StarCraft: Ponto Crítico
Dedicatória
Este livro é dedicado com gratidão a todos que me apoiaram
durante um período bastante difícil.
Vocês são meus Saqueadores.
CAPíTULO UM
2504
“Todos precisamos fazer escolhas.”
Essas seriam as últimas palavras que Tychus Findlay — criminoso, ex-fuzileiro e traidor — escutaria da boca do seu velho amigo James Raynor.
Tychus fizera sua escolha primeiro: trair a confiança e a amizade de Jim tentando assassinar Sarah Kerrigan, que um dia fora a Rainha das Lâminas, mas agora estava estendida, vulnerável e trêmula, numa caverna vermelho-escura do planeta Char.
Jim escolhera impedi-lo.
“Eu fiz um pacto com o demônio, Jimmy.”
Por causa desse pacto, Sarah agora estava ferida, tremendo, mas viva, e Tychus Findlay jazia rígido na armadura que acabara se tornando primeiro uma prisão, e por fim um caixão de metal.
Jim abaixou a arma. A fumaça ainda saía do cano, misturando-se ao vapor que serpenteava e se enroscava em seus pés. A bala endereçada a Arcturus Mengsk, o homem que ele mais odiava, acabara tirando a vida daquele que Jim certa vez dissera ser o seu melhor amigo.
O que foi que eu fiz?
Jim lutou contra a onda de emoções que ameaçava inundá-lo. Não era hora de comemorar o fato de Kerrigan ter sido salva pelo artefato, nem de recriminar sua falta de discernimento em relação a Tychus, nem de prantear o homem gigantesco cuja voz trovejante nunca mais seria ouvida contando piadas ou fazendo ameaças.
Eles tinham que sair daquela caverna lamacenta e infernal, sair de vez daquele planeta — e rápido.
Levando Sarah Kerrigan junto.
Os soldados se aproximaram no momento em que o comandante recolocava a arma no coldre, claramente com a intenção de levar o corpo de Tychus com eles. Jim rosnou laconicamente:
— Deixem ele aí!
— Como, senhor? — perguntou Cam Fraser, confuso. — Mas nunca deixamos ninguém para trás.
— Ele, nós vamos deixar. Não vou arriscar a vida de nenhum de vocês para carregar o corpo de um traidor — grunhiu. Era um bom argumento, mas Jim sabia que não era o único motivo da decisão.
Ele queria deixar Tychus para trás. Findlay tinha feito um trato com Arcturus Mengsk. Ele teria trocado a vida de Kerrigan pela liberdade. Agora Sarah estava viva, e Tychus iria apodrecer dentro da armadura. Havia uma justiça tão brutal nisso que Jim ficou com medo de fraturar a própria consciência pensando demais no assunto. Mas não havia tempo para pensar — e talvez fosse melhor assim.
Eles tinham vindo até a base zerg no planeta Char para fazer o que, sem dúvida, parecera uma loucura: transformar a Rainha das Lâminas em humana novamente. O grupo a encontrara nas profundezas do mundo vulcânico repleto de cinzas. Ela parecia ter perdido completamente as habilidades e a aparência de zerg que adquirira antes. Não se viam mais as asas ossudas nem a pele escamosa que recobria seu corpo. Mas o cabelo ainda estava…
Parecia ter funcionado. E, no momento, “parecia” era mais do que suficiente para Raynor.
— Precisamos de um módulo de transporte, Matt — disse ele pelo comunicador.
Matt Horner, capitão do cruzador de batalha Hipérion, respondeu com incredulidade:
— Fu... funcionou? Aquele troço alienígena que Valerian mandou a gente buscar... funcionou mesmo?
Raynor se ajoelhou e, movendo-se o mais delicadamente que podia dentro do traje metálico gigante, colocou os braços por baixo de Sarah e a levantou. Ela gemeu, e o coração dele pareceu que ia se partir.
— Parece que sim... — disse, sem expressar sua preocupação quanto a Sarah. Sua atenção se voltou novamente para a cabeça dela.
