StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 20 de 29

Páginas do PDF

StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo vinte

 

Sarah jazia doente no leito da enfermaria. Jim conseguira arranjar para ela a mesma comida que eles haviam comido, e ela tinha que admitir, o cheiro era bom. Bom mesmo. E, sendo prática, ela sabia que tinha que recuperar as forças. A qualquer hora, vinda de algum lugar, a batalha chegaria, e ela precisava estar pronta.

Ela fez a enfermeira sorrir ao vê-la comendo o bife de skalet com vontade, além do purê de batata e molho agridoce. Enquanto comia, ela considerava a situação.

Claramente, ainda havia agente mutagênico zerg em seu DNA. Qualquer um que não fosse cego poderia notar. E ela não conseguia parar de se perguntar... seria aquilo apenas a ponta do iceberg? Se ela e todos os outros podiam ver aquilo, o que mais estaria acontecendo dentro de seu corpo — caramba, até mesmo dentro de sua mente — que eles não podiam ver?

Então, de certa maneira, Sarah concordava com eles. Precisava saber exatamente o que havia acontecido com ela, bem como o que o artefato tinha e o que não tinha feito. Ao mesmo tempo, parecia que suas próprias células a preveniam contra Emil Narud. Ela o conhecia. Ela... Sarah sacudiu a cabeça, forçando-se a comer mais. Era como se ela o conhecesse — e o tivesse esquecido — mas em algum nível ao qual ela não tinha acesso, a impressão permanecia. E as lembranças, se fossem reais, não eram nada agradáveis.

Sarah Kerrigan tinha muitas lembranças desagradáveis. Sua mãe, seu pai, uma gatinha doente... tornar-se a Rainha das Lâminas...

... A hidralisca — a hidralisca de Kerrigan — atacara a mãe primeiro, usando o braço de foice para partir casualmente o crânio da mulher em dois. Cérebro e osso e sangue espirraram e a garotinha gritou ainda mais alto, um som desesperado e agudo.

— Mamãe! Mamãe! Sua cabeça! Sua cabeça!

— A cabeça dela se partiu... A cabeça dela se partiu...

E então foi como se uma sombra se abatesse sobre sua alma.

Ela engasgou com a carne e a cuspiu, arquejando, sentindo a pele toda arrepiada.

Algo estava errado. Algo estava muito errado.

Seu estômago doía de apreensão, e adrenalina inundou seu sistema. Por um segundo horrível, ela sentiu como se fosse vomitar, mas por fim sua força de vontade se impôs e ela se conteve.

Ela quase podia sentir o júbilo, que parecia repleto de malícia. E era pessoal, pessoal de um modo que o ataque a Jim, Horner e Valerian não fora.

Ela ergueu o rosto e encarou a porta.

Eles estavam vindo.

Egon Stetmann se perguntou quando ele teria se tornado um peso morto.

Ele não tinha desconfiado de nada, embora devesse. Mas se enredara na teia de aranha, imaginando que a fraternidade científica tinha seu próprio código de honra, e por isso é que agora estava amarrado e enfiado sob uma mesa em um depósito do almoxarifado como uma caixa de tubos de ensaio.

Ele tinha se mostrado ansioso demais, é claro. Sempre ansioso demais. Tinha ficado tão fascinado com a expectativa das descobertas científicas que, quando sua acompanhante linda de morrer — que bela escolha de palavras, Egon, já pensou em tentar carreira como comediante de stand-up? Ah, não, você não pode ficar em pé. Rá... — o cutucou com uma arma obrigando-o a responder no comunicador, ele nem sentira medo. Só confusão. O medo viera depois.

— Por que você está me cutucando com isso? — perguntara, genuinamente avoado.

De Vries revirou os olhos.

— Estou ameaçando você, seu idiota. — E, é claro, ele prestou atenção não em “ameaça”, mas em “idiota”, e, como um idiota, respondera:

— Ah, idiota não, eu era o cientista mais cotado da instalação de pesquisa em Tyrador III e...

