Qualquer Outro Lugar
Capítulo 10
10
O Paraíso do Pesadelo
— Jeb, vá m ais devagar, por favor.
Alguns m etros à m inha frente, ele ignora m eu pedido ao nos encam inharm os para o quarto de papai. Minhas pernas se arrastam com o se houvesse blocos de cim ento em volta de m inhas botas, e isso se deve apenas parcialm ente ao fato de eu estar cansada. E m ais, estou perturbada. Esse corredor sinuoso e inclinado parece m uito a casa de Jeb e a m inha, cada canto enfeitado com pinturas fam iliares e m osaicos de nossas próprias coleções. Saliências m órbidas saem das paredes, com o m ãos desencarnadas.
Prendo a respiração ao passar, esperando que nada m e agarre. Não consigo parar de m e lem brar dos ram os verm elhos estalando, dos dedos e olhos que saltavam da cópia m onstruosa de Jeb.
— Jeb, aquela criatura no corredor...
— Bom , para que fique claro, não é um a criatura. O nom e dele é CC.
— CC?
— Cópia Carbono. E ele não tem um a tatuagem no braço. No caso de você precisar nos distinguir. Sabe, caso as orelhas pontiagudas e os cortes debaixo dos olhos não sej am suficientes.
É tão raro Jeb ser irônico que nem sei com o responder.
— Aquelas coisas dentro dele. O que era aquilo?
— Ora, vam os. — Ele faz a curva e apresso-m e para alcançá-lo. — Você é um a artista. De que são feitas as suas obras?
A exaustão está a ponto de m e vencer. Luto contra o ím peto de tropeçar em algum a protuberância no chão, determ inada a m anter-m e j unto dele a qualquer preço.
— Pedaços e partes de nós?
Jeb olha-m e por cim a do om bro. Por um instante, sua expressão m uda, com o se estivesse satisfeito com a resposta. Então, a fachada isenta de em oções retorna e ele desvia o olhar.
— Pedaços e partes de tudo o que j á im aginam os ou experim entam os, bom ou ruim . Então, se fosse para um a pintura se tornar realidade... em vez de intestinos, órgãos, sangue... qual seria sua essência?
— Nossos sonhos e pesadelos.
— Acertou — ele responde.
Abaixo-m e e vej o m ais um a porta passar. É isso o que aguarda dentro dessas salas? Pesadelos?
Um m isto de ressentim ento e angústia com põe o passado de Jeb. E ele escolheu rem exer j usto naquela paleta para construir seu m undo ideal. Onde estão as lem branças felizes? As esperanças? O am or?
Após o que calculo serem dez m inutos, param os diante de um a porta feita de diam antes. Im ediatam ente, lem bro-m e da árvore das praias de areia negra do País das Maravilhas. As pedras reluzem m esm o com pouca luz.
Jeb detém -se com a m ão sobre a m açaneta de rubi.
— Eu não sabia que você estava lá fora hoj e. Nunca teria deixado você e seu pai sozinhos... indefesos.
Não sei se acredito nele. Quero acreditar, m as com o, depois que fui atacada por suas criaturas?
Não. Jeb m erece o benefício da dúvida. Esse é o prim eiro lam pej o real do garoto com quem cresci, e vou lutar por ele.
— Nada nos faria desistir de encontrar você. Sentim os sua falta. Am am os você. — Coloco a m ão sobre a dele na m açaneta. — Eu am o você.
Ele fica tenso. Meu tronco encosta nele e seu corpo se volta para m im involuntariam ente, as costelas expandindo-se a cada respiração.
— Você se lem bra do que disse da últim a vez que estivem os j untos? — eu sussurro, a boca perto de seu om bro, sofrendo com a proxim idade e o calor que ele irradia. Quero ficar na ponta dos pés e encostar os lábios na nuca dele, perto dos cabelos, quero senti-lo estrem ecer ao m eu toque, com o ele costum ava fazer. — Você disse que não desiste sem lutar. Foi um a prom essa. — Entrelaço m eus dedos nos dele, sobre a m açaneta.
Sua m ão se enrij ece.
— Nunca prom eti.
— Você disse. E sua palavra é o m esm o que um a prom essa. Eu m e recuso a acreditar que isso tenha m udado.
