StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo dez
Antes que Matt pudesse reagir, a mão de Valerian agarrou seu pulso e o torceu dolorosamente, forçando-o a dobrar os joelhos. O som de cadeiras sendo arrastadas às suas costas alertou Valerian de que os clientes do bar preparavam-se para vir em defesa do capitão Horner; ele então o soltou, mantendo o olhar fixo.
— Se tem um problema comigo, basta dizer — declarou com uma voz carregada de raiva.
— Não tenho — respondeu Matt, esfregando o pulso e encarando o príncipe com uma expressão levemente atônita. — Você é quem tem um problema. Você parece com… bom… com você. E se vai andar pelo Porto do Enforcado, quanto menos parecer você, melhor.
Valerian havia muito tempo aprendera a controlar a raiva. De vez em quando ela ressurgia, como agora, atacando rápida e certeira como uma víbora. Mas nunca durava muito tempo.
— Entendo. Você poderia ter dito. Evitado o sofrimento — disse Valerian, acenando com o queixo para o pulso de Matt.
— Não se preocupe com isso — resmungou o capitão da Hipérion. — Estou até surpreso de ver você agindo assim.
— Ah, você logo vai perceber que sou uma caixinha de surpresas — respondeu Valerian, bebericando o segundo mai tai. — Enfim, ao trabalho. Por que precisamos ir caminhando?
— Mira disse que mesmo o lugar sendo um ferro-velho, a maioria das pessoas anda quando precisa chegar a algum lugar. Com os recentes ataques dos zergs, muitos estão passando por sérias dificuldades. Antes a maioria era de mercenários e criminosos, mas agora eles são principalmente refugiados. Não têm um tostão furado. Qualquer tipo de veículo ou nave vai atrair atenção.
Enquanto conversavam, Cooper trabalhava em silêncio na próxima rodada. Ao terminar, ele empurrou a bebida gentilmente na direção de Horner, que a recebeu com um aceno de cabeça, jogando alguns créditos no balcão.
— Muito bem — respondeu Valerian. — Vejo que é um fã de gim-tônica.
— Tônica e lima sintética — respondeu Horner. — Geralmente não bebo em serviço. Precisamos deixar você com a aparência da população local: miserável e maltrapilha. E o senhor vai me desculpar — o capitão tomou um gole —, mas isso vai ser um desafio desgraçado.
Valerian sorriu ligeiramente:
— Talvez seja mais fácil do que você imagina.
Depois de meia hora, Matt reuniu algumas roupas com a aparência gasta de que precisavam. Aparentemente pertenciam a alguém da equipe de Swann; alguém que, nas palavras do capitão Horner, “faz questão de sujar as mãos quando trabalha”.
Valerian inspecionou as roupas, tentando não parecer muito ofendido pelo odor que as botas, calças, camisa e casaco remendados e manchados de óleo exalavam.
— Deve servir — balbuciou.
— Uma pena não termos um ou dois dias para deixar sua barba crescer — observou Matt. — Mas vai ter que ser desse jeito. Um pouco mais de sujeira na cara e no cabelo e pelo menos sua aparência vai ser convincente.
Horner tentava parecer concentrado na tarefa, mas era óbvio que se divertia ao pensar no Herdeiro Legítimo se arrastando pelas ruas do enorme ferro-velho fedendo como um refugiado. Valerian achava aquilo curioso, mas também um tanto irritante.
— Pelo menos a aparência convincente? — repetiu Valerian. — Parece que você não acha que consigo fazer isso, capitão Horner.
— Estou preocupado, admito. Um passo errado e estamos mortos. A casamata fica a cinco quilômetros daqui.
— Sua aparência não é exatamente um lixo também — apontou Valerian. — Talvez eu devesse estar preocupado com isso. Suponho que os soldados permanecerão a bordo da Bucéfalo.
— Exato, senhor. Os ressocializados não conseguirão reprimir a programação, o que os torna inadequados para missões secretas. Nem seus soldados serão capazes de ocultar que são militares.
— De fato.
— Podemos trazer um ou dois dos Saqueadores menos conhecidos para protegê-lo. Isto é — adicionou Matt —, considerando que confia em nós.
A irritação agora superava a curiosidade. Valerian encarou Horner.
— Você não gosta de mim — disparou. — E não confia em mim. Ainda assim, cá estou eu, pondo minha vida em suas mãos. Se vamos trabalhar juntos, capitão Horner, então, por favor, vamos trabalhar juntos, OK? Sua postura está começando a cansar.