E então ele quase vomitou, pois De Vries bateu em seu estômago com toda a força usando o cabo da arma.

— Cale a boca e diga alguma coisa.

Àquela altura, ele já tinha ficado esperto o suficiente para não mencionar a contradição evidente na sentença.

— Ok, o que você quer saber? — perguntou apenas.

— Eu não quero saber nada. Só fale alguma coisa.

— Ahm, ok... aqui é Egon e, hum... estou... falando... — disse ele, e sua voz subiu um tom quando ele começou a perceber o apuro em que se encontrava. — Eu não sei o que estou dizendo, mas aqui sou eu e... essas palavras, e...

— Já deu.

— Deu pra quê? — Ele não conseguiu evitar a pergunta. As palavras deixaram seus lábios antes que ele pudesse se censurar.

Ela sorriu. Stetmann pensou que, embora mais assustado que cachorro em canoa — nossa, Egon, meu velho, você está tão engraçado hoje... — ele ainda a achava atraente.

— Eu precisava de uma amostra da sua voz. Vou inserir isso no banco de dados da adjutora, e se alguém contatar você — ela retirou o comunicador do bolso do casaco de Egon —, vou convencê-lo de que está a salvo.

— Isso é... bem inteligente — disse ele, derrotado.

— Eu tenho três diplomas — respondeu ela.

— Ahm... então... e agora? — Ele se empertigou e tentou parecer valente. — Você vai me executar?

Ela riu, uma fungada grosseira que o insultou profundamente.

— Narud quer você vivo. Deve ser pra extrair informações úteis que você possa ter.

— Ah. — Bom, não era tão ruim.

— Considere-se com sorte, Dr. Stetmann. Você está melhor do que Sarah — dissera de Vries, e isso foi tudo o que ele viu. Stetmann acordou muito tempo depois, sentindo uma grande dor de cabeça. Ele tentou se mover e vomitou violentamente. Franziu o rosto, sentindo-se não só ferido como insultado.

Pense. Ele tinha que pensar. Era no que ele era bom. A sala estava escura, mas havia um pouco de luz entrando pelas frestas da porta. Aquela não era do tipo íris de câmera, como as que ele vira em outros locais, e aquilo o confortou, pois queria dizer que aquele cômodo não era particularmente importante, e ele talvez conseguisse escapar. Bom, exceto pelas mãos e pés atados, que ele acabara de perceber.

Seus olhos já estavam acostumados a pouca luz, e ele pôde se orientar sem dificuldade. Ele estava sob uma mesa, com caixas perto da cabeça e dos pés. Reunindo forças para ignorar a dor, Egon conseguiu com dificuldade se arrastar para o meio da sala. Desajeitadamente, avançando aos trancos com as mãos e os pés amarrados, ele conseguiu. Em certo ponto ele espirrou violentamente por causa da poeira e estacou, convencido de que alguém iria entrar e terminar o serviço que de Vries começara, sem se importar com as ordens de Narud. Os minutos se arrastaram e seu coração desacelerou. Outro bom sinal — não havia ninguém guardando a porta.

Chegou no meio do pequeno cômodo, deitado de lado. Ele até conseguira evitar se sujar na poça de vômito. Então olhou ao redor e confirmou seu paradeiro: era um depósito.

O que será que tem no depósito de uma base científica? Agulhas... tubos... contêineres... Mas nada de facas ou...

Nada de facas. Mas vidro quebrado era bem afiado. E tubos e contêineres geralmente eram feitos de vidro, que era o material mais confiável quando se tratava do tipo de trabalho delicado desenvolvido em laboratório. Era barato e quase completamente não reativo. Stetmann se sentou com esforço, debatendo-se como um peixe. A mesa sob a qual ele fora enfiado suportava uma pilha de caixas. Do lado oposto do pequeno cômodo havia uma prateleira com mais caixas pequenas. A luz era insuficiente para que conseguisse ler qualquer coisa. Ele precisava se erguer de alguma forma.

