Qualquer Outro Lugar
Capítulo 18
18
Crisálida
Com um afago m ais sinistro do que reconfortante, Morfeu desliza as m ãos dos m eus om bros para os pulsos, fazendo um a trilha de tinta sobre m inha pele.
Em seguida, sem dizer nada, ele tira um lenço do casaco e lim pa os borrões. Seu toque delicado deixa a pele do m eu braço arrepiada. Depois de lim par seu rosto e suas m ãos, ele guarda o lenço e pega o chapéu am arrotado do chão.
Com um m ovim ento das asas negras, ele dá as costas e cam inha a passos largos, dando tapas para desam assar a cartola verm elha e vinho no m esm o ritm o dos passos. Os m úsculos esguios se m ovim entam em linhas fluidas e poderosas debaixo do terno feito sob m edida, exagerados pela pulsação das luzes.
Ele é preciso e controlado, m as sua m ente está dando voltas. Por baixo de toda essa graça e contenção, um selvagem se prepara para atacar — um a pupa, aguardando em ergir na form a de um a m osca-escorpião para transform ar Jeb em pedra.
Eu avalio a sala m ais um a vez, pensando se ela com porta redes. As possibilidades são infinitas, m as não estou com pressa de aprisioná-lo novam ente. Não depois de ele ter passado todas essas sem anas preso e hum ilhado sem um a m agia própria.
— Com o você pôde usar um voto de m agia de m odo tão leviano? — Sua voz raivosa interrom pe m inha m aquinação silenciosa. A pergunta soa com o um a farpa venenosa, fazendo m eu esterno queim ar com o se houvesse cera quente pingando bem no m eio dele.
Estudo a tinta úm ida na palm a e nos dedos das m ãos e depois as viro, tocada pelas im pressões digitais coloridas que ele carim bou nas costas delas quando falam os sobre nosso filho.
— Não houve nada de leviano. Foi a única m aneira de garantir que você m e perm itisse com partilhar com Jeb sua vida m ortal... para dar esperança e fazê-lo sair deste m undo.
Morfeu se detém . Tenho sua total atenção.
— Então você m anipulou a nós dois com um só voto. — Seus longos cílios negros trem em , e a adm iração cintila por trás de seu olhar ferido, o m esm o olhar que recebi a vida inteira cada vez que lhe agradei. Em bora o tom carm im escuro e raivoso de suas j oias piscantes contradiga qualquer prazer verdadeiro. — A m ais am arga das ironias. Parece que eu a treinei bem dem ais...
Um zum bido fraco o interrom pe, fora de sincronização com o batim ento rítm ico dos corações da sala. Nós dois o vem os: um a m ínim a perturbação diante do m eu rosto, onde um ácaro de orelha paira em pleno ar.
Morfeu tenta pegá-lo com o chapéu, m as ele voa em zigue-zague entre nós, repetindo m inha voz em m im etism o perfeito: “Eu fiz um voto pela magia da minha vida de me casar com Jeb primeiro. Se eu me casar com você, perderei meus poderes”.
O inseto repete a m inha confissão m ais um a vez antes de eu tentar estapeá-lo. Ele dá um voo rasante e voa para a porta. Morfeu o ataca tarde dem ais. O ácaro de orelha rastej a sob o espaço debaixo da porta, escapando.
Colocando o chapéu na cabeça, Morfeu m e lança um olhar arrasador.
— Presum o que Jebediah estej a em algum lugar deste castelo. Ele nunca perm itiria que você viesse sozinha, agora que pertence novam ente a ele.
Busco o olhar de Morfeu sob a aba de seu chapéu.
— Suas intenções?
— Ele está prestes a correr grande perigo se aquele ácaro chegar à Verm elha antes de m im .
Não posso argum entar que Morfeu sej a o m enor dos dois m ales quando se trata do bem -estar de Jeb.
— Ele está usando um traj e de sim ulacro, procurando você na m asm orra.
A expressão de Morfeu fica grave.
— Não ouse deixar esta sala. Tudo de que não preciso é você correndo por aí e estragando as coisas m ais do que j á estragou.
Antes que eu possa responder, ele sai correndo pela porta, batendo-a. Discute com os guardas e em seguida os dissuade de prendê-lo sugerindo que eles “tranquem a m aldita porta para conter a prisioneira, considerando que ela é a m aior am eaça a Qualquer Outro Lugar”.