Matt corou. O comentário de Valerian obviamente acertara em cheio.
— Está bem — respondeu o capitão.
— Além disso — Valerian virou-se para contemplar as roupas fedidas outra vez —, este servicinho vai afastar você de Mira Han um pouco. Achei que ficaria um pouco mais grato.
O gelo não se rompeu por completo, mas Matt precisou se segurar para não sorrir.
Assim que pisaram fora do abrigo improvisado que era, na verdade, um dos cruzadores de batalha mais notórios da galáxia, Valerian se esforçou para segurar a tosse causada pelo espesso miasma. Horner o observava, especulando. Ele mesmo tendia a preferir o lado “limpo” das coisas, sobretudo em comparação aos outros Saqueadores, mas Valerian tinha sido um desafio. Salvo a reação inicial surpreendentemente rápida — e dolorosa —, o príncipe resignara-se à farsa. Olhando melhor agora, Matt se perguntou se o próprio pai o reconheceria.
Com os recursos disponíveis, havia pouco a fazer para disfarçar aquele perfil aristocrático além de esfregar sujeira nele. O que já haviam feito, por sinal. Valerian mastigava alguma coisa que tinha pegado com… alguém, e curvou-se para cuspir um fio do líquido de cor asquerosa:
— Espero que não manche os dentes — resmungou.
— Acho que só se você mascar sempre — disse Matt.
A cabeleira dourada fora desarrumada, e Valerian correu dedos besuntados de óleo por entre os fios. Ambos portavam pistolas; o príncipe quisera levar uma polida e brilhante, mas Matt a substituíra por uma de aparência mais gasta e comum, do paiol da Hipérion. Por um instante, enquanto se acostumava ao ar do lugar, Valerian permaneceu ereto como um poste, mas quando Matt fez menção de abrir a boca para comentar, o príncipe apoiou-se de lado, curvando-se um pouco e assumindo um ar desmazelado.
— Excelente — observou Matt.
Valerian comprimiu os lábios e aproximou perigosamente o dedo da narina.
— Tudo bem, não precisa ir tão longe — resmungou Matt, lutando pra conter uma risada. — Vamos. Precisamos ter cuidado. Mesmo vestidos assim, ainda estamos melhores que metade das pessoas daqui.
Os dois desceram pela “pilha de lixo” e saltaram para a pequena abertura abaixo que servia de corredor. Horner observou que as camadas de sucata assentavam-se umas sobre as outras quase como sedimento; destroços recentes simplesmente empilhavam-se e esmagavam as camadas de metal velhas. O capitão da Hipérion se pegou pensando sobre as naves em que pisava; desde quando estariam ali e o que teria acontecido aos homens e mulheres que outrora desbravaram o espaço nelas?
As instruções de Mira, sussurradas ao pé do ouvido e seladas com um beijo, orientavam-nos a seguir para o norte, e foi o que fizeram. Matt estremeceu ligeiramente ao lembrar-se da cena e tentou se concentrar no trabalho.
Valerian seguia logo ao seu lado, gingando. O corredor estreito logo se transformou em uma área mais ampla, e Matt sacudiu a cabeça
— O lugar está praticamente tomado.
Valerian não respondeu, ocupado em esquadrinhar o lugar com olhos cinzentos. Dezenas de pessoas amontoavam-se em uma área pequena demais. Crianças, algumas quase nuas, corriam por todos os lados, sem supervisão, metendo-se em todos os cantos e saltando para cima e para baixo em pedaços de metal retorcido que um dia cruzaram as estrelas. Cores irradiavam pelo ambiente, nas roupas das pessoas e nos escombros. O olhar do príncipe acompanhou um menino franzino empenhado em raspar algo de uma grande placa de metal azul.
— O que ele está fazendo? — questionou Valerian, baixinho.
— Almoçando — respondeu Matt. E enquanto ele falava, o menino ergueu as mãos imundas e enfiou algo na boca.
Valerian virou o rosto, mas Matt o censurou.
— Não. Você não pode demonstrar fraqueza. E não se afeiçoe às crianças. A miséria é real, sim, mas aqui há muitas gangues. As crianças pequenas distraem você e as maiores vêm e depenam tudo o que você tem. Jim caiu nessa armadilha quando esteve aqui pela primeira vez.
— Eu compreendo — anuiu Valerian. Sua voz era resoluta, mas algum pesar era claramente perceptível.