Ele relaxa, com o se eu o tivesse atingido. Vira a cabeça, e o m axilar roça m inhas têm poras. Sinto sua respiração no alto da m inha cabeça.
O diário da Barbie m e queim a o peito e novam ente se ilum ina por baixo da túnica.
— Você está errada, Al — Jeb m urm ura, com o se o brilho averm elhado tivesse lhe devolvido a razão. — Tudo m udou.
O tom am argo em sua voz acaba com igo.
— Abra — ele ordena à m açaneta. Com um lam pej o púrpura, ela gira. Jeb m e puxa para dentro e a porta se fecha atrás de nós. Desorientada, eu rodopio, tentando absorver tudo aquilo.
Não é um quarto com m eu pai dorm indo em um sofá ou cam a. Entram os na sim ulação de um a praia à noite. Um a brisa m orna e salgada passa por m eus cabelos. Ouço o barulho do m ar batendo na areia branca e o teto é um céu infinito. A luz do luar é refletida nas ondas e as estrelas brilham , lançando um a lum inosidade suave nas flores aos nossos pés.
— O oceano de lágrim as — sussurro, em bevecida com os pensam entos da prim eira noite que passam os no País das Maravilhas dentro de um barco a rem o. Apesar de estarm os em um lugar m ístico rodeado de m orte e loucura, foi o local onde m e senti m ais segura na vida, pois adorm eci nos braços de Jeb.
Agora, seguindo-o pela beira do m ar em silêncio, tudo o que m e lem bro é de com o ele foi suave, com o m e virou para que eu pudesse vê-lo no casco do barco enquanto eu dorm ia, com o acariciou m eus cabelos e prom eteu cuidar de m im .
Ele reconstruiu um dos m om entos m ais rom ânticos que tivem os. Talvez isso queira dizer que todo esse tem po ele esteve tentando m e perdoar.
A não ser que considere isso um a m á recordação.
— Jeb, por que estam os...
— Você vai à ilha para dorm ir — interrom pe. Um facho de luz branca passa por nós. A distância, um platô sobressai no oceano. Há um farol em funcionam ento no topo de um a rocha. Jeb se aj oelha, cava e retira um a corda escondida pela areia. Ele puxa com força, esticando o tecido trem eluzente de sua cam isa. Um barco a rem o aparece, vindo para m ais perto a cada puxada. — Cercada de água, você estará fora do alcance dos outros.
Outros. Sua explicação em código m e lem bra a am eaça da pichação: Você deveria estar aos pedaços como os outros.
— Que outros, Jeb? O que m ais você fez?
Ele hesita, o corpo tenso.
— Borboleta! — o grito de papai m e surpreende. Sua silhueta se define sob a luz fraca, sentada no casco do barco.
Jeb traz o barco para a areia.
Papai se inclina para a frente e aperta a m ão dele.
— Obrigado por trazê-la.
Jeb baixa a cabeça, em reconhecim ento, e dá um passo para trás, deixando espaço para eu subir.
Papai m e estende a m ão. Som ente quando m eus dedos tocam sua pele m orna e calej ada é que eu relaxo e entro na proa. Ele m e aj uda a sentar.
— Papai, pensei que você estava...
— Eu estou bem , querida — responde, abraçando-m e. — Conto tudo a você m ais tarde.
Viro-m e para Jeb.
— Você vai ficar conosco esta noite, não vai? Precisam os planej ar com o levar todos para casa. Por favor...
— Vou pegar o cavalo-m arinho e sair à procura de sua sacola de viagem — diz, evitando m eu olhar. — Há roupas no farol para esta noite. Providenciarei para que tenham o que vestir am anhã. Então discutirem os com o levá-los ao portão do País das Maravilhas.
— Levar-nos lá? — Olho-o, incrédula. — Não deixarem os Qualquer Outro Lugar sem você!
Ele conduz o barco de volta à água. A areia raspa o fundo da em barcação quando esta se m ove.
— Vocês encontrarão com ida nos arm ários. Há um a flor am arela nativa deste m undo. Morfeu viu um anim al com endo-a certa vez. Deve conter todos os nutrientes de que precisam os, j á que tem os vivido à base dela e de um ou outro coelho, ocasionalm ente. Há água de chuva para beber. Não precisarão de m uito para ficarem satisfeitos. — Dizendo isso, faz um sinal para papai partir.