Em seguida, ele inventa um a desculpa dizendo que precisa encontrar a rainha.
Seus passos determ inados desaparecem no corredor enquanto eu o apresso m entalm ente. Ele tem de pegar o ácaro de orelha antes que ele se reporte à Verm elha e, m ais im portante ainda, encontrar Jeb antes que algo aconteça com ele.
Digo a m im m esm a que é por isso que ele saiu com tanta pressa... para proteger Jeb. Não porque tem ciúm e e quer elim iná-lo, tornando m eu voto nulo e vazio. Os dois com eçaram a se entender no m ês que passou. Eles nunca gostarão um do outro, m as pouparam -se inúm eras vezes e aprenderam a trabalhar j untos porque am bos m e am am .
Tenho de acreditar que Morfeu não está agindo por causa de seu desej o de que nosso futuro com ece hoj e. Que não está sendo m otivado por seus ideais rom ânticos: um a com plexidade de em oções e ações tão violentas e im previsíveis quanto a crueza do próprio País das Maravilhas. Vi sua com paixão e com o ele luta para fazer o que é certo.
— Confie nele — sussurro para ninguém além de m im m esm a. — Ele será seu rei um dia.
Ele m e disse para ficar alerta. Ele m al percebe que não tenho escolha. Estou fraca e tonta dem ais para sair de m inha prisão.
Volto ao cavalete e passo os dedos pela tinta ainda úm ida a fim de borrá-la e deixar a im agem irreconhecível. Já basta a Verm elha estar esperando que tenham os um filho. Quando ela tiver possuído m eu corpo e o vir por si m esm a, vai ficar m ais difícil ainda m e livrar dela.
Quando m eus dedos deslizam pela im agem de nosso m enino, borrando-a até ficar um a m ancha indecifrável, aquela pontada no coração irrom pe em outro nível de agonia. Um gosto acobreado form iga em m inha língua. Eu tusso, cobrindo a boca com a m ão. Quando a afasto, sangue fresco respinga sobre a tinta entre m eus dedos. Eu m e curvo, procurando respirar.
A sala é sacudida ao ritm o de m ilhares de pulsações. Raios cor de vinho e pretos se m isturam com a luz trêm ula. Meus braços e pernas doem . Absorvo as asas para dim inuir a carga, m as m inha coluna se curva e caio de j oelhos, com a escuridão invadindo m inha visão. Fecho os olhos, concentrando-m e na respiração. Encolhendo-m e, deixo o tapete felpudo acolher m inha face enquanto vou ficando inconsciente, e penetro na calidez nebulosa de um a visão...
Meu corpo está leve como o ar, livre da dor. Um caldo oleoso e preto pinga das paredes e rasteja pelo chão na minha direção. As poças se erguem em formas fantasmagóricas e esfumaçadas.
Mom irratos.
Eles me engolfam, cheirando meu cabelo, gemendo em meus ouvidos até meus ossos retinirem. Marcas oleosas carimbam minha pele no lugar onde eles seguram meus braços, dedos de sombra e ilusão a me morderem. Eles me arrastam para o alto da torre do castelo e me jogam de lá. Meu estômago vai parar na garganta.
Lá embaixo, a toca do coelho se abre — um túnel negro e espiralado. Eu caio rápido, passando por guarda-roupas abertos, pilhas de livros que flutuam, despensas e jarras de alimentos enlatados presas às laterais do túnel com galhos de hera retorcidos. Eu me agarro a uma parede, batendo na mobília e arrancando as gavinhas até a queda desacelerar.
Na escuridão lá no fundo, está acontecendo uma luta. A Irmã Dois briga, em pleno ar, com a minha mãe, que está suspensa por teias. Mamãe usa sua magia, animando livros e móveis para bombardear a cabeça e o tronco da Irmã Dois. As oito pernas da guardiã de túmulos e suas mãos de tesouras venenosas estão ocupadas se defendendo do ataque, e mamãe ganha tempo para se soltar. Ela se liberta da armadilha da aranha e começa a cair.
— Mamãe! — eu grito.
Ela olha para cima.
— Allie! — ela chama, e estende a mão para mim.
Os momirratos gemem lá em cima e fecham a toca do coelho, lançando-nos para fora do túnel e nos impelindo para o País das Maravilhas num desmoronamento de terra.
Cavando, consigo sair do jardim de flores. Um relâmpago chicoteia o céu, lançando tons fluorescentes sobre a paisagem. Um aroma pungente de queimado traz consigo um vento ruidoso e melancólico. Nuvens escuras de cor purpúrea encobrem o céu.
