabelo selvagem e vivo.
Vej o o que Jeb viu, a razão pela qual ele nunca m ais tentará ser m eu protetor. É um sentim ento incrível saber que sou forte e capaz.
Talvez ele estej a certo. O que era ruim j á passou.
Não posso ter certeza até saber com o estão as coisas com o m eu m entor atorm entador; o guardião da sabedoria que salvou m inha vida m ais de um a vez, que detém a outra m etade do m eu coração em suas m ãos m anipuladoras e que fez da m inha m etam orfose em Rainha Verm elha do País das Maravilhas um a possibilidade, em prim eiro lugar.