As longas mechas ruivas pelas quais os dedos de Raynor haviam deslizado não passavam de lembrança. Essa parte da Rainha das Lâminas não tinha mudado: em vez de cachos macios, havia algo parecido com um cruzamento horrendo entre tentáculos e patas de insetos em seu crânio. Talvez, como uma cauda que não é mais usada, fosse só um vestígio que ficou depois que o artefato funcionara.
Ou não.
— Eu... não consigo acreditar de jeito nenhum, senhor. — Matt ainda estava atônito.
— Eu disse que precisamos de um módulo de transporte, senão Sarah vai acabar morrendo com todos nós aqui, Matt, depois de termos tido todo esse trabalho para libertá-la — retrucou Raynor. Ele se ergueu. O corpo dela, nu como o de um recém-nascido, mudou de posição com esse movimento, aproximando-se do dele.
Um pensamento fugaz lhe passou pela mente: se ao menos ele pudesse segurá-la de fato nos braços, sem armadura... se ao menos pudesse senti-la junto de si como certa vez sentira, alguns anos antes — uma vida inteira, parecia.
Sarah... eu vou cuidar de você.
— Claro, senhor — disse Matt, despertando do transe. — Os zergs estão enlouquecendo sem Kerri... sem a Rainha das Lâminas para comandá-los. Alguns estão fugindo, mas parece que tem um monte deles fazendo ataques suicidas. Vai ser complicado mandar alguma coisa aí para baixo, mas vamos dar um jeito.
— É isso aí, garoto — respondeu Raynor, e se dirigiu para a entrada, carregando Sarah com cuidado. — Agora, escute: tem um probleminha aqui. Seu módulo vai ter que esperar dois grupos, e não um. Tive que dividir a equipe. O meu grupo foi investigar o que o artefato xel’naga fez com Kerrigan, e Lisle e Haynes ficaram lá para protegê-lo. Quando você descobrir onde vai pousar o módulo, eles vão levar o dispositivo para o local de encontro.
Eles não iriam deixar o artefato para trás de jeito nenhum. A imagem do objeto estava clara na mente de Jim: liso e negro, um pouco maior que um homem, com linhas luminescentes azuis que revelavam os pontos em que as cinco partes se uniam para criar um único e fantástico dispositivo. Estava certo de que, embora pouco soubessem sobre o poder do artefato, ele sempre se lembraria dele, e se sentiria grato pelo que havia feito por Sarah.
— Vou começar a analisar o terreno para escolher o melhor lugar para o pouso, senhor — disse Matt.
— Faça isso. — Jim terminou a conversa e mudou de canal. Eles saíram da caverna...
Eu matei meu melhor amigo e o deixei lá para apodrecer…
… em direção ao brilho vermelho que fazia as vezes de luz solar em Char. Era um mundo feio e imprevisível. A superfície era pedregosa, escura, cheia de cinzas e lava derretida. Dava para sobreviver na atmosfera sem trajes especiais, mas com muita dificuldade. Era o inferno em forma de planeta. Um lugar apropriado para os zergs morarem.
— Jim? — A voz estava fraca, mas era a voz dela. Humana. E ela sabia quem ele era.
— Está tudo bem. Você está comigo. — Foi só isso que ele precisou dizer. Então andou devagar, cuidadosamente, e ao senti-la olhando para ele, Jim a encarou. Jim não pôde oferecer um sorriso reconfortante. Seus sentimentos eram profundos demais. Olhou-a por um instante, depois voltou a atenção para o mundo horrendo à sua volta. As palavras viriam depois. Sua obrigação agora era levá-la para um lugar seguro.
— Aí, rapaziada — disse pelo intercomunicador —, o plano funcionou. Vocês cuidaram daquele treco xel’naga como pedi?
— Sim, senhor! — respondeu a voz de Lisle. — Tivemos que matar um monte deles no início, mas depois eles se afastaram. Foi uma coisa estranha dos diabos… os bichos começaram a atacar uns aos outros.
— Aposto que você não reclamou.
— Não, senhor. Nem um pouquinho!