Mamãe está quase ao meu alcance, cercada por flores zumbis do tamanho de árvores. A Irmã Dois corre na direção dela com um exército de brinquedos mortos-vivos.
Eu escalo para ajudar mamãe, mas minha mão passa através dela. Sou somente um fantasma aqui, e percebo que estou revivendo sua chegada ao País das Maravilhas naquela noite fatídica.
Um cisne branco dá um voo rasante, transformando-se na Marfim. Pousando no chão, ela brilha das pontas das asas até os pés. Sua magia irradia os mais puros tons prateados. Ela gira como uma bailarina de cristal, e uma bruma branca flui de sua boca. Uma camada de gelo cobre as flores cruéis, reduzindo a velocidade de seus movimentos.
Um homem surge dos caules grossos como troncos. Eu o reconheço. É Finley, o mortal cujo corpo Morfeu usou quando esteve no reino humano. Finley está vestido como um cavaleiro élfico e comanda o exército da Marfim. Com um grito coletivo, os elfos atacam as flores, brandindo suas espadas contra os galhos congelados, cortando-os com um só golpe. As flores gritam e caem, contorcendo-se no chão. A Irmã Dois sibila e arrebanha os brinquedos mortos-vivos para dentro do coração do País das Maravilhas, batendo em retirada para o jardim das almas.
A Marfim se vira e oferece a mão a mamãe.
Mamãe a pega e olha para mim.
— Estou segura e estamos sobrevivendo. Mas o coração do País das Maravilhas está morrendo. A estagnação está próxima. Venha logo. Vamos aguentar o máximo que pudermos.
Tento compreender seu alerta, forçando minha mente a buscar a definição de estagnação, mas não consigo.
— Allie! — mamãe grita. — Acorde... acorde!
Um relâmpago corta o céu e penetra em meu peito, trazendo-me de volta ao corpo cansado e à realidade da dor inquebrantável.
Alguém m e recostou no que parece ser um a parede de azulej os frios. Estou tão fraca que não consigo nem sequer erguer as pálpebras. Inspiro e m e engasgo com o líquido que enche m eus pulm ões.
— Ela está morrendo — a Verm elha diz de algum lugar além de m eus olhos fechados.
— Com o deveria — a Copas responde. — Olhe só a bagunça que ela fez com as m inhas tintas! E provou um a torta. Maldita ratinha.
A j ulgar pela tirada da Copas, ainda estam os na sala de j ogos. O cheiro de seu perfum e m e sufoca, ainda m ais forte com os olhos fechados. É a fetidez da m orte — flores m urchas e carne podre.
— Me deixe sair para preservar seu recipiente — a Verm elha reclam a.
— Não fique brava com igo! — ralha a Copas. — Você tinha que saber que este seria o resultado quando a enfeitiçou.
— Não. Uma vez que o lado intraterreno tivesse despertado completamente para a loucura, ele deveria ter absorvido o lado humano, transformando-o. Eu nunca poderia ter previsto que a metade mortal do coração dela resistiria tanto. Que ela seria tão forte e aguentaria tanto tempo que colocasse em risco as duas.
Um soluço se aloj a em m inha garganta e um gosto m etálico am argo m e engasga. Quero pegar o pescoço da Verm elha, sufocá-la. Mas quem está se sufocando sou eu... em m eu próprio sangue.
— É o seu feitiço. Reverta-o, sim plesm ente — a rainha sugere, ignorando m inha batalha.
— Agora que o coração está se partindo ao meio, não conheço magia que consiga salvá-la. Não há nada que eu possa fazer além de juntá-lo quando estiver lá dentro.
Eu solto um gem ido.
— Depressa, sua boba — a Verm elha apressa a rainha, com desespero na voz. — Liberte meu espírito.
— Preciso de um a garantia — a Copas retruca. — Pela troca do m edalhão.
Quero m ais do que som ente um m ísero relógio de vida hum ano. Eu quero todos.
Um relógio de vida hum ano? De quem elas poderiam estar falando? Jeb? Meu pai? Será que capturaram o tio Bernie de novo?
Sej a de quem for, alguém que eu am o está em perigo.
Tento m e m exer, m as sou tom ada pela dor agonizante, um a estaca de m etal que se parte e escava m eu esterno. Para im pedir a m im m esm a de gritar, fico congelada no lugar. Meus cílios se selam com m ais força.
