StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 8 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo oito

 

— Matthew!

A voz ronronava calorosa e suave, marcada pelo sotaque — a voz de uma criatura sexual. A mulher que falava tinha cabelos cor de algodão-doce, mas o resto dela não era nem um pouco macio ou maleável. Um dos olhos faiscava por baixo de uma mecha do cabelo extravagante, enquanto o outro, cibernético, emitia um brilho vermelho, rodeado de minúsculas cicatrizes. O equipamento de proteção cobria a maior parte de seu corpo, deixando entrever apenas algumas curvas. Mira Han era um poço de contradições.

“Matthew” sorriu sem vontade para a imagem na tela.

— Olá, Mira. Obrigado por aceitar nos ajudar.

— Estou mais que satisfeita em poder ajudar meu querido, amado marido — disse ela, divertindo-se com o óbvio desconforto de Horner. Então, assumindo um tom de seriedade, completou: — Pelo menos por enquanto.

Matt franziu a testa:

— “Por enquanto”?

— Mas é claro. Não posso pôr minha gente em risco por tempo demais, não é? Você faria o mesmo.

Matt supôs que sim e, suspirando, disse:

— Certo. Quanto tempo é “por enquanto” na escala Mira Han?

— Até quando eu disser. Nem morta vou lutar com a Supremacia por você, Matthew. Se eles aparecerem, você, James e seu novo amigo estarão por conta própria. Mas — a mulher encolheu os ombros —, é claro que conheço muitos esconderijos por aqui; se quiser esconder algo, ninguém vai encontrar.

Raynor estava tão perdido em pensamentos que só voltou a si ao sentir a mão de Sarah apertar a sua, quase sem forças. Ele olhou para ela rapidamente e viu suas pálpebras se abrindo.

— Oi, oi — disse.

— Olá — murmurou ela, dando um sorriso discreto. — Esse médico não consegue fazer o laboratório parar de girar ou sou eu?

— Nenhum dos dois. Nós fomos atacados, querida.

— Por quem? Zergs? Protoss? A Supremacia? O Bob, do fim do corredor?

Jim tentou sem sucesso não se sentir feliz com aquelas tentativas fracas e forçadas de fazer piada. Pelo menos isso era um sinal de que ainda restava algo da personalidade de Sarah. A felicidade diminuiu quando ele compreendeu que teria que contar e ela tudo o que acontecera.

— Supremacia — respondeu.

O sorriso suave nos lábios dela sumiu, dando lugar à tensão.

— Arcturus. — O nome irrompeu como um estilhaço de gelo.

— Sim. Ele não sabe perder.

— Ele não perdeu, Jim. Nunca vai perder. Vai viver mais que todos nós, e dançar em cima dos nossos túmulos.

Kerrigan virou o rosto e tentou soltar a mão que Jim segurava, mas ele não permitiu.

— Ei, ei, ei, calma aí. Você ainda não ouviu tudo.

— Nem quero — retrucou ela.

— Acho que quer, sim — respondeu Jim. — Acabamos de dar uma surra nele que vai ser difícil esquecer. Ele deve estar na ponte daquela nova nau capitânia, emburrado e lambendo as feridas.

— Seu aliado… Foi ele quem… — Sarah ergueu a outra mão e apontou para o próprio corpo.

— Sim. O filho de Mengsk. Ainda não confio nele, mas até agora cumpriu tudo o que prometeu. Além disso, o próprio pai tentou matá-lo. Isso só pode ser um bom sinal.

O rosto de Kerrigan se contorceu enquanto ela tentava processar o que Jim dizia em meio à névoa causada pelas drogas.

— Mengsk tentou matar o filho?

— Exatamente. E chegou perto de matar todos nós. Valerian perdeu vinte e cinco cruzadores de batalha por causa da decisão de trazer você de volta pra mim.

Sarah esmoreceu e fechou os olhos. Jim praguejou em pensamento. Obviamente ele falara demais.

— Ele não me trouxe para você, Jim — disse Sarah, sua voz sem tom algum. — Ele me trouxe para me usar.

Pelo canto dos olhos, Raynor viu algo se mover. O médico gesticulava e sacudia a cabeça, acenando para que ele mudasse a direção da conversa. Jim fez uma careta e sacudiu a cabeça negativamente. Ele nunca mentira para Sarah, e não começaria agora. A conversa que tivera com Valerian sobre o mesmo assunto passou por sua mente.

“Eu quero mais”, disse Valerian. “Para provar que serei um imperador melhor, um homem melhor.”

“Isso não vai ser difícil”, foi a resposta que Jim lembrou-se de ter dado.