— Vou informar o ponto de encontro assim que soubermos. — Jim olhou para o céu vermelho. Dava para ver que a batalha continuava acima do planeta: aqui e ali, explosões que pareciam pequenas baforadas de fumaça ao longe. Também se viam pequenas silhuetas das mutaliscas mais perto da superfície. — Nós…
Kerrigan sofreu um espasmo e começou a tossir. Jim soltou um palavrão. Devia ter pensado nisso. Ninguém sabia exatamente o que tinha acontecido com ela. Talvez a transformação em humana a tivesse deixado fraca demais.
— Médico! — gritou ele, colocando Kerrigan no chão e se ajoelhando ao seu lado. Lily Preston veio a passos rápidos em seu traje médico, puxando uma unidade respiratória de dentro da bolsa. Ajoelhou-se também ao lado da moça, cobrindo-lhe o nariz e a boca com o equipamento. Depois, enrolou-a em um cobertor fino, leve como uma pena, mas feito de um material conhecido como isotrama, que manteria a temperatura corporal da paciente em 37 graus. Sarah soltou uns gemidos baixos enquanto a erguiam e a colocavam sob o cobertor, como se fosse uma boneca. A tosse e os espasmos pararam.
Preston olhou para Jim.
— Não sabemos mais o que ela é, Jim. Estou tratando dela como se fosse humana, mas…
— Mas ela é humana, cacete! — insistiu Jim, embora ele próprio sentisse um medo terrível de que não fosse verdade. — Ela está tendo dificuldades de respirar o ar daqui, assim como nós. E a temperatura do corpo…
O terreno em que estavam ajoelhados se inclinou de súbito, como um animal selvagem se levantando, e ouviu-se um som estrondoso que parecia não terminar. Vários Saqueadores foram atirados ao chão. Jim segurou Sarah com firmeza, tentando equilibrá-la. Pelo canto do olho, vislumbrou um enorme clarão vermelho e se virou para ver o que tinha ocorrido.
Um gigantesco pedaço do que antes fora um cruzador de batalha virara um monte de destroços fumegantes, queimando tristemente na cratera criada pelo impacto. Um enxame de coisas saídas de um pesadelo avançava sobre ele. Eram zergnídeos, as menores crias daquele inferno de zergs. As hidraliscas eram uma mistura de insetos com braços de foice, corpo de cobra, dentes infinitos e espinhos que podiam penetrar novoaço e eram disparados das suas costas. Já as mutaliscas eram monstros que tinham a habilidade de voar na atmosfera e no espaço, além de ter sangue ácido e parasitas chamados pestes morféticas. O que os zergnídeos não tinham em tamanho e poderes especiais para atacar, compensavam em número. Um aglomerado de dentes, garras e carapaças, eles lançavam-se sobre os destroços, atraídos como insetos pelo brilho e calor, e davam urros horrendos quando seus corpos eram calcinados. Jim ergueu os olhos e gritou:
— Preparar para impacto!
O resto do cruzador chovia em pedaços flamejantes, alguns deles pequenos como um capacete, outros do tamanho de uma casa, batendo na superfície de Char como punhos blindados em um rosto desprotegido.
Apesar do aviso de Jim e da estabilidade proporcionada pelos trajes, o chão tremeu tão violentamente que vários caíram. Jim abraçou Sarah com força, balançando de um lado para o outro e tentando se equilibrar.
Muitos dos zergnídeos restantes subitamente silenciaram, mas outros continuaram a se arrastar e guinchar. A qualquer momento, aqueles bichos abomináveis com certeza iriam para cima de Jim e sua equipe. Não porque estavam levando embora a Rainha das Lâminas dos zergs, que antes os controlava totalmente, mas simplesmente porque os terranos estavam se mexendo e, portanto, eram presas.
Neste instante, veio à mente de Jim a imagem que o perseguira por quatro anos: a perturbadora e fragmentada fantasia de como haviam sido os últimos momentos de Sarah como humana.
Ele ouviu seu pedido de ajuda e as vergonhosas palavras de Arcturus: “Ignore a ordem. Estamos indo embora.” Arcturus Mengsk — aquele que usava as pessoas até esgotá-las e depois as descartava quando não serviam mais ou se tornavam perigosas. Jim ouviu seus próprios gritos: “O quê? Você não vai simplesmente abandonar eles aí.” Era apenas a incredulidade falando. Jim ainda achava que tinha entendido errado, que Arcturus não ia realmente fazer o que parecia estar fazendo.