— Eu já disse que você vai ganhar mais. Minha barganha com Morfeu é entregar o medalhão assim que o casamento se oficializar. Eu não disse nada sobre deixar você aqui.
— Não acha que o seu rei terá algo a dizer quando souber que atravessarei o portão com você?
— Quando Morfeu perceber que sou a única coisa que mantém sua adorada Alyssa viva, ele fará tudo o que eu mandar.
Respiro fundo. O ar escalda e arranha m eus pulm ões, com o se nascessem espinhos em seu cam inho. A sensação confunde m eu raciocínio; m esm o assim , tento j untar as peças. Os planos da Verm elha para enganar Morfeu. Ele j á deve desconfiar disso. Ele é astuto. A sábia e críptica lagarta que em ergiu da crisálida na form a de um lindo ser m ágico alado.
Mas ele não sabe o que ela tem com o garantia. Não sabe que m eu coração está m orrendo nem que a Verm elha m e enfeitiçou.
Além do País das Maravilhas, sou sua única fraqueza. E ela está usando as duas coisas.
Com o ele pode dizer não a ela?
Eu sou a única que pode im pedir isso. Abro um pouquinho os olhos e gem o, tentando m e concentrar o bastante para liberar m inha m agia. Um a névoa negra encobre m inha visão periférica... tornando im possível focar-m e em algum a coisa.
A Rainha de Copas está agachada diante de m im , com m etade do cabelo carm im -vivo e a outra m etade cor de vinho.
— Isso é discutível — ela diz para a Verm elha. — Você ouviu o que o ácaro de orelha disse. A bobinha fez um voto para o m ortal. Não haverá casam ento entre ela e Morfeu.
— Tudo vai entrar nos eixos quando encontrarmos o menino. O voto só vale enquanto ele viver. Nós o matamos, você tem a primeira peça de sua coleção humana, e eu tenho meu casamento real.
— Não. — Tento falar m esm o com o sangue m e engasgando. Fiz novam ente. Coloquei em perigo a vida de Jeb m ais do que ela j á estava. — Não... vou... deixar.
Tento dar um tapa na cara da Verm elha, m as m inha m ão cai sobre o colo, inerte.
A m ão pegaj osa da rainha segura m eu queixo.
— Notável! Seu relógio de vida está se partindo ao m eio, pendurado por um fio. Mesm o assim , ela tem desej o de lutar. — Sua expressão fica m ais intensa. — Eu j á tenho o m edalhão. Tenho m eios próprios de entrar no País das Maravilhas. Não há m otivo para fazer nada que você m e peça, Verm elha. Vou deixá-la m orrer e colher este espécim e. Nunca vi nenhum igual.
— Haverá outro, um dia — a Verm elha insiste, frenética. — Morfeu e eu teremos filhos por meio dela. Reservarei para você o coração de um deles. Mas não o dela. O dela pertence a mim. Não importa que você entre no País das Maravilhas. Não terá acesso aos humanos sem os portais. Alyssa é a única que pode reabri-los. E meu plano para ela e Morfeu vai além de seus ideais mesquinhos. Darei seu primeiro rebento, o primeiro intraterreno capaz de sonhar, à Irmã Dois. Ela abomina ter que caçar crianças humanas. Há séculos ela reclama que é uma tarefa tediosa demais. Então, em troca de uma criança imortal que suprirá eternamente as almas de seu covil, ela e seus brinquedos insatisfeitos me auxiliarão a destituir a Marfim. Uma vez em posse da magia das duas coroas, meu controle sobre todo o País das Maravilhas será absoluto. E você e todos os habitantes de Qualquer Outro Lugar poderão atravessar nossas fronteiras e saquear os domínios humanos quanto quiserem.
Eu soluço, enfim , face a face com o horrendo plano da Verm elha, m as fisicam ente incapaz de intervir.
A Copas estala a língua.
— Você m e convenceu. Tem os um acordo. Mas a m enina está bloqueando a transferência de seu espírito deliberadam ente. — A rainha retira a m ão, com os dedos pingando m inha saliva sangrenta. — É a ela que você precisa convencer agora.
— Deixe-me entrar, Alyssa. — A súplica da Verm elha é assustadoram ente gentil. — Você vai sangrar até morrer. Que vantagem essa perda trará a alguém? Só colocará em perigo o rapaz humano e Morfeu. Sem falar de todo o País das Maravilhas.
