StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo vinte e cinco
— Sarah, não!
Ignorando o risco que ele próprio corria, Jim correu e segurou o braço de Sarah.
Ela se virou para ele, com os olhos verdes em chamas.
— Ele é um Mengsk, Jim! Não podemos confiar nele!
— Do mesmo jeito que não se pode confiar em telepatas? — rebateu Jim, com os olhos fixos em Sarah, vagamente ciente de que Egon havia corrido para ajudá-lo e que Valerian não havia mexido nem um dedo. — Do mesmo jeito que não se pode confiar em foras da lei?
— Você sabe o que quero dizer. Me largue!
— Não, não vou largar. Não vou deixar você fazer isso pra se arrepender depois.
— Comandante — comentou Egon, hesitante — alguma coisa aconteceu quando ela ouviu a voz de Mengsk... Eu não tenho certeza se... se...
— Não tem certeza se ainda sou eu, Egon? — respondeu Sarah, enfurecida. — Ah, sim, sou eu mesma.
— Então você não quer matar esse homem — disse Jim. — Ele não é como o pai. E já provou isso várias vezes.
— Mas não pra mim.
— Então você vai ter que confiar em mim desta vez, não é mesmo?
Jim tentou lembrar-se de tudo o que Valerian havia feito. Todas as promessas que ele cumprira e os perigos que enfrentara. O garoto certamente havia puxado ao pai, mas era dono de si mesmo. O olhar de Sarah se fixou nos dele, e Jim soube que ela estava lendo seus pensamentos. Por um segundo ele pensou ter visto lágrimas nos olhos dela, e então Sarah se virou para Valerian. Jim deduziu que ela estava lendo os pensamentos dele. O rosto dela relaxou levemente.
— Não — disse ela. — Você não é Arcturus. Pelo menos ainda não.
— De você, Srta. Kerrigan, eu aceito qualquer sinal de simpatia — respondeu ele, com um sorriso forçado.
Jim dirigiu-se a Egon.
— Estou vendo que Sarah encontrou você — comentou. — Fico feliz que esteja vivo.
— Eu também — respondeu Stetmann. Ele olhou para Sarah com uma expressão intrigada, e Jim se perguntou o que exatamente o jovem cientista teria visto quando Sarah ouviu a voz de Mengsk no alto-falante. Jim bateu no ombro do rapaz, trazendo-o de volta à realidade, então caminhou em direção a Sarah. Limpou carinhosamente uma mancha de alguma coisa roxa no rosto dela.
— Obrigado, Srta. Kerrigan. Você chegou na hora certa! — exclamou Valerian.
— E nós não temos muito tempo — disse Jim.
— É, não temos — concordou Sarah, virando um dos cadáveres híbridos com o pé. — Mengsk quer ter certeza absoluta de que nenhum de nós sairá vivo desta estação. Além de abrir fogo contra a estação e fazer Narud libertar os bichos, ele mandou alguns soldados para nos rastrearem. Eu passei por oito deles e tenho certeza de que há mais.
Egon ficou pálido e olhou para o chão. Jim não precisou perguntar o que Sarah fizera com os soldados.
— Bom, então é melhor não demorarmos mais. Vamos para o hangar.
— E vamos rezar para que pelo menos uma nave ainda esteja por lá — comentou Valerian.
— Não — interrompeu Sarah. — Ainda não. Nós precisamos pegar o artefato. É perigoso demais deixá-lo nas mãos de Narud. Ele não pode escapar com isso.
Todos resmungaram, mas ninguém protestou abertamente. Todos sabiam que ela estava certa.
— Egon — disse Jim —, você sabe para onde podem tê-lo levado?
— A Dra. de Vries não estava realmente interessada em me dizer coisas úteis — respondeu ele. — Só queria me manter fora do caminho. Eu não sei nada sobre isso.
— Eu sei — exclamou Valerian. — Sei exatamente onde deve estar guardado.
— Você precisa olhar o mapa outra vez?
— Não — respondeu ele, com um sorriso. — Não está no mapa. Vamos!
— Por quanto tempo você pretende continuar com isso, garoto? — perguntou Swann.
— Pelo tempo que for necessário — respondeu Matt.
A Hipérion e a Bucéfalo estavam tomando uma surra. Seria impossível manter aquela situação por muito tempo. Estavam tentando ganhar tempo, já que era tudo o que podiam fazer. Jim não fazia ideia do quão avariadas estavam as naves quando deu a ordem. Ele...