Mas o desgraçado cruel pretendia fazer exatamente aquilo. Sarah voltou a falar, desta vez com um ligeiro tom de preocupação na voz, que normalmente era tão calma: “Hã, gente…? Onde está o resgate?”
“Maldito seja, Arcturus, não faça isso!”
Você é um maldito mesmo. Você…
“Comandante…?”
Uma pausa.
“… Jim? O que diabos está acontecendo aí em cima?”
Então, nada. Jim imaginava a moça olhando para todos os lados, vendo as criaturas terríveis que grasnavam e guinchavam de contentamento. E depois? A Rainha das Lâminas nascera: parte humana psiônica, porém muito mais monstruosidade zerg.
Jim se torturara imaginando como ela tinha enfrentado o que teria sido a sua morte: teria ela atirado até acabar a munição e depois ido para cima deles? Teria ficado parada e deixado que a pegassem? Teria tentado se matar antes?
Eu pensei que tivessem matado você. E teve momentos — muitos momentos — em que eu desejei que tivessem mesmo.
Agora, apesar de tudo o que você fez, apesar das tantas mortes… estou muito feliz por você estar viva.
Jim ouviu o som de disparos ao longe e, logo em seguida, os inevitáveis guinchos agudos dos zergs. Ergueu-se e puxou a arma, dando um passo à frente de modo a proteger Sarah. Só chegariam até ela por cima do cadáver dele — literalmente. Mas reservaria um último e precioso segundo para matá-la antes que o pegassem. Sarah Kerrigan jamais voltaria a ser cria deles.
Aquele não era um dia bom para morrer. Não agora que a vida lhe dera uma chance de recomeçar depois de se chocar contra uma muralha de desesperança quatro anos antes.
Fraser olhou de relance para ele e depois desviou o olhar, adotando a postura de defesa.
— Estou até com pena dos zergs que forem para cima de você, Jim.
— Eu também.
Jim olhou para o alto, aliviado ao ver que, pelo menos por enquanto, as mutaliscas estavam ocupadas nos céus atacando as naves da Supremacia, mais bem preparadas para rechaçá-las. Sua preocupação maior era a nuvem de poeira cinzenta levantada pela chegada do inimigo. Jim conseguia entrever as formas das monstruosidades cheias de bocas e membros afiados coleando sinuosamente, seus corpos afilando-se em caudas como as de serpentes. Contou quatro hidraliscas. Semiocultas pela poeira opaca, ele viu silhuetas que deviam ser zergnídeos avançando como uma matilha de cães raivosos, só que muito mais letais e aterrorizantes.
Jim mirou na nuvem que se aproximava e ordenou:
— Atirem quando eu mandar!
Seus soldados eram bons. Jim sentiu o suor escorrer no olho e piscou para limpar a vista, ignorando o ardor. Esperou até o instante perfeito, tarde o bastante para o ataque ter o máximo de eficácia, mas não tão demorado que os inimigos os alcançassem. Ele quase lamentou estar tão acostumado a matar zergs que já agia por instinto.
E eles vinham, ansiosos por sangue e morte, ensandecidos pela falta de comando depois de perderem sua rainha.
Jim esperou.
— Atirem! — gritou por fim.
Os alegres gritos de triunfo e sede de matar logo deram lugar a lamúrias estridentes quando os zergs foram reduzidos a pedaços ensanguentados. Pedaços daqueles horrores insetoides voaram pelos ares. Um fragmento de carapaça bateu no capacete de Jim e caiu ao seu lado. Mas ele não diminuiu o ritmo. Continuou atirando, movimentando a arma de um lado para o outro com firmeza, destroçando os zergs que se aproximavam. Nunca vira nenhum sinal de pensamento autônomo nas ações deles, mas muitas vezes percebera inteligência. A inteligência de Kerrigan, controlando-os e manobrando-os. Agora, via apenas o caos e a insanidade brilhando em seus olhos miúdos e uma agitação frenética em seus movimentos.
Jim estourou a cabeça do último deles. A fera caiu a poucos metros, vomitando sangue e gosma, então contorceu-se e ficou imóvel.