— Jebediah, você sabe que é bem -vindo. — Papai faz um a pausa, para ver se Jeb m uda de ideia. Quando percebe que não, pega os rem os.
Jeb fica observando enquanto os rem os afundam nas águas resplandecentes e form am m arolas j unto do casco. Um facho de luz do farol cintila sobre seus olhos verdes e a tatuagem fluorescente. No instante seguinte ele j á se foi, voltando por onde veio, em direção à porta.
Papai para de rem ar e toca m inha m ão.
— Allie.
A solidão m e corrói, pensando em tudo o que Jeb j á significou em m inha vida.
— Ele não pode ficar aqui. Ele precisa voltar para casa, papai.
— Está tarde e estam os cansados. Tenho certeza de que am anhã ele verá as coisas de outro m odo. Se lhe derm os tem po, ele tom ará a decisão correta. Precisam os acreditar nele.
— Ele m e odeia.
Papai suspira.
— Não, querida. Se isso fosse verdade, então por que ele ainda está protegendo você? Ele está nos m andando para a ilha porque se preocupa com a sua segurança.
— E com o é que ficar nessa ilha chata pode nos proteger?
Papai recom eça a rem ar.
— Não tenho certeza. Achei que ele tinha explicado isso a você.
Agarro as bordas do barco.
— Ele não m e confia m ais nada. Está m ais próxim o de Morfeu do que de m im . — Meus ossos pesam e as em oções estão em frangalhos. Inclino a cabeça para trás, fechando os olhos e deixando que o ruído das águas desfaça os nós em m eus nervos.
— Bem , faz sentido que eles estej am m ais próxim os — papai diz. — Considerando que Jeb se fundiu à m agia de Morfeu quando atravessaram o portão.
Arregalo os olhos e sento-m e, espantada.
É por isso. O com entário cruel de Jeb para Morfeu sobre aluno e professor, a estranha cor púrpura da m agia... com o superaram a raiva que sentiam um pelo outro e aprenderam a conviver. Mais do que conviver. Unir-se. Dois hom ens que no passado eram inim igos e aprenderam a confiar um no outro para sobreviver.
— Allie, você está bem ?
— Eu só queria... que ele próprio tivesse m e contado.
— Ele tam bém foi m eio fechado com igo — papai diz — quando m e encontrou naquele quarto vazio em que a criatura m e deixou. Mas conversam os sobre m eu passado e sobre o dilem a de sua m ãe. Eu pedi desculpas por tê-lo j ulgado m al na noite da form atura. Ele m e perdoou. E fará o m esm o com você. Você só tem que ser sincera com ele. No fundo, ele sabe que você não pretendia m andá-lo para cá.
É m uito pior do que isso. Você nem imagina. Se pelo m enos eu tivesse energia para contar tudo a papai, m as estou cansada dem ais para tentar. A luz perpassa nosso barco e ficam os novam ente na escuridão. Não m e renderei ao sentim ento de autopiedade que m e atorm enta. Vou reconquistar a confiança de Jeb. Até lá, fico satisfeita em saber que ele ainda confia em papai.
— O lado bom disso — papai continua — é que parece que Jeb é quem tem m ais poder aqui, j á que é hum ano e o ferro não o afeta. Ele o concede a Morfeu por m eio de suas criações. É por isso que Morfeu pode fazer m agia sem sofrer m utações.
Com prim o os lábios.
— Espere. A bengala do grifo é que era m ágica, e não Morfeu? Era isso que precisava de recarga?
Papai confirm a com um sinal de cabeça.
Então, sem a m agia de Morfeu, Jeb estaria indefeso, e, sem Jeb, Morfeu seria m agicam ente im potente — um destino pior do que a m orte, na cabeça dele. Pensando bem , ele não vai gostar nada quando souber que derretem os sua bengala.
Debruço-m e sobre a borda e deixo a m ão sentir a água que passa.
— O bastão se transform ou num a poça de tinta. Jeb o criou e a água o dissolveu. — Franzo a sobrancelha. — É a água que nos protegerá hoj e à noite. Não a ilha. Mas com o o rem o ainda está intacto? E o cavalo-m arinho? Tam bém são criações dele. Por que não se derreteram ? — Enxugo as m ãos na calça.