Prosseguindo, os dois passaram pelo tropel de crianças que, ao vê-los, imediatamente se puseram de pé e estenderam mãos imundas, grudentas e suplicantes.
— Por favor, senhor! Por favor!
— Afastem-se! — rosnou Matt com uma fúria e um nojo que não sentia de fato, e em seguida empurrou o grupo de fedelhos com firmeza, mas sem crueldade. Uma das crianças tropeçou e caiu. Mesmo sem se machucar, o menino encheu os pulmões de ar e soltou um grito de dor alto e estridente. O garoto era bom, até conseguiu espremer algumas lágrimas.
— O que tu tá fazendo com meu filho? — trovejou uma voz profunda e furiosa. As palavras saíam um pouco arrastadas, mas isso não as tornava menos sinistras. Matt estremeceu por dentro. Tinha começado. O homem era mais alto que ele e Valerian, e mesmo não tendo o mesmo porte de Tychus Findlay, ainda assim era um espécime imponente. Outra característica que compartilhava com Findlay era a cicatriz que lhe descia pelo lado do rosto, apesar de que neste caso parte do lábio fora arrancada. E ele não estava sozinho. Dois amigos, com aparências tão sórdidas quanto a dele, surgiram e avançaram na direção de Matt e Valerian.
— Dando um pouco de educação — retrucou Valerian antes que Matt pudesse tentar reverter a situação.
— Tu tá dizendo que meu filho é balcriado? — As palavras erradas não soavam nem um pouco engraçadas saindo daquela boca dilacerada.
— Exatamente. Mantenha o fedelho longe do nosso caminho.
Boca-rasgada fez uma careta, uma imagem aterrorizante.
— Cês não vão pra lugar nenhum. — Um punho enorme agarrou Valerian pela camisa e ergueu seus pés do chão. Pelo canto do olho Matt viu lâminas brilharem. Mas enquanto sacava a arma, tudo aconteceu.
Valerian se moveu tão rápido que Matt viu apenas um borrão. As mãos do príncipe agarraram o agressor pela camisa e, um segundo depois, ele estava de joelhos, uivando de dor. Seus companheiros avançaram ferozes, mas subitamente o Herdeiro Legítimo não estava mais lá, e sim atrás deles. Com um salto e um movimento no ar, Valerian chutou as costas largas dos homens e — assim pareceu — subiu por elas, parando apenas para bater as cabeças deles uma contra a outra antes de saltar e pousar agachado; na mão, uma faca que Matt nem sabia que ele trazia.
Os homens desabaram, não desacordados, mas definitivamente fora de combate. Boca-rasgada vociferou e investiu outra vez. Valerian equilibrou-se na ponta dos pés e esperou até o último instante. Então saiu do caminho com um movimento ágil, e o impulso do brutamonte atirou o próprio com toda a força contra uma das paredes de metal; primeiro uma batida seca, seguida de um tilintar agudo e demorado.
A faca de Valerian prendeu a manga da camisa esfarrapada de Boca-rasgada no que parecia um velho colchão.
Boca-rasgada os encarou por um instante e gargalhou. Ele puxou a faca e se voltou, segurando-a na mão enorme.
— Errô — grunhiu.
Valerian sorriu tranquilamente.
— Não, não errei. Não tenho nenhuma intenção de privar uma criança do pai, mesmo que seja você. — Matt e Boca-rasgada perceberam ao mesmo tempo que Valerian ainda tinha outra faca. — Agora, você vai nos deixar passar ou vamos ter que continuar com esta luta até o óbvio final?
Os olhos suínos do homem passaram do rosto calmo de Valerian — Caramba, pensou Matt, ele não está nem ofegando! — para a faca, e depois para o rosto novamente. Depois de balbuciar algo, o homem largou a faca e caminhou até o filho.
Valerian assentiu, pegou a faca do chão e virou-se para Matt, que o encarou em silêncio por alguns instantes antes de continuarem. Ninguém os seguiu.
— Eu… não fazia ideia de que você podia fazer aquilo — observou Matt.
— Qual parte?
— Qualquer uma. Todas.
Valerian sorriu discretamente.
— Você achou que eu era um fracote livresco e efeminado, não é?
— Eu… — Matt não queria confirmar, mas também não queria mentir, então se esforçou para encontrar um meio-termo. — Digamos que eu não esperava que você conseguisse se sair tão bem sozinho contra três.