Imediatamente ele se ajoelhou junto a Sarah. Ela estava deitada em posição fetal, agarrando o cobertor que a envolvia. Estranhamente, o gesto reconfortou Jim. Era muito… humano.
— Matt, cadê o módulo de transporte? — bradou Raynor pelo intercomunicador.
— Acabou de sair, senhor. — A voz de Matt estava esganiçada de tanta ansiedade. A julgar pelo que restava do cruzador de batalha que ainda queimava ali perto, dava para Jim ter uma boa noção do que Matt estava enfrentando lá em cima. Mas não havia tempo para ser compreensivo. Tinham que levar Sarah a bordo e dar o fora daquele buraco dos infernos.
— Diga a eles que vou dobrar o salário se chegarem aqui em cinco minutos.
— Senhor, faz semanas que você não paga o salário deles.
— Bom, se eu estiver morto quando chegarem aqui, ninguém vai ser pago nunca, não é mesmo?
A risada discreta de Matt foi animadora.
— É bem verdade, senhor. Vou passar o recado para eles, mas não posso dizer a hora exata em que vão chegar. As coordenadas do ponto de encontro são oito quatro sete ponto oito.
— Muito bem. Não estamos longe desse platô.
— Senhor — disse Fraser —, os sensores indicam que está fervendo de zergs lá.
— Lógico que está — retrucou Jim. — Assim como esse maldito planeta inteiro. Temos que ficar lá e rechaçá-los até o módulo chegar.
Jim ergueu Kerrigan nos braços. Ela abriu os olhos. Tinham o tom normal de verde e não estavam mais luminosos e assustadores como antes. Sarah deu um pequeno sorriso, curvando um pouco os lábios pálidos de sua boca, que Jim sempre achara um tanto grande demais. Sua mão se ergueu e tocou o peito dele, depois caiu desfalecida; a cabeça pendeu e os olhos se fecharam. Seu corpo ficara esgotado com aquele simples esforço.
Ele iria rechaçá-los, sim. Iria rechaçá-los para sempre.
Jim avisou a Lisle e Haynes onde o módulo de transporte iria aterrissar, mas só podia torcer para que os dois soldados conseguissem repelir os zergs sozinhos. O platô onde o resgate chegaria ficava à frente, só mais alguns quilômetros, mas ainda assim parecia meio mundo de distância. Enquanto corriam num ritmo constante, sendo carregados com facilidade pelas armaduras, Jim ouviu um som baixo bem distante. E lembrou-se, sem motivo aparente, dos verões quentes de sua infância em Shiloh, do crepúsculo chegando lentamente ao som da canção monótona dos insetos.
No entanto, o som o deixou alerta. Agora conseguia ver as criaturas, avançando para cima dele e de sua equipe. Descontroladas, estavam agindo como as feras que eram, farejando uma presa e encurralando-a. Jim percebeu uma leve pitada de humor negro ao constatar que Lisle e Haynes provavelmente estariam mais seguros do que ele desta vez. Sem Kerrigan no controle, era provável que os zergs tivessem menos interesse nos dois humanos que levavam o artefato do que nos outros quatro de mãos vazias, simplesmente porque o grupo de Jim representava uma quantidade maior de comida.
— Alto!
Com um clangor, os soldados pararam, ergueram os rifles, e esperaram para atacar quando Jim ordenasse. Ele conseguia distinguir três grupos. Não havia organização, não estavam agrupados por quantidade nem por espécie, não estavam tentando flanqueá-los... não havia estratégia. Havia apenas fome.
Esperem…
— Fogo!