— Jeb não pintou o cavalo-m arinho. — Papai conduz os rem os pelas ondas que respingam . — Ele é parte da fauna daqui. Jeb e Morfeu o dom aram . E, quanto ao barco, talvez tenha algo a ver com a resposta que ele deu quando perguntei sobre aquela... aquela coisa. A im agem dele. Por que estava defeituosa.
— Sim ?
— Ele disse algum a coisa sobre os lim ites da realidade de um a pintura. Que tudo o que se origina da m esm a tela pode conviver. A m aior parte das pinturas dele fica restrita a um cenário que ele cria. Mas as poucas que não ficam (as pinturas sobre telas negras), quando, sem querer, entram no território de outra pintura, coisas im previsíveis podem acontecer.
Com eço a j untar as peças. Isso explica por que Nikki pode voar para fora do m undo do espelho e por que o sósia elfo — CC — podia peram bular pelos corredores.
— Então, se algo estiver pintado em um a cena com água, não se desm anchará. Mas se não estiver...
— Isso. Acho que, no caso da im agem de Jeb, ela se m isturou com pinturas de outro território e seu rosto se partiu em pedaços.
As palavras de papai reativam as palavras da fada da pichação para m im : você deveria estar em pedaços. Morfeu disse que todas as criações conhecem a m inha im agem e Jeb m encionou algo sobre m eu rosto aparecer na arte dele. Isso quer dizer que ele deve ter m e pintado.
Talvez a fada do desenho possa ter pensado que eu era um a pintura errante que não pertencia àquela cena. E pretendia m e despedaçar por estar lá. Ou talvez sej a com o Morfeu disse, e ela estivesse buscando vingança para seu m estre.
Um trem or de inquietação percorre m inha espinha.
— Allie — a voz de papai m uda de tom . — Há m ais um a coisa que você deve saber: Jeb não perguntou sobre a m ãe dele ou a irm ã. Na verdade, fala nelas com o se estivessem aqui. Com o se estivesse com elas.
As lágrim as que estive contendo finalm ente explodem em grandes pingos escorrendo pelo m eu rosto.
— É culpa m inha — m urm uro, enxugando as bochechas com as costas da m ão. — Eu o feri tanto que ele prefere ficar aqui e criar um a falsa realidade a encarar um m undo repleto de m em órias ruins.
— Por que você fica dizendo isso? O que você está escondendo? — Papai para de rem ar. Estam os a apenas alguns m etros da ilha agora. Eu só quero que ele continue. Não quero conversar sobre isso. Já m e sinto m al m esm o sem seu j ulgam ento.
— Algo aconteceu na noite da form atura — adm ito, relutante. — Antes do baile.
— Deixe-m e adivinhar. Tem a ver com Morfeu.
Respondo, gem endo:
— Foi só um beij o! Por que Jeb ficou tão m agoado com um beij o idiota?
— Espere um pouco. — Papai volta ao banco, fazendo o barco balançar. — Você beij ou aquele arrogante...? Não sei nem o que pensar disso.
— Eu tam bém não. — Ele ficaria ainda m ais zangado se soubesse do resto. Que não foi a prim eira vez. Que o Jeb tam bém sabe do outro beij o que dei em Morfeu no País das Maravilhas. Que eu disse a Jeb que não tinha significado nada (m entira), depois fui e fiz de novo... m esm o não querendo que isso tivesse acontecido. Morfeu distorceu a história a seu favor, com o sem pre faz.
— Morfeu é um erro, Aly ssa — papai continua, com o se estivesse lendo m eus pensam entos. — Ele é m anipulador. Não tem escrúpulos. E não é hum ano.
— Nem m am ãe. Nem eu. Ou Jeb, por falar nisso. Não m ais. Isso faz com que você nos am e m enos?
A luz do farol passa por nós e sinto arder o rosto ante o exam e atento de papai.
— Claro que não. Mas amor? É isso que você sente por Morfeu?
Engulo em seco.
— Não tenho certeza. Está m uito m isturado à lealdade que tenho pelo País das Maravilhas. Mas há algo real entre nós. Algo poderoso. — Afundo-m e no banco. — É com plicado.
Papai retom a os rem os.
— Bom , eu sei o que você sente pelo Jeb. E é sim ples e puro. Vocês são am igos desde o dia em que se conheceram . E isso virou algo m ais. Isso é um a coisa tangível, Borboleta. E tão rara. O melhor tipo de am or. Ele planej ava pedir você em casam ento. Sabia disso? Ele m e pediu a sua m ão.