“Se conseguir recuperar a maior assassina em massa da história, torná-la humana de novo, com o famoso fora da lei Jim Raynor ao meu lado — isso é toda a prova de que preciso.”

“Então eu sou só uma engrenagem da sua máquina?”

“Se chegar aonde quer, isso faz diferença?”

“Acho que não.”

— Sabe, eu também pensei isso — disse Raynor. — E talvez ainda seja verdade. Sem dúvida ajudar você, e a mim também, vai ser como mais uma medalha no uniforme do “Júnior”, mas isso não importa. Você está aqui, Sarah, e ele pode ajudar você. Vamos descobrir…

— Que ainda sou um monstro? — Sarah puxou a mão bruscamente e agarrou uma das gavinhas serpeantes que agora eram os seus cabelos. — Isso parece humano para você? Escapei da morte que Arcturus planejou só para me tornar rainha dos zergs. Infestada. Reconstruída célula por célula. E aí você me traz de volta para me entregar pro filho dele? Por que não me matou quando teve a chance, Jim? Por quê? Você prometeu…

Muito tempo atrás Jim prometera que, se fosse preciso, a mataria; que faria qualquer coisa para impedi-la de continuar com a matança à frente do Enxame.

Kerrigan subitamente jogou a cabeça para trás e gritou. Não um grito de dor, ou de pavor; um grito de fúria, aflição e desespero. Seu corpo arqueou, tentando livrar-se das amarras que a prendiam na cama, tentando se atirar em Jim. Ele segurou os braços dela tempo suficiente para que o médico injetasse alguma coisa em suas veias. Três segundos depois ela desfaleceu, e Raynor a segurou. Gentilmente ele a deitou na cama, e só então percebeu que lágrimas escorriam dos olhos agora cerrados e tranquilos.

— Eu tentei avisar — resmungou Frederick. — É melhor você sair.

Jim assentiu, mas antes de sair, tocou a mão de Sarah uma última vez.

— E talvez seja melhor não voltar — disse o médico ainda de costas, quando Raynor passava pela porta. — Sei que gosta dela, mas sua presença a deixa nervosa.

Jim sentiu o sangue o ferver e virou-se lentamente:

— Quero ver você tentar me impedir de entrar.

— Podemos considerar ordem médica. A saúde da paciente é o principal.

Com três passadas longas, Jim Raynor diminuiu consideravelmente a distância entre os dois:

— Você não sabe nada sobre Sarah Kerrigan — vociferou. — Eu movi mundos e fundos pra ter ela aqui, e tenho certeza de que minha presença ajuda. Você mesmo disse.

— Eu achava que sim, até ela…

— Não sou eu quem deixa ela nervosa — interrompeu Raynor. —, são as coisas que tenho que contar sobre o mundo pra onde ela vai voltar logo, logo. Foi seu chefe quem quis trazê-la de volta. Muito bem, ela voltou, e só tem uma boia de salvação. — Jim Raynor bateu com força no peito — Eu! E eu não vou deixar ela sozinha. Ela já foi traída uma vez, e já foi o bastante. Só sobre meu cadáver ela vai passar por isso de novo.

Frederick observou em silêncio o fora da lei deixar a enfermaria.

Valerian não conseguiu esconder a surpresa na voz.

— Vamos fazer o quê?

— Vamos nos esconder em um ferro-velho — disse a imagem de Matt Horner na tela.

— Isso eu ouvi, mas não pode estar certo.

Matt deixou escapar um sorrisinho:

— Você nunca esteve no Porto do Enforcado, não é?

— Claro que não! — respondeu Valerian. — Perambular num planeta cheio de assassinos, brutamontes e ladrões aparentemente não fez parte da minha educação.

— Vamos recuperar esse prejuízo.

— Que adorável.

— Enfim, se nunca esteve lá, você não sabe o que eu quero dizer com “ferro-velho”. Há cidades inteiras lá construídas em meio ao ferro-velho. O Porto do Enforcado é basicamente isso. Pode confiar em mim: daria pra esconder a frota inteira da Supremacia lá se os responsáveis da área concordassem em fazer vista grossa. Dois cruzadores de batalha não vão ser problema.

Ao pisar fora da Hipérion, Raynor sumiu na névoa cinzenta que cobria a área, irritando os olhos e fazendo-os lacrimejar; era esse o “clima“ do Porto do Enforcado. Ao observar o entorno, Jim lembrou-se de quando estivera ali anos atrás junto com Tychus Findlay. O lugar era praticamente o mesmo: uma imensa lata de lixo transformada em cidade. Naves abandonadas tinham sido transformadas em abrigos, esconderijos e casas; as ruas, se é que se podiam chamar assim, não passavam de trilhas abertas entre os escombros. Mas pessoas viviam e morriam ali. Talvez até amassem e sonhassem.