Os Saqueadores massacraram os zergs impiedosamente. Alguns dos bichos estacaram de imediato, avançando para os companheiros mortos com a mesma avidez com que teriam devorado os Saqueadores de Raynor. Os outros continuaram atirando enquanto Jim segurava Sarah, derrubando mais e mais criaturas até não sobrar mais nenhum agressor, somente um banquete e os que se banqueteavam. Ele fez um gesto para os soldados contornarem a festança. Os Saqueadores passaram ao largo de um grupo de zergnídeos que estava canibalizando hidraliscas. Ao se afastar da cena grotesca, ele se perguntou de súbito se os zergs iriam achar e devorar o corpo do homem que um dia considerara seu “amigo”, se romperiam a casca metálica da armadura de Findlay para obter o que estava dentro…
Tentou varrer aquela imagem da mente e forçou seu coração a ficar indiferente. Tychus estava morto. Não precisava ser assim. Ele ainda poderia estar vivo, ainda poderia ser amigo de Jim, se não tivesse optado por fazer o tal “pacto com o diabo”. Se, pelo menos, não tivesse querido matar a mulher que Jim amava. Mas Tychus fez sua escolha e devia saber qual seria a reação de Jim. Ele conhecia Jim melhor do que ninguém.
Droga, Tychus. Teve uma época em que eu teria feito qualquer coisa por você. Em que eu achava que você faria qualquer coisa por mim. Uma época em que você abriu mão de tudo por mim.
Um zergnídeo estava vindo em sua direção, com saliva pingando da mandíbula. Sem uma matilha, aquilo era suicídio. Mas o bicho não sabia disso, sabia apenas que estava faminto. Jim acomodou Kerrigan e voltou as costas para a criatura, protegendo a moça com seu próprio corpo. Então apontou o rifle e disparou um projétil bem no meio dos olhos luminosos da criatura. Ela ainda deu um ou dois passos, como se demorasse alguns segundos para entender que seu cérebro tinha sido transpassado, depois desabou. Fraser mirou em um segundo, mas foi desnecessário. O zergnídeo parou e começou a comer partes do companheiro.
— Atrás de você! — gritou Jim.
Fraser girou e derrubou mais dois. Os outros zergnídeos grasnavam animados diante do banquete que Jim e seus Saqueadores tinham posto à frente deles. Jim sequer franziu o rosto de nojo. Simplesmente segurou Kerrigan e voltou a correr direto para o ponto de encontro.
Seria hipocrisia condenar os zergs por se voltarem uns contra os outros. Pelo menos tinham uma desculpa. Antes, eram completamente dominados pela Supermente e, depois, pela Rainha das Lâminas, mas agora não passavam de feras estúpidas. Que desculpa os humanos tinham para fazer a mesma coisa?
Mengsk virara as costas para Kerrigan sem pestanejar, abandonando-a a um destino que, ele esperava, seria terrível e brutal. Tychus pelo menos pareceu lamentar por um instante aquilo que via como uma necessidade: “É mesmo uma pena”, murmurara.
Antes de tentar apertar o gatilho.
Antes de escolher executar uma mulher indefesa e traumatizada na frente do homem que a amava.
Que ele fosse para o inferno.
Já estava virando uma rotina implacável: um, dois ou vinte zergs apareciam do nada. Jim dava ordens. Os Saqueadores atiravam, e os zergs caíam, às vezes rápido, às vezes não. E quando havia certa quantidade morta, como se houvesse um número exato que os Saqueadores desconheciam, os zergs paravam de caçar os humanos e começavam a devorar seus semelhantes.
Ele se perguntou se os soldados ressentiam-se do fato de que seu líder, que escolhera colocar suas vidas em risco, estava parado segurando Sarah Kerrigan, a antiga Rainha das Lâminas, a responsável pela morte de tantos, enquanto eles lutavam para proteger todos. Jim se deu conta, com uma sensação ruim, de que não importava o quanto você achava que conhecia uma pessoa: você não a conhecia de fato. Não tinha como. Somente os protoss podiam conhecer alguém completamente, conectando suas mentes e essências no grande espaço de conexão psíquica que chamavam de Khala. E até mesmo alguns de sua própria raça, os templários das trevas, haviam escolhido não se revelar em demasia.
Estou voando às cegas, pensou Jim enquanto corria, tentando avançar o máximo possível sem sacudir Sarah demais. Todos nós. Todo homem, toda mulher. Estamos todos voando às cegas e, na verdade, nunca sabemos de merda nenhuma sobre corações e mentes que não sejam os nossos.
— Senhor! — gritou Fraser. — Veja!