Fico atordoada. É a cara do Jeb fazer algo assim , tão fora de m oda e bonito. Pelo m enos, o Jeb que eu conhecia.
— Ele pediu a m inha m ão — consigo falar afinal. — Mas não cheguei a responder.
— E qual seria a sua resposta?
— Sim — digo, sem hesitar. — Mas isso foi antes...
Papai olha para as estrelas.
— Já sei. Antes que ele e sua m ãe fossem capturados.
Penso em corrigi-lo, m as isso levaria a um interrogatório que não desej o enfrentar esta noite.
— Você é a única pessoa que conseguiria convencer esse rapaz e aj udá-lo a encontrar o cam inho de volta para casa — papai pressiona. — Mas para fazer isso você terá de deixar para trás o País das Maravilhas.
— Não! — Apoio os cotovelos nos j oelhos e seguro a cabeça para evitar que exploda. — Sou um a rainha. Tenho responsabilidades lá que você nem sequer im agina. Não é correto renegar esse lado m eu. Virar as costas para um m undo que depende de m im . Já tentei fazer isso... — Gesticulo, m ostrando o entorno. — É, e você está vendo o que aconteceu. Nunca m ais vou fugir das m inhas responsabilidades. Tenho um com prom isso com os intraterrenos. Eu m e im porto com eles. Se Jeb e eu tiverm os qualquer tipo de futuro j untos, ele terá de fazer as pazes com o fato de que o País das Maravilhas terá peso em qualquer decisão que eu tom e, para o resto da m inha vida. — Penso no diário pendurado em m eu pescoço. — Em qualquer decisão que eu tom e aqui.
Papai rem a m ais forte e a água respinga em nós.
— Em prim eiro lugar, você é hum ana. Você tem com prom issos lá tam bém . Pessoas que dependem de você e que a am am . Não se deixe envolver tanto pelo poder e pela política a ponto de se esquecer disso. Ou estará fazendo exatam ente o que Jeb está. Fugindo de sua hum anidade.
A m arca da Verm elha — aquela sensação de m eu peito partindo-se em dois — m e atinge com o um soco. Apoio as m ãos nas pernas para não cair.
— Não é isso que estou fazendo — digo entre os dentes. — Estou tentando achar um equilíbrio.
— E com o isso é possível? — papai pergunta. — A loucura é a antítese do equilíbrio. Já presenciei você tom ada pelo outro lado. E, honestam ente, isso m e assusta. Você está se deixando levar para a escuridão, para um m undo sem leis. Deixando-se levar para...
Morfeu.
Papai não fala em voz alta, m as ouço seu nom e ecoar no silêncio.
— Ele se infiltrou em sua vida — papai prossegue.
— Alguns diriam que as escolhas da m am ãe tiveram um papel nisso tudo — respondo.
O barco atraca na areia, dando um solavanco. Meu pai irradia raiva, o que alim enta o senso de j ustiça queim ando dentro de m im .
— Não quis dizer isso — em endo, tentando aplacá-lo. — O que quero dizer é que Morfeu não tinha intenção de usar ninguém . Não no início. Ele e m am ãe tinham um acordo m utuam ente benéfico, até que ela desistiu.
Papai atira os rem os no barco, fazendo barulho.
— Jam ais acuse sua m ãe de tom ar um a decisão im pensada. Ela tom ou a decisão certa até quando era difícil. Deixou para trás um m undo que lhe prom etia poder e im ortalidade, sim plesm ente porque não tinha estôm ago para raptar criancinhas hum anas a fim de roubar os sonhos delas.
— Sim plesm ente porque não tolerava a ideia de deixar você com o um dos raptados. — Arrependo-m e no instante em que falo. Sei que foi m uito m ais do que isso.
Papai balança a cabeça.
— Vou fazer questão de esquecer esta conversa, Allie. Você está cansada e obviam ente não está pensando antes de falar. — Ele salta para fora do barco, andando na parte rasa para puxá-lo.
Ele está enganado. Estou pensando antes de falar, tanto é que não contei a ele a verdade m ais inacreditável de todas: a de que, na verdade, posso pôr um fim às infâncias roubadas. A de que, ao ter um futuro e um filho com Morfeu, eu poderia consertar todas as coisas entre nossos m undos.