Com um assassino atrás deles, Jim e Tychus foram forçados a pedir ajuda a um tal Scutter O’Banon, o homem que administrava o local. O’Banon não era flor que se cheirasse nem na opinião de Raynor, ele mesmo um fora da lei. Na época, Jim lembrou-se, a Rocha do Enforcado (como o planeta era conhecido então) era o lugar mais feio e desagradável que ele já tinha visto, e o tal O’Banon a pessoa mais terrível que ele já tivera o azar de encontrar.

No fim O’Banon arranjara asilo e trabalho para os dois. Jim tentou não pensar em si mesmo cruzando as “ruas” ao lado de Tychus, que exclamava satisfeito: não dá nem pra tacar uma pedra na rua sem acertar uma prostituta! E lembrou-se também de que na época ele achava que sabia o que era cansaço e desilusão com o mundo, que as coisas não poderiam ficar piores.

Mal sabia Jim Raynor que aquilo era só a ponta do iceberg.

Sinto sua falta, Tychus. Não do traidor que você se tornou… Mas do homem que você costumava ser. Diabo… Sinto falta do meu amigo.

Mas Tychus já era. O’Banon também, substituído por um Ethan Stewart, que por sua vez fora substituído por alguém que Raynor não conhecia. Provavelmente, quem quer que fosse o novo chefe daquela joça, Mira tinha influência sobre ele, ou não teria oferecido abrigo. Restava torcer para que a nova chefia tivesse um excelente sistema de segurança. De maneira geral os chefes do Porto do Enforcado não tinham uma expectativa de vida muito longa, e a última coisa de que Jim precisava agora era de uma briga pelo poder.

— Eu... creio que agora entendo o que o Sr. Horner quis dizer — disse Valerian com a voz pingando desgosto ao desembarcar da Bucéfalo.

— Isso aí — respondeu Jim, ainda fitando o vazio, perdido em lembranças. O cheiro de um charuto aceso chegou até ele, e por um instante feliz ele pensou que se virasse rápido o suficiente veria Tychus.

Não nesta vida. Jim girou nos calcanhares e, ao dar de cara com Horner e Valerian, sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos que o distraíam. O Herdeiro Legítimo da Supremacia já não usava o pomposo casaco militar, mas mesmo em mangas de camisa e calças simples, ainda parecia ter “alvo” escrito na testa.

— Precisamos dar um jeito em você, Valerian — disse Raynor, grato por poder deixar as lembranças de lado. — Sua aparência é chamativa demais.

Valerian abaixou a cabeça para olhar a própria camisa engomada, as calças passadas e as botas perfeitamente engraxadas.

— Ora, ora, vejam só. Três fofinhos para Mira — disse uma voz atrás deles. Ao se virar, os três viram uma mulher corpulenta sorrindo com as mãos na cintura. — Bom — acrescentou ela enquanto os olhos, o mecânico e o orgânico, perscrutavam o grupo —, dois fofinhos e um farrapo. James, você ainda não aprendeu a usar os chuveiros sônicos da sua adorável nave?

A “adorável nave”, bem como a Bucéfalo, foram camufladas com tanta habilidade que as próprias tripulações não as reconheceriam. A equipe enviada mais cedo por Mira, trabalhando sob a atenta supervisão de Swann, obteve um excelente resultado removendo peças desnecessárias do exterior, acrescentando outras temporariamente e pintando os cascos, dando-lhes um aspecto gasto e enferrujado. Para completar a ilusão, uma pequena quantidade de sucata foi cuidadosamente espalhada sobre as naves, integrando-as perfeitamente ao ambiente; Jim podia jurar que viu pelo menos uma lágrima escorrer pelo rosto de Swann.

— Aprendi, sim, e até gosto — respondeu ele —, mas parece que eu atraio sujeira.

Mira fez uma careta de decepção e deu-lhe um pequeno empurrão de brincadeira.

— Muita gente poderia achar que isso foi um insulto — declarou. — Mas fique tranquilo, sei que não foi.

Ela fitou Valerian com seu olhar desconcertante.

— Me disseram que é pra chamar você de Sr. V. Tudo bem por mim. Você parece bem mais alto do que na UNN.

— Ouço muito isso — respondeu Valerian. — Obrigado por nos dar abrigo. Sua gentileza não será esquecida.

— Agora vamos torcer pro seu papaizinho não descobrir e decidir não esquecer isso também — retrucou Mira.