Mortificado, Jim se deu conta de que estivera tão perdido em pensamentos que não tinha visto o pontinho no céu, crescendo mais e mais. Suas formas foram ficando mais definidas, até que ele pôde identificar, com alegria, a silhueta do módulo de transporte Esplendor. Era a coisa mais bela que já tinha visto… à exceção do olhar que Sarah lhe dirigira enquanto a carregava.
Mas, no momento em que os soldados fatigados soltavam gritos de felicidade, outro som pôde ser ouvido: uma espécie de zumbido. Jim praguejou. A Esplendor, como todo módulo de transporte, não tinha armas e não poderia aterrissar para o resgate enquanto a equipe de Jim não liberasse a área.
— Atirem à vontade! — ordenou Jim. — Não vou deixar uns zergzinhos de merda nos atrapalharem!
Os soldados assentiram e começaram a atirar nas criaturas com ainda mais intensidade do que antes. Pedaços de zergs voavam para todo lado, e desta vez os Saqueadores não pouparam nem os que paravam para comer. Jim e os soldados continuaram avançando passo a passo, com dificuldade, patinando em sangue e gosma. E finalmente, graças aos céus, a Esplendor pousou no terreno rochoso, mas praticamente plano.
A rampa desceu e o piloto, Wil Merrick, gesticulou furioso.
— Depressa! Tem um caminhão deles vindo para cá!
— Algum sinal da outra equipe?
— Nada — disse Merrick. Então seus olhos bateram na figura envolta no cobertor. — Isso aí é ela?
— Sim.
— Está em choque — completou Preston. Ela tomou o precioso fardo de Jim, erguendo Sarah com facilidade, graças ao traje médico. Jim não queria soltá-la, mas ela precisava mais das habilidades dos médicos do que das dele. Entregou-a a Preston, sentindo um súbito desamparo no coração, e observou a médica levá-la para dentro. Kerrigan foi colocada confortavelmente em um assento e logo recebeu um soro intravenoso e (assim pareceu a Jim) mais uns seis mil tubos e monitores portáteis. Algumas palavras, numa súplica mansa, saíram da boca de Jim involuntariamente:
— Peguem leve com ela.
Não deixou de perceber a ironia: pedir que fossem gentis com alguém que assassinara bilhões era um pedido e tanto. Mas Preston entendeu, acenando tacitamente enquanto procurava salvar a vida de Kerrigan. Sarah não deu nenhum sinal de estar minimamente consciente do que se passava.
Aguente firme, Sarah. Você é forte, vai sobreviver. Não permita que seja tarde demais. Não depois disso tudo…
— Caramba, senhor, temos que andar logo! — gritou o piloto. — Tem mais um monte de zergs vindo.
— De que tipo?
— Tivemos de escapar de uma porrada de mutaliscas só para chegar aqui, senhor — respondeu Merrick. — Quando entramos na atmosfera, elas saíram perseguindo outra nave, mas os sensores indicam que tem um exército de zergnídeos e hidraliscas querendo terminar o serviço.
Jim olhou Sarah de relance. Queria desesperadamente tirá-la dali, afastá-la do perigo, levá-la para a segurança da enfermaria da Hipérion, mas não podia abandonar os homens que arriscaram tudo para salvá-la.
— Não vamos deixar os zergs fazerem picadinho dos meus soldados, nem destruírem o artefato! — retrucou Jim. — Tentem manter Sarah o mais estável possível. É obrigatório que ela sobreviva. Se eu der ordem para você ir embora e me deixar para trás, você vai, entendeu?
— Perfeitamente, senhor.
Jim dirigiu o olhar para Sarah novamente. Sua pele tinha um tom estranho por conta da iluminação artificial. Depois, ele saltou para fora do módulo. As portas se fecharam.
Os Saqueadores se juntaram a Jim e lhe deram um rifle gauss. Embora tivesse saboreado cada instante em que teve Sarah nos braços novamente, ele estava muito feliz por poder pegar um rifle e assumir um papel ativo na luta mais uma vez.
Já dava para ouvir os zergs se aproximando e a terra tremendo sob a força do ataque. Com um sorrisinho, Raynor ergueu o rifle, apontou-o para a nuvem de poeira cinza que se aproximava e começou a atirar.