Lágrim as rolam por m eu rosto.
Seu argum ento é sólido. Por m ais atem orizada que eu estej a por m eu futuro filho, ele nunca existirá se eu não salvar a todos hoj e. A única saída é perm itir que o espírito da Verm elha m e m antenha viva, e depois sequestrar sua m agia para consertar o País das Maravilhas. Agora conheço sua estratégia. Se eu conseguir ser m ais forte do que ela por tem po suficiente, derrotarei a Copas e m e livrarei da Verm elha de um a vez por todas. Não posso m e perm itir pensar no que acontecerá com m eu coração depois disso.
Desm orono para a frente, rendendo-m e.
Meus pulm ões encolhem e m inhas veias m urcham , privadas de oxigênio. Minhas pálpebras caem , incapazes de resistir à escuridão que m e aguarda.
— Depressa, bruxa. Liberte meu espírito antes que ela vire cinzas e nenhuma de nós obtenha o que deseja.
A Copas resm unga em resignação e sua m ão pegaj osa pressiona m inha testa. Um a luz forte explode atrás de m eus olhos.
Tentáculos quentes disparam de m eu crânio para a espinha, forçando m eu corpo a endireitar-se. A acordar.
Eu m e recordo desta sensação...
Meus olhos se abrem , trêm ulos. A m echa colorida de m eu cabelo se solta, dançando. Pouco a pouco, os gram pos saltam para o chão até todo o cabelo assum ir a m esm a cor da m echa encantada, livre e esvoaçante pelos om bros em ondas de vivo carm im .
A intrusão m igra para m eus braços e pernas, enchendo os m em bros de poder.
Minhas veias se ilum inam sob a pele. Cada um a delas cresce, expande-se e tom a a form a de um a planta viva que floresce e brota de m im feito um a serpente.
A Verm elha habita m eu corpo, e eu a recebo porque ela m e torna forte.
A agonia lancinante em m eu coração dá lugar a um a sensação de agulhas que o rem endam . Toda a dor desaparece e a batida é única e sólida. Encho os pulm ões, saboreando o ar.
Passo os braços em torno do peito, abraçando a m im m esm a, aceitando a vitalidade da Verm elha.
— Sim, minha criança. — A voz dela sai à força da m inha boca, num a golfada. — Juntas, Nós seremos invencíveis. — Ela fala no coletivo Nós, com o se Nós fôssem os um único ser. A possibilidade agrada à m inha loucura de form as que nunca im aginei.
Os tentáculos folhosos que brotam de m inha pele serpenteiam na direção da Rainha de Copas. Ela dá um passo para trás, cautelosa. A Verm elha usa a conexão entre suas trepadeiras e m inhas veias para m e m ovim entar, com o se eu fosse um a m arionete. Desta vez, não sinto dor, não sinto os ossos nem os m úsculos e veias sendo esm agados, pois não ofereço resistência. Movim ento-m e com graça, com o se estivesse flutuando. Olho para baixo e descubro que m eu corpo é propelido pelas gavinhas, um a planta rastej ante. Meus pés nem tocam o chão.
Por m ais errado que pareça, todo o m edo desaparece.
O que há de tão ruim , na verdade? O poder que corre em nós? O horror no rosto da Copas enquanto Nós a envolvem os em nossa hera m ortal? Seus olhos saltando com o os de um peixinho de aquário enquanto Nós apertam os seu pescoço?
Não. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. A brutalidade é entusiasm ante.
— Por favor — a Copas m urm ura, a voz um m ero assobio de ar com prim ido. — Nosso trato... o m edalhão.
Certo. Ainda não sabemos qual dos guardas escondeu o medalhão. Os m eus pensam entos e os da Verm elha se entrelaçam em um . Deixe-a viver. Ela ainda tem uma função.
Antes de Nós soltarm os a rainha, vários guardas entram na sala, com as caras reptilianas refletindo seu terror.
— V-v-vossas Maj estades — o que está no com ando gaguej a. — Manti capturou o rapaz hum ano.
Nós desenrolam os nossos tentáculos e largam os a Copas. Ela cai no chão, buscando desesperadam ente respirar. Seus guardas a colocam a um a distância segura de Nós.
— Diga a Morfeu que a transferência foi completada — dizem os com nossas vozes se m isturando. — Levem o rapaz para o pátio e deem início à cerimônia.