Matt piscou. Era uma escolha arriscada, mas qualquer coisa naquele ponto seria arriscada. Não havia uma escolha segura.
— Ponha Vaughn na linha — ordenou.
— Vaughn na escuta — respondeu uma voz exausta e tensa.
— Eu tenho um plano — declarou Matt. — Você vai fazer o seguinte...
Cinco minutos depois, estava tudo pronto para o plano de Matt.
— Você pode acabar afogando os motores com uma manobra dessas — alertou-o Swann.
Mas Matt sabia que era a única opção com a qual poderia viver. Ou morrer tentando.
— Todos prontos?
Um coro de “sim, senhor!” ecoou, e Matt respirou fundo.
— Vaughn, mantenha-os ocupados.
— Farei isso, Horner.
— Certo. Cade... salte!
— Mas o que... Senhor, nós perdemos a Hipérion — disse um navegador muito nervoso a bordo da Estrela Branca.
— Como assim “perdemos”?
Mengsk deu um passo à frente, movendo-se ameaçadoramente.
— Senhor, ela simplesmente... sumiu. Sem deixar rastros. Eles devem ter saltado.
— Saltado? Para onde? Nós estamos no meio de um cinturão de asteroides. Um salto aqui seria suicídio. Timoneiro, mantenha a Bucéfalo na mira. Isto deve ser algum truque. Varley, descubra para onde eles foram.
— Sim, senhor.
O navegador continuou digitando, buscando imagens e tentando encontrar uma resposta para o imperador. Então ele parou, atônito.
— Ahm, senhor... Eles saíram do salto. E... e parece que eles saltaram... para trás de nós!
Valerian parecia saber onde estava indo. Aparentemente, ele estava mais familiarizado com a localização do laboratório supersecreto do que com a da enfermaria. Jim concluiu que isso não deveria ser uma surpresa.
O laboratório ficava bem no centro da estação. Enquanto desciam por uma escadaria que parecia infinita (“É melhor nem tentarmos os elevadores”, dissera Valerian), o som da surra que a Estação Prometeu estava levando ficava mais distante. Valerian se manteve à frente. Estavam com sorte, pois ao que parecia, Narud não lembrara de bloquear o acesso de segurança máxima de Valerian. Sarah seguiu caminhando ao lado dele, impaciente. Jim e Egon mantinham a retaguarda. O cientista, apesar de jovem, parecia exausto.
— Você precisa se exercitar mais — comentou Jim.
— É... parece que... sim — respondeu Egon. O rosto dele estava completamente vermelho. Depois de percorrerem mais um corredor, Valerian diminuiu o passo.
— É aqui — declarou ele, colocando a mão em um sensor. O equipamento leu suas impressões digitais, o padrão de voz e a retina.
A porta se abriu, revelando uma sala escura.
— Luzes — disse Valerian. Quando a sala se iluminou, eles se viram em uma plataforma. Vazia.
— Chegamos tarde demais — esbravejou Sarah. — Ele pegou. Ele pegou o artefato!
Valerian estava abismado.
— Por minha causa — lamentou ele. — Eu entreguei essa arma a ele. E agora...
— Pare de se lamentar, Valerian — gritou Jim. — Narud roubou o maldito artefato. O que você fez foi dar uma chance a Sarah de voltar a ser humana. E salvou a minha pele mais de uma vez.
— Nós ainda podemos impedi-lo — comentou Sarah. Seu olhar parecia distante. Ela não estava ouvindo, nem com os ouvidos nem com o cérebro, o que eles estavam dizendo. — Só há uma saída daqui. Foi um erro vir pra cá. Nós deveríamos ter ido direto para lá e tentado pará-lo! — Ela parecia furiosa, mas Jim sabia que a raiva era dirigida contra ela mesma e seu erro de cálculo.
— Então vamos voltar para lá, amor — respondeu Jim. Assim que as palavras saíram de sua boca, ele ouviu o comunicador.
— Comandante?
— Matt? — respondeu Jim, e fez uma careta. — Eu não disse pra você dar o fora daqui?
— Eu fiz isso, e depois voltei.
O grupo já havia dado meia-volta e estava correndo na direção contrária.
— Esse não era o plano.