Egon estava sentado com as longas pernas esticadas diante de si. Ele as puxou para o lado, então ficou de joelhos e avançou lentamente até as prateleiras. As caixas tinham etiquetas que informavam seu conteúdo, mas não havia nada de útil na primeira nem na segunda. Ele espichou o pescoço e suspirou. Stetmann tinha duas escolhas: tentar se erguer ou mover os braços de forma que seus pulsos ficassem à frente do seu corpo e não às costas.

As pernas dele eram realmente compridas.

Egon esmoreceu, momentaneamente atordoado pelo esforço que seria necessário. Ele era apenas um cientista.

Para alguém inteligente, pensou ele, você até que é bem estúpido. Foi direto pra uma armadilha com um sinal de ME CHUTE nas costas. Você fracassou como sujeito inteligente. Agora vai ter que ser um sujeito durão. Como Jim.

Raynor sem dúvida teria se soltado; a essa altura, já teria aberto caminho à força pela base. Ninguém sabia onde Egon estava. Ninguém nem devia saber que ele estava encrencado. Algo que de Vries dissera ressurgiu em sua mente: “Considere-se com sorte, Dr. Stetmann. Você está melhor do que Sarah.”

O que ela tinha querido di...

Ah, não. Eles iam pegar Kerrigan. Fazer experimentos com ela. Talvez até matá-la. Talvez matar Raynor também. E, até onde Egon sabia, era a única pessoa que sabia disso.

Ele gemeu uma única vez, bem baixinho. E então sentou-se novamente no chão frio, sério e resoluto, e começou lentamente a esticar os braços amarrados na extensão do corpo enquanto se esforçava por fazer suas longas pernas passarem por um vão bem apertado.

Como qualquer pessoa dotada de papilas gustativas, Matt Horner não gostava de ração militar. Mas gostava ainda menos de ficar sentado em situações formais constrangedoras com pessoas em quem não confiava. Ele se corrigiu imediatamente: claro que ele confiava em Jim, e já começava a considerar Valerian alguém digno de uma confiança cautelosa também.

Mas não gostava de Narud, e teria pagado muitos créditos para evitar o jantar. Por sorte, ele conseguira recusar o convite sem ter que molhar a mão de ninguém.

A equipe de reparos estava, de acordo com Swann, “cortando um dobrado”, seja lá o que isso significava. Horner achou que isso queria dizer que a equipe estava fazendo um bom trabalho, a julgar pelo tom de voz satisfeito do engenheiro-chefe.

— E a Srta. Annabelle teve uma ideia, e a está aprimorando. Se funcionar, nós vamos informá-lo. Se não, faça de conta que não falei nada.

— Ahm... ok — concordara Matt.

Ele imaginou que poderia relaxar por algumas horas. A nave estava a salvo, por enquanto, assim como Jim, Valerian e Sarah. Para melhorar as coisas, até Rory tinha parado de reclamar. Ele recostou-se em sua cadeira, ajeitando o braço ferido com cuidado, respirou fundo, exalou e fechou os olhos. Seu braço doía.

— Capitão Horner?

Ele abriu os olhos.

— O que foi, Marcus?

— Estou obtendo leituras que... bom, eu não sei o que o pessoal de Narud está fazendo na engenharia, mas acho que eles devem ter quebrado alguma coisa.

— O que você vê? — Matt já estava de pé, espiando por cima do ombro de Cade antes mesmo de fazer a pergunta.

— Bom, isso aqui apareceu no limite externo do campo de asteroides — respondeu Marcus.

Havia pontos na tela. Um monte deles.

— Não... não podem ser naves — disse Horner, sentindo o estômago revirar pesadamente.

— Bom, senhor, é o que parece. É por isso que eu queria saber se...

— Horner para Swann — disse Matt, interrompendo Marcus. — O pessoal do Narud está fazendo algo mais além de consertar o equipamento? Alguma coisa que esteja interferindo com os sensores?