Não poderia contar-lhe nem que eu quisesse. Não posso arriscar perder m eus poderes por quebrar o voto de silêncio vitalício da m agia. Para m e defender da Verm elha, encontrar m am ãe e recom por o País das Maravilhas, preciso de m inha m agia intacta.
Papai am arra um a corda em volta de um toco para segurar o barco na areia. Eu salto antes que ele possa m e oferecer aj uda.
Odeio quando há atrito entre nós. Odeio sentir-m e distante de Jeb enquanto ele assom bra os côm odos deste refúgio na m ontanha, enfrentando seus pesadelos e desgostos sozinho. Odeio ter sentim entos confusos quando se trata de Morfeu: sentir pena dele agora que está sem poderes, ficar zangada por ele m anter um j uram ento que é pesado dem ais para m im — e, ao m esm o tem po, ser infinitam ente fascinada por ele.
E, m ais do que tudo, odeio o fato de m am ãe e m eus súditos intraterrenos estarem presos em um País das Maravilhas que se deteriora, sem saber se algum dia conseguirei salvá-los.
Algo nesse pensam ento m e aquieta... um a esperança serena. Eu vi com o a m agia de m am ãe é forte na noite da form atura. Com preendi quanto ela conhece sobre o funcionam ento interno do País das Maravilhas. Ela j á foi quase um a rainha. Pode sobreviver naquele m undo.
Guardo os pensam entos para m im , pois são apenas palpites e não tenho provas. Mesm o assim , m e confortam .
Guiados pela lum inosidade das estrelas, papai e eu subim os por um a escadaria de pedra íngrem e e sinuosa até o farol. Lá dentro, lustres espiralados flutuam próxim o ao teto e acom panham nossos m ovim entos, irradiando um a luz suave de cor âm bar. As paredes são de pedra, o chão form a quadrados de areia pretos e brancos — réplicas m inúsculas das dunas em que eu e Jeb surfam os no País das Maravilhas há um ano. Tiro as botas e afundo os pés exauridos na areia fresca. No alto da torre, há um quarto arredondado com um a cam a de dossel e um a portinhola que dá vista para o oceano, deixando entrar o luar, o ruído das ondas e a m aresia.
Papai insiste para que eu durm a lá e opta pelo sofá no andar de baixo. Vam os à cozinha e com em os flores secas. São estriadas, com o carne-seca, m as de um a coloração dourada intensa. O gosto é doce e lem bra cera de abelha, com o os favos de m el do reino hum ano. Term inam os com água de chuva em canecas feitas de casca de lagosta. Papai e eu estam os esgotados e não conversam os.
Entro no banheiro para tom ar um banho e lavar m inha segunda pele para poder estendê-la a fim de secar durante a noite. Encontro tudo de que alguém poderia precisar: um vaso sanitário, lâm ina de barbear, escova de dentes e sabonete de arom a cítrico. De certa m aneira, Jeb ainda vive de form a hum ana, não im porta quanto negue.
Dirij o-m e à escada e vej o papai esticando um a colcha sobre o sofá. Apesar do clim a esquisito entre nós, nos abraçam os antes de ir dorm ir.
Na torre, abro um arm ário encostado à parede e encontro um a cam isa de flanela xadrez. Retiro a roupa que tio Bernie m e deu e penso nos guardas no portão do País das Maravilhas, torcendo para que estej am bem depois de tanto tem po por lá sem suprim entos. Tam bém fico preocupada com a m ensagem que deveríam os ter m andado pelo pom bo de m etal. Mesm o que o cavalo-m arinho de Jeb encontre nossa sacola de viagem , é pouco provável que o pássaro m ecânico estej a intacto depois de ter sido subm erso. Nem sei se o sinal que ele em itiria funcionará para que o tio Bernie possa nos encontrar.
Aconchego-m e na cam isa de flanela, enrolando os punhos para aj ustá-los ao m eu tam anho. Ela bate em m inhas coxas. Um a calça de m oletom com cordão para am arrar na cintura está cuidadosam ente dobrada dentro do arm ário. Separo-a para vestir pela m anhã.
Quando estou pronta para m e deitar na cam a, um a luzinha verde trem eluzente pousa na portinhola aberta.
Nikki faz um a delicada reverência.