— Sozinho não — respondeu Valerian. — Eu vi a arma.
— Você estava se movendo rápido demais para eu conseguir atirar com segurança.
— Ora... e que tal um “desculpe por isso”?
Matt teve que rir.
— Acho que lhe devo desculpas.
— Na verdade, não. Você mal me conhece, Sr. Horner — continuou Valerian enquanto caminhavam. — Você me viu cortando fitas vermelhas na UNN e me ouviu falar entusiasticamente sobre artefatos antigos. Sabe que aprecio as artes e a boa vida, e não há cicatrizes visíveis em mim. O que você não sabe é que durante a maior parte da vida, eu era um segredo. Provavelmente passei mais tempo na companhia de militares que você. Talvez mais até que o Sr. Raynor. Treinei longa e duramente com armas antigas como espadas…
— … e facas.
— E facas — confirmou Valerian. — Domino três artes marciais.
— Conseguiria me matar com uma colher?
— Só amadores usam colheres. — Valerian permaneceu tão impassível que Matt se perguntou se ele falava sério. Os olhos dos dois homens se encontraram, e Horner viu júbilo nas profundezas cinzentas um segundo antes do príncipe virar o rosto. — Nunca me senti seguro, nem por um segundo em toda minha infância. Aprendi a estar em guarda o tempo todo, mesmo quando não era necessário. Escolhi lutar contra aqueles brutamontes ao invés de recuar porque os boatos se espalham rápido em lugares como esse. Duvido que alguém mais vá nos incomodar.
— Você atraiu atenção — disse Matt.
— Prefiro atrair atenção vivo que ser um morto ignorado. Como, aliás, deve ser a maioria dos que morrem aqui.
— Eu tentei preparar você.
— Sim, e eu estava preparado. É que… — Valerian tentou encontrar as palavras certas, mas aparentemente não conseguiu. — É obrigação do governo tomar conta do povo. Mas depois dos recentes ataques zergs… Eles foram deixados aqui para apodrecer, Matt. Homens, mulheres, crianças… A Supremacia não moveu um dedo para ajudá-los.
— Bem, a Supremacia não é exatamente bem-vinda aqui.
— E ainda assim vi pessoas dividindo a comida, ao mesmo tempo que roubavam. Você reconheceu os pacotes?
— Hum… — titubeou Matt.
— Eu observo tudo — prosseguiu Valerian. — Preciso. Vi dois pacotes com a mesma insígnia que vi no traje de Mira. É o símbolo do grupo de mercenários dela. Eles estão levando comida para essas pessoas. Criminosos, assassinos e mercenários parecem ter corações mais decentes que o governo do meu pai.
Matt ficou em silêncio. Mira sempre parecera do tipo “cada um por si”, mas ele acreditava em Valerian; a revelação o fez ver Mira Han com outros olhos. Além disso, ela tinha o próprio Herdeiro Legítimo nas mãos, sabendo que Arcturus pagaria uma excelente recompensa a quem quer que o entregasse.
Mas ela não o entregou.
Pelo menos não até agora. E Matt sabia, mesmo sem saber exatamente como, que ela não o faria.
— Me pergunto se deveríamos contar a ela sobre Sarah.
— Não — objetou o príncipe imediatamente. — Dezenas de milhares de pessoas aqui perderam tudo por causa da Rainha das Lâminas. Outros bilhões morreram. Se souberem que Mira está dando guarida para Kerrigan, nem toda a caridade do mundo vai salvar a vida de Sarah dos que querem se vingar. E as ruas estão cheias de gente querendo vingança. — Sua voz soava triste e amarga. — Não retribuirei a gentileza de Mira marcando um alvo nas costas dela.
Matt não respondeu, envergonhado por não ter pensado naquilo antes. Então ele parou.
— Espere — disse.
A conversa o absorvera de tal modo que ele pensou que talvez tivessem errado o caminho. Matt sacou apressado o mapa que Mira desenhara.
— Isso não pode estar certo — disse Valerian.
— Acho que... está, sim — respondeu Horner, apontando para um dos símbolos no mapa e depois para um assento de uma nave há muito destruída. Era o mesmo símbolo, provavelmente feito com uma faca. Valerian ergueu uma sobrancelha loura.
— Ainda bem que nenhum de nós é tão grande quanto Tychus era — salientou Matt, enfiando-se por uma passagem estreita logo abaixo dos símbolos.