— Eu acho que não, mas vou dar uma olha. Já retorno.

— Faça isso.

Matt começou a andar pela ponte, pensando, e seus olhos fitavam a tela. Não parecia um defeito. Os pontos não se moviam em um padrão uniforme. Alguns ficavam onde estavam, outros se moviam um pouco, e então mais pontos apareciam...

Ele tomou uma decisão. Se fosse um erro, ele se desculparia. Caramba, ele daria um jantar a bordo da Hipérion para compensar o insulto ao pessoal de Narud. Mas ele não iria se arriscar.

— Horner para Swann.

— Cacete, guri, me dá um instante pra...

— Pare os consertos. Agora. Pode mandar parar tudo.

Annabelle, apesar de estar absorta em seu novo projeto, ouvira o começo da conversa. Ela desenvolvera um súbito e forte interesse por navegação espacial nos últimos dias, devido ao seu súbito e forte interessem em Travis Rawlins. Havia uma maneira de verificar se tratava-se de um defeito na nave ou uma ameaça real — e essa maneira a fazia sorrir um pouco.

Ela ativou seu comunicador no canal apropriado, tentando contatar Travis na Bucéfalo. Normalmente ele respondia na hora, já que ela não era tola a ponto de contatá-lo em meio a emergências. Mas daquela vez ele não respondeu.

Ele podia estar ocupado. Podia ter esquecido o comunicador no dormitório. Podia estar cansado dela, ignorando-a. Mas Annabelle soube de repente que havia algo errado. A voz de Horner ressurgiu em sua mente.

— Pare os consertos. Agora. Pode mandar parar tudo. — A voz de Matt fora ríspida e intensa.

— Ai, pelo amor... Está bem, está bem. — Swann apertou o botão e voltou-se para um membro da equipe de Narud.

— Vocês ouviram o capitão. Parem o que estão fazendo, todos vocês. Eu não sei que bicho mordeu ele, mas é ele quem dá as ordens.

— Isso é um ultraje! — protestou um deles. — Nós viemos aqui em boa fé para ajudar vocês. Acha que somos responsáveis por imagens fantasma nos...

Annabelle o ignorou. Apostando em um palpite, ela abriu a planta da Esplendor no visualizador enquanto digitava o comando para acessar o nível atual de energia das baterias. Ela esperava estar errada, sobre isso e sobre não estar conseguindo contatar Travis na Bucéfalo. O sinal pareceu normal à primeira vista. Ela quase suspirou de alívio, mas então...

As medições, representadas por barras alaranjadas, deviam estar flutuando suavemente. Mas estavam completamente estáticas.

Ou seja: ela estava olhando para uma imagem falsa.

Rory ainda estava gritando com o engenheiro da Prometeu, que gritava de volta. Com o coração descompassado, ela mesmo contatou Horner.

— Engenharia para ponte — disse ela, mantendo a voz baixa. Ela olhou para os dois engenheiros discutindo. Nenhum deles parecia ter notado.

— Annabelle? Onde está Rory?

— Discutindo com um dos engenheiros da base — respondeu ela. — Matt, não há nada errado com os sensores. Alguém está drenando a energia das baterias. E... e acho que também estão bloqueando nosso contato com as outras naves. Não consigo falar com Travis.

Matt acreditou nela imediatamente. Primeiro porque ele podia ouvir os gritos ao fundo, e depois porque Annabelle era uma das mais estáveis e sensatas tripulantes que a equipe dele jamais tivera. Se os “engenheiros” mandados para “ajudar” estavam impedindo-a de contatar Travis na Bucéfalo...

— Contate Raynor imediatamente — ordenou ele.

Estática. O oficial de comunicações se virou para ele sem saber o que fazer. Ele não precisou falar nada.

— Marcus, qual é a situação das naves fora do cinturão?

— Elas estão... senhor! — disse Marcus, voltando-se para o capitão. — Elas estão entrando no cinturão de Kirkegaard.

— Quantas?

— Todas elas!