— Da parte do m estre Morfeu. — A vozinha aguda da m inúscula fada confunde-se com a brisa. Ela m e entrega um a caixa branca em brulhada com fita verm elha brilhante. Tem três vezes o tam anho dela. É m ais forte do que parece para ter carregado a caixa pelo cam inho.
Assim que pego a caixa, ela rodopia no ar e desaparece no céu noturno, sem m ais palavras. Ao contrário de Gossam er, ela não é de falar m uito.
Dentro da caixa há duas peças inusitadas de lingerie: um sutiã e um a calcinha short feitos de algodão branco recoberto de renda dourada. A renda m etálica m e parece vagam ente fam iliar.
Ruborizo-m e ao im aginar as m ãos elegantes de Morfeu dobrando as peças e colocando-as na caixa. Há um bilhete em papel preto, sem dúvida escrito com a m esm a pena que ele retirou da águia m ais cedo.
A tinta parece feita de prata e cintila à luz das estrelas.
Queridíssima Alyssa,
Envio minhas desculpas por não recebê-la apropriadamente hoje. Gostaria
de erguê-la acima de mim e rodopiá-la em círculos até estarmos ambos
tontos e gargalhando. Gostaria de beijar seus lábios e sentir seu hálito. E
gostaria de vesti-la em trajes condizentes com uma rainha. Esta noite,
contento-me com as humildes peças que darão início ao seu guarda-roupa
real. Imagino que o que você está vestindo por baixo das roupas seja tão
indigno de você quanto as próprias roupas. Mas saiba que lhe darei armários
repletos de renda, cetim e veludo um dia, quando você reinar no País das
Maravilhas. Basta você pedir.
Seu fiel lacaio,
Morfeu
Os sentim entos dele m e envolvem , sensuais com o a seda. Coloco as peças de renda sobre o parapeito da vigia e exam ino o desenho dourado, tentando lem brar onde j á o vi antes. Subitam ente, lem bro: a roupa da form atura de Morfeu era um a cam isa de algodão e um casaco recoberto de renda dourada com fechos de colchete iguais aos do sutiã. Minha lingerie foi confeccionada com pedaços das roupas dele. Foram costurados à m ão, o que deve ter lhe custado um bom tem po, pois ele não tem tais poderes. Isso significa que ele j á os tinha aprontado para m im e estavam à m inha espera.
Bilhetes de am or e presentes confeccionados à m ão. Desprovido de m agia, ele está m e deixando m ais confusa do que nunca. Sinto novam ente aquela sensação de um m urro no coração. Está ficando cada vez m ais forte e frequente — com o se houvesse um a costura no m eio dele esticando-se além do lim ite.
Massageio o centro do peito para aliviar o incôm odo. Então, tiro a cam isa de Jeb e visto a lingerie por baixo.
Ruborizo-m e ainda m ais ao perceber que as peças m e caem com perfeição... que Morfeu conhece m eu corpo sem j am ais tê-lo sentido com um toque; e, ainda m ais, sabe que venho desej ando peças bonitas desde que deixei o sanatório. Ele me conhece.
Abotoando a cam isa de Jeb, subo na cam a e abaixo as cortinas do dossel, agradecida por serem pesadas o suficiente para barrar a luz do farol. Na escuridão, debaixo das cobertas, abraço-m e bem forte, envolvida pelo perfum e de Jeb e pela lingerie feita à m ão de Morfeu.
Sonho que sou um a boneca de papel, um a criação de tinta e im aginação trazida à vida pelas m ãos de Jeb. Rasgo-m e em duas, finalm ente aliviando a sensação que trago no coração. Um a parte m inha brinca de pula-sela por cim a de cogum elos, envolve-se nas asas negras de Morfeu e dança com ele no céu ao lado da lua... a outra parte anda de skate no Subm undo, passeia de m otocicleta com Jeb e rouba-lhe beij os à luz das estrelas debaixo de um salgueiro. E, apesar dos paralelos e contrastes — ou talvez graças a eles —, sinto-m e em paz com o há m uito não m e sentia. Tanto Jeb quanto Morfeu estão felizes, e o País das Maravilhas e o reino hum ano prosperam .
Acordo de repente, desej ando ser realm ente a boneca de papel, dividir-m e bem ao m eio e proporcionar a cada parte seu final feliz, com o em m eu lindo sonho.