— Bom, agora é. Nós estamos tentando dividir a atenção das forças da Supremacia. A Bucéfalo está sendo perseguida por dois cruzadores. A Estrela Branca provavelmente vai entender o que eu fiz e me perseguir. E é melhor vocês todos estarem a bordo antes que isso aconteça.
— Tudo bem — respondeu Jim. — Estamos voltando para o ancoradouro agora mesmo. Nos vemos lá.
Agora todas as escadas subiam. Egon não reclamou, mas Jim estava com medo de que ele fosse desmaiar. Mas não havia nada a fazer, não havia tempo para recuperar o fôlego nem fazer nada além de correr e rezar para que não fosse tarde demais.
Sarah seguia à frente, imprimindo um ritmo quase impossível para todos os outros, subindo dois degraus por vez. Quando estavam prestes a entrar em outro corredor, ela sinalizou para que ficassem quietos e descessem novamente. Jim concluiu rapidamente que vários soldados estavam prestes a aparecer.
— Escondam-se sob as escadas — sussurrou ele para Valerian e Egon. Eles obedeceram rapidamente. Jim esperou que Sarah se juntasse a eles, quando se deu conta, tarde demais, do plano dela.
Ele ouviu o som da carnificina antes de ver. O som inconfundível de tiros de rifle ricocheteando nas paredes ecoou pelas escadarias. Sarah gritou palavras indistintas, seguidas de um grito humano terrível, que cessou bruscamente. Jim e os outros subiram as escadas correndo com as armas em punho e então estacaram. Nem Jim nem Valerian queriam atingir Sarah, mas ela se movia tão rapidamente que era impossível atirar com segurança. Dois dos soldados — usando armaduras — já tinham caído. Jim não conseguiu ver seus rostos, pois as viseiras estavam sujas de sangue. Outro soldado atirava desesperadamente quando Sarah subiu em seus ombros e alcançou a trava de emergência da armadura. O homem caiu, mas Sarah já estava atacando outro soldado no momento que ele tocou o chão. Ela arremessou o soldado pelas escadarias. Jim chegou a sentir pena deles.
Restava apenas uma soldado. Sarah virou-se, com os punhos fechados, e gritou palavras ininteligíveis. A cabeça da mulher explodiu e a armadura tombou.
Sarah virou-se para encarar Jim. Os tentáculos que lhe serviam de cabelo estavam se movendo, quer seja pela atividade física intensa ou por vontade própria. Jim não sabia nem queria saber. Ele engoliu seco. Valerian e Egon não disseram nada.
— O que vocês estão olhando? — questionou Sarah. — Vamos, precisamos impedir Narud! — Ela partiu correndo.
Jim tentou bloquear seus pensamentos, mas sabia que seu horror e constrangimento diante do massacre não seriam completamente contidos. Sua única esperança era que ela estivesse mais concentrada em defender-se de mais soldados do que em ler sua mente.
— Você acha que conseguiremos pará-lo? — perguntou Egon enquanto eles atravessavam a porta.
— Eu acho que Sarah consegue parar quase qualquer coisa — respondeu Valerian. — E ela saberia se ele já tivesse saído da estação.
Jim estava envergonhado por não ter pensado nisso antes.
O gemido dos alarmes e o som das naves atacando a estação eram só ruído de fundo para ele agora. Seu foco era Sarah, que passava correndo pelas portas e saltava pelos destroços com um equilíbrio assustadoramente gracioso, enquanto o resto do grupo lutava desajeitadamente para avançar.
Eles estavam quase no ancoradouro quando ela parou e gritou:
— Não! Não! Ele está escapando!
Era difícil acreditar que apenas algumas horas atrás Jim, Egon, Sarah e Valerian estavam chegando à base pela ponte móvel com atmosfera própria e atracando na incrível Estação Espacial Prometeu. Parecia ter se passado um século. Todos seguiram Sarah até a porta, onde ela parou repentinamente, virando o rosto para pensar e escutar pensamentos. Todos pararam ao seu lado, recuperando o fôlego. Jim e Valerian prepararam os rifles. Jim concluiu que todos haviam aceitado tacitamente que Sarah seria a líder do grupo.
— Ele ainda está aqui, mas nós vamos precisar lutar — declarou ela. — Estão todos prontos?
Ela olhou para cada um deles. Todos, inclusive Stetmann, assentiram. Sarah virou-se para a porta e pressionou o controle.
A porta abriu-se para o inferno.