Jim a conhecia bem o suficiente para reconhecer um aviso velado; ela sabia ser provocante quando queria, mas era perigosa o tempo todo. Ele sabia melhor que ninguém que Mira Han não deveria ser subestimada. Ela sorriu, deixando de lado a ameaça sutil.

— Também agradeço pela oportunidade de passar um tempo com meu querido Matthew.

Finalmente, Mira disparou na direção de Horner e, atirando-se em seus braços, beijou-o no rosto e entregou-lhe discretamente um pedaço de papel dobrado. Matt ficou imóvel, com a expressão de um prisioneiro prestes a ser executado — resignado, mas claramente desejando não estar ali.

Valerian sorria discretamente:

— Como foi que vocês se conheceram?

— Ah, vamos deixar isso pra lá — apressou-se Matt.

O sorriso de Mira alargou-se:

— Ele adora me provocar — disse ela, embora todos vissem que era ela quem provocava. — Não escreve, não liga… Mas o que importa é que estamos aqui, e vamos recuperar o tempo perdido. Não é, benzinho?

Matt assentiu sem entusiasmo. Nunca vou me cansar disso, pensou Jim, deleitando-se com a situação. Mira passava tão longe de uma donzela de coração partido quanto possível, e os dois eram marido e mulher só no nome. Mesmo assim a afeição que ela demonstrava por Matt com ações e palavras era obviamente real, mesmo que jocosa.

— Odeio interromper — disse Raynor —, mas acho que o Matt… Matthew!… avisou que estamos com uma mulher muito ferida. Ela precisa de cuidados médicos e um lugar calmo pra descansar e se recuperar.

Ainda escorada em Matt, Mira se virou e falou, agora com toda seriedade:

— Ele avisou. E também ficou cheio de segredinhos sobre essa doença e sobre a identidade dessa… mulher.

No fim das contas, Mira Han era uma mercenária, e estava correndo um risco enorme para escondê-los. Matt, Raynor e Valerian decidiram que ela seria informada de algumas coisas, mas não de outras. Valerian concordou em revelar quem era: parecia justo que Mira conhecesse uma das principais razões pela qual a Supremacia estava atrás deles. Mas todos concordaram que revelar a identidade de Sarah Kerrigan seria assinar a sentença de morte dela, se não pelas mãos de Mira Han, pelas de um dos muitos que tinham contas a acertar com ela. Soldados, com sua lealdade enxertada biologicamente, eram uma coisa; os Saqueadores, cegamente devotados a Jim Raynor e suas escolhas, eram completamente confiáveis; mas Mira Han… Jim não confiava totalmente nela. Como Rainha das Lâminas, Kerrigan era quase imbatível. Mesmo como fantasma, Sarah Kerrigan era capaz de se defender mais do que bem. A mulher na enfermaria, por outro lado, estava fraca e vulnerável. Um tubo intravenoso apertado seria mais que suficiente para dar cabo dela. Era difícil, quase impossível pensar em Sarah daquele jeito, mas Jim sabia que, pela primeira vez, ela dependia totalmente dele, e Jim não a deixaria na mão.

— Todos nós temos segredos — disse Raynor.

— Madame — intrometeu-se Valerian com um sorriso encantador —, viemos até você em total boa-fé. Você poderia facilmente enviar uma mensagem à Supremacia e dizer ao meu pai que estamos todos aqui, se quisesse, mas Matthew nos assegurou de que podemos confiar em você. Por favor, você poderia nos fazer a mesma gentileza?

Mira Han permaneceu imóvel, observando Jim e Valerian com o inquietante olho cibernético. Horner completou:

— Mira, não podemos falar dela agora. Confie em mim, ok?

A expressão dura no rosto dela suavizou-se.

— Matthew, você é um homem bom, e minha nossa, como é raro ver homens bons por aí. Tudo bem. Por você não só vou esconder todos, como também não vou fazer perguntas.

Jim sentiu um enorme alívio:

— Obrigado, Mira.

— Hummmm — emendou ela evasivamente —, posso arrumar um local seguro onde essa… mulher… pode receber tratamento. Também contatei alguns médicos, mas duvido que eles sejam mais capazes do que os que estão a bordo da sua nave, Sr. V. De qualquer maneira, estão à sua disposição. O lugar é isolado, tranquilo e muito seguro.

— Perfeito.

— Excelente. Enviarei alguém para buscá-los em uma hora. Enquanto isso, Matthew e eu precisamos resolver alguns… assuntos — disse Mira, enlaçando um dos braços no de Matt possessivamente.

Ele lançou um último olhar para Jim, que deu de ombros e respondeu apenas:

— Vai que é sua.